A vitória impossível do São Luiz (Grêmio 1×0 São Luiz – Estádio Olímpico)

Sou um sujeito de poucas aspirações no futebol. Não tenho dúvidas de que o fato de ser gremista e ter vivido intensamente os anos dois mil contribuiu de maneira decisiva para a falta de ambição, mas, seja como for, eu me dou por realizado se o meu São Luiz puder ficar até o fim dos tempos na primeira divisão do Campeonato Gaúcho. Cada experiência em relação a um time do interior é distinta. Creio que, nas cidades onde há mais de um clube e possibilidade de brigar por algo grande, o relato pessoal teria vários pontos divergentes do meu. Então não vou dizer que posso falar em nome dos torcedores do interior. Talvez não seja capaz nem de falar em nome dos torcedores do São Luiz. Falo por mim. E minha história como torcedor do São Luiz é a de alguém cuja relação não oscila com o momento ou as perspectivas do campeonato. Há quase uma década, não temos rivais regionais para rirem de nós ou nos impelirem a algo. Resta-nos fazer a nossa parte. Fazer a nossa parte implica em jogar com honra. Para mim, é ainda menos: fazer a nossa parte é não cair. Isso faz com que cada jogo seja vivido na sua plenitude. Cada jogo é o próprio campeonato. Cada vitória é um título.

E os jogos contra a dupla Grenal são Copas do Mundo.

Desejo ardentemente as agruras mais vis para aqueles que pregam o fim dos estaduais, pois ter o Gauchão me permite, algumas poucas vezes por ano, pisar no Estádio 19 de Outubro, comer amendoins torrados ainda sujos de terra vermelha, reclamar que o time está vestindo a camisa branca (no meu tempo era rubra), conferir se a embalagem de refrigerante que escondi num dos tijolos da cancha em 1995 continua lá (continua; e enquanto continuar aquele estádio será meu) e, eventualmente, ir a um bar ver meu time na tevê, o que é um grande acontecimento. Fiz isso na noite desta quinta-feira, quando o São Luiz enfrentou o Grêmio em Porto Alegre e eu não estava nem lá nem em Ijuí. É estranho o sentimento de solidão em que nos submergimos quando estamos sem ninguém mais em uma mesa, com a certeza de que todos ao redor torcem para o Grêmio ou para o Inter, mas não para o São Luiz, e nenhum deles dá tanta atenção ao jogo quanto eu. Sinto-me em um universo particular.

Na mesa atrás de mim, um grupo de jovens discutia se o sertanejo universitário era melhor que a música eletrônica para dançar na noite. Ao meu lado, um sujeito qualquer se divertia com algum jogo de celular. Noutra ponta, um barbudo já embriagado gastava suas trovas em uma moça que não parecia interessada em ouvi-lo. Eu olhava para a tevê. Preocupado. O São Luiz tem me preocupado muito. Depois da estreia promissora derrotando o Pelotas, não fizemos mais gols nem vencemos. Em todos os jogos, tivemos atuações elogiadas – no empate contra o Cruzeiro acertamos uma bola na trave e, na derrota contra o Caxias, outras duas –, mas de nada adianta uma boa atuação se os pontos não fazem jus a ela. Como eu suspeitava, estamos brigando para não cair. E o único lado bom de brigar para não cair é que temos alguma disputa ferrenha com que nos preocuparmos no campeonato. Mesmo que estivéssemos brigando para passar de fase, algo que ainda pode acontecer, seria uma luta menos valorosa, pois renderia apenas um ou dois jogos felizes ali adiante.

Confesso que, quando estamos tranquilos na parte alta da tabela, não sei bem como me comportar. Lutar para não cair dá e moção à coisa, nos coloca num território que conhecemos bem – em 2006 o São Luiz se salvou da queda pela MÃO DE DEUS (?), graças à Copa Emídio Perondi, depois de ter feito a pior campanha geral do Gauchão, e em 2007 não caímos pelo saldo de gols –, e torna cada ponto ainda mais valioso do que o normal. Quando Grêmio e Inter começam um campeonato de forma tão desinteressada quanto este, já sei que significa que alguns candidatos à queda somarão pontos que não deveriam ter – a exemplo do Avenida – e nós, provavelmente, não estaremos entre os times que conseguem esses pontos extras. Os anos sem vitória do São Luiz contra a dupla Grenal vêm mais ou menos desde a época em que eu escondi a embalagem de refrigerante nos tijolos. Nesse meio-tempo, tivemos as coisas mais improváveis acontecendo, saímos vencendo, pegamos pênaltis, iniciamos viradas, jogamos em CIDREIRA e em 2007 até houve uma derrota antológica por 5 a 4 para o Grêmio, mas nunca somamos os três pontos.

Empatar é o limite. Ainda mais nas condições que se nos impunham ontem, com inúmeros desfalques no meio e no ataque e a certeza de que seríamos incapazes de fazer um gol se fosse necessário. Por isso eu estava totalmente satisfeito com a modorra inicial do Grêmio e São Luiz, aquela magnífica meia hora que abriu a partida sem que qualquer time parecesse muito disposto a criar boas chances e em que o tricolor demonstrou em cores muito vivas a enormidade de quilômetros que o separam do bom futebol. Aí o Jean Pierre, que já vinha invertendo faltas e havia deixado de meter um
cartão no Marcelo Moreno por um carrinho absolutamente sanguinário no fundo do campo, enxergou pênalti numa falta a dois metros da área. Nessa hora eu comia a última batata frita do meu prato e já contava o dinheiro para pagar a conta, mas mantinha o canto do olho direcionado para a tevê, naquela de “vai que…”. Foi que o Vanderlei pegou. Mas o pênalti acordou o Grêmio. Acordou até os gremistas ao meu redor, todos muito envergonhados com a maleza daquele time. A abertura do placar era questão de tempo e fui embora do bar assim que o Kléber fez o gol que acabaria sendo o da vitória.

Nada mais podia ser revertido.

Minha vida no futebol é o longo lamento de ver meu time perder até quando meu time vence.

Mas ainda estamos fora do rebaixamento.

Dando manotaços missioneiros,
Maurício Brum

Publicado em Gauchão 2012, São Luiz com as tags , , . ligação permanente.

3 Respostas a A vitória impossível do São Luiz (Grêmio 1×0 São Luiz – Estádio Olímpico)

  1. A última vitória do São Luiz sobre o Grêmio foi em 1995, 2 a 1, pelo Gauchão. Porém, respeito sempre o time de Ijuí:o primeiro Grêmio x São Luiz que vi na vida foi em 1991, pela COPA GOVERNADOR, e deu 1 a 0 São Luiz, em pleno Olímpico, eliminando o Grêmio da competição. Foi um dos meus primeiros jogos como torcedor, 8 anos de idade. Até hoje acho o Criciúma um timaço por causa disso, por exemplo.

  2. “Minha vida no futebol é o longo lamento de ver meu time perder até quando meu time vence.”

    Espetáculo!

  3. beretta diz:

    Maurício Brum é um mito da literatura. Genial.

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