O verão mais infernal do Inter-SM

Pouca gente sabe disso, o que é ótimo, mas uma vez, uma única vez, eu narrei um jogo de futebol. Narrei de verdade, no rádio, em uma rodada da primeira divisão do Campeonato Gaúcho. Ainda que eu tentasse ser cumpridor, com certeza a audiência daquela noite foi se reduzindo conforme os minutos passavam. Eu nunca havia narrado um jogo de futebol. Eu sequer havia participado de transmissões ao vivo. Seria a primeira partida transmitida pela emissora naquele ano, estávamos sem o nosso locutor principal e eu, disposto a NOVAS EXPERIÊNCIAS, pensei em voz alta: por que não? Era isso ou esperar mais uma semana para começar os trabalhos. Nunca entendi muito bem como me DEIXARAM – acredito que a vontade de estrearmos logo pesou decisivamente –, mas depois de alguns dias treinando com a tevê no mudo, sem jamais me julgar exatamente preparado, me vi segurando um microfone dentro de uma das altas cabines de imprensa da Baixada Melancólica, em Santa Maria.

Menos de um ano antes, eu havia pisado pela primeira vez naquele estádio. Estava às vésperas de me mudar de Ijuí para Santa Maria, a fim de ESTUDAR ou coisa que o valha (coisa que o valha, sempre), e assisti à vitória do meu São Luiz sobre o Inter por 1 a 0, em meio à torcida santa-mariense. O jogo se tornou memorável pelo pênalti que o colorado Alê Menezes perdeu depois de fracassar em uma paradinha (no mesmo campeonato ele repetiria o erro, desta vez ESCORREGANDO na hora da paradinha), e eu tive que festejar apenas no ÍNTIMO. Vi a partida com meu pai, companheiro de todas as jornadas são-luizenses, e minha mãe, que nos acompanhou na viagem, não tinha muito para fazer àquela altura e acabou carregada para a cancha. Foi ela que olhou duas pessoas, que depois seriam meus COLEGAS, vestidas com a camiseta da rádio da UFSM e avisou: “logo vai ser tu ali”. Quatro meses depois, eu passava na seleção para integrar a equipe esportiva da emissora, dona então de um projeto de transmissões ao vivo feitas quase exclusivamente por estudantes de comunicação.

Dez meses depois, impossivelmente lançado à condição de narrador sem passar pelas funções iniciais da reportagem de torcida, de campo ou pelo plantão, a PRAGA DE MÃE tinha pego tão forte em mim que eu não apenas era parte da rádio como o cenário se repetia para a noite que eu ia executar a função de descrever os lances – Baixada Melancólica, Inter e São Luiz. Num mundo SENSATO, narradores não devem ser imparciais quando se dirigem a um público só. Ao contrário, devem torcer pelo time dos ouvintes. A emoção narrada deve ser a emoção de quem ouve. Não digo que sejam verdades absolutas sobre o ofício, até porque não nasci para a coisa, mas era o que me passava pela cabeça naquela noite. Eu deveria torcer claramente pelo Inter de Santa Maria, dirigindo-me ao público de Santa Maria, num jogo em que o inimigo a ser batido era o meu São Luiz. Não vou me estender nos detalhes da transmissão – de como era difícil romper o vácuo do jogo interrompido, pois não tínhamos ainda as chamadas dos patrocinadores, ou de como simplesmente ESQUECI que o Iuri Müller fazia a reportagem de torcida e não o chamei durante todo o primeiro tempo – e pular apenas para o resultado. Naquela noite de 20 de janeiro de 2010 o São Luiz venceu por 3 a 0.

Isso me ajudou. Não devo ter melhorado muito a TÉCNICA da minha locução – o mais difícil é manter uma boa velocidade –, mas sempre acreditei sinceramente que ganhei fluência a partir do momento em que o time de Ijuí abriu o placar. Primeiro porque o CORAÇÃO ficou tranquilo. Depois porque, com a equipe de Santa Maria jogando tão mal, era possível fazer uma narração menos pró-Inter e disfarçá-la como se fosse EXASPERAÇÃO. O que interessa não é a minha curtíssima e absolutamente fortuita experiência como narrador, mas o placar daquela partida. Pelo segundo ano em sequência o São Luiz vencia em Santa Maria, e voltaria a derrotar o Inter no ano seguinte, agora em casa, por 4 a 0. Depois do esplendoroso campeonato de 2008, quando chegou às semifinais e foi eliminado pelo Juventude armando enormes dificuldades para os caxienses, o Inter-SM nunca mais conseguiu encaixar uma boa participação na elite. Logo ficariam evidentes as razões: um cenário de disputas políticas internas complexas, um estatuto extremamente hostil a novos associados e uma montagem de elenco que, invariavelmente, era a última a se iniciar no interior, além de verbas rotineiramente adiantadas, condenando o futuro.

A sina do Inter-SM de sempre perder para o São Luiz nesses tempos, sendo que os dois times eram concorrentes assíduos na luta contra o rebaixamento, só poderia resultar numa queda santa-mariense, que veio em 2011. Agora o Interzinho está na Segundona e o maior temor é que se repitam as longas temporadas de quases que marcaram o início dos anos 2000 para o clube. Em praticamente todos os anos, o time chegava à fase final e ficava apenas uma ou duas posições abaixo do sonhado acesso. Foram cinco ou seis vezes disso antes que a vaga na elite fosse conquistada em 2007. E, na atual temporada, a briga pelo sonho parece algo inalcançável neste início de competição. O futebol apresentado pelo coloradinho é INADEQUADO às grandes aspirações e, quando o time levou 6 a 2 do Santo Ângelo num amistoso de pré-temporada, houve quem apontasse o Inter como candidato ao rebaixamento. Passadas três rodadas, apesar de quatro pontos somados, ainda não é possível retirar a CANDIDATURA. A estreia, com um empate não merecido contra o Riograndense, conquistado nos acréscimos do segundo tempo (2-2) e a segunda rodada, com derrota para o Brasil em Pelotas (1-0) num jogo em que cabiam muitos gols mais, não animaram.

Ontem, o Inter-SM voltou a fazer uma atuação do tipo que DESALENTA. O Guarany de Camaquã, vindo de dois empates sem gols, pareceu disposto a repetir o placar no início, mas rapidamente o jogo ficou entretido. Ainda no primeiro tempo, os santa-marienses acertariam duas bolas no travessão, os camaquenses uma, e instantes antes de o juiz apitar o intervalo, Magno conseguiu estabelecer a vantagem de 1 a 0 para o Inter. O sol e centésimo dia consecutivo com temperatura em torno de cento e oitenta e nove graus eram avassaladores, e a o pavilhão coberto foi escancarado mesmo para os torcedores que haviam comprado ingressos na geral destapada. Alguns, mais fiéis à CAUSA GERALDINA, se recusaram a mudar de lugar, mas a maioria aceitou o BRINDE. Foi a única razão com a qual se aliviar no segundo tempo. No regresso ao campo, o Guarany atacou muito mais, sendo incapaz de tramar jogadas melhores porque seus jogadores parecem não ter muita noção de posicionamento SEM BOLA, e o Inter cansou. Entrou ENZO SCORZA, o uruguaio que há 12 anos, quando tinha justamente 12 anos de idade, era apontado como o futuro grande craque oriental (o Ronaldinho Charrua [ns]), e tudo o que ele fez foi mostrar porque não vingou em lugar algum até hoje: perdeu dois gols feitos e isolou uma outra boa chance de ataque.

Na tarde carente de heróis, o nome a ser gritado foi o do goleiro Bastos, salvador de alguns tantos pelotaços camaquenses e que aos quarenta e oito minutos do segundo tempo voou no seu canto direito para defender um PÊNALTI que instauraria o desespero na Baixada, se convertido. Foi pouco. Ao meu lado, o Iuri, que cresceu dentro daquele estádio, comentou ser aquele o pior Inter que já viu jogar. A mim, que vivi muito menos desta vida, coube apenas concordar.

Texto por Maurício Brum, diretamente do Impedimento.org para o Toda Cancha.

Publicado em Divisão de Acesso 2012, Guarany de Camaquã, Inter SM. ligação permanente.

Um comentário em O verão mais infernal do Inter-SM

  1. zezinho diz:

    Bah, Coloradinho rival do Noia em alguns confrontos históricos. Nos tirou o título do Gauchão em 1981, mas levou o troco na Segundona de 2003.

    Imagino que ser narrador de rádio deva ser uma das coisas mais fodas de se fazer. Pela dificuldade e pelo tesão da coisa. Só de me ouvir no Carta na Mesa já me acho tosco, imagino, então, numa rádio ao vivo e narrando, comentando ou reportando uma peleia.

    Um tio meu conta que na década de 1980 dois cabras apareceram do nada nas sociais do Santa Rosa, com uma FILMADORA e um microfone, para gravarem um jogo qualquer do Noia. Vendo meu tio à paisana, resolveram o convidar para comentar o jogo. Diz ele que nunca se prestou a ver a fita do jogo, tamanha a vergonha

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