O fim da História. O fim do Campeonato.


Eu já me preparava para relatar com frio e sofreguidão os embates de sábado pela Divisão de Acesso. No tempo correto, no ritmo da crônica. Obviamente não completei a tarefa, sendo arrastado para o almoço da madre, no dia seguinte. Lugar onde quase todos da família estavam. E reunião familiar é uma torre de babel, só que no volume máximo. Entre a carne salgada sobre os tijolos, a cevada maltada e alguma água gaseificada surge o bolo caseiro, cuja base sustentava a maior quantidade de nata reunida possível fora da fábrica. Fim de festa. A volta pra casa teve trânsito pesado e que, pensava eu, devia ser o prenúncio do COSTELÃO / 16HORAS / ESPETOFINAL, mas era apenas uma operação policial sentido zona sul-centro. Parece que nem todo mundo estava a caminho do Estádio Beira-Rio. E foi assim: no coletivo atualizando o @todacancha freneticamente.

O fim da história

Em meados de 1990, Fukuyama* – que nunca formou a linha da seleção nipônica – decretou o fim da história. Os rescaldos da queda do muro de Berlin e o processo de unificação alemã, a fragmentação do bloco socialista no leste europeu e o avanço do capitalismo, alicerçaram sua tese que apregoava o liberalismo econômico como melhor alternativa. Estava dada a largada para o último estágio do avanço da economia mundial. No entanto, de acordo com o filósofo e economista, inicialmente esse mar de promessas não se constituiria maior que um oásis de propriedade dos países industrializados. Para os demais, diga-se de passagem, a maioria, estava reservado uma vasta terra pobre e árida, com regimes políticos não democráticos e dependência econômica. Assim deveria se acabar a história. É assim que a história acaba?

O fim do campeonato

Clareou a segunda-feira. O Gauchão 2012 foi pelos ares no domingo e o primeiro dia útil trazia um insistente gosto de guarda-chuva. Se isso fosse tudo, a província prosseguiria sua existência de dissabores, festejos e flautas. No entanto, desde antes da cerração se formar era decretado que o Gauchão que acabara, para o bem de “todos”, deveria ser o último. Não haveria mais espaço para esse gordo de clubes que perambulou sem destino durante quase cinco meses. Esse obeso inconveniente, para alguns, há tempos já não cabe no discurso de planejamento da dupla e resiste com suas fanfarronices televisionadas nas tardes de domingo. E quando eu falo em “discurso de planejamento” eu quero dizer: DISCURSO DE PLANEJAMENTO.

Mas o DP não anda sozinho pelo vale dos microfones. A proposta do futebol científico é absolutamente frágil. A medicina esportiva altamente competente não nos levará a UM FUTEBOL CIENTÍFICO. Essa não é uma premissa verdadeira. Da mesma forma que jogador de futebol é profissional, mas, aqui, é mais que isso. Falamos de um lugar onde o futebol é maior que um espetáculo televisivo. É assim que se acaba com um campeonato?

O dia depois de amanhã

É necessário repensar. Os simpáticos velhinhos contadores de histórias liberais perderam espaço. Hoje seus netos dormem sob o efeito de diazepam. A fábula do liberalismo econômico, definitivamente, não salvou nem a pequena parcela do mundo que se propunha. Nosso certame estadual também precisa de ajustes. Entretanto, a mudança precisa ser mais séria que a diminuição no número de participantes. E mais, o caminho talvez seja outro. A solução envolve um debate complexo que tenha em conta um diagnóstico sobre a situação dos clubes do interior, passando pela renegociação dos contratos de transmissão e refletindo sobre os prós e contras da regionalização do futebol gaúcho. O Toda Cancha deu o pontapé inicial para esse debate, Veja aqui.

É imperativo que o futebol atual apresenta estruturas que extrapolam caracteres de outrora, tornando uma visão que não leve isso em consideração romântica. Por outro lado, o jogo de bola não pode ser apenas um dos componentes de emotivas peças publicitárias. Se o futebol só pode existir como mega evento esportivo, em breve, o jogo onde o imprevisível transborda tornar-se-á inviável.

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho

Balejos

*FUKUYAMA, Francis. O fim da história e o último homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

Publicado em Gauchão 2012. ligação permanente.

Um comentário em O fim da História. O fim do Campeonato.

  1. Vitor diz:

    excelente texto

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