Um Ano, Uma Batalha Campal e Um Estádio que tombou

Estádio Santa Rosa: demolido em 2010, a casa do Novo Hamburgo por mais de meio século viu seu jogo mais épico em 2003. Foto: Jornal NH

O ano era 2003. Eu, com 13 anos na cara, ainda sem conhecimento algum das belezas do futebol do Interior. Mas com toda certeza, este ano mudou toda minha visão; ou melhor, fez começar a DEMÊNCIA. Se hoje tenho amor pelo Novo Hamburgo foi por causa do pai de um amigo, à época diretor de futebol do Noia, que em sábados chuvosos, nos levava para o, hoje demolido, Estádio Santa Rosa. O dia era passado inteiro lá, acabei conhecendo desde o porteiro até o Luciano, goleiro que usa FOLHAS DE ARRUDA nas orelhas (que eram plantadas num canteiro ao lado do Estádio, e os adversários tentavam tirar dele em escanteios e faltas alçadas na área).

Fomos na maioria dos jogos do tão sonhado acesso. Porém um em especial segue vivo na minha mente: Noia x Inter-SM, no dia 28/09/03, foi daqueles embates que com um toque de mentira contarei para os meus netos jurando que foi verdade. O time de Santa Maria era o grande rival na briga pro subir de divisão, e naquele jogo, levaram a sério mesmo o termo BRIGA.

As equipes já haviam se enfrentado duas vezes na Segunda Fase, com ambas vitórias aniladas: 2×0 no Santa Rosa e 1×0 na Baixada Melancólica. Pelo 1º turno do Octagonal Final, o Coloradinho bateu o Noia por 2×1 em Santa Maria, em um jogo polêmico onde o gol de empate anilado, marcado por Xavier já nos descontos, foi anulado erroneamente pelo bandeirinha, dando início a CENAS LAMENTÁVEIS – o goleiro Luciano chegou a esmurrar a cara do auxiliar mas, corretamente, não foi expulso. O triunfo colorado findou uma série de 15 jogos invictos do Noia na competição.

Ocorria uma espécie de DILÚVIO em Novo Hamburgo (e não estou fantasiando, quem conhece o RS, sabe que Setembro SÓ CHOVE), campo mais do que encharcado, duas equipes que já se odiavam na competição, se odiando mais ainda com os rumos da partida.

Todo confronto pode ser resumido em apenas uma sequência de fatos – o primeiro tempo caminhava para seu fim, pênalti para o Interzinho, gol, juiz marca invasão, técnico do Inter revoltado, um copo de cerveja atinge a cabeça dele, seguranças do clube visitante brigam com os do local, jogadores contagiados pelo extra-campo fazem o mesmo, chuva, barro, todos brigando literalmente pelo acesso.

Depois de longos minutos de batalha campal, novamente o pênalti seria batido, e desta vez o GOLEIRO COM FOLHAS DE ARRUDA NAS ORELHAS (Luciano, 1,72m) pegou o penal.
Torcida anilada indo ao DELÍRIO, chuva de pilhas e pedras de gelo na casamata do Inter, nova briga no gramado, porém os DEUSES DO FUTEBOL ainda reservavam outro momento de CATARSE COLETIVA.

Antes do apito final da primeira etapa, pênalti para o Anilado. Douglas Cavalinho, principal avante da equipe, bate e Goico pega. No entanto, o árbitro marca invasão e manda voltar cobrança. Então, Marco Antônio, capitão e artilheiro anilado, bate com categoria e faz 1×0. Revoltados pela marcação da penalidade máxima, NOVA BRIGA, com paus, pedras e até recém nascidos jogados na cancha e os jogadores revivendo um REBULIÇO digno de chimangos e maragatos.

No segundo tempo, com o sangue escorrendo pelas VENTAS das duas equipes, dois colorados foram expulsos e três simularam lesões, obrigando o juiz a encerrar a partida aos 18 minutos da etapa complementar. O resultado praticamente encaminhou a SUBIDA do Noia, que se confirmou na última rodada, contra o Cachoeira (1×0, gol de ZULU – ele mesmo, então com 20 anos, saído das CANTONEIRAS do Santa Rosa).

Elenco do Gauchão de 2004; em destaque os sobreviventes da Guerra de 2003: Luciano e Marco Antônio (acima), Luis Henrique, Djair e Tiago Rannow (centro), Dias e Duda (abaixo)

Desde então, o Noia nunca mais voltou para os PORÕES do futebol Gaúcho e a torcida segue aguardando o próximo passo a ser dado. Noia venceu Copa RS e a Emídio Perondi em 2005, no mesmo ano bateu na trave ao tentar subir para a Série B Nacional. Seguimos nos mantendo na primeira gaúcha, mas ultimamente a direção não está nem nos dando o direito de sonhar com isso, renegando a D Nacional.

Passados alguns anos, virei membro de torcida organizada do Noia. Outros anos me afastei por ser atraído por um amor da capital. Neste período, o Santa Rosa tombou, como tantos outros estádios por ai, agora restam apenas as histórias, um dia talvez elas sejam esquecidas quando todos que sabem delas também tombarem. Aqui no Toda Cancha, com as EPOPÉIAS de diversos clubes menos CHIQUES E MODERNOS aprendi que elas podem seguir vivas, mesmo que muitos tentem dizer que o Futebol do Interior Gaúcho morreu e tudo mais.

Daqui alguns dias DIZEM terá o leilão para saber o VERDADEIRO DESTINO do Estádio Santa Rosa, eu preferia que os escombros seguissem lá, praticamente uma CICATRIZ NA CIDADE, uma amostra da crueldade que é demolir algo que tem HISTÓRIA. Erguerão uns ESPIGÕES no lugar, provavelmente terá uma quadra de asfalto, vazia, pois os jovens estarão ocupados com o novo jogo FIFA ou PES do momento e não com o futebol de verdade.

Divisão de Acesso
Octagonal Final – 9ª rodada
Novo Hamburgo: Luciano; Tiago, Dias, Luís Henrique e Itaqui; Djair, Vinícius, Marco Antônio e Maico Gaúcho; Leandro Costa e Douglas Cavalinho.
Inter/SM: Goico; Carlão, André Ricardo, Scharles e Jéferson (André Ijuí); Morelli (Filipetto), Sandro Gomes (Ludo), Jean e Lela; Aldo e Santiago.
Gol: Marco Antônio, aos 47′ do 1T
Cartões amarelos: Tiago, Djair, Dias (NH); Scharles, Morelli, Ludo e Jean (Inter)
Cartões vermelhos: Luís Henrique (NH); Carlão, André Ricardo e Lela (Inter)

Um dia venceremos,
Maurício Klaser

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20 Respostas a Um Ano, Uma Batalha Campal e Um Estádio que tombou

  1. Cauê B diz:

    “Todo confronto pode ser resumido em apenas uma sequência de fatos – o primeiro tempo caminhava para seu fim, pênalti para o Interzinho, gol, juiz marca invasão, técnico do Inter revoltado, um copo de cerveja atinge a cabeça dele, seguranças do clube visitante brigam com os do local, jogadores contagiados pelo extra-campo fazem o mesmo, chuva, barro, todos brigando literalmente pelo acesso.”

    Espetáculo que nem a várzea te garante e que nunca ocorrerá naqueles estádio de estrutura UEF’ense.

  2. Weber diz:

    Eu estava atrás da casamata do Inter. O jogo não podia começar, pois o Bagé e os reservas do Inter não conseguiam entrar no seu espaço, devido a chuva de gelo, pilhas e o que estivesse ao alcance dos anilados da social.
    O lance do penalti do Noia foi o seguinte: um jogador bateu, Goico pegou, mas o juíz mandou bater novamente. Daí Marco Antonio pegou a bola, bateu e converteu. Mais uma vez fechava o pau. Foi uma pancadaria generalizada que já estava prometida desde o primeiro jogo em Santa Maria. Muitos anilados dizem que foi a vingança do jogo de 81, quando o Noia vencia na Baixada por 0x2 e estava encaminhando o título Gaúcho daquele ano. No 2° tempo vei a espetacular e super polemica virada colorada.

  3. Weber diz:

    Voltando a 2003, o atacante do Inter era o Josiel e o jogo acabou, pois o Inter teve varios expulsos e iniciou um cai-cai. Inesquecível.

  4. Maurício Klaser diz:

    #2 Weber

    Atualizamos o post com algumas dessas informações, pecamos na apuração de alguns fatos. A ajuda para COMPLEMENTAR o texto sempre é bem-vinda

  5. Natusch diz:

    Estádios de futebol deveriam ser TOMBADOS. Derruba-los é sempre uma dor profunda na alma coletiva do brasileiro.

    Um dia quero ir nessas ruínas aí, Moleque. Te vira.

    Bonito texto, essas descrições de PAIXÃO (pancadaria) são sempre belas ^^

  6. Maurício Klaser diz:

    #5

    Podemos visitar os ESCOMBROS em um dia de jogo no Estádio do Vale.

    O mais lindo é que AS TRAVES seguem no local, praticamente um confronto com a realidade, dizendo tipo “AQUI É UM ESTÁDIO DE FUTEBOL E NADA MAIS”

  7. l u c a s diz:

    o que falta hg em dia no nóia é a emoção de se ir no jogo , muitas vezes não temos nem barulho no estádio , que é triste de se ver . Esse texto passa um pouco sobre o que penso , quando passo em frente ao velho santa rosa me bate uma saudade dos jogos lá .

  8. Anderson diz:

    Pq ao descrever as brigas citou “CENAS LAMENTÁVEIS”? Não há nada de lamentável nisso, é lindo ver uma briga no campo de futebol, jogadores literalmente dando a vida pelo jogo, pela honra da camisa que veste. Deveria escrever “CENAS MEMORÁVEIS” pq é exatamente isso que é.

  9. Natan Dalprá Rodrigues diz:

    Por essas e por outras que quando falam em fazer uma arena bonitinha e tal no lugar do Cristo Rei, eu sinto um frio na espinha.

    Baita texto Klaser.

  10. Natan Dalprá Rodrigues diz:

    Tenho a sensação estranha de que em todo e qualquer relato de batalha épica envolvendo os clubes pampeanos o Goico se fará presente.

  11. alexandre diz:

    Baita texto Klaser.
    Estive neste jogo e posso dizer que foi um dos mais tensos do noia que ja fui.
    Lembro do Luis Henrique e o Goico saindo na briga a ponta pes.Aquilo foi uma verdadeira Bombonera .Distribuiram bandeirinhas com o escudo do noia e no intervalo centenas delas voaram nos jogadores do coloradinho que nem puderam ir para o vestiario.
    Que saudade daquele tempo.

  12. Maurício Klaser diz:

    #8
    CENAS LAMENTÁVEIS foi para seguir o padrão coxinha de relato de brigas, apenas um recurso IRÔNICO

  13. pedrohckruger diz:

    BAITA TEXTO, Klaser.

    “[…] e até recém nascidos jogados na cancha”, esta frase particularmente me fez URINAR nas calças.

  14. Chico Luz diz:

    o Santa Rosa tá com as traves no lugar porque a base ainda tá jogando por lá – os times abaixo dos juvenis.

  15. O goleiro Luciano, 1m72cm, pegou esta mania de colocar um galho de arruda atrás da orelha com o Juarez. Este foi goleiro do Pelotas de 84 a 90, mais ou menos. Época em que o Luciano estava surgindo ( final da década de 90). O Juarez era uma negro forte. Hoje seria baixinho para goleiro. Media uns 1 e85. Veio de Joaçaba. Fechava o gol nos Bra-péis. Nunca havia perdido clássico. Era uma invencibilidade de uns cinco anos. Um dia o Lambari- que fora seu companheiro no Pelotas- em um clássico,após cobrança de escanteio, arrancou o galho de arruda da orelha do negrão e fez o gol -da vitória xavante- nele. Dizem ainda morar em Joaçaba. Não anda bem de vida. Não juntou muito. Ganhava-se pouco na época. Em um acidente perdeu parcialmente a visão em um olho. Ainda vai a Pelotas nos finais de ano para o tradicional jogo do pessoal da Churrascaria Lobão, junto a Boca do Lobo. Várias vezes vazou que estava na gaveta em jogos contra o Grêmio. Quando isso acontecia sempre fechava o gol. Era o falecido Camelinho, folclórico torcedor do Grêmio e corneteiro da rua da Praia que ia a Pelotas e espalhava o boato. E a xavantada fazia questão de retumbar. Foi sondado pelo Vasco da Gama. Talvez isso tenha-lhe prejudicado a negociação.

  16. Sandrilho diz:

    Tempo sem caixa de som…

    Hora de se abrir uma aba com GRANDES JOGOS.

  17. Luciano: JESUS DE LUVAS. Que goleiro fenomenal. Lembro de ter pego três pênaltis naquela campanha: dois contra o Inter (Santa Maria e Novo Hamburgo) e um contra o Lajeadense (Florestal).

    Aquele time montado no 3-5-2 começou engasgando na Primeira Fase, mas engrenou absurdamente na Segunda. Ficou 15 jogos invictos, jogando bem, muito encaixado. A defesa tinha ALÁDIO, DIAS e LUIS HENRIQUE. Só homem com H maiúsculo.. Tiago, ainda guri, numa das alas, Djair e Xavier esmerilhando na meia-cancha, Marco Antônio destruindo.

    Na fase final, perdemos Assis e Valdiney. Daí o Douglas assumiu a função de goleador e desembestou a fazer gol. Nos últimos jogos, Chicão criou o monstro ZULU, que entrou no finalzinho contra o Lajeadense e empatou o jogo, fez o gol da vitória em Bagé e o gol do acesso contra o Cachoeira.

    ***

    Todos os 4 jogos contra o Inter foram tensos. Na segunda fase, em Santa Maria, Luciano pegou um pênalti e Marco Antônio fez de falta. No Santa Rosa, na Octogonal, foi lindo. Ganhamos na bola e no pau

  18. Chico Luz diz:

    comentários fantásticos do Bohlke e do Zé. Que senhoras lembranças.

  19. Denis diz:

    As ruínas e restante de concreto do Santa Rosa ainda farão parte da estrutura da minha futura casa… tudo jogado dentro do porta malas do Santanão…

  20. Cássio diz:

    Quando o setorista do Caxias volta?

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