Amistoso internacional – Novo Hamburgo 0x0 Independiente/ARG (Estádio do Vale)

Hyanthony se estica todo, mas a bola bate na trave: camisa 9 teve poucas oportunidades pra estufar os cordeis da cidadela castelhana

Um empate heroico no coração anilado

De uma forma ou de outra, as torcidas seguem vivas. Longe dos grandes centros, nos gramados sem luxo onde o futebol é o mínimo denominador comum, segue existindo o elemento indefinível, o espírito que une vidas e dá significado ao doce absurdo de ver vinte e dois homens lutando a chutes por uma bola de couro. Reúnem-se, os torcedores, mesmo nos locais mais inacessíveis, nos climas mais inóspitos e pelos eventos mais inusitados. Muitas vezes, recebem pouca ou nenhuma recompensa por isso. É, creio eu, o caso dos pouco mais de cem heróis que assistiram ao insosso e arrastado Novo Hamburgo 0x0 Independiente em uma agradável tarde de sábado invernal, tão propícia às mais diferentes e agradáveis atividades humanas. Do jogo em si, não tiveram lucro algum – pode-se até mesmo dizer, levando em conta ingresso, deslocamento e gastos alimentícios, que saíram com algum prejuízo. Tirarão da tarde de sábado, esses abnegados torcedores, um único dividendo: a chance de dizer ao netos que assistiram o Nóia enfrentar um time argentino multicampeão e sair de campo de cabeça erguida, com um digno empate sem gols debaixo do braço.

É um dividendo meio pobre, admitamos. O Independiente, apesar do recente título da Copa Sul-Americana, há tempos carrega o Rey de Copas muito mais como um título oligárquico do que como representação da realidade que vive. Título argentino, por exemplo, o clube de Avellaneda não vê há uma década pelo menos. Fosse o time titular a adentrar o Estádio do Vale e poderíamos ao menos conceder a ele o benefício do peso da camisa e da história. Mas nem isso: era o segundo quadro do Independiente, um time de aspirantes, voluntariosos garotos lutando por espaço no grupo principal. Nada muito glamouroso, portanto.

O Novo Hamburgo, ao menos, era o titular. Ao menos parecia. Mesmo que Márcio Hahn jogasse improvisado como lateral direito, eram números de 1 a 11 que entravam em campo, então tinha que ser o time titular. Números de 1 a 11 que seguiam iguais na segunda etapa, mesmo que os jogadores todos tenham mudado no intervalo. Afinal, escalar jogadores com números de 1 a 11 é coisa de quem está colocando titulares em campo, mesmo que dividindo a equipe em dois quadros para um amistoso de intertemporada. Mesmo que vários atletas tenham acabado de chegar e que o Novo Hamburgo estivesse há mais de dois meses sem partidas do profissional. Se o torcedor não se apega a essas mesquinharias, porque deveria eu, humilde testemunha que sou, perder precioso tempo enumerando-as?

Fosse como fosse, claro estava tratar-se de um evento histórico. A primeira vez em que o Anilado do Vale dos Sinos enfrentava os Diabos de Avellaneda. Bem, não exatamente: comentava-se a boca pequena de um confronto anterior, no já distante 1975 ou adjacências, onde o Nóia viu-se atropelado por uma derrota de quatro gols a zero – ou cinco, os boateiros não sabiam precisar. Mas tudo bem, o Google nada sabe desse confronto, de forma que os torcedores presentes ao jogo de sábado poderão espalhar por aí que sim, estiveram no único confronto entre Novo Hamburgo e Independiente de que se tem notícia. Como vemos, a recompensa da torcida muitas vezes é questão de boa vontade, ou de seu próprio ponto de vista.

O jogo, relata o cronista impertinente, foi chatíssimo. Um lento arrastar de minutos onde quase nada surgiu para encher a tarde de gritos. De início, até parecia que o dono da casa ia pressionar os garotos argentinos em nome de uma vitória consagradora; logo em seguida, porém, o Independiente equilibrou as ações e deu ao jogo uma igualdade que beirava a pasmaceira. O Nóia tinha a bola, mas não chegava; o Independiente conseguia alguns contragolpes, mas nunca com real perigo de gol. À beira do gramado, os poucos jornalistas envolvidos com a cobertura conversavam animadamente entre si, quase alheios ao espetáculo de nada-muito-interessante que se dava em meio às quatro linhas. Desde pelo menos a metade do primeiro tempo já era fácil adivinhar o placar final como um imenso, rotundo e bocejante zero a zero.

Ao final do primeiro tempo, uma esperança: em meio ao mar de tédio, Zaquel decide aplicar uma série absolutamente aleatória de chapéus na defesa adversária, até ser interrompido por Trejo com um convicto pontapé no joelho. Expulsão, assinalada sem medo pelo já quase folclórico árbitro Márcio Coruja. De se pensar, a partir daí, que a pressão do Nóia seria intensa, certo? Pois o segundo tempo foi ainda mais sonolento que o primeiro, tornando obrigatório o consumo de café para evitar as pescadas à beira do gramado. Mesmo com o time todo novo e descansado contra um adversário com um a menos, o Novo Hamburgo não conseguiu impor-se. Em dois lances (uma bicicleta de Sato que passou perto do gol e um chute de Juninho, na frente do gol, que acabou espalmado pelo arqueiro Roque) o anilado conseguiu provocar o suspiro do torcedor – mesmo que potencializado pelo insólito e ostensivo uso de caixas de som para “aumentar” o barulho da galera, dando ao jogo um curioso e insuspeitado ar de farsa.

LA ROJA! Márcio Coruja expulsa Trejo por entrada violenta em Zaquel. Márcio Hahn diz: 'Nuestro churrasco es mejor que el tuyo, maricón!'. Claiton acalma: 'Parceiro, relaxa e vamo pro Alternas depois'

Houve também uma insólita explosão de raiva do treinador Lisca: talvez insatisfeito com o pouco ar de rivalidade do jogo, aproveitou uma dividida mais dura para xingar aos berros o treinador adversário, dizendo que “entravam por cima de todas” e usando até gritos de “maricón” sem nenhuma explicação aparente. De longe, Santiago Rodriguez apenas espiava com ar levemente ofendido, parecendo mais confuso com o caráter gratuito das ofensas do que exatamente chateado com seu conteúdo. Porém, afora essas breves explosões de cor em meio ao cinza, tivemos mais quarenta e tantos minutos de desinteressante equilíbrio, com duas equipes fragilizadas e sem entrosamento arrastando uma a outra rumo à nada surpreendente igualdade sem gols.

Tive, devo confessar, certa piedade de meus colegas de imprensa. Pegaram eles seus microfones e blocos de notas, rumaram eles a suas redações com a tarefa ingrata de fazer o relato do jogo que aconteceu mal e porcamente diante de seus olhos. Por um momento, senti pena também dos torcedores, que gastaram seu tempo e dinheiro em nome de um grande espetáculo que ficou na promessa. No entanto, logo revi minha atitude, ao perceber que a história do torcedor e a do repórter não são e jamais serão iguais. E voltei para casa contente, escrevendo esse texto mentalmente já no trem de volta para Porto Alegre, pensando exatamente na história que haveria de permanecer – não a história chata do jogo que se arrastou e dos gols que não saíram, mas sim a história de um confronto inesquecível e histórico no coração do Vale dos Sinos.

No conto do torcedor anilado, o confronto entre Novo Hamburgo e Independiente será maior a cada ano. Ninguém haverá de contá-lo menor do que de fato foi, nem inferior à versão anterior. No imaginário coletivo anilado, logo o Independiente que jogou no RS deixará de ser um combinado de aspirantes e será o perigoso diabo vermelho de Avellaneda, jogando com a esquadra titularíssima, babando e rangendo dentes em uma jornada em busca da glória. Um time temível, mesmo com um a menos. O Novo Hamburgo, com sua corajosa e recém-formada equipe titular, terá enfrentado esse adversário com alma e entrega, superando a inferioridade técnica com uma jornada das mais voluntariosas. Na história que os avôs contarão aos netos, terá sido um jogo movimentado, cheio de lances de gol e com inúmeras situações de virilidade e rispidez. Talvez o sábado ensolarado vire uma tarde cinzenta, quem sabe com chuva, talvez até flocos tímidos e intermitentes de neve. Haverá quem jure que Lisca e Santiago Rodríguez se pegaram aos socos do lado de fora do campo, separados a custo pelos que testemunhavam o quebra-pau. E o zero a zero final nada terá de insosso: será um placar quase heroico, conquistado a duras penas em uma fumaceira de dar inveja à mais renhida Libertadores. Isso se algum vovô mais afoito não inventar um segundo jogo, em plena Avellaneda, conclusão de uma incrível decisão de ida e volta para a qual o anilado rumou com a vantagem de ter a seu favor qualquer empate com gols.

A volta do cusco anilado. Para maiores informações: http://cartanamanga.blogspot.com.br/2012/03/breve-relato-sobre-um-cusco-anilado.html

Como dizia eu lá no começo, as torcidas seguem sempre vivas, de uma forma ou de outra, e de sua paixão dedicada sempre dão um jeito de tirar a recompensa. Um dia, lá longe no futuro, haverá um moleque dizendo mas que mentira, jura que o Novo Hamburgo empatou com o Independiente, da onde isso vovô. E haverá um velhote de cabeça branca batendo no peito e dizendo e desde quando teu vô mente moleque, claro que o Nóia empatou com os argentinos, eu estava lá. E foi um jogaço, guri. Um jogaço.

Breve análise tática

Lisca armou a equipe no tradicional 4-4-2, com o segundo atacante voltando pra ajudar a marcação. Márcio Hahn como lateral-direito é mero improviso, enquanto disputa a posição com Claiton; Sebá e Diego Marder devem brigar pela camisa 2. Já na esquerda a briga é de foice no escuro: nem Eduardo Brock, tampouco Márcio convenceram.

O miolo de zaga foi formado por dois guris da base, Tiago e Dimas, que devem dar conta do recado. A armação foi melhor na segunda etapa, com o garoto Ângelo e o motorzinho Juninho. Na frente, Hyanthony será o homem de referência, com Diogo e Sato brigando pela segunda vaga.

O time, claro, está longe do ideal. Esse foi o primeiro teste da equipe, sequer realizou jogo-treino anteriormente. Porém já se acende luz vermelha para carências nas laterais e no ataque.

FICHA

Novo Hamburgo (1T): André Sangalli; Márcio Hahn, Tiago, Dimas e Eduardo Brock; Zaquel, Claiton, Felipe e Luiz Carlos; Diogo e Hyanthony.
(2T): Sidivan; Sebá, Renan, Lucas e Márcio; Jéferson (Wander), Juninho, Ângelo e João Henrique; Wesley e Sato (Pretinho).

Independiente: Roque (Depotte); Barrios (Mario Lucio), Ojeda (Pereyra), Zarate e Trejo;  Vidal (Ferragut), Jaime (Matheus), Miranda (Russo) e Muñoz (Nelle); Rodriguez (Feliphe) e Suarez (Danielle).

Melhores momentos: Novo Hamburgo 0x0 Independiente (ARG)

Texto de Igor Natusch (Jornal Sul 21 e Carta na Manga), análise tática de Zezinho e fotos de Maurício Klaser 

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20 Respostas a Amistoso internacional – Novo Hamburgo 0x0 Independiente/ARG (Estádio do Vale)

  1. Natan diz:

    Tenho uma pergunta, livre de qualquer sentimento AIMORESISTA, é verdade o que estão dizendo aqui em São Leopoldo, que o Independiente tinha no seu time que enfrentou o Nóia, jogadores do Pedra Branca?

  2. #1

    Tinha sim, Natan. Dois brasileiros: Mario Lucio e Feliphe. É meio comum os times argentinos levaram guris da base gaúcha pra lá. Lembro que o Nunes, ex-Grêmio e no Cerâmica, ficou dois anos no Boca Juniores

  3. “o anilado conseguiu provocar o suspiro do torcedor – mesmo que potencializado pelo insólito e ostensivo uso de caixas de som para “aumentar” o barulho da galera, dando ao jogo um curioso e insuspeitado ar de farsa.”

    SENSACIONAL! euheuaheauhaeu

  4. Maurício Klaser diz:

    Num lance de ataque do Noia, o UHHHHHHHHH das caixas de som veio quando o goleiro adversário já tinha cobrado o tiro de meta

  5. Sandrilho diz:

    Tomei uma CERVEJA e depois o café MAIS RUIM DO MUNDO a 2 pilas assistindo o este jogo.
    Feito o comentário dispensável, lerei o texto.

  6. Grande texto, Natusch, e belo trabalho, Moleque! Tão de parabéns!

    Algo que refleti no fim-de-semana: somos um dos poucos sites no Rio Grande do Sul que faz minuto-a-minuto das partidas. O Toda Cancha é o site que traz os melhores relatos das partidas do Novo Hamburgo, tanto ao vivo quanto tem texto. O único veículo que nos supera é o rádio – em especial, a ABC 900 AM -, por motivos óbvios.

    Além do ‘O Caxiense’, que faz um belo minuto-a-minuto das partidas da Dupla Ca-Ju, e algum ou outro site que eu não conheça, praticamente ninguém faz um trabalho cibernético como o nosso – e que ainda é falho. Se pudesse, faria todos os jogos possíveis. Se pudesse, continuaria pagando minha mensalidade de sócio do Noia e narraria os jogos via Twitter de alguma cabine ou da arquibancada.

    Quanto ao público, além do erro brutal da direção anilada ao cobrar 20 dilmas o ingresso, o Jornal NH mal promoveu o jogo. Pô, o Noia não pode ser escanteado dessa forma. O jornal é o veículo que mais se aproxima do povo e prefere requentar notícias da Dupla Gre-Nal ao invés de promover o clube da sua cidade?

    ***

    A torcida reclamou do desempenho da equipe. Eu prefiro aguardar. O Noia não fez um jogo-treino sequer. O ideal é realizar jogos-treinos com ‘sparrings’, contra times amadores e afins, para depois pegar a carne de pescoço e preparar o time pra Copinha. Esse amistoso contra o Rojo foi uma oportunidade, mas tecnicamente não é a preferência.

    Veremos a evolução contra Sindicato e Igrejinha

  7. Maurício Klaser diz:

    #6

    Segundo VOZES DO ALÉM no gramado, o ingresso foi 20 reais, pois sendo 10 ou 20 não faria diferença, o público seria o mesmo, já que o jogo ia ficar no mesmo horário da FASE QUENTE do amador de NH. Publico em geral nem tem noção da GRANDEZA do Independiente, e ainda era o sub-23 deles

  8. Chico Luz diz:

    tive a sorte de tomar uma semibolada em um lance que ela rebateu na arquibancada e voltou pro campo.

    e foi bom também para conferir a genial caixa de som animada, nunca tinha me APERCEBIDO deste detalhe.

  9. Chico Luz diz:

    e o que o Duarte falou não foi sobre a fase quente do amador; foi do fato de que TODO SÁBADO tem centenas de jogos de times de várzea por todo o vale. E o pessoal que gosta de jogar abre mão de qualquer coisa pra bater bola, por isso o público não seria tão diferente, de acordo com o presidente.

  10. Maurício Klaser diz:

    #6 #8
    Mas acho que foi meio IDEIA DE HAMBURGUENSE (ns)
    Muita gente que conheço não foi no jogo por causa do VALOR GRENALIZADO, 10 reais seria algo muito digno para algo que ELES MESMO assumiram que não ia dar grana.

  11. Weber diz:

    Preocupante o desempenho anilado. Temos que contratar, dois laterais, um zagueiro e um atacante, urgentemente. Porém, não é motivo de desespero. O time vai evoluir.
    Quanto ao ingresso, achei um absurdo. R$ 20,00 em um amistoso é demais. Não importa o adversário.

  12. Jorge diz:

    Esse era o time reserva do time que disputa o torneio de reservas pelo Independiente, La Piponeta que chamam, terminaram o torneio de reservas em segundo ano passado atras do Boca, mas era outro elenco, os que foram bem viajaram com o time principal pra Tandil. Resultado ruim pro Noia, bem ruim.

  13. Natan diz:

    #6
    Bah Zezinho, aproveitando teu gancho, o Aimoré realizou no sábado seu primeiro jogo-treino, eu nao pude comparecer por motivos pessoais.

    Fui me informar de como tinha sido o desempenho ÍNDIO na peleja, vi que vencemos no site aimoresista e no ótimo http://www.indiocapile.com.br, MAS o que eu não consegui conceber foi que o Jornal VS em sua edição dominical, que aliás noticiou como tinha sido o amistoso do noia, não deu UMA LINHA DE ESPAÇO para o jogo do Aimoré.

    Se a prioridade é a região, deve sempre ser noticiado tudo aquilo que envolve os clubes da região, resumindo, o Grupo Sinos de Comunicação deixou muitos aimoresistas BASTANTE irritados nesse fim de semana.

    Enfim, vencemos por um a zero o Flamengo-SV.

  14. #13

    Bah, eu dei o resultado do jogo-treino do Aimoré no Twitter =) Gol de pênalti do Alex.

    E pra tu vê só, a torcida do Noia reclama que no Jornal NH não há espaço pro Anilado, enquanto que o Jornal VS tem um colunista que fala do Aimoré todo dia. Tá tudo errado

  15. Weber diz:

    O Grupo Sinos vai dar Graças a Deus no dia em que o Noia e o Aimoré fecharem as portas.
    Fazem de tudo pra tripudiar e desvalorizar nossos clubes. Felizmente, não vão conseguir.
    DÁ-LHE NOIA!

  16. Natan diz:

    #14

    Realmente, eles falam diariamente do Aimoré, mas quando tem JOGO-TREINO ignoram tanto no site do Jornal quanto no próprio Jornal de domingo que como sabido contém totalmente as notícias do sábado.

    Por isso, a minha indignação.

  17. giaretta diz:

    Muito boa a crônica.

    Alguém sabe me dizer se o time que jogará em Pelotas é o mesmo que jogou contra o Novo Hamburgo?

  18. Zezinho diz:

    #17

    É o mesmo. É um grupo de 20 atletas que veio ao Rio Grande e que disputará o Torneio de Reservas do MENEMZÓN. Mas há alguns que podem integrar o time principal do Rojo

  19. Junior II diz:

    O Lisca dar vexame não é nenhuma novidade, ele é especialista !

  20. Pingback: Um médico e dois monstros | Toda Cancha

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