Uma noite melancólica em João Martins

“Gramado vazio, num clima absolutamente melancólico. O gramado está molhado, me parece que em lágrimas por que choram os deuses do futebol, choram os rubro-negros, nesta que é a primeira vez que se decreta o rebaixamento do Leão da Fronteira”.

Com essas palavras, o repórter de campo Cleizer Maciel, finalizou a transmissão do jogo 14 de Julho 6 x 7 Guarani de Venâncio Aires pelas ondas da RCC FM de Livramento há exatamente um mês atrás. A noite de 2 de maio de 2012 ficou na história do futebol gaúcho e, por que não, brasileiro.

Quando 14 de Julho e o já rebaixado Guarani de Venâncio Aires entraram no gramado bem cuidado do estádio João Martins, ninguém imaginava a façanha que aqueles 22 homens estavam prestes a realizar. O time da casa ainda sonhava com a fuga do rebaixamento e esse era o sentimento da comunidade e dos profissionais que defendiam a camisa rubro-negra naquela noite. Talvez um jogo truncado, difícil. Talvez um jogo fácil pela situação do adversário, rebaixado matematicamente. Nada disso. Foi um jogo totalmente atípico, um jogo meio carioca, meio paulista. Não estávamos presenciando uma partida da segunda divisão gaúcha. Ou talvez fosse um déjà vu dos campeonatos de botão que disputávamos na nossa infância?

Disputa em campo durante um jogo histórico na Divisão de Acesso 2012 (MARCELO PINTO/A PLATEIA)

O jogo

Logo aos 2 minutos de partida Foletti abriu o marcador para os donos da casa e foi logo ampliando aos 27 minutos. 14 de Julho 2 a zero em casa e com a torcida a favor. Roteiro até então perfeito para o filme quatorzeano. Porém, o Guarani também chegou a Livramento disposto a jogar futebol e ainda no primeiro tempo virou o placar para 3×2. Carlos Alberto aos 29, Branco aos 35 e Rodolfo aos 38 da primeira etapa.

Segundo tempo: mesma atitude dos mandantes, gol nos primeiros minutos e empate decretado: Chips ainda no primeiro minuto. O jogo já começava a ganhar contornos especiais. A torcida tanto no estádio como em casa, trabalho, transito ou sabe-se lá onde um vivente possa escutar uma partida de futebol, sentia que aquela noite seria marcante. Mal sabia este torcedor que a igualdade em 3 gols ficaria para trás. A reação santanense não durou nem 3 minutos e aos 4 da segunda etapa Rodolfo novamente ampliava o marcador para o Guarani.

Foi então que uma sequência de gols fez o torcedor, narradores e repórteres até se perderem no escore. O quinto gol visitante foi marcado por Daniel aos 10 minutos; aos 12 Gamela diminuiu e aos 19 Hilton empatou para o 14 de Julho: 5×5. Torcida inflamada e jogadores um tanto quanto perplexos com a facilidade de chegada aos gols adversários. Jogo totalmente aberto.

A pausa de gols durou 18 minutos. Foi quando Alex marcou o sexto gol e Japa marcou o inacreditável sétimo gol aos 42 minutos em uma troca de passes tão fácil que parecia que os jogadores do 14 estavam sem forças para reagir. Parecia que nem mesmo os atletas acreditavam que estavam disputando uma partida oficial e pela segunda divisão do gauchão naquela noite.

7 a 5 para o Guarani e ainda houve espaço para mais um gol. O derradeiro da noite. O camisa 9 de ofício (que jogou com a 10 naquela noite) Hilton, marcou o sexto gol do Esporte Clube 14 de Julho. O último gol do time na Divisão de Acesso do Campeonato Gaúcho de 2012. O último na verdadeira segundona gaúcha. O último lance de uma campanha desastrosa que culminou com a derrota por incríveis 7 gols em casa para um time que já havia sido rebaixado. Ambos sucumbiram à terceirona, a oficialmente conhecida segundona.

Os deuses do futebol guardaram este jogaço para a noite de uma quarta-feira em Santana do Livramento. Guardaram para a segunda divisão do campeonato gaúcho. Guardaram para o 14 de Julho. Era pouco provável que o mandante deixaria escapar a oportunidade de seguir vivo na disputa. Jogando em seus domínios, o resultado imaginável de um jogo histórico com 13 gols era a vitória do 14.
Mas o “verdadeiro campeão gaúcho de 2002”, o Guarani de Venâncio Aires, veio (a Livramento de onde sai este texto), viu e venceu. Meteu sete gols nos barbantes rubro-negros e mostrou que o futebol, ah! o futebol, é sim aquela caixinha de surpresas que tanto a gente escutou falar. O gramado então esvaziou-se e o orvalho tornou-se em lágrimas rubro-negras na retina do repórter da rádio santanense.

Luis Paulo chora após derrota que decretou o rebaixamento do 14 de Julho (MARCELO PINTO/A PLATEIA)

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