Chegou o dia

Não é fácil escrever com as mãos embebidas em lágrimas. Ainda mais por lágrimas derramadas em um local que, agora, não existe mais. Tantos minutos, tantas emoções, tantos sonhos, tantas frustrações, tantas tristezas, tantas alegrias. Tudo destruído em um piscar de olhos, como se nossa alma não estivesse ali, sofrendo e doendo a cada RETROESCAVADEIRADA aplicada sem dó àquele pedaço de concreto que sempre foi a extensão de nosso corpo.

Todos já sabíamos, há anos, que esse dia chegaria. Não passamos da etapa da depressão, porém. Tudo ainda dói. É difícil acreditar, mas, porra, esse dia chegou. A pauladas e dinamitadas, derrubaram o Florestal.

E eu nem tava lá pra ver.

Quem é a pessoa que faz isso? Que maldito especulador imobiliário se acha no direito de em um turno de trabalho acabar com as poucas coisas que ainda valem a pena no mundo em troca de uns vis milhões de reais?

Esse pequeno pedaço de terra em Lajeado, destinado a se transformar em prédios que enriquecerão ainda mais os assassinos, viu de tudo em meio século. Viu o definhante Clássico das Barrancas, viu o devaneio do São José, viu a Associação Lajeado de Esportes, viu milhões de finais de futebol amador, viu Paulo Heineck, viu Gélson Vila Fão, viu Mauro, viu Vandeco, viu Jorjão, viu Rudiero, viu Fernando Miguel. Viu a conquista e o roubo de taças. Viu até o seu próprio abandono e transformação em ponto de tráfico nos últimos dias de vida, o que forçou a antecipação do atentado.

Vocês aí, que falam em Copa do Mundo, crescimento ecônomico e modernidade, que acham bonito a bolha imobiliária expulsar-nos pra locais cada vez mais longínquos por meras promessas de migalhas arquiteto e eletrônicas, criem vergonha na cara. É culpa de vocês. Sejam quem forem, estejam onde estiverem. Todos vocês.

Sentem em suas cadeiras estofadas de três salários mínimos por mês, peguem as suas pipocas e as suas Coca-Colas, enquadrem suas câmeras de última geração, twittem em seus iphones e assistam, no pay-per-view, à derrota humana.

Muito obrigado por nada.

A nós, que ainda temos coração mas não temos voz nem poder, só nos resta chorar. E lembrar de como tudo sempre foi lindo antes de vocês:

http://impedimento.org/2011/11/23/minhalma-verte-lagrimas-de-fruki/

Acreditando mais em discos voadores do que na humanidade,
Guilherme Daroit

Publicado em Lajeadense. ligação permanente.

11 Respostas a Chegou o dia

  1. Porra, Daroit. Sinto muito, de verdade.
    É aquela coisa já esperada, mas que sempre machuca, especialmente quando chega o dia.
    Fico pensando que, mesmo que não seja iminente, este dia chegará também para o Jaconi algum dia. Não pelo estado do estádio, que tá muito bem conservado, mas por sua localização, totalmente central em Caxias do Sul.
    E fica a lembrança – agora só ela – que o estádio onde o Ju conquistou sua última taça até agora, que o viabilizou para participar da série D (que não começa nunca), agora é apenas história, registros fotográficos e de vídeo.
    Os estádios tradicionais se vão, pela força da máquina imobiliária, novos são construídos longe de sua base de torcedores e o que já é difícil – manter um clube fora da mídia capitalina vivo – fica ainda mais.
    E só o que se comenta no país é se um jogador em fim de carreira treinava bêbado ou não… foda.

  2. Maurício Klaser diz:

    Tudo em nome da REVITALIZAÇÃO DE BAIRROS, ou seja, mandar quem morava ali perto para um lugar LONGE e deixar a cidade “””””””””””bonita””””””””””

  3. hehehe nesse quesito o Centenário ta a salvo, os coxinhas da especulação imobiliaria tem medo/nojo da região, haha.

    Belissimo texto, me faz relembrar que preciso conhecer mais estádios RS a fora.

  4. Caco diz:

    Cara, o negócio é imaginar que os fantasmas dos 500 “de fé” que estavam sempre lá irão assombrar com uma charanga demoníaca o sono dos novos-ricos em seus apartamentos de trezentos metros quadrados. Por mais velas aromáticas que usarem, não sairá do ambiente o cheiro nauseabundo de terebentina misturada com gelol, papel higiênico queimado e fritura de pastel… que assim seja, é praga rogada.

  5. Natan diz:

    Sei bem o que é essa situação caros companheiros. Aqui em São leopoldo, volta e meia, surge um boato demolição do Cristo Rei para se erguer uma arena e blá blá.
    Espero que isso fique na esfera da boataria por muito e muito tempo hehe.

    Abraço a todos,
    Natan.

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  7. haroldo p. hugo diz:

    Que lindo texto! Muit lindo mesmo…

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