Memórias Colossais

Não lembro ao certo do ano. Eram idos da década de 90. Época áurea, aliás. O adversário também aparece sob cores nubladas na memória. Era um time azul. Sim, definitivamente, era azul. Talvez fosse o Glória. Foram muitos jogos contra o time de Vacaria naquele período. Mas talvez fosse o Esportivo. Lembro de perguntar com freqüência para meu pai: contra quem jogamos hoje? Esportivo, ele respondia. Na minha cabeça, parecia que era sempre o mesmo jogo.

As lembranças recaem sempre em aspectos mais triviais. O dia estava claro e a bandeira verde e amarela balançava, amarrada em uma corda que corria de um refletor ao outro, bem ao centro do campo. Me perguntava como a tinham colocado naquele lugar. Na entrada para as cadeiras, lembro do piso de lajotas cor de laranja. Nas paredes, aquelas placas de bronze exerciam certo fascínio. Não pelo conteúdo, mesmo com o nome de Pelé inscrito nelas. Mal sabia quem era Pelé, pouco ou nenhuma noção tinha da importância dele para o futebol. Mas por, de alguma maneira, saber que representavam feitos históricos.

As cadeiras, não sei se eram verde e amarelas – ou só verdes, ou só amarelas -, mas eram desconfortáveis. São. Continuam as mesmas. Feitas de metal – ferro, creio eu -, estavam longe de qualquer padrão moderno ditado por entidades futebolísticas superpoderosas. Depois de comer alguns amendoins, daqueles que vinham embalados em sacos de linha, os assentos desconfortáveis não eram empecilho para um bom cochilo. Uma vez acomodado no colo do meu pai, o jogo pouco importava. O melhor já havia passado: a excitação do deslocamento até o estádio e o amendoim. Dormi. Mais do que isso: desfaleci no mais ferrenho dos sonos.

Depois, chegando à casa dos meus avôs, minha mãe, debruçada na janela, perguntou, enquanto ainda subia as escadas com meu pai, quanto havia sido o jogo. Não hesitei e lasquei: 5 a 2. Meu pai prontamente revidou: “Como 5 a 2? Tu passou o jogo inteiro dormindo”. O fato é que a partida terminou 0 a 0. Naquela tarde, tomado pelo êxtase do amendoim e de toda a mística que envolvia ir ao Colosso da Lagoa, enquanto um rançoso zero a zero se desenrolava no gramado, eu sonhei com um jogo de sete gols. Devem ter sido marcados por qualquer um mais digno de vestir a camiseta canarinho do que os que andam por lá atualmente. Afinal, eram tempos de grandes mitos estufando as redes adversárias: Paulo Gaúcho, Aílton, Sandro Sotilli.

Domingo, às 16h, quando o Ypiranga enfrenta o Grêmio no Estádio Olímpico, talvez nos sonhos de algum bom guri, extasiado pelo amendoim e tomado de simpatia pelo futebol do interior, uma vitória seja possível.

Na primeira ou na segunda, um até breve,

Luiz Eduardo Kochhann.

Publicado em Gauchão 2012. ligação permanente.

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