Contra a corrente do deslumbramento

O futuro do São Luiz (sem escanteio curto). Foto: Arquivo pessoal.

É preciso contextualizar. Desde 2006, primeiro ano do São Luiz após voltar para a elite do Gauchão, até agora, o clube ijuiense vem sendo dirigido pelo mesmo grupo. Aquilo que na maior parte dos casos pode representar uma estagnação, no caso são-luizense deu certo. Embora pouquíssimas campanhas tenham merecido algum destaque, o objetivo primeiro e declarado sempre foi lutar para se manter na primeira divisão e preparar o futuro. Não porque se pensasse pequeno, mas por ser o passo inicial para começar a zerar uma dívida de dois milhões de reais. Se com as verbas da Segundona ninguém consegue sequer pagar dois meses de salário de um time fraco, imagine viabilizar as finanças do clube pensando em longo prazo.

Com investimentos reduzidos, buscando aquele complicado equilíbrio entre pagar dívidas antigas e formar uma equipe capaz de se manter, o São Luiz foi bem-sucedido. O rebaixamento passou perto INFINITAS VEZES (em 2006, 2007 e 2009 o time acabou na última posição acima da zona de queda; em 2011 e 2012 passou boa parte do Gauchão assustado), mas nunca veio, e aqueles dois milhões de reais devidos baixaram para meio milhão, no fim do ano passado, enquanto as dívidas trabalhistas chegaram a zero. No meio disso, a direção fez evoluções interessantes para aumentar a identificação dos torcedores com o clube – por exemplo, em 2009, depois de mais de setenta anos de vida, o São Luiz finalmente ganharia um hino e um mascote oficiais.

O trabalho exemplar, porém, obrigatoriamente tem o peso da lentidão. Não se desconstroem décadas de gastança desenfreada e juros acumulados de um ano para o outro. O convencimento pela paciência, porém, é difícil. E de dois anos para cá, parte das cabeças do clube passou a defender o “crescimento”, assegurando que era chegada a hora de ter futebol o ano inteiro e construir um estádio novo. Ainda que a primeira medida seja louvável, adotá-la neste momento significa abrir mão de todo o trabalho anterior, jogando um clube ainda não totalmente recuperado na disputa das deficitárias competições do segundo semestre. Já a parte do estádio é totalmente DESARVORADA.

Em abril, utilizei minha coluna no Jornal da Manhã de Ijuí para nadar contra essa corrente que prega o crescimento insustentável, oferecendo argumentos para os conselheiros mais consequentes questionarem a figura colorida demais que alguns andavam pintando. Abaixo, reproduzo a essência dos textos:

Contra a corrente (Parte I) – Devemos parar

É um erro o São Luiz jogar a Copa organizada pela FGF no segundo semestre. Estratégico e histórico. Claro que boa parte da crônica local defende posição distinta, e não faltam boas justificativas: manter o clube ativo o ano inteiro seria chegar a um “novo patamar”, dando uma noção de mais força e grandeza, ofereceria a chance de nos classificarmos para uma competição nacional e, se tudo desse errado, ao menos renderia assunto para a própria imprensa.

Mas os argumentos caem numa análise simplista. A Copa FGF é comprovadamente deficitária para todos os envolvidos. Trata-se de um torneio de fórmula desinteressante – a primeira fase, que corresponde a mais de dois terços dos jogos, classifica praticamente todos os participantes, e a etapa quente é eliminatória e rende no máximo quatro partidas em casa –, que representa gastos por uma compensação esportiva não tão promissora assim. Ir a uma competição nacional como a Série D supera nossas capacidades financeiras. Não foram poucos os clubes que ousaram entrar no torneio, no meio do caminho se descobriram sozinhos (e o apoio sempre some, no interior, tão logo os resultados pendam para o lado ruim) e abriram rombos financeiros tão grandes que, poucos anos depois, acabaram na segunda divisão estadual. Mais recentemente, falamos de Esportivo e Inter-SM – e eles jogaram a Série C.

Somos um clube ainda em dificuldade, cuja sobrevivência e saneamento econômico depende de estar na primeira divisão. Os clubes da elite recebem valores que se aproximam cada vez mais do milhão de reais, enquanto os da B ganham da FGF cerca de 30 mil dinheiros para se virar. É um abismo. E o risco de cair tem estado sempre presente em Ijuí. Ainda não é o momento de nos permitirmos luxos ingênuos como a utopia ufanista do “temos futebol o ano inteiro – como somos grandes”. Entrar num torneio que oferece gastos certos e quase nenhum retorno, apenas pelo fetiche de ter uma equipe ativa, significa hoje um risco evitável do qual devemos nos arrepender. A última vez que o São Luiz jogou a Copa do segundo semestre foi em 2005. Havíamos acabado de erguer a taça da Segundona, a cidade estava em chamas e mesmo assim o torneio era tão pouco atrativo que o 19 de Outubro vivia esvaziado.

Pensar grande é necessário, mas uma coisa é pensar grande e outra bem diferente é pregar um discurso de grandeza sem, na realidade, pensar a respeito dele. Se de fato temos algum dinheiro para investir no restante do ano, muito mais válido neste momento é destiná-lo às categorias de base, para a formação de atletas e disputa de torneios, que sabemos bem da dureza que tem sido manter as equipes inferiores ativas. A continuidade delas é uma garantia mais certa de futuro do que qualquer ideia imediatista. No mais, o Veranópolis é um exemplo de clube que, apesar de sediado numa região mais enriquecida que a nossa, foge desesperadamente do segundo semestre. Em 2012, foi Campeão do Interior.

Contra a corrente (Parte II) – Ficar onde estamos

Sendo ainda mais inconveniente quanto ao futuro do São Luiz, desta vez ergo a voz para contrariar o projeto de novo estádio. Não incluo argumentos saudosistas pela permanência, ainda que defenda a presença da EMOÇÃO no debate – aqui farai apenas ponderações concretas sobre o grande equívoco que se desenha. Registro que, em defesa da mudança, alegam-se hoje a impossibilidade de ampliar a cancha atual e a necessidade de pagar as dívidas restantes, para as quais a venda do 19 de Outubro seria uma solução rápida. 

Por conta do espaço, evitarei analisar esses pontos, que são questionáveis, e falo apenas do local imaginado para o novo campo, nos limites da zona urbana. No futebol, raramente é bom negócio sair de uma zona central, e menos ainda quando esse abandono significa partir para onde a cidade nem chegou. Cria-se uma situação duplamente danosa ao público. Aumentam a distância física e os custos – de deslocamento e para entrar no jogo, levando em conta que o clube deve aumentar o valor do ingresso ao oferecer “mais conforto”. Nos primeiros anos, pela novidade, pode funcionar. E depois?

Quando o estádio deixar de encantar por si só e estivermos metidos numa campanha ruim, e ir a um jogo de qualidade duvidosa demandar mais tempo e dinheiro do que hoje – quantos irão? Neste caso, o clube baixará o preço dos ingressos para ter mais apelo? Fazendo isso, não se complicaria a saúde financeira para a manutenção do estádio e da equipe? Não voltariam as dívidas? É contraditório confiar só na paixão do torcedor, quando o clube voluntariamente se afasta dele, em meio a um contexto em que o futebol do interior se enfraquece justamente pela perda de identificação.

Mesmo que possa haver a estimativa de alugar um espaço comercial, será tão simples encontrar investidores dispostos a se instalar fora da cidade? Parece pouco sólido o argumento de que Ijuí “logo crescerá” para aqueles lados. Ijuí vive uma bolha de crescimento imobiliário insustentável, e na hora do estouro a ressaca pode nos fazer esperar décadas até que realmente haja urbanização interessante para manter um empreendimento naquela região. Em Soccernomics, um dos melhores livros sobre a economia do futebol, Simon Kuper e Stefan Szymanski desfazem os mitos em torno das projeções feitas pelos construtores de estádios:

O estudo de ‘impacto econômico’ oferece a esse modelo alguns números grandes. […] O melhor de tudo é que ninguém jamais conseguirá provar que o número está errado. Suponha que você prometa que um estádio dará a uma cidade benefícios econômicos de 2 bilhões de dólares em dez anos. Se o faturamento da cidade (difícil de avaliar) aumentar apenas 1 bilhão de dólares na década, o motivo [alegado] para a restrição do faturamento será outro (a economia mundial, digamos).

Nenhuma estimativa é “errada”, e esse é o perigo. Elas sempre são otimistas e quase sempre, acima da realidade. Em Ijuí não falamos em números na casa de bilhões e nem em retorno para a cidade, porque não buscamos (ainda) financiamento público. Mas pense a citação anterior em termos de ganhos econômicos para o clube e de crescimento previsto ao redor do estádio. A premissa segue sendo verdadeira. Há que se ter cuidado com o deslumbramento do novo. Hoje, mesmo que lentamente, temos pagado as nossas tão temidas dívidas. Vendendo o 19 de Outubro, até podemos zerá-las de uma vez. Mas de que nos servirá isso se daqui a quinze anos estivermos sozinhos, no meio do nada, e sem poder sair dali?

Não matem o futuro do São Luiz,
Maurício Brum

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8 Respostas a Contra a corrente do deslumbramento

  1. beretta diz:

    Essa foto do início já é muito matadora, os argumentos que tu defende são muito válidos.

    Quem dera os representantes dos clubes vissem isso e trabalhassem em prol de uma melhoria contínua no clube.

  2. Vini Araujo diz:

    Grande Maurício Brum. Baita texto, com argumentos fortes, coerentes e convincentes. Realmente o São Luiz deve fazer um debate mais profundo sobre essas questões. Coisa que ainda carecemos aqui em Três Passos… Pensar o futuro com bastante zelo e discernimento.

  3. Gustavo diz:

    Até entendo os argumentos para o momento, mas e a previsão de mudança disso? Quando se dará? Eternamente o São Luis irá ser um clube de verão. O Veranópolis não é bom exemplo. Há clubes mais interessantes no RS a quem se espelhar. O Cerâmica é um.

  4. Maurício Brum diz:

    #3

    O Veranópolis é um bom exemplo para o que devemos pretender ser médio prazo. O São Luiz é um time que brigou para não cair em cinco das sete temporadas que disputou desde que venceu a Segundona, em 2005. Começar a gastar mais pelo objetivo abstrato de estar ativo sempre não vai melhorar essa realidade. Antes de querer o clube ativo o ano inteiro a qualquer custo, mais vale torná-lo competitivo e constante. Certamente a torcida de Ijuí preferiria ver o São Luiz podendo pleitear uma decisão de turno eventualmente do que jogando tudo o que for possível com a mediocridade de hoje. Quando foi a última vez que o VEC brigou para não cair mesmo? Pois é. Concordo que é lamentável eles, que têm boas condições para tentarem algo mais, simplesmente não tentarem – mas se evitam é porque há uma boa razão. Nas condições atuais do clube – e oferecidas pela FGF – pedir futebol o ano inteiro é um fetichismo que custará caro demais.

    Ainda não considero o Cerâmica exemplar no que diz respeito à perenidade. A ascensão deles é fantástica, mas aí que tá – ainda estamos no momento da ascensão, quando tudo é bonito. Por enquanto só experimentamos uma temporada de Cerâmica na primeira divisão, com resultados médios (o que é relevado pela condição de estreante). Ainda não sabemos como o clube e a torcida vão se comportar conforme o tempo for passando e, quem sabe, o entusiasmo destes dias diminuir.

    Enfim, são formas diferentes de pensar. Acho uma droga que o São Luiz não jogue mais do que atualmente, mas meu objetivo primeiro sempre será que o clube se eternize – e pelo menos siga jogando algo – e apenas de forma secundária buscar construir aquele grande ano que lembraremos pelo resto da vida, porque se for um passo maior que as pernas, poderemos lembrar esse grande ano pelo resto da vida com o clube fechado. Ou enterrado há trinta anos na segunda divisão. E não tenho dúvidas de que no caso do São Luiz, que em 2012 ficou dois pontos acima do rebaixamento, seria um passo maior que as pernas.

  5. Maurício Brum diz:

    Ah, outra questão: desde que o São Luiz subiu pela primeira vez desde os anos 70, no saudoso ano de 1991, ele é um dos times que mais disputou a primeira divisão do Gauchão. Abaixo das eternas duplas Gre-Nal e Ca-Ju, só o Santa Cruz jogou mais vezes. De 1991 até hoje, o São Luiz só esteve apartado da primeira divisão no biênio 2004-2005. O que significa que estamos tratando de um dos clubes – e de dirigentes – mais experimentados das últimas duas décadas em termos de se manter na elite e optar, ou não, por fazer algo mais. Este é um dado bastante interessante e desconhecido, mas que serve para observar bem alguns pontos sobre a trajetória do clube:

    1) Ao longo dos anos 90, o São Luiz foi um clube de futebol o ano inteiro. Jogou – e até venceu – as competições além do Gauchão, chegou a disputar a Série C, fez “o grande ano que recordaremos pelo resto das vidas” (semifinais em 1995, e mais algumas boas tentativas que não chegaram tão longe), ampliou o estádio e ficou longe da zona de rebaixamento.

    2) Seja porque as competições já eram deficitárias (e eram; além do fato de que as verbas da FGF eram substancialmente menores) ou porque as direções eram incompetentes (e certamente algumas foram), tudo isso gerou uma bola de neve de endividamento. Elas foram sendo empurradas até o fim da década, com algum sucesso. De fato, ainda em dezembro de 1999 o São Luiz venceu uma dessas copas de segundo semestre (a Copa Mais Fácil – PIOR NOME). A partir de 2000, porém, o São Luiz esteve brigando para não cair em 80% das temporadas que disputou (foi rebaixado em 2003, mas voltou logo, em 2005). De fato, é mais fácil citar apenas as temporadas em que não houve risco: 2002, 2008 e 2010.

    3) Desde que subiu, o São Luiz adotou esse modelo mais cauteloso, a fim de pagar as dívidas e garantir um futuro. Não foi coincidência a partir daí ter abdicado das competições além do Gauchão. Estamos muito melhores em termos administrativos do que há sete anos. E vem chegando o momento de começar a brigar por coisas maiores do que só se manter. Mas AINDA temos dívidas (que hoje parecem administráveis, mas vá cair uma vez para ver o quão desesperadoras elas são) e, como eu ressaltei no texto, MAL E MAL conseguimos sustentar as categorias de base – que deveriam ser um projeto anterior ao futebol profissional em tempo integral.

    A encruzilhada deste momento é: a partir daqui, como crescer? O novo estádio e a disputa de mais competições centralizam os debates em Ijuí, mas com argumentos tão pouco sólidos que é real o risco de voltarmos ao deslumbramento dos gastos inconsequentes dos anos 90. Esses textos eram mais uma tentativa de retomar o debate, porque parte dos conselheiros do clube já vinha aceitando bovinamente o discurso simplista de que “isso” é crescer.

    Abraços

  6. Maurício Brum diz:

    DESCULPEM PELA EXTENSÃO DE TUDO, MAS O DEBATE É INTERESSANTE.

  7. Natan diz:

    Muito interessante a questão senhores!

    Lanço uma questão por falta de conhecimento. A GM está a patrocinar o Cerâmica desde o seu ingresso no profissionalismo?

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