Não dá pra contar estrelas que brilham no firmamento

Ao vislumbrar que o Novo Hamburgo se classificou para a final da Taça Piratini, dois sentimentos afloraram no meu peito: o de injustiça – por eu não estar lá – e o de ficar com ambos os pés atrás – cusco picado por cobra tem medo de linguiça. Na contramão da euforia que tomava conta da cidade e dos jovens torcedores anilados, de fé ou ocasião, pela possibilidade de erguerem a taça, passei a ser cauteloso. As duas últimas exibições no Anilado foram preocupantes e o time do Caxias era por demais AZEITADO.

Além dos dois sentimentos acima, juntou-se o da raiva ao longos dos dias. A nossa querida e amável RBS ignorou, por um bom tempo, a existência do jogo na quarta-feira à noite; comentaristas ditos especialistas vomitavam bobagens ao analisarem ambas as equipes; a suposta conclusão de um estádio privado com garantias de um banco estatal para uma suposta parceria envolvendo uma tal empreiteira, de modo a visar uma suposta Copa do Mundo, ganhava mais manchetes do que a final caipira; e, por fim, uma reportagem de Glauco Pasa pintando Novo Hamburgo com uma rincão rural de ALTO FELIZ, e não uma cidade de 250 mil habitantes.

Torcida anilada lota o Estádio do Vale: comunidade hamburguense resolveu valorizar algo que dá certo na cidade. Foto: Ramiro Furquim/Sul 21

Quis uma guinada do destino que fosse convidado para uma formatura justamente na quarta-feira à noite, e por dar carona a duas amigas, eu só chegaria em casa para assistir à peleia no final do primeiro tempo. Além da injustiça, da cautela e da raiva, sentia a velha ANGÚSTIA. Para muitas pessoas, o suficiente para a mesma sucumbir; para mim, normal, acostumado às agruras e derrotas da vida amorosa – ainda que o Noia valha mais que todas as mulheres que já me tiraram a atenção algum dia dessa vida.

Itamar Schülle contava com pelos menos três alternativas para escalar o time. Optou pela mais cautelosa: o 3-5-2. Como gosto do esquema – ao contrário da esmagadora maioria dos pseudo-entendidos -, não torci o nariz de imediato. Apenas fiquei contrariado quando a opção de armação foi Leandrinho, que nunca jogou um OVO perto de Juninho, e sequer amarra as chuteiras de Clayton, punido com o banco por querer se curar de uma lesão pulando Carnaval. Carnaval gaúcho! Punição mais do que justa.

Mal abrira a porta de casa e ouvi o narrador anunciando ‘Novo Hamburgo 0x1 Caxias’. Não me abati. Já esperava por isso. Não enfrentaríamos uma galinha morta. Relato de quem assistira, até então, 60% dos jogos da equipe grená no YEDÃO. Peguei um café e fui, calado, para minha cama assistir o final da primeira etapa, já com Clayton no lugar de Pedrinho. O Noia ainda criou uma boa chance num escanteio e se impunha ao adversário. Bons presságios se avizinhavam, mas sabia, de antemão, que não seria fácil.

Na volta do intervalo, o Noia fez uma blitz digna da BM em Canudos. E o resultado foi o mesmo: uma chuva de bombas na área do Caxias e um corpo estatelado no chão – no caso, de Paulo Sérgio, após a cabeçada fulminante de Mendes. Ao decorrer da segunda etapa, sem transparecer meu nervosismo, questionava-me o por quê do Zaquel, esse volante de ÉBANO, não estar num clube maior, ao passo que Gilberto Silva se arrasta no Grêmio embolsando 600 mil tutus mensais. Não apenas nosso camisa 8: Wangler, Fabinho, Paraná, Clayton e Luis Henrique em nada deixam a desejar em relação a supostos craques de contas bancárias milionárias Brasil afora.

(Quanto à ambulância: pelo Estatuto do Torcedor, a recomendação é de um automovel – caiu o acento? – para cada 10 mil almas. Como haviam 6 mil cabras, agimos dentro da lei. RBS MENTE)

Como sempre acontece, o segundo tempo transcorreu em velocidade maior que o primeiro e logo os pênaltis chegaram. Tal logo Leandro Vuaden apitou, eu senti a derrota. Odeio pênaltis. Até no ‘Soccernomics’, onde se estuda as estatísticas dos tiros penais, sabe-se que é uma loteria. E Novo Hamburgo tem problemas com loterias. A taça ficou em boas mãos.

Clayton se desespera pelo desperdício do pênalti. Levanta a cabeça, guri! Mostra que tu é craque! Foto: Ramiro Furquim/Sul 21

Os sentimentos diversos se dispersaram pelo meu suor, que tanto se segurou naquela noite, após o derretimento de minha frieza. Passadas algumas horas, questionava-me se o Noia não se abateria com a derrota. Afinal, o time busca a vaga à Série D. Tem potencial para isso. Precisa remobilizar a torcida, o grupo, a imprensa e a cidade. Assim como o Caxias mereceu a taça, o Anilado merece um futuro límpido e brilhante como os olhos da torcida que lotou o Estádio do Vale.

Juntando os pedaços da sola do sapato,
Zezinho

Publicado em Caxias, Gauchão 2012, Novo Hamburgo. ligação permanente.

8 Respostas a Não dá pra contar estrelas que brilham no firmamento

  1. Gladir Azambuja diz:

    Baita texto. Lúcido, ácido e com ternura…tudo “xunto e rrreunido”…parabéns. É de consciências como a demonstrada nessa crônica que o interior precisa, para mostrar à capital que, além de jogarmos bola bem – também – temos ainda bons analistas do “realmente” acontece.

  2. Luciano Cardoso diz:

    Boa tarde e belo texto… Apenas queria acrescentar que estava no estádio, no lado da torcida do Caxias, a festa da torcida do Nóia foi muito bonita e gostaria e torço para que vcs não desmobilizem… O Nóia tem torcida e vcs juntos irão longe e o interior precisa de vcs… Abs

  3. Diogo Santos diz:

    sou torcedor grená há quase 30 anos e já morri na praia inúmeras vezes. O Novo Hamburgo está de parabéns pela campanha e pelo time. Ressalto também a elegância da torcida pois cruzamos a entrada do time da casa com as camisetas do Caxias e não teve nenhum xingamento ou ato de hostilidade.
    O Itamar Schulle sempre complica nossa vida e acho que cedo ou tarde ele vai acabar trabalhando aqui na serra. O márcio Hahn foi um leão, disparado o melhor jogador da partida. Espero que a garra do Nóia alavanque o numero de sócios e torcedores do anilado.

  4. Chico Luz diz:

    baita texto, Dudu. Ótima representação do jogo.

  5. Marcelo Alves diz:

    Em primeiro lugar obrigado aos torcedores do Caxias pelo respeito ao Noia, por isto que a SER Caxias e um dos maiores do estado tambem….

    Parabens a torcida Anilada, no qual tambem espero que continue mobilizada….

    VAMOS MEU NOIA !

  6. Weber diz:

    O Noia é ainda maior do que imaginamos. Foi uma noite inesquecível. O jogo mostrou o que nós já sabíamos: o interior tem futebol e tem torcida. O centenário Esporte Clube Novo Hamburgo está de parabéns, bem como o Caxias, que mereceu o título. É bom saber também, que tem muita gente que pensa como nós. Excelente o texto e o blog.

  7. Clóvis Duprat diz:

    A torcida do Caxias foi hordeira e educada, ao contrario da torcida do Juventude que riscou automóveis e atirou pedras contra a torcida do Noia.

  8. Belíssimo texto! Mais um do site.
    O Noia é maior que tudo.
    Parabéns ao Caxias.
    A vez do triunfo Anilado chegará.
    Força, Noia! Dá-lhe, Noia!

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