Sirvam nossos fracassos de lições a nós mesmos

Juventude empata com o Criciúma no Heriberto Hülse e é rebaixado à Série D: cena frequente no cenário do futebol gaúcho

Quando Grêmio e Internacional disputaram a Copa Libertadores simultaneamente em 2007 e 2011, muito se falou do sucesso do futebol gaúcho nos cenários nacionais e internacionais. No entanto, ao analisarmos o desempenho dos demais times gaúchos nas competições nacionais, esse sucesso não se faz presente.

Após o caos da Copa João Havelange, quando o calendário do futebol brasileiro começou a se estabilizar e consolidar, entre 2001 e 2011 apenas um time gaúcho conseguiu subir de divisão: o Grêmio, em 2005. Assumindo o rebaixamento e posterior acesso do Grêmio como outlier, assim o excluindo da análise, os times gaúchos não conseguiram um acesso sequer. Já os rebaixamentos se deram quatro vezes.

Participantes do Brasileirão entre 2001 e 2008. A queda acentuada percebida é do Paraná, caindo de 5 clubes, em 2001, para 3 clubes, em 2008

Ao compararmos com estados que compunham a Copa Sul-Minas, e também tratando o rebaixamento e acesso do Atlético/MG como outlier, os números do futebol gaúcho são piores dos que de seus vizinhos. No mesmo período, Santa Catarina teve NOVE acessos de divisão; Minas Gerais computou quatro; e o Paraná, dois.

Entre 2009 e 2012, somente o RS, dos estados analisados, perdeu representantes: caiu de 5 para 3 clubes. Minas Gerais, por sua vez, chegou a 6

Quando focamos a análise no período entre 2009 e 2012, com a criação da Série D e tendo três divisões estabilizadas com seus participantes conhecidos já no início do ano, a involução do futebol gaúcho é escancarada. Dos quatro estados analisados, o Rio Grande foi o único a diminuir o número de equipes: de 5 para 3, com três rebaixamentos de divisão e nenhum acesso.

Além disso, nas divisões inferiores, Minas e Santa Catarina viram o surgimento de times de pólos diversos do Estado: Ipatinga, Tupi (Juiz de Fora) e Boa Esporte (Ituiutaba), na terra do pão-de-queijo; na República Juliana, Chapecoense (Chapecó), Marcílio Dias (Itajaí) e Joinville.

Distribuição geográfica dos times mineiros que disputaram o Brasileirão entre 2001 e 2012: surgimento de novos times fora de Belo Horizonte

Por sua vez, o Rio Grande do Sul baseou seu futebol entre as décadas de 1990 e 2000 no eixo Porto Alegre-Caxias do Sul. No final da década passada, o Brasil de Pelotas ressurgiu para representar a Zona Sul do Estado, mas nunca chegou ao protagonismo do futebol do Interior. Desde 1985, quando o Xavante chegou a 3ª colocação no Nacional, o Rio Grande não vê um clube diferente da Dupla Gre-Nal e Juventude na elite do Brasileirão.

Distribuição geográfica dos times da Região Sul que disputaram o Brasileirão entre 2001 e 2012: com pior distribuição, Rio Grande do Sul e Paraná apresentam menos times estabilizados nas três principais séries do Brasileirão

Nos mata-matas o desempenho gaúcho é deplorável. Contabilizados confrontos eliminatórios na Copa do Brasil e no Brasileirão, o aproveitamento é de 52%. Sem a Dupla Gre-Nal, o índice cai para 37%. A Copa do Brasil de 2004 representou a melhor fase dos times gaúchos, com os cinco representantes passando da 1ª fase. Tivemos o São Gabriel eliminando o Figueirense e batendo o Palmeiras e o 15 de Campo Bom eliminando o Vasco e chegando às semi-finais.

Já em três edições da Copa do Brasil (2003, 2008 e 2010) e três edições do Brasileirão (2004, 2009 e 2011) os gaúchos – excluídos a Dupla Gre-Nal – não venceram um confronto eliminatório sequer. As fases finais das Séries B e C foram disputadas, por vezes, em quadrangulares ou octogonais. E nas quatro vezes em que tivemos times gaúchos disputando o acesso nessas fases finais, eles falharam: Caxias (Série B de 2001), Novo Hamburgo (Série C de 2005) e Brasil de Pelotas (Série C de 2006 e 2008).

Com números lamentáveis, passou da hora de se discutir a chamada “escola gaúcha de futebol”. Os técnicos gaúchos que se destacaram no cenário nacional, como Felipão, Tite, e Mano Menezes, nas duas últimas décadas, o fizeram em times da Série A. Dos treinadores revelados no Interior e que assumiram clubes Brasil afora nas divisões inferiores, o sucesso não se vê.

Os bons resultados da Dupla Gre-Nal se dão porque ambos são clubes estabilizados entre os grandes do País há mais de 40 anos. Não representam o futebol gaúcho em si. Esse, por sua vez, definha dentro de campo ao confrontar seus iguais.

Em uma palestra na Feevale no início do ano, Francisco Noveletto, quando perguntado sobre o insucesso do futebol gaúcho nas Séries B, C e D, respondeu que, durante sua gestão, o Rio Grande lhe deu duas Libertadores e um Mundial. Não, presidente. Os títulos são méritos exclusivamente do Internacional. E não será num cruzeiro pelo Caribe que encontraremos soluções para a falta de vitórias dos time gaúchos Brasil afora.

Relembrando (e chorando) pela campanha Anilada em 2005,
Zezinho 

Publicado em FGF, Série C, Série D. ligação permanente.

11 Respostas a Sirvam nossos fracassos de lições a nós mesmos

  1. Escrevi com outros colegas um texto sobre o que chamamos de decadência do futebol gaúcho em novembro do ano passado, com uma presidência de FGF, como comprovou este ano, sem a mínima preocupação com os times “pequenos” do Estado. Na época, estimulamos os torcedores destes times a se juntarem pelo bem do futebol local, até os xavantes se animaram a participar desta guerra, pena que não tivemos ainda nem a primeira batalha: http://estrategiaeanalise.com.br/ler02.php?idsecao=e77f6eaa8e3bbf6294266949770ed2c4&&idtitulo=b36b18646572cd7c2bcd727ebc69532c

  2. Franco Garibaldi diz:

    Muito boa análise, Zezinho. Deveríamos imprimir isso e distribuir nas palestras em que o Noveletto se esbalda falando do sucesso do RS no futebol.

    Como já falei em outros comentários, é claro que a decadência do interior não passa exclusivamente pela gestão da FGF. Mas é um tanto óbvio que se nem mesmo a entidade que deveria zelar pelo futebol do estado se preocupa com os clubes, aí a coisa tende a ir pro saco mesmo.

    Enquanto isso, presidentes trocam votos de reeleição por migalhas – por maiores que sejam as quotas de televisionamento perto de anos atrás. E todos brindam enquanto o barco cruza as águas caribenhas. O iceberg só é avistado pelos torcedores mesmo…

  3. Sandrilho diz:

    A FGF tem grande culpa deste desleixo com os clubes gaúchos, mas o grande culpado é o torcedor comum e a própria mídia.

    Muito torcedor aqui de Novo Hamburgo é sócio ou do Inter ou do Grêmio, mas não é sócio do Nóia. O mesmo vale para outras cidades do interior. Em dias de jogos da dupla grenal a BR fica completamente congestionada e em dia de jogo importante no Estádio do Vale, o mesmo está vazio.

    Se associar a um clube de futebol da própria cidade é simples e barato, que se tome uma cerveja a menos por final de semana e ajude o clube, com certeza, estão precisando muito.

    O futebol gaúcho é um dos mais fracos da federação e está do nível de qualquer federação nordestina, se excluirmos a dupla grenal, ficaria ainda pior.

  4. Chico Luz diz:

    que petardo, José. BAITA análise, baita trabalho.

  5. Maurício Klaser diz:

    Com o cruzeiro no Caribe tudo ficará bem

  6. daroit diz:

    sensacional. a única solução é o sumiço do CHIQUINHO.

  7. Gralha amtettamanzy diz:

    Quando 5 ou 6 clubes desistem da competição nacional mais inferior por falta de apoio, é sinal de que muita coisa está errada. A culpa é do Chiquinho sim, afinal a sede nova da FGF tá ficando BONITONA. A culpa é dos torcedores sim, que viram as costas para os clubes da comunidade. Mas outro fator importante que acho que não está sendo citado aqui é o ECONÔMICO.

    Nós, do alto da nossa SUPERIORIDADE BOVINÓIDE, achamos que estamos por cima da carne seca (como ouvi duma gaúcha falando pra um espanhol quando viajei semanas atrás, “no Sul o pessoal trabalha enquanto no Nordeste é todo mundo preguiçoso”). Por mais que eu e a maioria dos que aqui frequentam DEMONIZEM o futebol-business, os clubes-empresas, é necessário INVESTIMENTO PESADO geralmente de grandes empresas que tenham café no bule e que possam enxergar no futebol local uma possibilidade de retorno (é aí que entram a falta de apoio da FGF, a mídia em geral e o público miserável nos estádios).

    Da mesma maneira que nenhum clube daqui consegue ser promovido no campeonato nacional, qual grande empresa se instalou aqui nos últimos anos? Quais grandes investimentos estão sendo realizados no Estado? É difícil ter dinheiro para investir no futebol se não há dinheiro circulando por aqui.

    O RS está sofrendo um processo de URUGUAIAZIZAÇÃO e o futebol, infelizmente, vai pelo mesmo caminho.

  8. Franco Garibaldi diz:

    #7

    Muito bem colocada a questão dos investimentos em geral no estado, Gralha. Não há grana circulando e, mesmo que houvesse, quem seria louco de investir em um segmento que não te dá visibilidade, uma vez quer todos os focos estão voltados para a dupla da capital?

  9. Zezinho diz:

    Apesar de tudo, eu não acho a FGF a grande culpada. A questão do cruzeiro no Caribe é mais uma caricatura, como deputados ou vereadores se concederem aumentos salariais enquanto a população não tem emprego ou comida. Pegar o dinheiro do aumento salarial e investir em outras coisas não mudará nada radicalmente, mas fazê-lo é, no mínimo, indelicado.

    As federações catarinense, paranaense e mineira são tão escrotas quanto à gaúcha. O sucesso deles passa pelo aspecto econômico, como muito bem colocou o Gralha, e pelo modelo de futebol adotado aqui, a chamada ‘escola gaúcha de futebol’.

    O Interior gaúcho revelou Thiago Silva, Naldo, Ederson e Michel Bastos na primeira metade da década passada. E depois? Quem a Dupla Gre-Nal contratou do Interior e o cabra se firmou? Qual técnico surgido no Interior se firmou em outros estados?

    Tem-se dado, por outra via, demasiada autonomia aos treinadores daqui na montagem dos seus grupos. Luis Carlos Martins, no Ju, Lisca, no Noia, e Gilmar Iser, no Avenida, quando montaram os times desse ano, os encheram de bruxinhos, com a total complacência dos dirigentes

  10. Cauê B diz:

    #7

    Comentário perfeito.

    É uma pena o posicionamento do gaúcho médio em relação a defesa dessa superioridade inexistente diante outras regiões do Brasil, principalmente o Norte e o Nordeste. Aliás, isso só comprova o fato dessa gente ter merda na cabeça e Yeda governadora em 2006.

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