A realidade da divisão de acesso

Quando falamos em futebol, logo vem às nossas mentes estádios lotados, gramados perfeitos, muita mídia, enfim uma mega estrutura para acompanharmos aquela que é a maior paixão dos brasileiros.  Porém, a realidade é completamente oposta para a maioria dos clubes do Rio Grande do Sul.

No último domingo (25/03), acompanhei a rotina de uma equipe de arbitragem na partida da Divisão de Acesso entre Sapucaiense x Passo Fundo, no estádio Arthur Mesquita Dias, em Sapucaia do Sul.

Aproximadamente duas horas antes do horário da partida, a equipe de arbitragem, composta pelo árbitro Alessandro Mocellin, 33anos, morador de Porto Alegre, e pelos assistentes Diego Hemming, 27 anos, morador de Lajeado, e Lucas Both, 26 anos, também da capital, chegou ao estádio. Por questões de custos, na Divisão de Acesso não há a figura do quarto árbitro, apenas há o delegado da partida, que é custeado pelo time mandante.

A equipe verifica alguns pontos do local onde irá ocorrer o espetáculo, e é neste momento que verificamos a enorme diferença estrutural comparada às grandes equipes do futebol.

Estádios acanhados, sem estacionamento privado para a arbitragem, vestiários modestos, gramado irregular e com dimensões reduzidas, acomodações para imprensa quase inexistentes. Todo esse cenário acaba fazendo com que a arbitragem tenha que trabalhar muitas vezes em dobro, pois os problemas começam antes mesmo da bola rolar.

Até mesmo o acordo das cores dos uniformes que as equipes irão utilizar não é cumprido, tendo que a arbitragem intervir até nisso e fazer cumprir o regulamento, sem contar a dificuldade para retirar todas as pessoas que não estão envolvidas com o espetáculo de dentro do gramado.

Verifica-se a presença da Brigada Militar e ambulância e então tudo certo? Que nada, o pior está por vir.  A bola começa a rolar, em um gramado muito pequeno, e a liderança da Chave 2 está em disputa.  O jogo é bastante truncado e pegado, com muitas faltas, pedindo atenção especial da arbitragem com as jogadas mais fortes.

Dentro de campo, tudo sobre controle, uma arbitragem de muito boa qualidade. A dificuldade maior é conter os dirigentes das equipes. Devido à precariedade estrutural do estádio, eles estão por todos os lados, fazendo de tudo para atrapalhar o trabalho da equipe de arbitragem.

Felizmente, correu tudo dentro da normalidade.  Com o placar de 1×1, todos saíram satisfeitos do estádio. Mas sabemos que nem sempre é dessa forma. Mesmo a arbitragem não sendo uma profissão regulamentada no Brasil, o profissionalismo com que eles encaram a função é incrível e admirável. E tudo isso para receber uma taxa de R$ 494,00 para o árbitro e R$ 247,00 para cada um dos assistentes, além dos custos de transporte.

Os erros são inevitáveis diante de tantas variáveis existentes na nossa Divisão de Acesso e teremos que evoluir muito para chegarmos ao bom nível estrutural no futebol do Rio Grande do Sul. Aí sim poderemos cobrar a mesma evolução da arbitragem.

Por Marco Serpa

@arbitroserpa

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6 Respostas a A realidade da divisão de acesso

  1. tiagozilli diz:

    Excelentes relatos sempre. E ainda me impressiono com a quantidade de pessoas que não percebem que as séries A e B do brasileiro (as unicas estruturadas de verdade), por exemplo, comportam menos de 5% dos clubes em atividade no Brasil. O iceberg não é só a ponta.

  2. Marco Serpa diz:

    Tens toda razão, muito pertinente o seu comentário.

  3. zezinho diz:

    Belo relato, Marco.

    Pessoalmente, você é a favor ou contra a profissionalização?

    Já ouvi argumentos de quem é contra em razão de que suas profissões lhes garantem a maior parte dos vencimentos e tu tens o que fazer após parar de apitar, aos 45 anos. Que pensa sobre isso?

  4. Marco Serpa diz:

    É muito complexa essa questão da profissionalização da arbitragem, e esse é o ponto mais crítico, a questão da idade, hoje temos muitos árbitros no quatro gaúcho, atualmente existe árbitro que fica dois meses sem uma única escala, não vejo muita solução para isso, pois quem pagaria a conta de um árbitro profissional parado? se ele estiver no quadro ele está vinculado a entidade e seria um funcionário legal. Antes de pensarmos em profissionalização da arbitragem, os clubes precisam se estruturar melhor, com trabalhos o ano inteiro e dar atenção especial para as categorias de base, dessa forma abriria um leque de empregos para inúmeros profissionais do esporte inclusive para a arbitragem. Caso contrário o profissionalismo da arbitragem ficará cada vez mais distante.

  5. Luciane Silva diz:

    Excelente texto, consegue despertar o interesse pelo assunto até mesmo para leigos. Parabéns!

  6. Balejos diz:

    Muito bom e ricamente ilustrado o texto!
    É o TODACANCHA flertando com a lei!

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