O feitiço do tempo em verde e branco

Dos tantos motes para iniciar um texto sobre uma tragédia, talvez o mais leve – tanto para quem lerá este triste relato como para quem encara o fato de redigi-lo como uma melancólica obrigação – seja o mais indicado. Este ano, o Juventude conseguiu aliar dois slogans criados/utilizados pelo seu mais PROFÉTICO departamento: “O inacreditável acontece” (2012) e “Paixão sem divisão” (2008). Inacreditável. Sem divisão…

Não vou relatar o jogo. Se quiserem saber sobre o que aconteceu no oeste paranaense domingo, aqui e aqui existem boas matérias. Apenas resumirei a questão: o clube que tinha a vantagem de poder jogar pelo empate e até por derrota, tomou 3 a 0 já na etapa inicial. O time sequer havia tido tempo de colocar a camisa pra fora do calção e já tomou um gol, logo aos 2 minutos.

(Veja os gols, em especial o surrealismo do segundo – e a falta de informação da jornalista da… adivinhem)

Emulando aquela saltadora com vara em Londres, preocupado mais com o vento que varria Cianorte e mudava a direção dos lançamentos do que com o jogo, o Ju levou mais dois balaços, aos 44 e 45 minutos. O primeiro deles na saída em falso de Follmann em uma bola alçada, que bateu nas costas de Zulu e entrou no próprio gol. Lances fatais, soube-se uma hora depois. Mesmo para quem apenas ouvia o jogo pela Rádio Caxias, era certo que, mesmo empilhando atacantes, o boi já tinha sido ENGOLIDO com corda e tudo pelo brejo.

O segundo tempo inteiro se assemelhou ao escoar da areia de uma ampulheta. A cada segundo que se passava, a incapacidade do time em fazer o gol que ao menos levaria a decisão para os pênaltis consumia o tempo de sua permanência em algum nível de futebol nacional seriado. Na verdade, o Juventude como um todo encontra-se numa espécie de FEITIÇO DO TEMPO, só que numa versão ainda mais cruel: novamente está obrigado a apostar tudo na copinha em andamento ou no Gauchão do ano que vem pra poder novamente disputar o inferno que é a série D.

Diferente de 2011, quando teve a melhor campanha na primeira fase e sucumbiu diante do Mirassol, frustrando o torcedor que acreditava na sequência daquela equipe, esse ano havia a esperança de que o time tinha dado liga na hora certa e nada mais poderia segurar a escalada, cuja vaga se decidiria já na próxima fase. “Dessa vez, vai!”, pensava a maioria, mesmo não contando com o ovo antes da hora. Não foi.

Custei a engrenar esse texto. Nem sei se há algum nexo nele. Desde o final do domingo, tinha algumas ideias sobre ele mas não sabia por onde começar. Mais do que isso, não tinha sequer motivação para abrir o editor de textos. O pior do domingo, para mim, foi me pegar questionando seriamente o tempo que literalmente perco com o futebol, esporte que o Juventude teima em tornar mais aleatório do que o normal.

Chega a segunda e, nos jornais, nada faz crer que algo possa melhorar. Fala-se em antecipação de receitas da tevê do próximo Gauchão pra cobrir a folha atual, fim do patrocínio já esquálido para as pretensões do momento e até da venda do atual centro de treinamentos (que já é fruto da venda anterior da antiga sede campestre). Ou seja: um clube com estrutura para estar ao menos numa série B nacional vai encolhendo ano a ano. Até quando suportará à corrosão que já assolou inúmeros clubes do estado e que só abrem as portas artificialmente, amparados por empresários, legítimos lobos em pele de cordeiro? Não sei mais…

[As fotos foram extraídas dos sites dos jornais Pioneiro e Folha de Caxias. E a data de publicação desse texto, só me liguei agora, é mera coincidência…]

Questionando tudo, até se até Bill Murray suportaria reviver não só um dia, mas todo um ano, repetidas vezes e sem perspectivas de sucesso,

Franco Garibaldi (@francogaribaldi)

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16 Respostas a O feitiço do tempo em verde e branco

  1. Régis diz:

    Olha merda do “jornalismo” da RBS, não deu nem QUINZE segundos para o Juventude…

    Parece que torcem mesmo para o fracasso do interior.

  2. Felipe diz:

    #1

    Do Interior não. Existe uma exceção na Zona Sul.

  3. Murilo diz:

    A exceção na zona sul é o S.C Internacional da dupla Grenal.

    Já o da cidade interiorana ao sul tem certa imprensa que finge apoiar, é diferente.
    Boa sorte ao Ju. Que lástima esse ocaso do futebol gaúcho. Clubes tradicionais na terceirona do gaúcho, brasil pel afundado e um juventude completamente longe da projeção de onde um dia esteve.

  4. pedrohckruger diz:

    Cara, tá tudo errado neste mundo.

  5. Maurício Klaser diz:

    Se acalmem, o Cruzeiro da FGF pelo Caribe é um sucesso

  6. Daroit diz:

    Ano passado, pós-zoações sofridas sobre a final da Copa RS, fiz a profecia de que o Lajeadense ia chegar na Série C antes que o Juventude. Acho bom vocês começarem a torcer por nós.

  7. Natan Dalprá Rodrigues diz:

    Tá tudo muito errado e NINGUÉM além de nós parece se importar. O futebol gaúcho encolhe, diminui, respira por aparelhos, clama por socorro e nada.

    Tirando a dupla, só nos restou a SER Caxias nas demais competições nacionais, é um absurdo!

    Dá realmente vontade de largar de mão, mas aí vemos que se não fosse por abnegados como nós, a situação estaria muito pior.

    Por isso, segue a luta!

  8. Zilli diz:

    RS pelo que é (ou mais pelo que representa, atualmente), deveria ter no minomo os dois de praxe na A, 2 na B, 2 na C e a galera da D brigando. Mas em breve teremos 2 estádios FIFA, viva!

  9. Grená diz:

    O jusensérie só vai sair dessa quando baixar a SOBERBA e se tocar que está numa série D ou pior, sem série.

  10. Brauner diz:

    Enquanto isso o Sr. Multisom fica pressionando o Inter a jogar no Jaconi e nem uma palavrinha sobre o momento do futebol do interior.

    Acho que tinha que rolar uma desfiliação em massa e criar um campeonato paralelo, sei lá, tipo o que fizeram com o basquete (o Oscar criou o Nosso basquete Brasil).

  11. #10
    Os dirigentes cu de cachorro que temos no interior (todos) só servem pra lamber as bolas do Noveletto. Tão todos amarrados a ele, seja pelo adiantamento de verbas de tv – que a imprensa trata como a oitava maravilha do mundo – ou pelos uniformes fornecidos pela Mega sport (que é do Chico também).

    Ou seja, pra mudar isso, só se o dono da Multisom bater as botas de uma vez E o interior de verdade resolver assumir a bronca, caso contrário, já era.

  12. Régis diz:

    O RS historicamente teve apenas 3 promoções de divisão, duas com o Gremio na piada de 92, a da batalha dos aflitos e a do Juventude/Parmalat.

    É MUITO pouco.

  13. ODINEI KIELING diz:

    Q fase a do Juventude,ficou 13 anos na Serie A do Brasileirao de 95 a 2007 agora vai tentar novamente 1 vaga na Serie D,ta louco!!!!!

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