Uma Kombi movida pela esperança

Restavam três jogos e a necessidade de vitória em TODOS eles era o desafio. O desânimo era a tônica até no discurso do presidente do clube. Foi aí que um novo time, composto por jogadores mais identificados com o clube, seja pela formação, seja pela história recente, deu motivo para que algumas centenas de papos contaminados pela DEMÊNCIA – aquela que só o futebol é capaz de produzir – rumassem até Pelotas em busca da sobrevivência de seu Juventude.

De Caxias, logo cedo no domingo, três ônibus lotados partiram em direção à Pelotas para acompanhar a decisão, secreta para a maioria que bebe apenas da fonte capitalina da informação e seus espelhos que apenas buscam a polêmica pela polêmica, mas muito aguardada pelas torcidas dos dois clubes e pelos que, mesmo alheios à competição, se importam com o futuro do futebol gaúcho.

Los Komberos: Vini, Felipe, Frizzo, Franco, Tiago e Rudi.

Enquanto o grosso da papada já cantava e bebia em algum ponto da descida da serra, seis malucos radicados na capital, um deles eu, integrantes do Consulado Juventudista de Porto Alegre, também conhecidos por Papos da Capital, se juntavam no bairro Cidade Baixa para o abastecimento etílico/alimentício da KOMBI que nos levaria para o enfrentamento decisivo. Poderíamos até estar em maior número, não fosse o esvaziamento dos bolsos com a chegada do fim do mês e/ou a ainda desconfiança justificada pela má campanha até então, que ainda era latente. Pé na estrada, a única coisa que fez a Kombi parar até chegar em seu destino foi… a necessidade de comprar mais cerveja. Na altura de São Lourenço do Sul, o encontro com os ônibus vindos de Caxias para seguirmos em comboio e escoltados da Brigada Militar pelotense, de atuação irrepreensível.

Após algumas voltas que deixaram perdido até o GPS do nosso tijolo sobre rodas, chegamos ao Bento Freitas. Que, infelizmente, me chamou a atenção de forma negativa: a condição do estádio é bastante precária. Infiltrações nas arquibancadas, rede elétrica exposta, falta de iluminação e condições básicas nos banheiros, até mesmo para a brigadiana que vi tentar usá-los. Isso quebrou muito da mística que eu tinha sobre o local. Em conversa com o senhor da bilheteria, sócio do clube e que ainda encontra outra forma de colaborar com ele, este me disse que há conversas com estabelecimentos comerciais que renovariam aquele setor do estádio, numa provável permuta. Tomara que seja verdade.

Mas, enfim, estávamos no local da decisão e era isso o que mais importava naquela hora. Apesar do fato de que deixar a família em casa e encarar a estrada em mais um domingo de verão em pleno inverno (?) gaúcho, tudo para ver um jogo de futebol, por si só demonstre alguma confiança, digo por mim e pelo que senti de muitos outros que não havia certeza de nada. Ninguém podia afirmar se os 4 a 0 sobre o Mirassol representavam um novo começo ou apenas um resultado ocasional sobre um adversário desmotivado.

Em busca de sinais, de algo aleatório que pudesse indicar alguma chance de sucesso antes da batalha (além da camisa do Ju de 2000, regalo do cancheiro áureo-cerúleo Leandro Maia antes do jogo), vi aquele que é o símbolo maior dos “cuadros chicos” abaixo da linha do Equador neste continente: um CUSCO! Que em vez de alucinadamente insistir em entrar em campo e paralisar a partida, estava ali, irredutível, no canto destinado à papada, como que escolhendo o verde esperança do time da Hércules Galló na tarde de ontem. Em qualquer outra ocasião – e estando sóbrio – nada daquilo faria sentido. Na hora, fazia todo o sentido do mundo, ainda mais após saber que o Mirassol socava de forma inapelável o Arapongas, grande rival pela vaga de quem saísse vivo dali.

Literalmente dentro de campo, o Pedro (cancheiro xavante que finalmente conheci pessoalmente) bem descreveu a partida em seu relato da manhã. Foi um jogo tenso, nervoso, mas no qual as equipes buscaram jogar futebol, da maneira que podiam e que conseguiam. Num primeiro tempo com um par de chances boas para cada lado, REI ZULU colocou o Ju em vantagem num momento crucial psicologicamente, logo antes do intervalo, que deixa o time que sofre o gol completamente abatido para o segundo tempo (e os torcedores totalmente sem voz até agora pela comemoração).

Como que sabedora disso, a torcida xavante tentou compensar o baque metendo pressão no bandeira que corria pelo lado da geral. Na base da cusparada, berros e copos plásticos (situação que imaginava só acontecer no Jaconi ou, pelo menos, só lá fatos lamentáveis como esse são noticiados e punidos…), tocaram o auxiliar de lá, que se negava a seguir atuando caso a situação prosseguisse. Com algum atraso, a BM foi acionada e garantiu que o bandeira cuidasse da linha do impedimento enquanto desviava dos brigadianos e seus escudos pelo resto da tarde.

Mas o Juventude comprovou que está num novo momento, que deu liga. Lisca, tão criticado por mim quando de seu anúncio, conseguiu transformar a paçoca esmeraldina do tempo de Luiz Carlos Martins numa equipe. Não fez mágica, apenas colocou os jogadores certos e motivados em suas posições, mostrando mais uma vez que o futebol é bem menos complexo do que os analistas querem nos fazer acreditar que seja. Dominando o segundo tempo, o único receio era que o árbitro Francisco Neto desse uma SIMONADA, aquela amorcegada típica em que o juiz ajeita um empate amigo e sai de campo lavando as mãos e fazendo de conta que não é com ele.

Com cerca de dez minutos restantes de jogo, fora os absurdos acréscimos concedidos pela arbitragem, boa parte da torcida local, que não se fez presente em grande número, já deixava o estádio. Os fatos recentes na história do Brasil parecem estar se fazendo sentir também na paixão. Este, que era outro mito xavante a mim imposto pela história, também se desfez. E não falo isso para fazer pouco do Brasil, pois é justamente disso que tenho medo em relação ao Juventude caso não consiga se recuperar logo dos últimos anos.

Fim de de jogo e, mesmo que separados pelo alambrado, time e torcida fizeram a festa. A felicidade incontida por seguir vivo (e muito) na competição e poder sonhar com um futuro melhor tomou conta do canto verde e branco (e vermelho, da bandeira do torcedor do São Paulo, de Rio Grande, que foi carinhosamente – só que não – chamado de PEIXEIRO pelos rivais) do Bento Freitas. O retorno para casa foi só alegria, festa e mais trago. Cansaço? Total, mas que é facilmente superado pela alegria de ver o Juventude vivo de novo. E agora que embalou… segura!

Já na Cidade Baixa esperando a Kombi rumo à Caxias no próximo domingo,

Franco Garibaldi (@francogaribaldi)

[Post atualizado em 21/08/2012 com a foto oficial da Kombi da Esperança e outra, em melhor definição, da festa no alambrado, cortesia do papo Tiago Dal Zotto]

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16 Respostas a Uma Kombi movida pela esperança

  1. Giaretta diz:

    Surpreendente a bandeira do São Paulo na torcida, do Pelotas seria mais compreensível.

  2. Parabéns Papada ! Sei que a imprensa da capital é detestada por , pelo menos 95%, caxienses. Mas alguns de nós – me incluam- gostamos e damos força dentro do possível. A Guaíba, aliás, é a única emissora que tem espaço diário para o futebol do interior ( e os pequenos da capital). Eu, Ernâni Campelo, Vinícius Sinott e , talves, mais algum cujo nome me foge agora, sempre que possível damos pitacos, também, nos demais espaços.

    Confesso que se trabalhasse em Caxias, não sei por que, teria mais simpatia pelo Caxias, mas com o “Toda cancha” a gente começa até a valorizar mais esta faceta desconhecida e esse esforço sobrehumano de vocês, papada.

    Parabéns mais uma vez e duplamente pela ótima média de público aí botando o meu xavante no chinelo. Mas uma conceito que vou ter que reconsiderar. Acho que a xavantada “não é a mais fiel e maior do interior”. Báaaa.

  3. Alexandre Pereira diz:

    Viva o futebol do interior!

    Um viva ao JUVENTUDE!!!!

  4. Diogo Cassina diz:

    Por isso que o futebol é uma droga: somos todos viciados.

  5. daroit diz:

    #2

    Bohlke, é verdade. Já postei hoje no twitter que o espaço que o Correio do Povo dá ao futebol do interior, ainda que MUITO longe de ideal, é bem melhor do que o dos outros jornais. E, nas rádios, o mesmo vale pra Guaíba. Parabéns pra vocês, esses que você citou, que pelo menos dão algum espaço pros nossos clubes, algo que não existe nas outras emissoras. Se no Toda Cancha nunca elogiamos publicamente, é só porque somos movidos mais pela CRÍTICA FEROZ do que pelos ELOGIOS hehe, mas saibam que damos apoio. Ainda há muito a melhorar nesse quesito, mas aqueles quinze minutos diários com o Fiorin, ainda que insuficientes, nos fazem pelo menos acreditar que algum dia esse cenário de abandono irá mudar. Tamo junto.

  6. Natan Dalprá Rodrigues diz:

    Minha ex-namorada que terminou comigo SEMANA PASSADA, argumentou nao entender o porquê de eu em minutinhos aleatórios de folga, querer saber resultados e afins do futebol interiorano.

    Adoraria que ela lesse este relato.

  7. Natan Dalprá Rodrigues diz:

    OBS: Quanto a meu comentário acima, nao foi este o motivo do PETARDO que levei na RETAGUARDA, mas vale o resgistro.

  8. Cassol diz:

    Só o que tenho a dizer pra vocês, gurizada:

    http://youtu.be/wzgmcW-La8A

  9. Maurício Klaser diz:

    Cerveja, Kombi, Cusco, Jogadores subindo no alambrado….
    O Futebol respira

  10. Lisandro andré Ló diz:

    80% do caminho da calssificação do Ju foi trilhado, faltam 20% no domingo e depois classificando são 4 jogos ao acesso, a parada é dura, mas existe luz no fim do tunel, e espero que neste ano desacretidados subamos, pois ano passado eramos o melhor da seri D e caimos. Precisamos voltar a C e depois pra B, pra ressurgir no cenário nacional e quem sabe voltarmos a A pra novamente ficarmos lá pelo menos 13 anos seguidos novamente.

  11. Carlos diz:

    Parabéns pelo texto e pela insistência. Sou torcedor do Caxias, e esses momentos como vocês viveram ontem fazem continuarmos alimentando essa paixão (no meu caso pelo Caxias) por times, digamos, menos festejados pela grande mídia.

    Tomara que o blogueiro grená volte logo para podermos ler textos como esse de alguma epopéia grená pelos gramados desse Brasil.

  12. Gustavo Dani diz:

    Sobre a imprensa da capital, ainda insistiram no Globo Esporte em dizer: “a GRANDE torcida xavante…” e os “poucos representantes do Juventude no Bento Freitas” isso que foi dito hoje de meio-dia. Depois do brasil ter um público no mínimo ruim, e de 150 fanáticos viajarem 7h de onibus pra se juntar à Kombi de POA e de outros próximos num estádio com fama péssima.

    Sobre a Kombi, PARABÉNS para os Papos da Capital. Sem mais, depois de vê-los no amistoso em Cerâmica vê-los nessa decisão não me surpreende hehehehe.

    A esperança ainda é VERDE.

  13. Douglas diz:

    O Diogo Cassina falou tudo: somos todos viciados pelo Verdão…hehehehhe
    Dá-lhe JUVENTUDE!!

  14. rafael gubert diz:

    Parabéns, galera…descobri o texto graças ao Flávio Gomes da ESPN que acabou de mencionar no Pontapé Inicial….enquanto houver papos como vocês o nosso Juventude vai resistir, mesmo com a incompetância que ronda o nosso querido Alfredo Jaconi.
    Força aí e parabéns, o relato tá demais!

  15. ivan dal bosco diz:

    parabens pela descrição passo a passo eu não pude estar la mas acho que meu filho que estuda na ufrs estava junto com os papos da capital até domingo no jaconi

  16. Pingback: 2012: quase um looping verde e branco de 2011 | Toda Cancha

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