GUIA DO GAUCHÃO 2012: E.C. São Luiz de Ijuí

“A bola veio, desviou, saiu do alcance do goleiro, e aí havia o gol aberto e um atacante matador que se atirou e cabeceou para as redes. Daqui a cinquenta anos, provavelmente vai ser de uma forma mais elaborada que eu contarei, mas por enquanto o lance está bem vívido na memória de quem foi ao estádio e é essa a descrição. Daqui a cinquenta anos eu direi que ele cabeceou arriscando a cara contra uma chuteira de travas de metal, que caía um temporal sob o qual mal se via a bola embarrada e, dos coadjuvantes, direi que o goleiro definitivamente não estava batido. Daqui a cinquenta anos acreditarão em qualquer mentira que eu contar para aumentar a dramaticidade da jogada se eu disser a única verdade da história, que eu estava fotografando atrás da goleira do Cerro Largo e fui o sujeito mais próximo do primeiro gol de Sandro Sotilli – o homem de mais de cem gols em Gauchões – com a camisa do São Luiz.” 

O trecho acima é uma cópia descarada do primeiro parágrafo da minha própria coluna no Jornal da Manhã de Ijuí no último 23 de dezembro, e reproduzo ele aqui não por preguiça para começar a desenvolver um comentário sobre como o São Luiz se prepara para o Gauchão – é justamente o contrário. Ele dá um instantâneo sobre a mobilização em torno da equipe desde o início da pré-temporada. Em nenhuma vez desde os anos noventa qualquer time havia conquistado a torcida tão rapidamente em Ijuí, a ponto de os torcedores se identificarem com o elenco e criarem projetos de ídolos antes mesmo de o campeonato começar. Como bom pessimista que sou, eu diria que isso não vai terminar bem – e para as coisas acabarem mal no curto Gauchão bastam três jogos ruins em sequência –, mas é fato que a direção do São Luiz montou uma equipe que, no papel, é a mais competitiva desde a volta à primeira divisão, em 2006.

Embora eu sempre pense que o objetivo primordial deve ser garantir a sobrevivência e não cair, a direção felizmente tem pessoas mais ousadas e, como nos últimos anos, traçou a meta de superar a primeira fase nos dois turnos – em uma posição que garanta a chance de jogar em casa, pois a experiência deficitária das últimas classificações provou que passar de fase pode até ser maléfico, se você tiver o azar de se deparar com um adversário de pouca torcida e incapaz de gerar uma renda aceitável. No ano passado, para enfrentar o Cruzeiro em Porto Alegre nas quartas-de-final do returno, diante de um público ínfimo, o São Luiz teve prejuízo de cerca de cem mil reais, entre prorrogações de contratos, prêmios, viagem e hospedagem para disputar a solitária partida que não serviu de nada, pois o time foi eliminado de imediato com um 2 a 0.

Em 2012, entre os destaques da equipe (destaques ANÍMICOS, que justificam a exaltação do torcedor), estão a presença de dois atacantes legendários do interior gaúcho – além do supra-citado Sotilli, também voltou ao clube Sharlei, goleador dos ijuienses há um ano. Costumo dizer que, se ADÃO também estivesse no 19 de Outubro, completaríamos a SANTÍSSIMA TRINDADE dos interiores e o São Luiz faria mais gols que todos os outros clubes do estado somados. Na realidade, porém, Sharlei e Sotilli não devem atuar juntos por muitos minutos – são dois noves, afinal, e o matador das melenas louras já carece de fôlego para aguentar uma partida inteira. Apesar da condição de reserva, Sandro Sotilli tem chamado a atenção pela liderança natural dentro do grupo, aceitando a responsabilidade de ser o nome mais aclamado pelas arquibancadas mesmo que esteja apenas fazendo uns POLICHINELOS atrás do gol.

Além de Sharlei, outros titulares com passagem pelo clube em temporadas passadas aparecem novamente, como o goleiro Vanderlei, o lateral Xaro e o zagueiro Neguette. O fato de o time contar com estrangeiros pela primeira vez neste século contribui para aumentar o folclore. O uruguaio Alejandro é uma peça importante na parte MEDIANA do campo, enquanto o alternativíssimo zagueiro William Barbosa, natural do arquipélago africano de SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE, ganhou aceitação instantânea da torcida com um futebol ideal para sua posição – chutões no tempo correto e carrinhos quando necessário. William apresentou-se dizendo que sua doutrina básica era “ou passa o atacante, ou passa a bola – nunca os dois”, mas após o início fulminante andou perdendo espaço entre os onze principais.

Seja como for, o São Luiz fez uma pré-temporada relativamente sólida. Três derrotas, sim, mas todas magras e em jogos cujas atuações foram equilibradas, no final das contas. Na ordem, os jogos foram: em dezembro, 5-0 sobre o Cerro Largo (URU), 4-1 sobre o Ypiranga de Erechim em Ijuí, 2-3 em casa diante da Chapecoense-SC; em janeiro, 2-3 frente ao Ypiranga na revanche fora de casa, 8-0 diante do Sindicato dos Atletas Profissionais do RS (com hat-trick de Sotilli) e, por fim, derrota por 0-1 para o Avaí-SC em Bento Gonçalves.

O elenco, salvo alguma demissão inesperada, é o seguinte:

Goleiros

Vanderlei (Brasil-Pel)
Altieri (Avenida)
Célio Rocha (Bahia)

Laterais

Xaro (Pelotas)
Danilo Bahia (Paulista-SP)
Tatto (Juventus de Santa Rosa)

Zagueiros

Neguette (Chapecoense-SC)
Da Silva (Vera Cruz-PE)
Thiago Costa (Atlético Penapolense-SP)
William Barbosa (Santa Quitéria-MA)
Marcelo Mineiro

Meias/Volantes

Alejandro (Santa Cruz-RS)
Cássio (Chapecoense-SC)
Baiano (Avenida)
Kim (Brasil-Pel)
Márcio Oldra (Juventus de Santa Rosa)
Thiago Corrêa (Santa Cruz-RS)
Willian Santos

Atacantes

Adriano Paulista
Araújo (Rio Branco-AC)
Douglas (São José de Porto Alegre)
Sandro Sotilli (Passo Fundo)
Sharlei (Luverdense-MT)

Técnico: Gélson Conte

Por Maurício Brum
@mauribrum

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0 Respostas a GUIA DO GAUCHÃO 2012: E.C. São Luiz de Ijuí

  1. daroit diz:

    william barbosa é, de longe, o ser humano mais digno de levantar essa taça

  2. tiagozilliiago diz:

    Excelente texto. E se ADÃO SELEÇÃO estivesse no São Luiz, eu torceria pro time de ijui também.

    “Seja como for, o São Luiz fez uma pré-temporada relativamente sólida. Três derrotas, sim, …”

    Desculpa, eu ri nessa parte.
    De qualquer maneira, mais um clube mais bem preparado que o Caxias nesse gauchão. Medo.

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