13 anos de um Maracanã calado pelo interior

Treze anos. Tempos em que, mesmo no interior, era possível estar na elite do futebol brasileiro e, por vezes, não militando apenas como mero figurante. Tempos em que este mesmo interior ousava PENETRAR na festa dos abastados, roubando a cena. Tempos em que arábias, leste europeu, asiáticos e outros menos cotados ainda deixavam aqui jogadores capazes de pregar algumas PEÇAS na base da organização. Tempo em que o Juventude protagonizou o maior feito de um clube do interior gaúcho.

Talvez nem o mais confiante torcedor papo poderia imaginar que aquele 1999 poderia ser mais DADIVOSO que o ano anterior, quando conquistou seu primeiro (e único até hoje) campeonato gaúcho, quebrando décadas de hegemonia da dupla da capital.

O início da caminhada histórica começou no BEZERRÃO, em Brasília, na noite de 04 de março. Aproveitando-se do regulamento da Copa do Brasil em suas fases iniciais, o Juventude goleou o Guará por 5 a 1 e eliminou o time da casa sem necessidade do jogo de volta, com gols de Capone, Mabília, Fernando (2) e Dênis, descontando Santos para os eliminados.

E aqui, temos uma PEGADINHA histórica. Todos guardam na memória apenas que o comando do time foi de Walmir Louruz, ex-zagueiro que encerrou sua carreira de jogador e iniciou a de treinador no próprio Juventude nos anos 80. O que não é uma inverdade. Porém, na estreia da Copa do Brasil 1999, o treinador do Ju era Geninho. Louruz só passou a conduzir o Papo ao título a partir da segunda fase.

E o Fluminense, treinado por Parreira e então na terceira divisão nacional, era o adversário. Talvez pensando que o fato do Flu estar na série C significaria tranquilidade, a LUZ ALTA não demorou a acontecer: derrota de 3 a 1 de virada para o time carioca, na noite de 17 de março, no Maracanã (estádio que se tornaria ILUMINADO poucos meses mais tarde). Roni, Túlio e Flávio anotaram para o tricolor e Wallace para a papada. O jogo de volta, num 07 de abril, impunha uma obrigação ao Ju para seguir vivo na competição: vencer por dois gols ou mais. Pelo jeito, o time entendeu apenas o “OU MAIS”. Enfiou 6 a 0 no time de Laranjeiras, sendo que o capitão Flávio sozinho fez 4 deles. Capone e Maurílio completaram a goleada.

Juventude 6×0 Fluminense

Na sequência de pedreiras (sim, naquela época a Copa do Brasil não era esvaziada com a ausência de times classificados para a Libertadores), o próximo da fila era o Corinthians, campeão brasileiro do ano anterior e que levantaria a taça também naquele ano. Primeiro jogo no Jaconi: inapeláveis 2 a 0 para o Juventude, gols de Capone e Índio. Na volta, apenas TRÊS dias depois, em pleno Pacaembu, nova vitória verde, com Márcio MEXERICA marcando o gol solitário, e encerrando a participação da turma de Gamarra, Marcelinho e Edílson.

A próxima vítima era o Bahia. Joel ‘JEJÃO’ Santana, Uéslei e cia. foram a pedra mais difícil na trajetória. Dois empates PEGADOS, o primeiro no Jaconi (12/05) e o segundo na Fonte Nova (19/05). Ambos empatados em 2 a 2. Em Caxias, Mabília e Mário Tilico para o Ju e Uéslei os dois do Baêa (abrindo e fechando o marcador). Em Salvador, O Papo saiu na frente com Capone, mas sofreu a virada com Uéslei e Vinícius Carioca. No finalzinho, Tilico garantiu a decisão por pênaltis, na qual o goleiro Emerson pegou até pensamento: 4 a 1 para os caxienses.

A escalada parecia não ter fim. A semifinal seria contra o Internacional. Um encontro que já ganhava contornos de novo clássico regional. O adversário derrotado na final do estadual do ano anterior vinha reforçado. Nomes como Dunga, Gonçalves, Elivélton, Fabiano e Christian estavam entre os onze do FILÓSOFO Paulo Autuori, que buscava freneticamente um título em seu aniversário de 90 anos. Na primeira partida, em Caxias do Sul (26/5), tudo parecia correr bem para o time da capital. O empate sem gols levava a decisão para o Beira-Rio, onde o colorado esperava dar o troco pelo Gauchão vencido pelo Juventude na casa vermelha.

O que se viu em campo com certeza foi bem diferente do esperado. A noite de 02 de junho de 1999 nunca mais foi esquecida pelos colorados (e nem por mim, aniversariante do dia anterior e que recebia seu presente com um dia de atraso, porém TOTALMENTE aceitável). O que parecia se complicar desde cedo, com a lesão do capitão Flávio e chances perdidas pelo Inter, começou a se tranquilizar quando Marcos Teixeira soltou a bomba e abriu o placar antes do final do primeiro tempo. No segundo, o SELAMENTO do caixão: Márcio Mexerica, Mabília e Capone decretaram para todo o país que o Juventude estava na final!

Internacional 0x4 Juventude

E que viesse o Botafogo, que havia eliminado Paysandú, Criciúma, São Paulo, Atlético Paranaense e Palmeiras (que viria a ser campeão da Libertadores naquele ano) para chegar até a decisão e que tinha em BEBETO BALANÇO sua principal figura. O jogo final (que dúvida…) seria novamente fora de casa, num Maracanã que certamente estaria lotado. O Juventude sabia que a chance da conquista passava pelo jogo do Jaconi, naquele 20 de junho, aniversário da cidade. E tratou de não perder tempo. Antes da metade da etapa inicial, já vencia por 2 a 0, gols de Fernando (que substituiu Maurílio naquele jogo) e Márcio Mexerica.

O zagueiro botafoguense Sandro e o meia papo Wallace se ENTREVERARAM e acabaram expulsos antes mesmo do intervalo. E antes do intervalo também, Bebeto aproveitou a bobeada do lateral Dênis e, livre, descontou para os cariocas, jogando um balde de água fria na papada, que via sua vantagem para o segundo jogo diminuir. O segundo tempo foi ainda mais eletrizante, com pressão alternada de ambos os lados, mais uma expulsão (Capone, pelo Ju) e gols do Botafogo (MUITO BEM) anulados.

Como se esperava, mais de cem mil pessoas lotaram o Maracanã para a finalíssima. Para ser mais exato, 101.581 torcedores estavam no estádio há exatos 13 anos. Apenas cerca de 1.500 desse mar de gente eram papos. Mas eram os predestinados e afortunados de poderem presenciar, em carne e osso, o que toda uma torcida o fazia com a ALMA, milhares de quilômetros dali, lhos grudados na tevê. Qualquer empate servia ao Juventude, enquanto o simples 1 a 0 daria a taça ao alvinegro. A partida, talvez para os NEUTROS ou SECADORES DE CANTO DE OLHO, pode ter sido morna. Para a papada, o tempo não passava. Porém, em campo, após a natural pressão inicial carioca, o Juventude retomou o controle do jogo e fez o tempo passar até o seu final.

O Juventude, superando todas as adversidades que surgiram em seu caminho e surpreendendo, além de todo um país, SEU PRÓPRIO ESTADO, pois não havia e nunca haverá isso de “o Juventude é o RS”, especialmente na capital, conquistava a 11ª edição da Copa do Brasil, edição 1999, um dos orgulhos que nada nem ninguém nunca poderá tirar da PAPADA!

Botafogo x Juventude

Ficha técnica da final:

Botafogo: Wagner, Fábio Augusto, Jorge Luiz, Bandoch e César Prates (Leandro); Júnior, Reidner, Caio (Rodrigo) e Sérgio Manoel; Zé Carlos e Bebeto (Felipe). Técnico: Gílson Nunes

Juventude: Émerson, Marcos Teixeira, Picolli, Índio e Dênis; Lauro (Kiko), Roberto, Flávio e Mabília (Gil Baiano); Maurílio, Márcio Mexerica (Alcir). Técnico: Valmir Louruz

Local: Maracanã – Rio de Janeiro/RJ
Árbitro: Antônio Pereira da Silva
Público total: 101.581

Gols e jogos de toda campanha

Querendo que aquele 27 de junho nunca tivesse acabado,

Franco Garibaldi  (@francogaribaldi)

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15 Respostas a 13 anos de um Maracanã calado pelo interior

  1. Jean Mello diz:

    Velho, não lembrava que os adversários do Juventude tinham sido tão foda assim…
    Pudera, só lembro de pegar simpatia pelo “Palmeiras de Cacias” depois deles socarem 4 a zero no inter na semi….

  2. leonardo diz:

    Parabéns pelo texto, quem le esse texto se lembra de toda aquela jornada que nunca vai sair da minha memória.

  3. Diogo diz:

    Bah! E cadê a FGF que ainda não batizou algum turno do Gauchão de TROFÉU MÁRCIO MEXERICA!? #melhornome

  4. Alisson diz:

    sério mesmo? sério que vocês comemoram isso?
    torço pelo Ju e na boa.. tenho vergonha da atual situação, mas isso não é motivo pra exaltar uma Copa do Brasil de mais de uma DÉCADA atrás…
    do jeito que estamos, tá vergonhoso dizer que é da papada.
    vocês podiam usar este espaço para algo mais útil e inflar a torcida não para o saudosismo, mas para cobrar dos nossos dirigentes uma melhora.
    convoca aqui a torcida pra ir dia 01/07 no jaconi!
    abraço!

  5. Franco Garibaldi diz:

    #4
    Alisson, recordar conquistas não é sinônimo de estar satisfeito com o quadro atual. O que não se pode é viver do passado, e nisso eu concordo contigo. São poucos que acham que o Juventude precisa acordar do sonho que viveu na década de 90, e me considero entre eles. A cobrança é feita, especialmente quando dos posts sobre os jogos atuais, o que não impede de lembrarmos que quando houve um mínimo de competência (também dinheiro, claro), a coisa funciona.

  6. Diogo Cassina diz:

    Grandes tempos aqueles. Pena que os dias atuas não nos trazem satisfação. Mas é a fase. Uma hora voltaremos a ser grandes. Abraços!!!

  7. Maurício Klaser diz:

    #4

    Alisson, falar das glórias anteriores sempre é importante. Nada melhor que sonhar com a volta dos dias de glória para motivar a equipe

    E se tu lesse UM POUCO do blog, veria que o Franco já criticou duramente time e direção

    Beijos

  8. Franco, que texto!

    Parabéns, e que o atual time do Ju possa se inspirar nesses bravos guerreiros!

  9. Pingback: A um ano dos cem, o verde é de pouca esperança | Toda Cancha

  10. Alisson diz:

    Maurício, comecei a ler agora o blog.
    Li o http://www.todacancha.com/2012/07/02/serie-d-juventude-1-x-0-brasil-pel-alfredo-jaconi/#more-4414 e gostei muito.
    É só ler, mas interprete como quiser.
    Não estava criticando, apenas fiz uma sugestão.
    Pensei que este fosse um espaço para debatermos FUTEBOL e não quem escreveu isso ou aquilo.

  11. #10

    Alisson, este é um espaço pra falar de futebol. Tanto do passado, como do presente e do que se pode esperar (e fazer pelo) futuro dos clubes. Há espaço para tudo. Abraço!

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  14. Eduardo Cassina Knopp diz:

    Coisa linda de recordar. Essa história ninguém tira de nós. Independente da situação em que o Juventude se encontra, nada vai apagar essa bela página da nossa história. Ah, vou fazer uma pergunta? Quantas vezes vimos o Cristo Redentor “vestindo” a camisa grená? Putz, nenhuma né? Só pra relembrar NUNCA SERÃO!! Parabéns Franco pelo texto.

  15. Jaqueline Pereira Lyra diz:

    Que lindo texto!!!!!!!!!!! Sempre lembro desse dia…inesquecível!

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