Viagem ao Rio Grande do Sul

Setembro é habitualmente (in)tenso no Rio Grande do Sul. É tempo da cidade dentro da cidade, dos desfiles da Pátria e da guerra. É difícil não ferir suscetibilidades patrióticas ou guascas pelo vilarejo. É batata! Sempre se levanta um taura com zóio torto e questionador, quando o tema é nossa revolução gloriosa. Em 2012, tudo isso foi acrescido das disputas pelos paços municipais que adentram o coração da terra farroupilha. E, no âmbito privado, como o assunto aqui também é futebol, de algumas peleias por diretorias e projetos nos clubes do Estado. Em alguns cantos se avizinham batalhas sanguíneas, no melhor estilo “Gravata Vermelha”, noutros o vazio de poder é uma realidade cada vez mais frequente e aceita.

Essa atmosfera encharcada de gauchismo, o civismo dos gaúchos, me fez recordar de um cronista francês que certa feita andou por essas bandas. Era junho de 1820, quando surgiam pela primeira vez aos olhos de Auguste de Saint-Hilaire as terras de São Pedro do Sul. O filho do velho mundo desfilou de carreta por Porto Alegre, Rio Grande, Cisplatina, Missões e regressou ao Rio de Janeiro, já em maio de 1821. Assim como hoje, o RS não era um destino turístico dos mais privilegiados e o aventureiro escolheu o caminho motivado pela ciência, mais especificamente pela pesquisa em botânica que desenvolvia. No entanto, apesar do objetivo central, o viajante não se limitou a isso, reservando especial atenção em seus relatos a aspectos culturais e socioeconômicos das diversas regiões que percorreu. Um leitor mais atento pode concluir que o herbário era um detalhe na aventura de Auguste.

No início do século XIX, predominavam as médias e as grandes estâncias na Capitania, com criação de gado nas pastagens e atividades agrícolas geralmente voltadas para a subsistência, com utilização de mão-de-obra livre e escrava. Na costa, pros lados de Tramandaí, o estudioso encontrou pescadores às margens do Rio Tramandaí. As exportações da província ultrapassaram os quatro milhões de cruzados no ano anterior à chegada de Saint-Hilaire. Os principais produtos exportados haviam sido charque, couro, trigo e, em menor quantidade, crinas e chifres de bois.

Aos olhos do viajante, a Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul era uma das mais prósperas do Brasil e das mais favorecidas pela natureza. Congregava costa litorânea, lagos e rios que facilitariam o transporte e o escoamento da produção. Entretanto, em determinadas regiões da província a falta de infraestrutura para os transportes, atrapalhando o comércio, foi mencionada inúmeras vezes. As principais atividades econômicas eram a plantação de trigo, centeio, milho e feijão e a criação de gado. O gado era criado solto no campo e o trabalho consistia em manter os animais em pastagens próximas da casa, acostumando-os ao contato com as pessoas e fazendo-os “entender os gritos”. As estâncias criadoras de gado não empregavam muitos escravos, sendo comum, no Rio de Janeiro, quando um escravo desagradava seu senhor, a ameaça de que seria vendido para o Rio Grande. Mas, segundo Saint-Hilaire, a vida dos escravos nas estâncias era significativamente menos dura do que os que trabalhavam nas charqueadas, mas, é preciso talhar, o regime jurídico era de escravidão.

O observador foi bastante severo ao descrever “o gaúcho” na passagem que segue: “segundo o caráter bem conhecido dos gaúchos, é lícito crer que, logo proclamada a independência, aproveitaram eles os primeiros momentos de desordem a fim de pilhar o gado nas estâncias dos portugueses e que estes, por sua vez, também o roubavam das estâncias espanholas”. “Nada mais comum aqui do que a pilhagem de animais; é tão comum essa espécie de roubo, que o consideram quase como legítimo, tendo-se concebido até uma palavra honesta para expressá-lo”. Porém, ele não diz qual seria a palavra. Saint-Hilaire finaliza dizendo que a “Capitania do Rio Grande do Sul tornou-se, pois, riquíssima em gado, à custa de pilhagem, ao mesmo tempo em que desfrutava (…) uma paz favorável ao seu comércio e da qual os seus vizinhos estavam privados”. Durante a guerra os portugueses teriam roubado um número considerável de animais dos espanhóis, sendo esse número estimado em um milhão de reses. O cronista, inclusive, adquire um animal roubado quando em Santa Teresa. Mesmo após receber as provas de que, de fato, foi roubado durante a guerra, não devolveu por não considerar correto. Tal reclamação era trocada entre os dois lados: portugueses e espanhóis.

Seguindo viagem, o francês comemorou a passagem pelas charqueadas fora da temporada da matança e da produção, fora do “horror que deve ser o trabalho e a visão desses locais”. Refere-se a São Francisco de Paula como uma região propícia para o cultivo de todo gênero de cultura. Entretanto, os charqueadores tinham as terras muito divididas e não se interessavam pela lavoura, preferindo importar alimentos da serra dos Tapes. Seria na região de São Francisco de Paula que se encontrariam o maior número de charqueadas, dezoito, que abateriam, aproximadamente, cento e vinte mil animais. Após o ministério de Pombal, tentou-se a inserção da cultura do cânhamo, mas até este momento as tentativas se mostraram inúteis. Os principais produtos, que se encontram na província, são os que provêm de animais e esses objetos são empregados de todos os modos possíveis, relatou Saint-Hilaire.

No noroeste, o autor faz inúmeras observações sobre a pobreza de vilarejos indígenas formados, observa ele, por populações oriundas das Missões Jesuíticas que ali existiam. Por este motivo, também fica tentando identificar nos índios traços da influência jesuítica, por exemplo, na produção de tecidos e ponchos, ou na existência de algumas bibliotecas. Entre outros detalhes, Saint-Hilaire recrimina a ociosidade da população em geral (índios, brancos e mestiços), que não cultiva a terra e cria o gado solto. Aqui é preciso observar que boa parte da população fugiu da região devido às guerras. A maioria da ocupação era de soldados portugueses, enviados para guardar o território dos espanhóis e dos bandos de Artigas. Apenas aos poucos, esses soldados acabaram se prendendo àquelas terras, formando famílias e dando início a um novo povoamento dessa região.

De modo geral, a visão de Saint-Hilaire esteve mediada por comparações com o continente europeu, principalmente com a França. E, somado a isso, o olhar do cronista viajante não escapa ao viés racista do período em questão. O que não invalida o retrato que oferece do Rio Grande do Sul e da atual República Oriental do Uruguai na época de sua passagem, servindo, inclusive, de introdução para a compreensão da Guerra Farroupilha iniciada proximamente.

Quatorze anos depois de Auguste, foi a guerra civil quem visitou o Rio Grande do Sul. Era 1835 quando foi deflagrada a contenda dos Farrapos contra o Governo Central, primeiro no Período Regencial e, depois, no início do Governo de Dom Pedro II. E já aqui começa a fazer algum sentido nossa retomada das visões de Saint-Hilaire, na medida em que o foco da revolta do extremo sul estava na esfera econômica. A exportação de charque, gado e couro do RS perdeu competividade com a ação do Império, que retirou a taxação dos similares vindos da Região do Prata. A manutenção do fim do protecionismo pecuário impulsionou a organização de grupos políticos com inspiração republicana e contestadores da centralização de poder no Império.

Capitaneados pelo estancieiro Bento Gonçalves, os Farrapos, que levavam o nome por carregar pedaços de panos vermelhos, farrapos, presos nos seus trajes, sitiaram Porto Alegre, que permanecia mui leal, valerosa e fiel ao Império, e levaram a cabo um exitoso golpe político contra o presidente provincial.

Com a consolidação da nova sede do governo da República Rio-Grandense na cidade de Piratini, os Farrapos alcançaram Santa Catarina e, no ano de 1839, era formada a República Juliana. O sucesso militar Farrapo contou com os serviços do Giuseppe Garibaldi, que foi responsável pela condução terrestre de duas embarcações que saíram da região da Lagoa dos Patos com direção à Tramandaí. A operação logística por ele comandada garantiu o sucesso em um ataque surpresa que abateu as forças imperiais. O italiano voltaria a cena anos depois, no processo de unificação da Itália.

No contra ataque imperial, Luis Silva, que viria a ser mais tarde o Duque de Caxias, foi nomeado presidente da província em 1842 e habilmente explorou as contradições internas do movimento farroupilha. Para desmobilizar os revoltosos, Caxias ofereceu aos guerrilheiros do pampa a garantia de anistia, a recondução as suas terras tomadas, a inclusão dos oficiais revoltosos no exército nacional e, aos escravos, a liberdade para os envolvidos no conflito. Além disso, a questão tributária também esteve no foco das negociações e a assinatura do Tratado de Poncho Verde rendeu aos estancieiros a garantia de taxação de um quarto sobre toda carne salgada recebida da região platina pelo Império.

A guerra dos Farrapos foi o mais longo embate civil da história do Brasil e, no Rio Grande do Sul, sobrevive menos como fato histórico, do que como mito. Incorporada ao folclore da terra pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho, foi propagada como exemplo da diferença, do gauchismo, da bravura sem igual, da realização do orgulho e, quando recuperada sob o olhar da historiografia, causa, ainda hoje, algum mal-estar no povaréu.

Recentemente a Fundação de Economia e Estatística (FEE) calculou uma queda de 6,8%, com relação ao mesmo período do ano anterior, no PIB (Produto Interno bruto) do Estado. O percentual negativo não é exceção e expõe que não vamos bem. Seja por nossa incapacidade de produzir melhor, de distribuir renda ou por alterações humorísticas do mercado internacional. Uma nova guerra civil em busca de proteção alfandegária parece estar, acertadamente, fora dos planos. Assim, nos resta construir uma alternativa interna. E não basta ser livre e ter a garganta afiada no balcão do bolicho para ser gaúcho, pelo menos não deveria bastar. É necessário praticar um orgulho consciente, crítico, menos preguiçoso. E assim chegamos também ao futebol.

Quando o assunto é o futebol isso parece tão necessário, quanto indesejado pelos homens de poder. Em mais de uma vez já tratamos aqui sobre a situação calamitosa do futebol do interior. O debate foi desde uma proposta com mais gauchidade para o jogo de bola pampeano, passando pela análise do desempenho pífio dos nossos clubes nos campeonatos nacionais, sentando a pena nas imprecisões e absurdos cometidos pelo interior a fora e, mais recentemente, chamando atenção para o escárnio marítimo proposto pela Federação Gaúcha de Futebol, que surgiu para dar conta do mais novo bibelô da classe média nativa (eu falo da possibilidade de subir a bordo num Cruzeiro, desculpem, mas eu só admito esse tipo de coisa na hollywood dos anos 80), enquanto os clubes do interior, em dívidas, assim como Garibaldi, deliram, puxando no campo um provável navio e gritando no mar farroupilha.

Além disso, não se pode, inclusive quando tratamos de futebol, sonegar nuances econômicas entre as diferentes regiões do RS. Algumas são muito ricas, outras extremamente pobres. Essa situação até pode propiciar focos de desenvolvimento esportivo artificiais, sazonais e de curta duração, mas, via de regra, os extremos servem para deprimir ainda mais centros tradicionais, por onde a pelota já rolou com muito menos sofreguidão.

O futebol do interior precisa passar por uma profunda mudança nas relações de poder entre clubes, comunidades locais e a Federação, mas isso não basta. Será preciso revitalizar o torcedor e a torcedora. É fundamental recolocar sentido no ato coletivo de torcer, escorraçando o discurso grosseiro, vil e torpe que vende o futebol como artigo de consumo e não como algo a ser vivido em grupo, nos clubes, nas associações e nas sociedades em todos os rincões. E, para tudo isso, os homens e as mulheres da terra são a força motriz da mudança. Peço perdão pela rudeza, mas um povo que sustenta com sangue, lanceiros negros e suor uma guerra civil por mais de dez anos, não tem o direito de não discutir seriamente seu destino. O silêncio é uma indignidade.

Já é tempo de canalizar o orgulho farroupilha para propor e construir um futuro melhor para o RS, dentro e fora das quatro linhas. No campo é preciso superar o engodo “todos são vermelhos ou azuis nesta terra” e engrossar as fileiras dos clubes de bairro, das iniciativas da cidade. Povoar as arquibancadas e as reuniões dos conselhos das instituições esportivas é um passo viável, um recomeço. Precisamos encontrar nosso caminho e não tenho dúvidas de que um bom destino para o futebol pampeano passa longe de shoppings centers erguidos ou reformados, onde o jogo é um pretexto. Auguste tinha olhos europeus para o RS, ele podia, estava surpreso ao encontrar um “outro”. Hoje creio que essa não é a solução, pois o “outro” somos nós e o melhor caminho até o gol é o que vamos conseguir construir.

A foto reproduz pintura de autor desconhecido e está no acervo do Museu Júlio de Castilhos.

Cada povo tem o novo que merece,

El Viejo Balejos – @balejos

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8 Respostas a Viagem ao Rio Grande do Sul

  1. Natan Dalprá Rodrigues diz:

    Penso seriamente em imprimir 2000 cópias desse texto e distribuí-lo no próximo jogo do Índio!(ns)

    Brincadeira, Baita texto Balejos. Acho esse tipo de reflexão mais do que necessária para nossa subexistência cultural, social e especificamente, esportiva. Enquanto não vermos as coisas como são e estão, não podemos resolver absolutamente nada.

    O que mais me incomoda é que não temos a oportunidade NUNCA de observarmos esse tipo de ideia, de conceito nos veículos da GRANDE IMPRENSA. Tudo fica no superficial, na visão dicotômica, dando a entender que tudo se resume a isso.

    O que ainda não me fez desistir, foi que existem pessoas como nós, malucos e abnegados que acreditamos numa mudança. Alteração essa que pode estar longe e beira a utopia, contudo, não é da essência do verdadeiro gaúcho desistir dos ideais.

    Pois nós, gaúchos de alma e de coração, não desistiremos de ver futebol forte e combativo em todos os nossos rincões!

  2. Caralho, Balejos! É o melhor texto da história (mesmo que ainda curta) do Toda Cancha!

    Não tratou a questão farroupilha com a bombachez sazonal que costumamos ver todos os anos, mostrou as mazelas de caráter que temos e insistimos em esconder e cravou a adaga no fígado da principal ameaça ao futebol do interior, que é a massificação consumista em torno de dois clubes.

    O futebol – e os nossos clubes – começaram com uma gurizada que só queria se reunir para fazer seu grupo tomar corpo de instituição, mas pelo prazer de jogar bola. Hoje, o que vemos vai desde a mero interesse por holofote e cargos ou o mais absoluto desinteresse pelas agremiações, não só da mídia, mas das próprias comunidades.

    Sensacional, velho. Sensacional.

  3. Paul diz:

    Excelente reflexão.

  4. Chico Luz diz:

    que baita texto, che. Fantástico e certeiro.

  5. pedrohckruger diz:

    Caralho, Balejos! É o melhor texto da história (mesmo que ainda curta) do Toda Cancha! [2]

    Sem mais.

  6. Vitor VEC diz:

    Se não for pra coordenar estruturalmente a coisa toda, então de nada serve uma federação.
    Melhor fazer como em Baires e se filiar diretamente ao órgão nacional. E assim mesmo, só pra poder continuar disputando os campeonatos de nível nacional. Pra quem não tem este interesse, nem pra isso é necessária uma federação.

    No mais, a ‘tradição tradicionalista’ é muito estranha; não tinha bombacha por aqui até ontem, praticamente. E sempre que podem ocultam a presença hispano-criolla.e indígena, como se o Continente fosse um vazio aguardando pela ocupação luso-brasileira.

    A Cruz Alta, que originou a cidade do norte, servia de limite entre ambos reinos, por exemplo. Mas um representante da cidade fez questão de contornar a História no seu romance épico, base aos ‘tradicionalistas’ do século XX.

  7. Régis diz:

    Baita texto!

    Aproveitando a citação de Cruz Alta aqui em cima, ontem também foi aniversário de 99 anos do glorioso Sport Club Guarany.

  8. Leandro Maia Ramalho diz:

    Simplesmente… fant’astico teu texto, parab’ens pela maravilhosa base de dados do passado alinhada com maestria pro contexto do futebol em que infelizmente nos encontramos, com certeza a melhor mat’eria do TodaCancha em sua exist^encia. Acho que t’inhamos que dar um jeito de conseguir que “as cabe’cas pensantes” do futebol ga’ucho lessem a mat’eria. Imagina o Noveletto lendo isso… Abra’co aos amigos.

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