Um leão que nunca rugiu

Não se engane

Quem olha rapidamente para as paredes que desenham a esquina das ruas Marechal Floriano e Federação, pode pensar que naquele espaço, que resiste à aglomeração de prédios comerciais em uma área valorizada de Taquara, foi instalado um centro de treinamento do clube vermelho da capital. Mas basta olhar novamente para perceber o engano. O nome está lá, acima do distintivo, mas a inscrição “AMADORES” deixa tudo mais claro. A arte assimétrica no muro é o brasão do SPORT CLUB TAQUARENSE, também chamado de Leão da Encosta da Serra.

Fundado em 30 de novembro de 1911, esse clube, que já contou em seu elenco com Adalberto Pereira dos Santos, vice-presidente do Brasil no mandato do General Ernesto Geisel, nunca foi um clube de muitas glórias.

Na tarde de um sábado quente, surpreendentemente menos abafado do que se espera destes VALES, eu encontrei o atual presidente do clube para uma conversa sobre passado, presente e nada mais. Futuro, para um clube que em CEM anos passou a maior parte deles sem futebol, é algo que (infelizmente) já não se espera mais vislumbrar.

Embora haja uma direção no papel, Fischer leva nos ombros o dia-a-dia do clube. O presidente me recebeu entre alguns pedaços de galeto que boiavam em uma bacia enorme com SALMOURA de bom aspecto. Espetava os galináceos para saciar a consequente fome dos veteranos do Taquarense, que em uma partida deprimente, enfrentavam um clube de sábado à tarde de Novo Hamburgo.

Em uma explicação que concretiza a inanição que acontece pelas bandas da Taquara do Mundo Novo, entendi, ou melhor, não entendi os motivos que levam a não praticar futebol desde 2006, ano da última participação dos FELINOS no Estadual de Amadores.

Segundo Fischer, não há dívidas; as contas estão todas pagas, o patrimônio é todo do clube e para completar a adequação às exigências da FGF, falta apenas disponibilizar o acesso à torcida visitante, ou seja, recortar o muro e soldar um portão de ferro. “Falta interesse da cidade em fazer futebol. É caro e eu não vou comprometer o patrimônio”, revela cabisbaixo, virando o rosto, como que envergonhado ou emocionado do que diz, Fischer. Há ainda uma intenção de (re) iniciar o clube com categorias de base, mas pelos anos de comodismo, fica difícil acreditar.

O passado emoldurado

Sua gestão vem desde 2000 e, apesar do rosto cansado, Fischer demonstra, como todo homem isolado em suas esperanças, um brilho no olhar quando fala do clube e da última conquista.

O ano era 2002 e para ajudar a relembrá-lo da escalação, ele chama para a conversa o goleiro campeão, que pegou pênalti na final e foi figura importante na conquista do campeonato. TAFAREL caminha lento, passa as tardes de sábado como assistente do treinador do time master, porém, sua casamata é do lado de fora, próximo ao bar e rodeado de amigos.

O Taquarense enfrentou naquela final o tricampeão Vila Rosa e, após uma vitória de 2 a 1 no estádio Jair Juarez Lemos, a decisão ficou para uma tarde chuvosa na Baixada Rubra, na cidade de Dois Irmãos. Após um novo 2 a 1, dessa vez para o Vila, a decisão parou nos pênaltis e os primos próximos do BAMBU, levaram a melhor e terminaram como campeões.

Relembrar o passado traz um gosto amargo, mas para quem vive de memórias é algo que pode dar prazer. Fischer pede licença e reaparece com um livro que conta a história do município. Abre no capítulo que está marcado por um clips enferrujado. Poucas páginas, mas todas elas dedicadas ao Alvirrubro do Paranhana. Começo a folhear as páginas e descubro que a maior glória como clube profissional foi um vice-campeonato da segunda divisão estadual. Mas não é tão simples explicar. Certos regulamentos de campeonatos exigem formação específica para entendimento.

No ano da graça de 1961, o Taquarense disputou aquela que seria sua melhor participação em um campeonato profissional. Naquele ano, a segunda divisão foi alçada à PRIMEIRA, e esta última, foi denominada divisão ESPECIAL. A primeira divisão foi dividida em regiões, sendo que o Taquarense conquistou o título da Região 4, que também teve como participantes: Lansul, Lajeado, Estrela, Montenegro e Santa Cruz.

Campeões da Regional 4, os LIONS alvirrubros conquistaram o direito de jogar o quadrangular final, que contou com BRASIL, de Pelotas; SÁ VIANA, de Uruguaiana e ATLÂNTICO, de Erechim.

A campanha foi boa, incluindo uma vitória por 3 a 1 no Brasil e um arrasador 7 a 1 no Sá Viana. Porém, as viagens e a maratona de seis jogos em vinte e dois dias, acabaram se fazendo presentes no jogo decisivo contra o Xavante. O time do extremo sul devolveu os 3 a 1 e se consagrou campeão daquele ano.

Como um pesadelo que não abandona, aquela derrota parece ter virado um fantasma para o clube. No ano seguinte, em 62, o futebol profissional fechou as portas e foi reabrir novamente lá pelos anos 70, com passagens TOSCAS e sem importância pelas divisões inferiores. Outras tentativas nos anos 80, mas sem sucesso, acabaram por afastar definitivamente a comunidade do clube.

Veteranos do Taquarense em atividades geriátricas

Taquara é uma cidade enigmática. O que poderia ajudar parece que acaba prejudicando. Talvez por estar localizada no meio do caminho entre capital, serra e litoral, justifique um pouco a dificuldade local em atrair investimentos de qualquer natureza.

O Taquarense é um exemplo claro do que não queremos. É um clube praticamente desativado e esquecido. Um estádio de bairro que em breve pode sumir. Um desejo de fazer futebol que não se realiza. Atualmente, o Sport Club Taquarense nada mais é que um leão a ponto de ser extinto.

Escalação do time que jogou a final de 2002: Tafarel, Pelezinho, Marcinho, Flavinho, Jamir, Zé Carlos, Xavier, Oberti, Gustavo, Balaca e Valdir. Ainda jogou Sandrinho, que cobrou o último tiro livre na decisão por pênaltis.

Time base vice-campeão de 1961: Paulinho, Décio, Seledo, Luciano, Eloir, Pacheco, René, Odir, Ícaro, Pedrinho, Figueiró e Odon.

Títulos:

Campeonato citadino de Taquara: 9 vezes (1922, 1944, 1947, 1949, 1950, 1953, 1954, 1955, 1956)

Campeão da Região 4 – Primeira Divisão Gaúcha (1961)

Campeão Gaúcho de Juniores – Categoria B (1990)

Campeão Gaúcho Amador (2002)

Melancolicamente cantarolando:

Quando o meu Taquara entra em campo,

Meu povão vermelho e branco

Grita na Federação… 

Mateus Dal Castel Trevizani

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16 Respostas a Um leão que nunca rugiu

  1. Natan Dalprá Rodrigues diz:

    Estou emocionado!

    Em primeiro lugar, Mateus, meus parabéns!!!

    Em segundo lugar, que história, querem saber: MORRI! ADEUS!

  2. Vítor Dias diz:

    Triste história… me lembra muito a de vários vice-campeões da PRIMEIRA DIVISÃO mineira dos anos 60 que dali a pouco pularam no abismo do ostracismo. Palmeirense de Ponte Nova, Ferro Brasileiro de Caeté, Ferroviário de Divinópolis, Itaú… sem falar nas dezenas de anônimos da época que jamais voltaram ao profissionalismo.

  3. Zezinho diz:

    Bah, Mateus, sensacional!

    Quando vi a foto pensei ser o Sport Clube Ivoti, mas vi o T disfarçado.

    O futebol amador dos Vales dos Sinos, Paranhana e Caí é muito forte. Temos o Ivoti, Taquarense, Americano, 15 de Novembro, Vila Rosa, 7 de Setembro, Mundo Novo, Sapiranga, entre outros. O Vale do Paranhana é uma região muito bonita e calma, boa para se viver. Baixos índices de criminalidade, cidades pequenas, ar interiorano, custo de vida baixo. Pena que as fábricas, aos poucos, se bandearam dali – incluso a Azaleia, governada pelo privatizante Antônio Britto.

    Doi na alma ler essas histórias, ver esses clubes carregados por meia-dúzia de abnegados. Cada vez mais o futebol no Brasil se torna viável e real a algumas dúzias de clubes

  4. Daroit diz:

    sensacional.

    é meio ridículo taquara não ter um clube profissional, com 50 e tantos mil habitantes. o que fode é essa história aí de tar no meio de muitas cidades maiores mesmo :/

    não existe um Guarany de Taquara? minha memória sempre teve isso presente.

  5. Chico Luz diz:

    mas que baita história.

  6. Paul diz:

    PUTAQUIUPARIU, é muita nostalgia pro cara ser pego de surpresa assim!

    NASCI em Taquara, JOGUEI nesse campo e MOREI naquele prédio azul que aparece na última foto.

    Vou lá chorar no banheiro da firma, que baita crônica.

  7. Franco Garibaldi diz:

    Sensacional, Mateus.Sensacional.

    São histórias assim que precisam ser contadas. Para os que – e aqui me incluo – envergonhadamente a desconheciam e para que sirva de alerta (escolha a cor) para os que ainda insistem em resistir, apesar da erosão moral e financeira que campeia pelo nosso interior.

    O Zezinho disse o que pensei ao ler o texto: “Doi na alma ler essas histórias, ver esses clubes carregados por meia-dúzia de abnegados. Cada vez mais o futebol no Brasil se torna viável e real a algumas dúzias de clubes.”

    Parabéns de novo, Mateus!

  8. Leandro Maia Ramalho diz:

    Então foi este gramado q apresentou a “jóia” PAUL pro futebol mundial??? com todo seu futebol-arte, seus dribles na defesa e sua liderança nata… muito massa tua crônica Mateus, tive que dar uma alfinetada no grande Paul, que me fez saber que existia a cidade nos idos de 1986. Abraço!!!

  9. Rods diz:

    Bah!! Parabéns pelo texto, mais um louco de especial!!

    Infelizmente esse leão nunca rugiu mesmo. O que eu presenciei foi o Título Estadual Amador dos anos 90…

    Lembranças da minha infância e adolescência me vêm a cabeça… Sou natural da cidade e morei por quase 30 anos ali pertinho, na tal de Marechal Floriano, hehehehe!!

    Joguei nas escolinhas do Leão… Clássicos da época eram contra os times da serra… De Gramado, Canela, São “Chico”, do município vizinho Igrejinha, e contra os times da cidade… “Cruzeirinho, Santos e o já extinto Havaí… cuja sede era nos fundos do supermercado Nacional, e que hoje foi transformada num parque público. O Campo lá permanece para peladas, uahdiushfuhshvsuv!!!

    Era uma doideira só ver aquelas figuras na torcida se grudando na cerca … Me lembro de um jogo festivo, não me lembro se no final dos anos 80 ou início dos 90 já. Seleção Brasileira de Masters contra a Seleção Gaúcha de Masters… Mazaroppi autografou no número da minha camisa “7”, do Grêmio, ainda com patrocínios “costurados” da Coca-Cola. Para um piá foi o jogão. Marcou na memória um golaço da seleção brasileira, de falta, do Edu (virado em barriga o coroa). Um tijolaço de canhota lá da intermediária esquerda no ângulo direito do velho Maza…

    # 4 Chê: Não me lembro de algum Guarany naquelas bandas… Mas não descarto ;)

    # 6 Eu morava a 1 quadra e meia da sede…

    Time de 1961, meu velhos dizia que era um cano. O Odon jogou no Grêmio… Foi meu professor no Dorothea…

    De 2002, o Pelezinho, uahahahahaha!!! Quando eramos piás, joguei algumas partidas pelo Taquarense e ele pelo Havaí… Era o clássico da piruada… Me lembro duns tios velhacos “mamados na cachaça” me chamando de “fiadaputa” na arquibancada, uahahahaha!! Eu tinha sei lá, uns 10 anos…Loucura…

    Eu era lateral esquerdo e ele meia direita, sobrava pra mim a marcação do melhor jogador do time deles… O neguinho jogava muita bola. Incrivelmente eu conseguia anular o piá, uahahahaha! Ele não conseguiu marcar gol em nenhum daqueles embates :P
    Jogava muito… Até hoje não entendo como marquei tão bem o tal de Pelezinho. Os outros guris se apavoravam, hehehehe!!

  10. Rods diz:

    Correção: o Título do Amador Estadual era de 2002 e não dos anos 90, hehehehe!! Misturei as coisas na caixola… :P

  11. Rods diz:

    Me lembrei de outro time classico da cidade… O “Palmeirinha” – Era briga na certa!!

  12. Léo diz:

    todo ano vou ao estadio do taquarense, quando participamos do evento do Lions clube de Taquara, um bom espaço pro futebol, se tivesse algum investidor forte em Taquara podia muito bem profissionalizar novamente o clube

  13. Mateus Dal Castel Trevizani diz:

    Rods, também fui aluno do mestre Odon nesse mesmo colégio. E tinha um Napoli que também usava o campo do Havaí para jogar.
    Abraços!

  14. so para rapidamente constar!!!
    o s.c taquarense nao e tao pobre tradicionalmente assim,o clube jogos ja nos anos 20,30 os antigos campeonatos gauchos fazendo parte da zona nordeste do estado disputava jogos parelhos contra s.c novo hamburgo,juventude de caxias,antigo nacional de sao leopoldo etc e tal… teve como primeiro rival o s.c oriente depois ainda na cidade teve o gremio ferroviario que depois virou viaçao ferrea,o time dos ferroviarios da cidade,este clube era verde amarelo e depois azul e branco,no final dos anos 30 o futebol de la sumiu para voltar com força no inicio dos anos 40,com a criaçao da liga taquarense de futebol,esta criada pelo taquarense ,serrano,igrejinha e gramadense,depois entrou o meu mundo novo na parada,lembrando que os municipios de canela,gramado,tres coroas e igrejinha ainda faziam parte de taquara.finalizando depois teve um tal g.s operario que disputava com o leao quem iria para final contra o campeao da zona norte(igrejinha,serrano,gramadense e mundo novo) quase sempre era o classico igrejinha e taquarense que disputavam o caneco esse foi o maior classico de taquara.
    att;douglas

  15. Kaio diz:

    Boa tarde.

    Joguei no juvenil do Taquarense em 1990. Bons tempos !

    Apenas uma correção: o craque do time era “Pedrinho Figueiró”, meia e camisa 10 do time de 1961 e não dois jogadores distintos como constou.

    Abraço.

  16. Anakrousis diz:

    Tudo tem a sua época… Quem sabe o Taquarense ainda venha ser um grande clube de futebol. Tudo depende do povo de Taquara, que é como qualquer outro povo… É só deixarem de torcer para a dupla grenal e acreditarem que podem fazer pela cidade coisas boas. Se Chapecó fez isso, por que a cidade de Taquara não pode dar o exemplo ao RGS e transformar seu clube de futebol num grande clube do futebol brasileiro? Têm que acreditarem em si mesmos. O povo pode tudo, mas tem que estar unido, senão…

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