Por um futebol de indignados

O inverno estava chegando ao fim na cidade de Bento Gonçalves, e ele havia sido muito estranho aquele ano. Contrariando as previsões naturais de frio extremo e até de neve que sempre circundaram os invernos da serra gaúcha, 2012 reservou uma estação de calor para a época. Alguns poucos dias tiveram temperaturas negativas, sendo que o mês de agosto, período onde sempre nevou quando houve a possibilidade, teve uma média de temperatura de mais de dez graus, algo inesperado. É fácil associar tudo isso a um fato: um dos maiores e mais tradicionais clubes da região havia conquistado a série A2 do gauchão e voltado à elite do estadual, e São Pedro nos deu uma estação perfeita para comemorar o feito.

Quase tão grande quanto o tal time é a pessoa que vos fala. Desde sempre maior do que as outras pessoas “normais”, acabo chamando muita atenção. Andando pelo centro de Bento Gonçalves em uma manhã de segunda-feira vejo que as coisas continuam do mesmo jeito. As pessoas continuam olhando para mim com espanto, como se vissem algo extraordinário, o que não deixa de ser verdade, mas parece que elas se esquecem de ver que existe algo muito maior do que minha superfície física na cidade, existe uma entidade abstrata que fez história, mas que infelizmente perdeu credibilidade e mesmo o respeito de alguns após seguidos acontecimentos desagradáveis. Essa instituição que exponho é aquele mesmo clube campeão do primeiro parágrafo, ela é o Clube Esportivo Bento Gonçalves, e nessa manhã de segunda-feira eu estava me dirigindo a um local onde entrevistaria o presidente do clube, Luis Oselame, para um trabalhinho da cadeira de entrevista jornalística. No fim ele explanou um contexto óbvio, o qual já roubei algumas peças para a introdução, mas relevante para mostrar a situação do futebol profissional em Bento Gonçalves.

Logo nos primeiros contatos com o presidente é perceptível a seriedade com que ele trata os assuntos. O modo calmo e objetivo de se expressar passam a impressão de um ser que sabe o que quer. Ao desenrolar da conversa essa característica toma a proporção de impressionante, muito por percebermos que a vida de Oselame é praticamente fundada no stress, sendo que o mesmo chega a declarar que mal consegue dormir. É até certo ponto óbvia a dificuldade em gerir um clube “pobre”, como o próprio presidente faz questão de alcunhar o Esportivo, e perceber em um gestor clareza e sensatez mesmo com todo o peso que está nas suas costas já logo nos diz o quão intrínseco a personificação deve estar ao projeto. E enquanto o papo avança essa característica de total entrega ao clube começa a ganhar força.

Direção do Esportivo de 2012. Ao centro, Oselame.

Para jogar um pouco de polêmica logo de cara perguntei sobre as dificuldades com patrocínio, afinal, havia muitos boatos sobre as rifas do clube ter seu lucro direcionado ao pagamento dos salários dos jogadores. O presidente reagiu de pronto com um “meu deus”, e se botou em um discurso onde em parte defende os empresários locais, mas também desaprova as antigas políticas do clube. “Bom, temos que observar o contexto. O Esportivo estava desacreditado, e eu diria que muito por que ele deixou de fazer o básico, deixou de se aproximar da comunidade. O clube não tinha escolinhas, não tinha categorias de base, e isso até certo ponto é o compromisso social do clube. Quando você fecha as portas para esse lado você acaba fechando as portas também para o outro lado. As pessoas não vão querer apostar em você quando elas não o veem como empresário sério, e então só vai ter interesse em divulgar a marca aqueles que querem ajudar por que gostam do esporte”. O presidente vê a volta do reconhecimento do clube como pertencente a comunidade o melhor caminho, e a volta das categorias de base e as várias atividades de lazer extrajogo parecem demonstrar que ele o está seguindo. “Não vamos fazer nada em cinco ou seis pessoas, precisamos de toda muita gente para levar esse clube a algum lugar”. Quando perguntado sobre um possível diálogo entre a prefeitura e o clube, Oselame fez questão de ressaltar que o apoio da atual gestão no início de 2012 foi essencial para a formação do elenco que conquistou a série A2 nesse ano. “Em 27 de dezembro de 2011 nos reunimos com o prefeito, e lá ele nos deu um apoio imprescindível, que chegou a ser decisivo em algumas contratações no início da temporada”.

Um ponto interessante veio à tona quando perguntei sobre a formação do time campeão de 2012 e a construção do elenco para 2013. Tentei entrar na possível influência dos dois treinadores da temporada, Leocir Dall’Astra e Luiz Carlos Winck, nas contratações, mas o presidente pouco falou além de constatar que Winck fora importantíssimo na aquisição do zagueiro Ediglê, um dos grandes líderes do elenco. Oselame declarou que desde que assumira a presidência o método de contratação fora reformado. “Fizemos algo como um checklist: meia-dúzia de atletas nos interessam para a lateral. Esse vem de uma série de lesões? Já conquistou alguma coisa? As equipes em que ele esteve? É um cara bom de grupo? Ele é um jogador indignado? Ou se conforma facilmente com a derrota? Tentamos conhecer um pouco das características. Nós conseguimos montar um grupo que se uniu nesse sentido, não aceitava derrotas, por que isso é fundamental”. Oselame disse também que essa reforma veio da observação das antigas gestões, quando era vice-presidente de patrimônio do clube. Ele via elencos desorganizados e conformados, principalmente nos anos que anteciparam a queda à série A2 do gauchão, onde o clube planejava apenas se manter na divisão principal, até o ponto onde o pior aconteceu. “Em 2013 o time tem que continuar com esse espírito, e as contratações estão sendo feitas com esse viés, nós não vamos dizer ao jogador que queremos ser mais um coadjuvante do gauchão, nós queremos ser uma figura fantástica nesse gauchão”. A contratação de Léo, atacante campeão do mundo pelo Internacional, e de Luciano Fonseca, o vulgo Marreta, que atuou no Grêmio em 2007, mostram que o presidente realmente está tentando levar o Esportivo a lugares inimagináveis para quem via a situação do clube no início do ano. Indignado é o adjetivo que Oselame gosta de usar para definir o que seria um elenco exemplar.

Quando decidi entrar no assunto da não participação na copa FGF o presidente tomou fôlego e começou a falar sobre os problemas financeiros do clube, declarando que vai ser necessário de 1.700.000,00 R$ a 1.900.000,00 R$ para conseguir disputar o campeonato gaúcho de 2013, e o Esportivo não tem esse dinheiro, então disputar a copa seria uma “loucura”, nas palavras do próprio. Soa até impressionante o fato de o Esportivo ter dificuldades em conseguir esse dinheiro quando pensamos que Bento Gonçalves é uma cidade rica, com empresas milionárias em qualquer esquina. Parece que o desprestígio do clube atingiu níveis tão alarmantes que mesmo um título como o de 2012 não consegue recuperar a confiança do empresariado, nisso as novas políticas de Oselame, citadas no início da conversa, parecem ser um bom caminho, mas o presidente mostra estar mais um passo à frente. “Você deve saber que o Esportivo é muito melhor visto fora de Bento Gonçalves do que na cidade, e como acabamos de conquistar um título, decidimos procurar esse dinheiro fora daqui. Estamos tentando um grande patrocínio de fora, além dos pequenos já existentes, para termos um 2013 ao menos estável. Claro que apostamos também em um maior público no estádio e em um maior número de sócios, mas buscar esse apoio de fora é imprescindível”.

Estava quase satisfeito com as palavras do presidente quando lembrei de um dos mais polêmicos fatos desse ano no futebol gaúcho, a troca de patrocínio da FGF, que acabou resultando na viagem para o Caribe para a realização do Congresso Técnico do campeonato gaúcho de 2013. Oselame afirmou que só soube do acerto quando entrou no site da federação e viu a notícia, os clubes, pelo menos o Esportivo, não haviam tido parte no acordo. “Tivemos uma reunião em que ele (Novelletto) disse que estava negociando um novo patrocinador, mas que não havia nada certo. isso foi no final de Julho. A única afirmação dele é que havia conseguido o patrocínio da GM apenas para a viagem de realização do congresso técnico, que ano passado ocorreu no Chile, e que estavam negociando os patrocínios do gauchão, depois que eu fui saber da notícia quando acessei o site da federação. Não sabemos nem se a quantia será melhor ou pior do que na época da Coca-Cola. Oficialmente não sabemos de nada. Isso deve ser levado como uma constatação e não como uma reclamação, por que a federação tem sua  autonomia para tratar desses assuntos, muito por que foi a primeira gestão que conseguiu esses apoio aos clubes, e provavelmente esses valores serão expostos aos clubes em uma reunião que ocorrerá antes da viagem e depois no congresso técnico”.

Como torcedor confesso que saí daquela sala com otimismo. Ouvir aquele homem, com toda sua tranquilidade e seriedade, me deixou confiante com o que pode acontecer em 2013 com o clube. O espírito de indignação é basicamente o que se vende do futebol gaúcho, e, mais do que uma aposta, parece que a busca por ele deveria ser um tanto universal em nosso futebol regional. As palavras de Oselame certamente alegrarão os poucos que ainda tem esperança em um certo crescimento do profissionalismo no interior do estado, e perceber que elas vem das bocas do responsável pelo MEU Esportivo é um grande empurrão para ficar cada dia mais apaixonado pelo futebol.

Um abraço do grande,
Leonardo Baldessarelli

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4 Respostas a Por um futebol de indignados

  1. Giaretta diz:

    Assisti Farroupilha x Esportivo no General Nicolau Fico e constatei a falta de patrocínios na camiseta de um dos mais tradicionais times do interior do estado.
    É um fenômeno inexplicável como alguns times tem uma imagem tão boa fora das suas comunidades comparando com o tratamento que recebem de seus locais, beirando o desprezo em vários momentos.
    Boa sorte ao Esportivo no Gauchão, e espero que num futuro próximo tenha condições de abrir o departamento de futebol o ano todo, porque considero um compromisso das direções com as histórias que os clubes carregam.

  2. Leandro Maia Ramalho diz:

    O Esportivo merece credibilidade dos cidadãos de Bento, assistir aquela loucura de gente correndo atrás de ônibus da Dupla Grenal em pré-temporada na cidade me entristeceu bastante. Mas é o que nos faz lutar pra mudar… abraço!!!

  3. Vivi em Bento nesse período que antecedeu e viveu o rebaixamento do clube. É impressionante o descaso da população com o clube. A cidade respira apenas dupla grenal, o que ficou evidente nas pré-temporadas realizadas por eles lá.
    Me parece positivo essa noção do presidente em saber que o clube é melhor visto fora da cidade do que dentro dela. É o tipo de pensamento pé no chão, que considero fundamental para os clubes do interior, e que torço para que vigore o mais rápido possível no Juventude.

  4. Daroit diz:

    Se eu mandasse alguma coisa no Esportivo, já tinha trocado a cor do clube pra ROXO oficialmente. Faz todo o sentido do mundo em um clube de Bento Gonçalves e ajudaria a valorizar a marca do clube, fugindo dos outros trilhões de “alviazuis” do estado e do país.

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