Eu não fui o número 188 (São Luiz 2×1 Cerâmica – Estádio 19 de Outubro)

Tenho uma queda por estatísticas. Não aquele tipo de estatística PVCiana, de saber quantos fios de cabelo tinha o Paulo Gaúcho quando foi campeão da Segundona pelo São Luiz em 1990, e quantos ele havia perdido até retornar ao clube, em 2004, com quarenta e um anos nas costas (sobre Paulo Gaúcho, meu maior ídolo no futebol, eu poderia escrever um livro, mas fica para outra oportunidade). O meu tipo de estatística é mais pessoal. Gosto de botar num papel e registrar as coisas futebolísticas que acontecem comigo. Os gols que faço, por exemplo. Só não os listo mais porque de uns tempos para cá – mais ou menos desde o meu nascimento para cá – eles se tornaram tão raros que posso recordar de cada um deles sem precisar registrá-los. Então decidi listar os jogos de futebol que vi em um estádio ao longo dos últimos oito anos. Diga-me uma data qualquer entre 2004 e 2012 e eu te direi se estava em uma cancha de futebol, quem jogava nela e qual foi o placar daquele dia.

Por isso eu sei que desde então vi cento e oitenta e sete partidas no estádio, que nesse meio tempo pude presenciar cento e dezessete clubes diferentes desfilarem à minha frente e sei que, entre eles, vinte e dois eram da França, cinco eram de Andorra (nenhum sentido) e quase metade, cinquenta e seis, eram gaúchos. Posso dizer que em 12 de abril de 2009 eu estava no Miguel Waihrich Filho vendo o Milan de Júlio de Castilhos bater o Atlético de Carazinho (2×0), ou que em 25 de outubro daquele mesmo ano estive dentro do gramado do Estádio dos Pinheirais, vendo como o Gramadense derrotava o Ivoti (3×2) na decisão do Gauchão de Amadores – em uma final cheia de profissionais. Nesses anos vi um bocado de clubes hoje fechados, como o Flamengo de Horizontina, o Ipiranga de Sarandi ou o Nacional de Cruz Alta, mas nenhuma dessas cinquenta e seis equipes foi o Cerâmica de Gravataí. No meu ÁLBUM DE FIGURINHAS pessoal, o Cerâmica é uma daquelas que, por um motivo ou outro, vem me escapando. Eu poderia ter visto o Cerâmica ontem, mas acabei não indo para Ijuí.

Céus, como eu gostaria de ter visto o Cerâmica ontem.

Se eu tivesse visto o Cerâmica ontem, eu estaria no 19 de Outubro completamente desesperado com a ineficácia ofensiva do São Luiz. Segundo o scout do MEU PAI, que estava na cancha, só no primeiro tempo foram em torno de QUINZE escanteios para os ijuienses, um somatório acachapante de chances miseravelmente perdidas num ou noutro chute desviado, contra apenas duas finalizações da equipe de Gravataí. Mas, enquanto nós parecíamos mirar a lua, eles foram lá e acertaram a trave.

Se eu tivesse visto o Cerâmica ontem, eu poderia ter ameaçado largar tudo, xingado os deuses e o mundo, quando eles saíram vencendo com um gol no início do segundo tempo e o São Luiz parecia claramente apertando as mãos do destino e aceitando um daqueles rebaixamentos óbvios, que ocorrem quando um time joga bem com alguma frequência e perde sempre, pois o universo inteiro parece conspirar contra. Aí estavam, para provar, as bolas na trave contra o Cruzeiro, contra o Caxias, o pênalti não dado quando ainda era possível fazer algo diante do Novo Hamburgo e as incontáveis chances diante do Cerâmica.

Se eu tivesse visto o Cerâmica ontem, eu teria descido do meu pomposo lugar de sócio nas cadeiras cativas e me recostado no alambrado, perfilando uma série de torcedores que desejariam o mesmo que eu: a cabeça do técnico Gelson Conte e o fim das suas escolhas carentes de sentido que alguns vinham atribuindo à BRUXARIA.

Douglas, por exemplo.

Não havia muita razão em insistir em Douglas, que não tinha uma atuação LÚCIDA há semanas.

E o Douglas, ontem, foi colocado em campo outra vez por Gelson Conte.

Se eu tivesse visto o Cerâmica ontem, teria comentado com alguém ao meu lado, ao invés de tuitar (como fiz), que ao acertar a bola na trave adversária, o Sharlei não apenas dava sequência aos azares sem fim do São Luiz, como também coroava o 478º minuto seguido do time sem marcar gols (estatísticas, estatísticas). Nenhum gol desde o segundo contra o Pelotas, aos cinco minutos do segundo tempo da primeira rodada, na nossa até aqui solitária vitória.

No minuto seguinte, eu teria visto meu pessimismo ruir, quando o São Luiz empatou. E seis minutos mais tarde eu estaria tomado de loucura, quando o São Luiz virou. Douglas, aos trinta e quatro e aos quarenta do segundo tempo. Dois a um para o São Luiz. Àquela altura, continuaríamos todos a proferir palavras de baixo calão para Gelson e para Douglas, mas agora seriam com AFETO. Garanto que alguém diria: “vai te foder, que substituição genial. Eu sempre acreditei naquele corno”. (lotes de exclamações a serem colocadas em qualquer ponto das frases)

Se eu tivesse visto o Cerâmica ontem, eu teria visto o São Luiz.

Teria visto o São Luiz vencer de virada, com dois gols no fim, embaixo de temporal de granizo e num campo todo queimado pela geada do INVERNICO de fevereiro (esta parte não é verdade, mas se eu tivesse visto o Cerâmica ontem seria assim que eu completaria o cenário para os meus netos).

E agora temos sete pontos e até conseguimos ver uma nesga de salvação.

Dá pra voltar no tempo e comprar uma passagem para Ijuí?

Maurício Brum

CERÂMICA: Cesar Luz, Saraiva, Djair, Fábio Silva, Robson, Pedro (Maceió), Adilson (Maurício), Maurinho, Dinei (Baggio), Cidinho e Leo Mineiro. TÉCNICO: Lico Freitas.

SÃO LUIZ: Vanderlei, Danilo, Thiago Costa, Neguette e Xaro, William Santos (Douglas), Danilo Goiano, Thiago Corrêa e Kim, Araújo e Sandro Sotilli (Sharlei). TÉCNICO: Gelson VILA FÃO Conte.

ARBITRAGEM: Márcio Chagas, auxiliado por Marcelo Oliveira e Max Vioni.

GOLS: Cidinho (C), Douglas (2x) (SL)

CARTÕES AMARELOS: Fábio Silva (Cerâmica); Kim e Douglas (São Luiz).

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2 Respostas a Eu não fui o número 188 (São Luiz 2×1 Cerâmica – Estádio 19 de Outubro)

  1. zezinhodudu diz:

    Em primeiro lugar, Mauricio: vai se foder (isso é um elogio).

    Quero ter autonomia financeira, temporal (?) e automotiva para ser um andarilho das partidas de futebol e correspondente de blogs cobrindo jogos aleatórios. Já vi jogos de diversas competições (Gauchão, Segundona Gaúcha, Copa RS, Catarinense, Paranaense, Sul-Minas, Brasileiros das Série A, B e C, Libertadores, Eliminatórias Sul-Americanas e outras amadoras) em alguns estádios (Olímpico, Beira-Rio, Santa Rosa, Estádio do Vale, Sady Schmidt, Vila Rosa (Dois Irmãos), Índio Condá, Vila Capanema, Ecoestádio, Arena, Couto Pereira, Pinheirão, etc).

    Os times franceses, acredito, que estejam relacionados à tua viagem à França pelo São Luiz. Mas e os CINCO de Andorra? Também?

  2. Pois é, minhas andanças na verdade começaram pra valer em 2009. Antes, a imensa maioria dos jogos era do São Luiz, então os adversários VINHAM ATÉ MIM.

    Os times da França são muito por causa daquele torneio que o São Luiz disputou, mas tem alguns de jogos soltos também. Os de Andorra são uma história um pouco mais insana. Em 2008 estava lá a TURISMO, e no fim de semana tinha uma rodada QUÍNTUPLA num dos dois únicos estádios do país. Não pude dizer não à chance de contar que me EMBORRACHEI de futebol andorrano. Aí, até ser corrido pelo frio de sete graus negativos, vi três jogos em sequência (são cinco andorranos, e não seis, porque um deles fugiu da liga nacional pra jogar na sétima divisão da Espanha, e o adversário era catalão).

    O vídeo de um dos jogos: Casa Benfica 0-6 Santa Coloma (lanterna contra líder), em que tive a sorte de filmar todos os gols – http://www.youtube.com/watch?v=nSOd3g2PY_k

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