Quando voltar a sonhar não custa nada

O ano era 2004. A cidade, Cachoeira do Sul. Uma comunidade inteira apoiando o estopim de um clube em franca ressurreição. Isso por que dois anos antes o maior rival, o São José, havia galgado seu lugar na divisão máxima do estado. Era hora de o Cachoeira Futebol Clube dar a resposta. Domingo não era mais dia de cachoeirense de verdade parar em frente à televisão e ver um tal de campeonato brasileiro. Era dia de pegar o radinho de pilhas, colocar uma camisa vermelha e ir para o Joaquim Vidal. 

O foguetório, por vezes mal feito, estourado antes da hora, acusava a entrada em campo de onze guerreiros em busca de um objetivo. Conquistar o acesso à elite depois de fechar as portas em 1982, retornar aos trancos e barrancos em 1999 e promover um carnaval fora de época na cidade ao vencer a Terceirona em 2001 faria do Cachoeira um clube emergente do interior gaúcho. Estava na hora de virar um clube vencedor, imponente, temido, como – pasmem – um dia foi.

Fundado em 24 de fevereiro de 1914 na residência do estudante Henrique Müller Barros, que mais tarde se tornaria médico no município, o Cachoeira Futebol Clube dispõe de um currículo de dar inveja a muitos pseudo-clubes por esse Rio Grande afora.

Sagrou-se duas vezes vice-campeão do interior e terceiro colocado no Campeonato Gaúcho, em 1944 e 1948. Na base da entrega e do fator campo, o rubro sempre foi um adversário terrível para a dupla Gre-nal nas partidas disputadas no Estádio Joaquim Vidal. Duas são inesquecíveis. Em 1965, o Cachoeira desbancou o Grêmio, que era tricampeão gaúcho. Os gols da vitória foram marcados por Hélio Alves e Sérgio Augusto. Alcindo descontou para o tricolor. Em 1972 o Inter, que era tricampeão gaúcho, acabou sendo surpreendido e perdeu por 1 a 0. O gol da vitória foi marcado por Bino, então presidente do clube em 2004 – o ano onde tudo caminhava em direção a uma classificação histórica.

1965: Cachoeira 2x1 Grêmio

A  conquista de 2001, que teve disputa acirrada com o simpático Juventus de Santa Rosa, colocou o Cachoeira de volta à série B gaúcha. Como não lembrar daquela final épica frente ao Farroupilha, em um Joaquim Vidal lotado. O testaço certeiro do meia Aquiles carimbou a taça e o passaporte para um sonho. Alguns dos jogadores que estiveram nesse triunfo indescritível também participaram do elenco de 2004.

O time era batalhador. Sem um brilho individual específico, amparava-se no conjunto para conquistar bons resultados. O motivador Teco Tatsch berrava à beira do campo para Márcio no gol; uma linha sólida de três zagueiros com Toco, Son e Felipe; Dasca pela direita, Bi e Cláudio Rogério como cães de guarda no meio campo, Ademir incansável na armação e Marcelo Xavier no flanco esquerdo; na frente Cléverson – hoje desfilando seu futebol pelo Brasil, e o goleador Mateus Porto. A primeira fase da competição serviu para mostrar que seria difícil bater o querido Cachoeirinha. Vitórias em casa, aliadas a pontos importantes buscado fora, colocaram o clube na liderança de sua chave. Por força das circunstâncias, a segunda etapa do torneio reservaria jogos mais difíceis. Ainda assim, a boa campanha nos jogos em casa seguiu dando ao Cachoeira a esperança do acesso, já que terminou o primeiro turno com boa vantagem para o terceiro colocado da chave.

Tudo corria bem até uma derrota sintomática frente ao Garibaldi, um pesado 0x3 fora de casa. O jogo seguinte, contra o RS Futebol do Paulo César Carpeggiani, seria determinante para a vaga no quadrangular final. Era preciso vencer em casa, algo que o Cachoeira se acostumou a fazer na trajetória da série B de 2004. Não deu. O empate em 1×1 fez com que se ouvisse o silêncio do Joaquim Vidal ao final do jogo. Só um milagre daria a classificação faltando duas rodadas, sendo uma delas diante do então líder Sapiranga, na casa do adversário. A goleada por 6×2 diante do Lami na última rodada serviu apenas para orgulhar toda a comunidade cachoeirense pelo renascimento de seu mais querido time.

Após esse nebuloso desfecho de campeonato, onde faltaram míseros dois pontos para o rubro ir adiante, o clube se viu em um triste quadro: o ostracismo. Três anos de más campanhas e gestões, até novamente o beco sem saída das dívidas trabalhistas, processos, penhora da sede… enfim, o resultado era anunciado. Portas fechadas mais uma vez. Oito anos depois de um sonho interrompido, os torcedores cachoeirenses terão a oportunidade de voltar a viver essa paixão. O Cachoeira Futebol Clube reinicia sua história em agosto, disputando a terceira divisão gaúcha, com a missão de reerguer uma camisa que nunca deixará de ser respeitada. A apresentação do novo grupo e comissão técnica será nessa sexta-feira, no Hotel Everson, em Cachoeira do Sul.

Sonhar, mesmo que seja outra vez, não custa nada.

Eduardo Schiefelbein

Publicado em Cachoeira, Terceirona. ligação permanente.

11 Respostas a Quando voltar a sonhar não custa nada

  1. São notícias como essa, de clubes insistindo em renascer, que me fazem suportar as dos estádios e clubes desaparecendo. Bem-vindos, Eduardo e Cachoeira!

  2. beretta diz:

    Baita colaboração. Maior notícia é quando um clube não desiste de se manter em pé.

    VAMO!

  3. Porra, que massa! Bela história.

    Persistência e coragem é metade do caminho percorrido. Simbora, CFC.

  4. Vitor Severo diz:

    Excelente texto, parabéns ao autor!

  5. Vini Araujo diz:

    Belo relato do amigo Eduardo. Boas-vindas ao velho guerreiro Cachoeira.. se tudo der certo, encontraremos vocês nos embates dessa terceira divisão..

  6. Balejos diz:

    Tchê, que história! Um clube onde um ex-jogador deseja ser (e no caso foi) presidente deve ser respeitado e manter suas portas abertas pra sempre. Isso é superior.

  7. Natan Dalprá Rodrigues diz:

    Adelante!

  8. Roger Weber diz:

    Texto incrível, todos juntos por mais um renascimento do Cachoeira Futebol Clube!

  9. Gabriel Meira Moraes diz:

    ao ler esse texto, não tive como nao me emocionar, pois sou filho do Bino, ex presidente do CFC e que hoje infelizmente nao esta mais conosco. Ao lembrar de tudo que ele fez por essa camisa, sinto um mixto de orgulho com tristesa, pois para ele sei que foi o maximo que pode dar ao clube, colocando-o a frente de sua familia por muitas vezes. mas o maior sentimento, é que ele se propos a fazer o Cachoeira grande novamente na cidade com aquele acesso a segundona. parabéns pelo texto

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  11. Jose Ruben diz:

    Entrei aqui para procurar mais fotos antigas do Cachoeira FC e nao achei. Vi uma no Jornal do Povo em Paginas do Passado, foto de 78, 79 mais ou menos, time que tinha o Chico Preto e o Edir. O Cachoeira tinha bons times na década de 60 tambem e sempre tiravam fotos dos times naquela formação clássica antes dos jogos. Será que nao se encontra mais nada para postarem aqui? Grato

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