Por que sou Pelotas?

Como é difícil – dentro de nosso contexto futebolístico – ter uma só paixão. Por que somos obrigados a ter esta quase obrigação de torcer pelo vermelho ou pelo azul? Que, aliás, não fazem parte do nosso cotidiano, de nossos sonhos e tratam com desmerecimento os menores (“ruralito”, “cafezinho” e etc…).

Nasci em 1977, na Santa Casa de Pelotas. Desde pequeno, me diziam que eu tinha que “ser Pelotas” (meu avô), mas também “ser gremista” (meus tios de Porto Alegre e minha mãe). Meu pai dizia-se colorado (tenho que ressaltar que ele não nascera em Pelotas) e tampouco dava importância pra futebol. Como toda criança, fui deslumbrado com o Grêmio de Renato em Tóquio. Era fanático, tinha camisetas… meu aniversário de 6 anos foi com o Zé Carioca gremista sobre o bolo (os de mais de 30 anos talvez lembrem destes adereços). Nesta época, o Lobão andava mal, na segundona gaúcha, e com o Xavante fazendo bela campanha no Brasileirão.

Meu avô não desistia. Ele, um pelotense clássico, antigo rico, dono de curtume, apaixonado pelo áureo-cerúleo, “sócio proprietário” como gostava de falar, anti-grenal até a raiz. Uma vez, entrevistado na capital sobre sua preferência clubística, irritou-se com o fato de quererem obrigá-lo a ter um clube em Porto Alegre. “Como assim Grêmio ou Internacional? É obrigatório?” disse ele. Grande Carlinhos Maia. Não por ser meu avô, mas era a melhor pessoa que já conheci.

Aos poucos, minha paixão pelo Pelotas ia aumentando. Vovô dando as camisetas, fardou nosso time do campinho em Pedro Osório (distante 60km de Pelotas) com mantos azuis e amarelos. Lembro que, talvez em 85 ou 86, fui ver um Pelotas x Grêmio, na Boca do Lobo. Na entrada do estádio, comprei o pôster do Grêmio campeão do mundo. O Pelotas perdeu de 4 a 0. Eu, com o pôster enrolado, no meio da torcida do Pelotas (pra uma criança isso é marcante), estava torcendo pro Pelotas, lembro bem. Não estava com meu avô, mas sim com dois amigos e o pai deles.

Vieram os anos 90. Fui morar em Pelotas com meu avô, para fazer o segundo grau. Lembro de 1992, campanha memorável do Lobão. Ganhamos do Grêmio dentro do Olímpico, um a zero, gol do Luís Carlos Gaúcho, meu ídolo dentro do clube. Fomos de excursão – que velhinho louco era meu avô, a torcida do Grêmio quebrou o vidro do ônibus, viemos enrolados numa bandeira na viagem de volta. O Pelotas começava a me contagiar. Cantamos dentro do Olímpico, demos volta no estádio depois do jogo, via que podia ser feliz amando apenas o time da minha cidade. Seguiram-se os anos envolvido com a Camisa 12 do Pelotas (junto a alguns amigos fundamos a torcida). A paixão foi tomando conta de mim. Entrei na faculdade de Medicina, estagiei no clube, me formei com a camisa áureo-cerúlea sob a toga. Já morei em Florianópolis, Caxias do Sul e Porto Alegre, sempre acompanhando o Pelotas.

Caímos em 2004. Em 2005, lá estava eu em Garibaldi, em Sapucaia do Sul; em 2006, tudo de novo. Em 2007, levando “tijoladas” em Santa Maria; em 2008, de volta à Pelotas, sendo médico do time do meu coração no ano do seu centenário dele. Em 2009, naquele dia chuvoso de agosto, na volta à primeira divisão.

Penso diariamente: como poderíamos ser maiores? Sou um romântico… hoje milhões de dólares fazem o futebol. Mas sigo sendo só Esporte Clube Pelotas.

Abraços,

Leandro Maia Ramalho

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34 Respostas a Por que sou Pelotas?

  1. Gregory diz:

    Parabéns bruxo , baita texto. Sou Xavante fanático , e só Xavante diga-se de passagem , coisa dificil em pessoas da minha idade(18 anos) que hoje são manipulados e quase obrigados como tu disse , a torcer para a dupla grenal. Estamos aí ,não é qualquer derrota que abala nosso amor pelo Brasil e pelo Pelotas, respectivamente.

    Abraço e parabéns novamente !

  2. Franco Garibaldi diz:

    Bem-vindo, garoto!

    É sempre importante destacar essa possibilidade de não ter que se curvar a apenas um dos dois clubes da capital, que tanto imprensa (interessada em vender jornal) como a sociedade (mais interessada em ter algum alento em suas vidas normalmente medíocres, mesmo que artificialmente, através de um título ganho não com merecimento, mas por quem mais tem grana) nos impõem.

    É claro que todo torcedor quer vencer, quer títulos, mas se descobrir torcedor pelo simples gosto de torcer pelo clube, que normalmente não tem apoio de quase nada, por se identificar de alguma forma mais genuína do que simplesmente ir atrás da onda, isso não tem preço.

  3. Paul diz:

    Grande Carlinhos Maia!

    Não era meu avô, então posso atestar: um melhores seres humanos já inventados.

    Baita texto meu bruxo, tu só me dá orgulho.

    Beijo prá toda a famíla Lobo!

  4. Maurício Godoi diz:

    Bonito texto, Leandro!
    Somos torcedores de clubes rivais, mas compartilho com o amigo o espírito de torcer somente para um clube.
    Já estou ansioso para o primeiro Bra-pel de 2012.
    Grande abraço.
    Maurício Godoi

  5. Natan Dalprá Rodrigues diz:

    Seja bem-vindo tchê!

    Teu avô ganhou mais uma legião de fãs, tenhas certeza!

  6. Balejos diz:

    Leandro, tu não deveria, mas poderia ter encerrado teu primeiro artigo depois da PLACA: S A – 1702. Que retrato, repito, que retrato!
    Pois bem, tu começou a escrever e contou uma história absolutamente incrível.
    Tchê, parabéns pelo texto!

  7. Bah, garoto, que texto e que história fodas.

    A primeira foto é matadora demais. Ser médico do clube de coração deve ter sido algo indescritível. Além das excursões.

    Show de bola. Que venham mais textos e histórias assim

  8. beretta diz:

    É por ler coisas desse tipo que eu tenho orgulho do Toda Cancha e ainda gosto de futebol. E é só por histórias desse tipo, acreditem.

  9. Franco Garibaldi diz:

    (2)
    É por ler coisas desse tipo que eu tenho orgulho do Toda Cancha e ainda gosto de futebol. E é só por histórias desse tipo, acreditem.

  10. Weber diz:

    Também só tenho um clube. Sempre, desde que nasci, em todos os lugares que já fui, vem a maldita pergunta: tu é colorado ou gremista. Que raiva. Daí eu falo sou Noia e o cara: tá mas sem ser Noia, tu é colorado ou gremista? Parece lei aqui no sul, que coisa triste. Imaginem quantas crianças espalhadas pelo interior, deixaram de torcer pelos seus clubes, devido a influência grenal?

  11. Claudio Pilownic diz:

    Grande texto, emocionante. Esse sentimento só a gente sente, só a gente sabe…
    Faço aqui 01 minutinho de trégua (e nem 01 segundo a mais! heheheh) e mando um grande abraço e todos os aureo-ceruleos e xavantes de “toda cancha” !!!

  12. #10

    Não apenas isso, Weber.

    Quando eu comecei a acompanhar futebol em meados da década de 1990, o Noia estava falido, junto com a cidade. Eu não via o Noia na TV, não o lia nos jornais. Parecia algo dos tempos dos meus avós e dos meus pais.

    Não tive um avô ou um tio pra me fardar de anilado ou me levar ao estádio. Me tornei anilado por vontade própria. Eu escolhi ser anilado.

    Contudo, dos demais guris da minha geração, poucos tiveram uma família pra levá-los ao Santa Rosa ou tiveram a iniciativa própria que tive. Não bastasse o tempo de penúria da nossa região, a Dupla Gre-Nal emergiu absurdamente.

    Essa é a hora de criarmos uma geração anilada novamente, com o clube a cidade novamente em alta

  13. cairo moreira pinheiro diz:

    oi Leandro legal como jornalista es meu colega como Pelotas es tambem sofredor que nem eu um abraço continue escrevendo cairo

  14. Ico diz:

    Grande maia, muito legal o conjunto texto-fotos. Me emocionei bastante com o conteúdo, já que tive uma influência fortíssima do meu falecido vô-amigo ery na escolha do Pelotas como clube do coração. Também torço pelo grêmio (com uma intensidade infinitamente menor) pois meu pai como exjogador do clube da capital me apresentou algumas influências muito marcantes. Acho que não sou mais ou menos lobão por isso, mas respeito quem não viveu essas duas influências (dos meus dois ídolos e exemplos a serem seguidos) e compactua com essa opinião. Muito bom saber notícias tuas meu bruxo. Falando nisso vais no jogo sábado?
    Grande abraço para a família

  15. giaretta diz:

    Bonito texto, sou de Getúlio Vargas, ao lado de Erechim, e vivi grande parte da minha infância sem nem ter a opção de escolha ‘Ypiranga’. Criei-me colorado e ainda hoje torço para os vermelhos da capital, apesar de já ter ido ao Beira-Rio com meu manto verde-amarelo.
    Em 2011 me mudei pra Pelotas para fazer faculdade e então comecei a acompanhar o dia-a-dia do trio pelotense e digo, o grande diferencial da cidade de Pelotas é que as pessoas daí não tem vergonha de ser pelotense enquanto todo o norte do estado tem vergonha de ser colono e prefere se esconder no ‘gauchismo’ inventado por isso hoje, mesmo ainda preferindo o Farroupilha e o Brasil, as vezes me pego torcendo para o time da avenida.

  16. arbo diz:

    bá, de marejar os olhos

  17. Sancho diz:

    Quando a gente acha que não há salvação, vem o Toda Cancha restaurar a esperança.

    Sou um gremista Anti-Gre-Nal, pode isso?!

  18. Rodrigo Mello Teixeira diz:

    Meu bruxu, quando vi seu anúncio pelo texto fiquei curioso para lê-lo. mas não surpreso. Te conheco bem e sabia que as palavras não seriam diferentes de emoção e sinceridade. Me identifico contigo neste caso, como neto de Pelotense áureo-cerúleo, e pelos fatos de termos sidos colegas, atletas de mesma ATM e trabalharmos no mesmo DM. Ora, mas não poderia deixar encerrar meu comentário sem lembrar da torcida organizada que criastes nos tempos de Copa Sul MInas: a LOBOMED, lembras? forte abraço, fica com Deus e não perde essa tua sinceridade e emoção. do Bruxu Teixeira-Tella

  19. Antonio Luiz Wiener Pureza Duarte diz:

    Amigo de tua família fiquei muito feliz com o teu texto. Autenticidade marcante em uma emocionante demonstração do amor ao Pelotinhas. Sabes meu amigo que sou Pelotas e não sei te disser o porquê!! Só sei te dizer que quando jogam Grêmio ou Inter com o Xavante torço para cá, para as bandas de cá!!! Bjs para teus pais e também para a tua família querida. Teu avô era meu grande amigo e foi um homem bom e puro. Para melhor me identificar fui professor de Medicina dos teus queridos pais……só isso. Toninho.

  20. Leandro Maia Ramalho diz:

    Gostaria de agradecer muito aos leitores que gostaram do texto e deixaram suas mensagens de apoio. Obrigado!

  21. Parabéns, Leandro.

    Sou Xavante, mas me identifiquei em muitos momentos.

    Um grande abraço e que a dupla Bra-Pel domine o mundo. haha

  22. William Boessio diz:

    Texto para relembrar que não estamos sozinhos nesse interior. E Leandro, que eu me lembre os tijolos vieram da ala dos visitantes em 2007, não que eu tenha prestado muita atenção, estava interessado em correr campo a dentro (e o Chagas ainda me marca uma falta daquele jeito…). Subimos por conta do apagão do Pelotas no final daquele ano, mas o centenário na segundona foi vingado nos 3×0 que nos rebaixou em 2011, mesmo Pelotas, mesmo estádio, ora um louco comemorando, ora outro. Um abraço!

  23. Eduardo Mamfrim Farias diz:

    Lindo texto Leandro.
    Me vi presente em vários momentos ali. Da fundação da Camisa 12 até àquela ida a Santa Maria.. Saí cedo de Torres…. peguei o Ciro, Ico e Tu (se não me engano) ….encaramos 300 Km no meu carro. Vi o Cássio fazer a maior defesa que já vi na vida. No inicio do jogo… uma cabeçada a queima-roupa. E ví nosso Azul y Oro cair de pé…. lutando até o fim. Na volta ainda precisamos de uma carona e descemos num acostamento em outro canto da cidade…. Lembra disso????? Eu estava também nesse jogo Pelotas 0X4 Grêmio….fui para o pavilhão com meu pai….. Tantas lembranças….. Também amo esse clube.
    Bom….só queria dizer…. Obrigado por me trazer a tona tantas lembranças.
    Obrigado Leandro.
    Tu és um grande cara
    Abraço

  24. Eduardo Mamfrim Farias diz:

    …..e concordo contigo Ico…. quando dizes que torces menos para o clube da capital. Apesar de morar aqui há tempos…. no embate Azul y Oro X Colorado….. fico do lado da torcida da cidade que nasci. Lobão sempre….. Abraços

  25. Carla Maia Garcias diz:

    Aqui quem está fazendo esse comentário é a filha do Carlinhos Maia, por isso chamada ainda por muitos, de Carlinha Maia. Adorei o post de meu sobrinho e afilhado Leandro. Sou testemunha de todas as palavras por ele escritas, pois também fui criada nesse “mundo azul-amarelo”!
    Meu pai era lobão doente, mas sempre foi muito democrático comigo. Quando eu era criança, embora frequentando aos jogos do Pelotas com ele, eu era Farroupilha, influenciada pelo amigo e compadre do Carlinhos, o Dr. Affonso Dêntice da Silva (“Affonsinho). Depois me apaixonei pelo Grêmio (POA), pois junto com ele veio a coisa mais bela que me aconteceu: Gilberto Garcias (conhecido por Cachoeira), meu marido há 34 anos, filho de gremista que morreu dentro de um estádio torcendo pelo tricolor aos 42 anos de idade. Naquela época o Cachoeira tinha apenas 5 anos de idade…..
    Casamos em 1978, tivemos três filhos, continuamos todos gremistas, mas muito mais do que isso TODOS LOBÕES!!!!
    Valeu Leandro!!!!!!! Adorei….

  26. Ju Maia diz:

    Grande primo !

    Apesar de ser Xavante, fugindo dos “rituais” da família MAIA, ehhehe, adorei teu texto, achei bárbaro, fiquei com muita saudade do tio carlinhos, grande figura ! E acho lindo essa “herança auro-cerúlea de vcs !! Grande beijo !

  27. Mario Meireles Pizani diz:

    Grande texto e história linda. Cheguei no link pelo Oduvas do grupo Lobo no Face. A minha história é um pouco mais antiga. Nasci e me criei na terra, morei em dois bons lugares – Castilhos e Lindóia (do lado da Terezinha). Saí da terra depois da Etfpel e do quartel em 80. Vim pra POA em 81. Comecei na Boca do Lobo em 71, com dez anos, levado pelo meu pai, Aureo Ceruleo fanático. Primeiro jogo da minha vida, Bra-Pel 2 x 0 neles e um chocolate. Aí, não teve mais jeito, somente e unicamente Azul e Amarelo, acho que já nasci assim desde a barriga da dona Elisabete. É absolutamente inexplicável a paixão por esse clube, por esse time. Depois da minha esposa, filho e filha, é o Pelotas, o resto é o resto. Como eu sou mais antigo, sou da turma “anti-grenal” e fico feliz em ver jovens mantendo essa chama acesa. Só a nossa cidade tem isso. Grande abraço a todos.

  28. Raquel Janelli diz:

    Muito bom, Leandro! Impossível não se identificar e se emocionar! Saudações!

  29. Moisés diz:

    Muito bom e dalhe lobooo, sempre contigo!

  30. Cecere diz:

    Texto muito bom!
    paixão que não tem explicação

  31. Xavante Munhoso na área… Gol do Brasil!
    Cheguei a esta belíssima história através do meu amigo áureo-cerúleo Luiz Carlos Knopp. É bom ver que “tanto lá quanto cá” como costumo dizer tem esta gana de torcer para o clube da Terra. Xavantes e áureo-cerúleos são inspiração Divina para contrabalançar a hegemonia grenalista que a RBS nos impõe guela abaixo. Muito bom e que venha o próximo Bra-Pel.

  32. Otavio Santos diz:

    QUe baita historia! Adorei !

    TAmbem sou Lobao ate a raiz e prometo um dia comentar como adistancia de Pelotas so fez aumentar minha paixao pelo Pelotas. Para voces terem uma ideia nesse exato momento estou saindo com a bandeira do Lobao na mochila para bater uma foto em Anchorage, Alaska! Ate para ca minha paixao caminha junto.

    Parabens pela maravilhosa historia que com certeza e semelhante para muitos de nos. E desculpem pela falta de acentuacao pois esse teclado nao os tem.

    Saudacoes aureo-ceruleas desde o Alaska!

  33. Andreia Albuquerque dos Santos diz:

    Penso exatamente assim como tu, as pessoas ficam me perguntando, mas tu tens que ter uma preferência entre Grêmio e Inter e eu sempre repito, não tenho sou SÓ PELOTAS. Também sou uma sonhadora e ainda acredito que nós cresceremos e chegaremos lá. Saudações áureo-cerúleas.

  34. Ademir diz:

    Parabéns pelo belo texto.Eu também me tornei Pelotas por influência de meu pai, assim como meus filhos por minha influência. É triste no entanto ver surgir times com o objetivo único de dar lucro a empresários; ver Clubes pequenos fecharem as portas por falta de recursos financeiros e humanos. Felizmente aqui em Pelotas ainda valorizamos um clube de futebol pelo amor que temos por ele e não pelo número de títulos ganhos. Ganhar é bom, mas ter um ideal, uma paixão, é bem melhor.
    Ademir

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