A punição ao Noia pelo suposto caso de racismo a Vanderlei: muita fantasia e pouco combate ao preconceito

Na última terça-feira, em julgamento no Tribunal de Justiça da Federação Gaúcha de Futebol, o Novo Hamburgo foi condenado a pagar uma multa de R$ 10 mil porque um torcedor do Anilado chamou Vanderlei, do Caxias, de ‘macaco’ na vitória do time da casa por 1×0, pela Taça Farroupilha. O caso, assim que veio à tona por meio da súmula da partida, logo ganhou repercussão nacional exigindo punição ao clube do Vale dos Sinos. Contudo, a multa aplicada ao Noia em nada resolve a situação.

Na referida partida, como contamos aqui, Vanderlei foi mordido por um pastor alemão da Brigada Militar. Após o incidente, toda vez que o atacante tocava na bola, torcedores do Anilado imitavam latidos de cachorro, conforme também foi relatado na crônica do jogo, no Twitter do blog e por telespectadores da transmissão do jogo no PFC e na TV COM.

Vanderlei, do Caxias: o acusado não confirmou as ofensas

Alguns dias após o embate, a súmula do jogo chegou a FGF. Nela, o árbitro Jean Pierre Gonçalves de Lima reportou que a torcida do Novo Hamburgo teve ‘mau comportamento’  e que ‘um grupo de torcedores chamou o atacante de macaco’. Ao tomar conhecimento disso, vários veículos de imprensa, sobretudo de Porto Alegre, fizeram grande alarde sobre o fato, exigindo punição ao clube do Vale dos Sinos. Assim que soube disso, no meu Twitter pessoal, fiquei indignado por nenhum dos referidos veículos e seus respectivos jornalistas, ao menos, contestarem a informação, pegarem o VT do jogo e ouvirem os latidos, e não gritos de ‘macaco’.

Duas semanas após o jogo, o caso foi a julgamento. E no mesmo, algumas surpresas:

– O árbitro Jean Pierre reconheceu, pelo vídeo, que UM torcedor do Noia chamou Vanderlei de ‘macaco’, ao invés de ‘um grupo de torcedores;

– O quarto árbitro disse que ouviu apenas UM torcedor do Noia chamar Vanderlei de ‘macaco’;

– Dois policiais da BM, em seus depoimentos, disseram que não ouviram ofensas racistas;

– Vanderlei não confirmou ter sido ofendido racialmente.

Com base nisso, o Novo Hamburgo foi condenado a pagar multa de R$ 10 mil – poderia pegar multa de até R$ 100 mil e perder 3 pontos no Gauchão. Na cobertura do caso, apenas a Rádio ABC – todos os outros veículos que desceram a lenha no Anilado, como a Zero Hora, Rádio Gaúcha, Rádio Bandeirantes e Correio do Povo, não cobriram o julgamento e soltaram notas tímidas quanto ao equívoco do árbitro ao confundir ‘um grupo de torcedores’ com ‘um torcedor’.

A multa aplicada ao Novo Hamburgo me lembra, proporcionalmente falando, o caso envolvendo Evra e Suárez ocorrido na Inglaterra. Como bem escreveu o jornalista inglês Tim Vickery, da BBC – como sempre, indo na contramão (e, portanto, no caminho certo), da opinião geral da imprensa brasileira e, nesse caso, europeia também -, a condenação de Suárez foi basicamente política, mostrando a necessidade das autoridades em punir o racismo, mesmo que para isso tivessem que elaborar um relatório inconsistente, desequilibrado e com poucas chances de defesa para o acusado, valendo-se do clamor midiático do caso. Uma espécie de mea-culpa pelo preconceito impregnado na história do seu país.

Tal lá como aqui, os supostos casos de racismo não são analisados a fundo e sofrem grande influência externa. Não se procura prevenir e conscientizar a população, mas apenas punir. A justiça é incoerente ao punir um jogador (Suárez) e um clube por causa de um torcedor (Novo Hamburgo) e pouco ou nada fazer em casos recorrentes e em que há histórico de manifestações racistas, como com as torcidas de Lazio e Roma, na Itália, e em países do Leste Europeu.

Evra x Suárez: uruguaio punido com base apenas na declaração do lateral francês.

Ano passado, na decisão do Gauchão, dirigentes do Inter disseram que torcedores do Grêmio imitavam macacos quando Zé Roberto tocava na bola. No Brasileirão, eu estava na arquibancada do Estádio Olímpico durante o Gre-Nal e ouvi alguns torcedores fazendo ‘uh, uh, uh’ quando Glaydson, Kleber e Tinga tocavam na bola. O som essencialmente vinha das cadeiras. Eram poucos torcedores – em torno de 30, talvez -, mas o som era nítido. Se o precedente é o mesmo, por que o Grêmio não foi punido – e já tendo histórico contra – e o Novo Hamburgo foi?

O que me causa estranheza também é que o árbitro, durante o jogo, reconheceu o indivíduo e os brigadianos se encaminharam para orientar o torcedor a parar com a manifestação. Há algum tempo, quando um torcedor arremessa um objeto no campo e ele é identificado, o indivíduo é punido, e não o clube – desde que, claro, tome as providências cabíveis. No ocorrido no Estádio do Vale, a direção do Anilado não percebeu nada, tampouco foi informada pelo árbitro ou pelas autoridades.

A punição é tão rigorosa que abre precedentes para a utilização de laranjas. E se um clube contratar 20 pessoas que não acompanham futebol, colocá-las na torcida de um time rival e eles, deliberadamente, ofenderem racialmente um jogador?

Punições como esta, sem discussões profundas, não tendem a combater o racismo, mas, sim, fazer com que o lamentável fato ocorra em maiores proporções. Em 2009, Elicarlos, do Cruzeiro, teria sido chamado de ‘macaco’ por Máxi Lopez, do Grêmio, na Libertadores da América. Após o jogo, a polícia mineira, inflamada pela mídia que cobria a partida, quis prender o atacante argentino, tal como aconteceu no caso Desábato, em 2005. O que se viu foram manifestações fortes e direcionadas a Elicarlos no jogo da volta. A torcida do Grêmio via o zagueiro como um instrumento utilizado para desestabilizar o Tricolor, e não uma vítima de racismo.

Máxi Lopez x Elicarlos: na ida, argentino quase foi preso; na volta, cruzeirense ouviu ofensas da torcida.

Enquanto as autoridades esportivas não discutirem a fundo o que deve ser considerado ofensa pessoal, crime contra a honra, injúria racial e manifestações lamentáveis envolvendo cor, etnia, religião ou sexualidade, estabelecendo punições coerentes, o preconceito continuará latente estádios de futebol afora – e com clubes sem grife sendo condenados sem chances de defesa.

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4 Respostas a A punição ao Noia pelo suposto caso de racismo a Vanderlei: muita fantasia e pouco combate ao preconceito

  1. Jaime diz:

    Não estou a par do caso, mas caso se constate que aconteceu a manifestação racista acho certo punir o clube sim.

    Pune-se o clube justamente pra que ele tome providências contra o racismo, o que inclui esforço pra achar quem fez a merda, pra evitar outras punições. Foi assim que funcionou com invasão de campo e coisas jogadas no gramado, a torcida só parou quando começaram a punir com perda de mando.

  2. Jaime, o que me indignou nesse caso foi a falta de parâmetros. Se gritar ‘uh, uh, uh!’ e ‘macaco’ a jogadores negros denota racismo, por que o Grêmio, com muito mais torcedores e testemunhas, não foi multado, e o Noia sim?

    No caso do Anilado, apenas o árbitro e o quarto árbitro ouviram UM torcedor. Basear-se apenas nisso e condenar um clube abre um precedente perigoso. Assim como no caso Evra-Suárez, onde o único testemunho para acusação foi a palavra do Evra.

    Não que eu não queira que o preconceito seja combatido. Já sofri por isso – por ser um gaúcho em Curitiba, no início de 2000 – e sei o quão asquerosa é essa atitude. Só quem já foi discriminado sabe o que é isso. O que questiono é punir com provas inconsistentes apenas para aparecer na mídia como paladinos da justiça e não investir em campanhas de conscientização e um estatuto sério e embasado

  3. Weber diz:

    Concordo com o José.

  4. Um peso, duas medidas. Sempre foi assim e, pelo visto, sempre será nesse estado em que a grande mídia e até a federação preferiam que contasse com apenas dois clubes.

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