Sapucaiense vai à Campinas

E não vai ser a passeio.

Não há verossimilhança alguma nessa história, mas é real. Não bastasse o Sapucaiense – na Segundona há alguns anos e passando por uma tremenda crise institucional – JOGAR a Copa do Brasil, vaga conquistada com a terceira colocação na Copa Ênio Costamilan em 2010, a esquadra rubro-negra ainda igualou o jogo contra um time da Série A do Brasileirão e teve chances de vencer o jogo. E a imprensa, que só mexe os dedos pra reclamar da suposta falta de qualidade dos clubes do interior, não se prestou a dar uma linha sobre o resultado histórico. Continuem debatendo engenharia, o futebol está passando.

Pré-jogo

Pra fazer jus aos FILHOS DO ZOOLÓGICO, a equipe escolhida pra enfrentar o SAPO foi a MACACA campineira. Mas essa história começa muito antes, mais ou menos por 2005, quando a SAPUCA, com quase 65 anos de idade nas costas e milhões de títulos no amador da cidade contra o TAURUS, resolveu se profissionalizar. Desde lá, foi campeão da Segundona em 2007 e assolou o mundo com o sexto lugar no Gauchão de 2008 com um ESQUADRÃO formado por Brida, Lacerda, Jucemar, Maicon Sapucaia, Gilian, Cirilo e outras figuras que depois se tornaram estrelas do interior, comandadas por Círio Quadros.

Depois, porém, só desgraça. Com um estádio de brinquedo, o time só podia mandar seus jogos no Cristo Rei, do vizinho Aimoré, e foi mais um dos clubes atingidos pela MALDIÇÃO DO SEGUNDO ANO, sendo rebaixado em 2009. E em 2011, se salvou do rebaixamento pra TERCEIRA DIVISÃO por uma vitória fora de casa, na última rodada, contra o próprio quadro de São Leopoldo. Mesmo assim, a vaga pra Copa do Brasil já estava garantida graças a uma improvável campanha na Copinha de 2010, quando eliminou Guarany de Bagé e Caxias até parar no Cerâmica, que perdeu a final para o inútil time B do Inter.

Desde lá, como sempre, o clube sofreu todo o tipo de fritura possível para que desistisse da competição nacional, de forma que a vaga caísse no colo do 4º colocado da Costamilan, o maior e mais forte politicamente Pelotas. A crise no time da terra da Pepsi chegou ao ponto de TODA A DIRETORIA se demitir e o Conselho Deliberativo brigar com Deus e o mundo por acreditar que a decisão do presidente do clube, que teimava em não abrir mão da vaga, ia decretar de uma vez por todas o FIM do clube. Mesmo assim, imperou a voz de Ibanor Catto, e a Sapuca não desperdiçaria a chance de entrar em campo pela primeira vez em sua história de mais de 70 anos para uma competição nacional.

Foto: Ivan de Andrade/GES

Como o Arthur Mesquita Dias não tem condições de receber nenhuma partida mais importante, a escolha do clube foi voltar a São Leopoldo, idéia barrada pelos inspetores da CBF que apontaram um TRILHÃO de irregularidades no estádio do Índio Capilé. Como o clube leopoldense não aceitou fazer as reformas necessárias – sob o receio de que o Sapucaiense nunca pagasse por elas e complicasse ainda mais a vida do Aimoré, como revelou um dos vice-presidentes do clube ao Toda Cancha, enquato SECAVA o Novo Hamburgo pelo Gauchão – só restou ao time rubro-negro pegar o trensurb e mandar o jogo no Passo d’Areia, em Porto Alegre.

Antes do confronto, a equipe só havia feito três jogos oficiais em 2012, todos pela Divisão de Acesso do Gauchão, onde entrou como um dos indicados para o rebaixamento e com sua crise amplificada na semana de estréia, após três jogadores titulares pedirem pra sair – o volante Dudu afirmou até não conhecer o presidente do clube, o que resultou numa óbvia derrota para o Glória na primeira partida. Depois, porém, venceu o Santo Ângelo e o União-FW, esse fora de casa, e chegou embalado pro confronto histórico.

Mas como nada podia ser fácil, no dia do jogo Porto Alegre enfrentou o CAOS por conta das chuvas, e nem sabia-se se haveria como o jogo sair. No fim, a bola rolou, e aí é só história.

O jogo

Impossível vencer um goleiro de calças (foto: Wesley Santos/Futura Press)

Em campo, a partida foi tão boa quanto o tempo de Porto Alegre na quarta-feira. Pouca coisa de bom aconteceu, com o Sapucaiense conseguindo neutralizar TODOS os ataques da Ponte no primeiro tempo, graças a sua defesa que parecia composta por DOIS VERGALHÕES GG50. Porém, ao mesmo tempo, o time gaúcho, que atuava num 3-5-2 meio INSANO, nada conseguia fazer no ataque, com seus dois laterais ligeiramente CAGADOS de passar do meio-campo e os seus volantes destruindo toda e qualquer jogada com sua tremenda falta de qualidade (A atuação de Dudu faria qualquer volante do futebol mundial se transformar em GENOCIDA). No fim, nada de bom foi criado, em nenhum dos lados, no primeiro tempo INTEIRO.

No segundo tempo, pouca coisa mudou, mas pelo menos houve jogo. Com um pequeno domínio, os reservas da Macaca capitaneados pelo semi-morto Willian Magrão tiveram uma chance assustadoramente – ou não, por quem fez – perdida por Leandrão, após cobrança de falta que a JAMANTA cabeceou na trave estando a menos de 3 metros da META. No rebote, Agenor chutou mais ou menos da mesma distância, para o goleiro Júlio fazer a MAIOR DEFESA QUE NINGUÉM VIU da história do futebol, em um pulo sem o menor sentido que fez a bola chocar-se contra seus pés. E que de pouco adiantou, já que o árbitro havia marcado impedimento do pontepretano. ACORDADOS, os valentes sapucaienses partiram pra cima após as entradas do meia PC e dos atacantes Rafinha e Felipinho, insistentemente CLAMADOS pela torcida desde o início do jogo, que deram mais mobilidade pro ataque rubro-negro e chegaram à area da Ponte mais ou menos SETECENTAS VEZES em conta-ataques. Nenhuma chance clara foi criada, porém, com David ainda conseguindo ser expulso com dois cartões amarelos consecutivos por RECLAMAÇÃO em um lance sem sentido algum, em que um jogador do próprio Sapucaiense pedia atendimento no gramado. Com tudo isso, o jogo terminou mesmo no 0x0, desatando uma tímida e sincera comemoração da torcida TRENSURBEIRA e dos jogadores em campo.

O destaque do jogo acabou ficando por conta do ENROLADINHO do Passo d’Areia, um espetáculo de 3 reais que praticamente TRIPLICOU o colesterol dos torcedores e aliviou o bolso de quem não podia ser ROUBADO pela lancheria que vendia pastéis diminutos a 4 e copos de refrigerante a CINCO (!) reais.

A massa

Toda a psicodelia inerente à partida, captada por meu celular sem bateria

Contrariando qualquer expectativa desse idiota que vos escreve, uma multidão de cerca de MIL pessoas compareceram ao São José pra presenciar esse momento histórico. Quase todos de Sapucaia, e quase todos devidamente UNIFORMIZADOS, mostrando uma ligação maior do que se imagina para quem, como eu, nunca havia assistido nenhum jogo do clube. O público, mesmo com o DILÚVIO do dia, o ingresso a TRINTA REAIS e uma distância considerável pra quem veio de ônibus ou carro – TODOS – era igual ou maior do que muitos jogos do próprio dono da casa no Gauchão. Por volta de 30 deles com faixas, bandeiras e instrumentos, em mais uma variação do BARRABRAVISMO do interior gaúcho. Havia até uma dezena de pontepretanos perdidos na arquibancada oposta, que não se mexeram por nenhum segundo.

O comportamento, porém, foi meio SEM SENTIDO. Desde o início do jogo, a torcida CORNETEIRA que se instalou na linha do meio-campo já clamava por Rafinha e Felipinho, chamava todos os jogadores por palavrões – e palavrões de SAPUCAIA, lembrem-se disso, e pediam até a cabeça do treinador Marcão. Um dos torcedores da barrabrava chegou até a ser ARRASTADO PRA FORA por um policial sem cérebro, que o acusou de ter chutado a grade da arquibanca, o que 1) não aconteceu, 2) mesmo se tivesse acontecido, não seria motivo nem pra um AI do brigadiano. Pra sorte dele, todos ali eram de Sapucaia, e após seu pai lembrar disso ao brigadiano, o moleque voltou às platéias.

No fim das contas, o empate foi um resultado mais do que justo para os campineiros, que SUBESTIMARAM a força do sapo desde o início, e mais ainda para o Sapucaiense e sua torcida, que contra tudo e contra todos colocaram seu time em campo e fizeram história, e lutarão para manter o sonho vivo na próxima quarta-feira, às 21h. O futebol gaúcho, até nos rincões menos favorecidos, vive.

FICHA:

Sapucaiense: Júlio; Dieilsson, Valença, Natan e David; Elias, Dudu, Leandro e Hirochi (PC); Alan Patrick (Felipinho) e Rodrigo (Rafinha). Técnico: Marcão.

Ponte Preta: Reynaldo; Lucas, Ferron, Gian e Uendel; Agenor, Willian Magrão, Enrico (Bruno Nunes) e Márcio Diogo (Rossi); Rodrigo Pimpão e Leandrão (Diego Sacoman). Técnico: Gilson Kleina.

Data: 14/03/2012, quarta-feira – 19h30.
Local: Estádio Passo D’Areia
Árbitro: José Acácio da Rocha (SC) – péssimo, por sinal.
Assistentes: Juliano Fernandes (SC) da Silva e José Roberto Larroyd (SC)
Cartões Amarelos: Enrico, Lucas (Ponte Preta); Dieilsson, Rodrigo, Leandro, Valença (Sapucaiense).
Cartão Vermelho: David

Placar moral: Sapucaiense 1×0 Ponte Preta

Desculpando-se pelo atraso ocasionado por tarefas FORTUNATEIRAS e agora simpatizante do time da terra da Gerdau,
Guiherme Daroit

Publicado em Copa do Brasil, Sapucaiense. ligação permanente.

4 Respostas a Sapucaiense vai à Campinas

  1. Vitor diz:

    muito bom o texto
    a questão que deixo é: haverá torcida do Sapuca no Moisés Lucarelli para presenciar esse momento histórico?

  2. Eu também estive no Passo D’areia, mesmo não sendo torcedor do Sapo.

    Coloquei minha camisa do Honved da Hungria, a mais parecida que tinha com a do Sapo no armário, e fui encarar o mal tempo.

    Realmente o nível técnico foi muito baixo, principalmente pela insistência dos jogadores da Macada em não se darem conta de que o gramado era sintético e insistiam em dar passes pelo alto.

    Os “donos da casa” até se adaptaram melhor ao gramado, mas faltava qualidade técnica, e muitas vezes também coragem, para que fosse feita uma finalização.

    De qualquer forma, dou meus parabéns ao Sapucaiense e sua torcida.

  3. Jaime diz:

    Belo relato, surpreendente a resiliência da torcida de Sapucaia em comparecer ao embate.

    (Novo Hamburgo na final de turno do Gauchão, Sapucaiense copeirando na Copa do Brasil, triste ano para a nação Capilé. Pelo menos impediram que o Cristo Rei fosse palco desse momento. Novo Hamburgo ainda é um rival digno, mas SAPUCAIENSE, por favor, daqui a pouco tem time de Esteio jogando Libertadores e o Aimoré ainda na Segundona.)

  4. Pingback: O Sapo foi para o brejo | Toda Cancha

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