E o último que (a)pague a luz?

Duvido que a imaginação dos publicitários que criaram a campanha de marketing do Juventude para esse ano – “o inacreditável acontece” – sequer imaginassem a dimensão PROFÉTICA que o fruto de suas mentes, certamente elaborado com esmero para emoldurar uma temporada que aos poucos levasse o clube de volta a um lugar que já foi seu, acabaria se transformando num case ligado a fatos tão bizarramente marcantes na história do Alfredo Jaconi. Dentro de campo e, a partir da última terça-feira, fora deles também.

Aberta a Caixa de Pandora

Já pela manhã, surgia a notícia de que o SEFECERGS (Sindicato dos Empregados em Clubes Esportivos e em Federações no Estado do Rio Grande do Sul) – até então ilustre desconhecido meu – protocolou denúncia contra o presidente do clube em virtude da ocorrência de “trabalho escravo” pelos funcionários do Juventude. Num primeiro momento, mesmo já sabendo faz tempo dos descabidos atrasos generalizados de salário por lá, tal medida me pareceu mais um TROCO do ex-diretor Renato Tomasini, responsável pelo controle das súmulas dos jogos, demitido por justa causa após a CHUPADA DE BALA no caso Deoclécio. Afinal de contas, se tal dirigente é representante do sindicato citado e só se mexeu quanto aos problemas de seus representados agora, depois da própria demissão… Mas é aquilo, mexer com sindicalista SEMPRE dá merda. E o Juventude, que atualmente toca campainha e toma CHOQUE, deveria saber disso.

“Diz que fui ali e já volto!” (ou não)

E fomos para a tarde/noite. Quando a única expectativa que se tinha era a mera definição do adversários nas quartas-de-final da Copa RS após os jogos ainda por jogar na terça, cai a BOMBA: os jogadores do Juventude, fartos das promessas de pagamento de salários há quase três meses, decretavam GREVE (encerrada na manhã desta quarta). Chegaram para o treino, reuniram-se com os superintendentes do clube, ouviram mais uma promessa e deixaram o estádio sem sequer calçar as chuteiras ou dar entrevistas. Estava instalado o caos na Rua Hércules Galló. A palavra oficial do clube foi no sentido de, pra variar, relativizar o fato, recordando a história do Ju e sua tradição de bom pagador.

Estou dentre os que concordam que, nos últimos anos, o Juventude tem contratado jogadores que, numa perspectiva otimista, não seriam aprovados após um mero contrato temporário num emprego DE VERDADE numa Randon ou Marcopolo da vida, além de terem sérias dificuldades para obter o canudo no SESI/SENAI. Só que a questão não é essa. A (falta de) qualidade do elenco não desobriga o clube dos pagamentos e é mera decorrência direta de um clube mal administrado. O Ju não é nem sombra do clube que OUTRORA assombrou o Rio Grande e o Brasil em pouco tempo de uma gestão profissionalizada, regada a um LEITE que, apesar de não ser uma montanha de dinheiro, foi muito bem administrado enquanto jorrou.

Só que a preparação para o fim do aleitamento não foi bem planejada. Mesmo mantendo um nível aceitável e até surpreendente após a saída da Parmalat, isso se deu às custas de seu patrimônio. Ao final da década passada, o clube era obrigado a vender sua sede campestre (foto) para pagar dívidas, comprando com parte do valor outra área, em local menos valorizado e onde erguido o atual CT – e que hoje já é visto como futura salvação da lavoura para cobrir as novas dívidas desde então, que vão sendo empurradas com a barriga, no curto prazo, com vendas de jogadores (caso da infindável novela Alex Telles, cuja negociação com quem quer que seja se arrasta desde setembro).

O cartório tá cheio deles

Culpados para essa derrocada sem precedentes, um verdadeiro LOOPING do fracasso, desencadeada a partir do rebaixamento para a Série B nacional em 2007, são muitos. Podemos começar com a própria cidade de Caxias do Sul, que CAGA para seus clubes esportivos em geral (lembrem da extinta Enxuta como exemplo disso). Uma cidade extremamente rica e industrializada que não dá suporte algum. Nem o poder público, que torra  verbas com publicidade inócua, nem as empresas. Entretanto, se antes, na primeira divisão do Brasileirão, não botavam um pila, não será agora que o farão, tamanho o descrédito do Papo. A FGF, sempre ela, tem sua parcela de culpa, mas a mesma que a ela cabe em relação à crise vivida por todos os clubes gaúchos não patrocinados pelo “banco de QUASE todos os gaúchos”.

Resumo da ópera: um dá a real e os demais fazem cara de paisagem

No meu ponto de vista, e tenho essa convicção desde os tempos finais de permanência na elite nacional, o problema maior está no próprio torcedor. Não falo do torcedor que mesmo tomando tantas TRAULITADAS na cabeça segue – ele sim – como um escravo de sua paixão, comparecendo aos jogos, em casa e fora, pagando sua mensalidade ou mesmo o ingresso de cada jogo. Mas o torcedor que vive com o REI NA BARRIGA, completamente desconectado da realidade, não vendo que este Juventude – que já teve seus momentos de grandiosidade, mas nunca foi um grande de verdade como pensam (não considero nem Botafogo, Coritiba, Sport e vários outros grande, para exemplificar), não existe. E enquanto isso não for assimilado por ele, que em resumo é o cara que um dia acabará assumindo a direção do clube, a sangria não terá fim.

O que fazer então?

Não basta discurso de que o “futebol mudou”, que “é preciso profissionalizar”. Isso são FATOS e precisam ser EFETIVAMENTE praticados. Só que de nada adianta esta profissionalização se os pés não estiverem FINCADOS no chão, tal qual os imigrantes que um dia colonizaram o Campo dos Bugres. Não adianta TAGARELISMOS nas coletivas quando se tem notícia de que um diretor ganha R$ 25 mil mensais; quando a folha é impagável a ponto dos jogadores entrarem em greve; quando sequer se consegue quitar o salário dos funcionários de uma estrutura inchada, herdada dos tempos das vacas gordas, e que deve ser aniquilada e reestruturada para a realidade que se vive.

E qual a realidade vivida pelo Juventude hoje? A mesma dos vários outros clubes do nosso interior: jogar o Gauchão, a copinha do segundo semestre (já que dela participa quem quer mesmo…) e, graças ao ranking nacional, o PLUS da Copa do Brasil. Mas apenas por participar, longe de qualquer perspectiva de conquista como em 1999… Para o público médio gaúcho acostumado apenas com a polarização capitalina compreender melhor, o Ju precisa passar do discurso OBINO MODE ON e acionar uma JARBASLIMIZAÇÃO urgente, uma verdaderia terapia de choque, revelando o cofre vazio e escancarando a realidade. Para si mesmo!

Passou e MUITO da hora do Papo e da papada caírem na REAL. Esquecerem a inesquecível era Parmalat, deixando-a merecida e devidamente ilustrada em sua história, e cortar na carne de uma vez por todas. Numa leiga mas válida analogia entre medicina e futebol, o Juventude deve escolher entre manter a perna gangrenada, por mero ORGULHO de não se ver como amputado, mas definhando até um fim não tão distante enquanto observa passivamente a doença o consumir, ou pagar o preço de sua falta de cuidado consigo mesmo, cortar o membro doente e ver que há vida pela frente, mesmo que de forma adaptada. Os atletas paraolímpicos estão aí para comprovar esta tese: é possível orgulho e sucesso numa realidade adequada ao momento que se vive.

Se não por vocês, dirigentes, pelo futuro do Juventude (enquanto ele ainda insiste em existir)

A situação está mais do que posta. Não acredito que ao menos alguns dos juventudistas que compõem o conselho deliberativo do clube não enxerguem isso e não tenham condições de convencer os ainda cegos de que a ENCRUZILHADA chegou. Ou se escolhe o caminho que parece difícil mas certo e se reconstrói o clube a partir da nova realidade ou só o que restará será celebrar a história, o passado, um quase centenário cujo presente a cada dia torna mais melancólico.

Admiro e aprendi a valorizar muito, aqui no Toda Cancha, o amor que os torcedores dos clubes em situações ainda piores nutrem por eles. Mas duvido que seja uma situação sonhada ou idealizada. Por mim, com certeza não é! AINDA há tempo de mudar o triste destino alviverde, mas é preciso que os interessados se dêem conta disso de uma vez por todas.

Ainda mantendo alguma esperança, mas mais pelo fato do clube ter VERDE como cor oficial,

Franco Garibaldi – @francogaribaldi

(com fotos do Pioneiro e O Caxiense)

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8 Respostas a E o último que (a)pague a luz?

  1. pedrohckruger diz:

    Sensacional, Franco.

  2. Natan Dalprá Rodrigues diz:

    Baita texto Franco!

  3. felipe diz:

    excelente texto

  4. Franco Garibaldi diz:

    E – pra provar que desgraça pouca é bobagem – vem a notícia dos setoristas da CBF que a Série D tá confirmada com 32 clubes (em vez dos 40 até então): UM representante de cada estado, os quatro que caem da C para a D e mais o Cianorte (5º colocado na D desse ano). Com 4 grupos de 8, passando 4 de cada pros mata-mata até o final (seguem subindo 4 pra C).

    Ou seja, quando a Série C mudou pra melhor, o Ju tava na D, que era um horror. Quando esta passa a ser viável e não tão aleatória, o Juventude tá fora de tudo….

  5. Mateus Dal Castel Trevizani diz:

    Baita texto! Falou tudo…agora falta eles ouvirem.

  6. Brauner diz:

    Enquanto isso, o dono da loja de cds aproveita para levar os presidentes dos culbes do gauchão para um cruzeiro no caribe…

    Cambada!

  7. Lisandro diz:

    Verdade retratada em bom tom.

  8. Pingback: “Bicampeão!” com orgulho – e, aos poucos, humildade | Toda Cancha

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