O último jogo do Florestal

Como já é sabido por todos, o Estádio Florestal, em Lajeado, junto com a história de toda uma região, está sendo posto abaixo para dar lugar a mais prédios que só servirão à especulação imobiliária. E embora o Lajeadense não dê bola alguma para isso, a torcida alviazul ainda mantém um mínimo de seu coração lá dentro. E não deixaria que ele sumisse assim no mais. (Lamentavelmente, a dureza da vida não me deixou postar isso quando deveria ter sido feito, mas o fiz agora que finalmente me livrei das agruras do fim do semestre)

Sendo assim, ao recebermos em junho um COMBO de notícias formado pelo início da demolição do primeiro pavilhão de concreto do interior do estado e pela desistência do Lajeadense em participar da Copa Hélio Dourado, resolvemos nos mexer. A idéia era simples: em um domingo, iríamos todos ao velho Florestal, que tanto nos deu, para jogar a última partida de sua história. Um evento no Facebook foi criado, e em dois dias os seis convidados originais já haviam se transformado em quatrocentos.

Durante a semana, a coisa só fugia do controle. Na quinta-feira, já havíamos dado entrevistas para as principais duas rádios e os principais dois jornais da região, que ajudaram a divulgar o evento que, mesmo assim, não recebeu qualquer tipo de apoio da direção do clube. Na sexta-feira, com tudo publicado, os atuais donos do Estádio RETIRARAM as goleiras do local. Até hoje não sabemos se os fatos tem relação. Mesmo assim, ao contrário deles, mantivemos a história de pé.

Chegamos então ao domingo. Tempo bom, camisas do Lajeadense a granel e alguns cones para marcar as balizas. E o evento, que a princípio atraíria apenas os seis criadores, havia se tornado um marco social. Chegando de bicicleta pelas ruas laterais, ouviam-se baterias de foguetes, como se fossem as entradas das esquadras lajeadenses nos bons tempos. Só podia vir dali. Ex-presidentes, ex-jogadores, torcedores de todas as idades e cidades do Vale do Taquari, cerca de 50 pessoas (o que, em Lajeado, para o Lajeadense, é uma MULTIDÃO) compareceram. Havia lá o idoso que, ainda jovem, participou do time que fez o primeiro tempo da então nova casa alviazul, em 1963, levando fotografias daquele momento. Ele, sozinho, fez mais para a manutenção da história do clube do que as últimas 300 direções somadas. Havia lá o jovem garoto de Arroio do Meio que, acompanhado de seus pais, frequentou todos os jogos do clube no Gauchão de 2012; um senhor até então desconhecido que leu a notícia nos jornais e não hesitou em comparecer; o senhor que, vindo da Zona Sul do Estado na década de 60 para jogar no clube, nunca mais abandonou Lajeado; e nós, que vivemos por esse clube e não aceitamos que nossa casa seja posta abaixo sem pudor. Todos, irmanados e apaixonados por uma causa futebolística que não é tricolor nem colorada.

Depois de muita conversa, muitas histórias contadas por aqueles que ali viveram os seus melhores anos, partimos então para a simbólica partida. E logo nos primeiros lances, eu, que nunca havia jogado naquela grama sagrada, marquei o primeiro gol do jogo. Driblei duas crianças, chutei, e não lembro direito como tudo continuou. Eu, agora também uma criança, havia realizado um dos meus grandes sonhos. Corri enlouquecidamente ao pavilhão, já derrubado pela metade, e me atirei de joelhos para comemorar com todos aqueles torcedores imaginários que, por obra do capital e da falta de amor próprio, nunca mais estarão ali. No apagar das luzes da história, eu, como Jorjão, também posso dizer que marquei um gol no Florestal.

O jogo seguiu, um garotinho de no máximo 10 anos de idade empatou a partida contando com a ajuda do goleiro do meu time – o ex-presidente Darlei Christ, e assim encerrou-se a vida do Estádio Florestal.  Não com máquinas, construções e descaso. Mas com a comunhão de torcedores, a realização de sonhos e o alicerce pro futuro. Um dia épico que surgiu, sem apoio ALGUM, espontaneamente do amor dos apaixonados por esse pavilhão celeste, que, embora não queiram, nunca irão abandonar o Clube Esportivo Lajeadense e, principalmente, a sua história.

Nos levaram nossa casa, nossas lembranças e nosso passado, mas nunca irão nos levar o nosso clube.

A clipagem de tudo que foi noticiado se encontra aqui: http://amigosdoalviazul.wordpress.com/

As camisas levadas ao Florestal no dia e que ainda não eram minhas foram todas arrecadas pra minha coleção e podem ser vistas aqui: https://www.facebook.com/media/set/?set=a.495484293800329.136748.100000162886974&type=3&l=f595390c40

Fazendo a minha parte,

Guilherme Daroit

Publicado em Lajeadense. ligação permanente.

6 Respostas a O último jogo do Florestal

  1. Natan diz:

    Isso não é mera figura de linguagem, fui às lágrimas com teu texto Guilherme.

    Por esse tipo de situação, que mesmo triste e trágica tem seu lado belo, amamos essa cachaça chamada futebol.

  2. beretta diz:

    Sensacional, Daroit. Uma história absurdamente linda, mesmo que seja triste.

    A torcida do Lajeadense deveria se orgulhar de uma gurizada que nem vocês.

  3. Cassol diz:

    Bonito.

  4. Carlos diz:

    Do caralho.

  5. Leandro Maia diz:

    Grande Guilherme;
    Parabéns pela iniciativa, valeu demais ter conhecido voces na Impedcopa, que o futebol do interior gaúcho cresça com nossos esforços. abraços!!!

  6. “Fazendo a minha parte,
    Guilherme Daroit”

    Esse é o problema, Daroit: cada vez tem menos gente fazendo a sua parte. Seja pelo Lajeadense ou por qualquer dos clubes do nosso interior.

    Se mais gente, como tu, fizesse a sua parte, quem sabe a realidade dos times fosse diferente.

    Parabéns, velho!

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