Como (aprender a) amar um clube

O torcedor fanático não surge do nada. Principalmente quando se fala de um torcedor fanático por um time interiorano. Vou mais além: um clube do interior gaúcho. Meu pai foi o que me impulsionou em direção ao estádio Bento Freitas, sem dúvidas. Ser levado ao estádio desde pequeno, ganhar de aniversário o abrigo completo do clube e ser matriculado na escolinha contribuem para o surgimento do amor por uma agremiação. No entanto, não basta.

Todos têm uma história para contar sobre o dia em que descobriu que realmente amava aquele time, aquele escudo e aquela bandeira. O meu caso é mais simples. Ainda estava em formação, mas já frequentava as arquibancadas do estádio que derrotou Zico numa epopeia interiorana. O primeiro clássico Bra-Pel, a primeira volta olímpica ou mesmo a primeira entrada em campo foram suficientes para tatuar em meu peito marcas Xavantes.

Contudo, nem sempre é assim. Não são todas as pessoas que nascem numa família que frequenta o estádio de futebol. Analisando o nosso atual contexto, a maioria da criançada surge em lares acostumados a acompanhar (somente) pela TV o futebol. E, com isso, geralmente aprendem erroneamente que a única forma de iniciar o amor por um clube é a conquista de títulos. Não é verdade. Um ídolo – tão raro nos dias atuais –, uma torcida ou simplesmente as cores do time podem ser o combustível necessário para vestir eternamente a camisa de um clube de futebol. Mas para isso é necessário o contato entre clube e torcedor.

É o que fez – para a minha grata surpresa – o Brasil de Pelotas. No site oficial há a notícia da visita de dois jogadores a uma escola estadual. O motivo da visita foi o fato de que lá há uma menina que tinha o sonho de conhecer Alex Amado, o veloz e importante jogador do elenco rubro-negro. Segundo o site, a Xavantinha chorou ao ver o atleta entrar na sala de aula. Na ocasião, o jogador Moisés também estava presente. A menina recebeu uma camisa autografada por todos os jogadores; outra camisa também foi oferecida para sorteio ao restante da classe.

Acima um exemplo do que tento explicar. A menina – e, provavelmente, o resto da turma – nunca mais irá esquecer esse momento. Quiçá novos torcedores foram ganhos. Houve, aqui, o contato entre clube e torcedor. Talvez ela tenha sorte de ver logo de cara o Brasil conquistar a copa Hélio Dourado. Ou não. Mas isso não fará tanta diferença, visto que ela já tem um troféu: a camisa entregue por um ídolo dela.

É o que acontece comigo. Obviamente quero ver o Brasil ganhar esta Copa RS e ir a Tóquio, logo mais. Óbvio. No entanto, o amor que nutro há vinte anos foi forjado através de vitórias memoráveis, ídolos (goleiro Cassio, BADICO, DIDO e Milar) e até mesmo derrotas. Em 2004, chorei de tristeza ao ver SERJÃO, do Pelotas, marcar contra o Brasil e, na mesma partida, chorei de felicidade ao comemorar o GOL DE OURO de Tiago Rodrigues que deu o citadino ao Xavante, no estádio Boca do Lobo.

É isso que seduz uma criança. É assim que se aprende a amar um clube.

“Fanático pelo Xavante”,

Pedro Henrique Costa Krüger / @pedrohckruger

Publicado em Brasil de Pelotas, Clubes Gaúchos com as tags , , , , . ligação permanente.

13 Respostas a Como (aprender a) amar um clube

  1. Ricardo Pereira diz:

    Pedro Kruger, parabéns pelo teu relato.

    Sou Xavante, mesmo vindo para Porto Alegre com 6 anos de idade, e morando aqui a 41 anos. Sou Xavante, porque o meu pai me mostrou o poder, a mistica, a fé e a força dessa camisa e dessa torcida sem igual. Não troco mil títulos por deixar de ser Xavante. Sou Xavante desde a excursão a Estrela em 1977, com 90 onibus e 5.000 torcedores, num estadio em que não cabiam 2.000 pessoas, e, eu lá com 12 anos, junto com o meu pai, fomos de Porto Alegre, ele queria me mostrar que não existia so Grêmio e Inter no futebol. Depois em 1979, conheci o Bento Freitas, num jogasso contra o Grêmio de Leão, Paulo Cesar Caju, e outras estrelas, naquele jogo que caiu o alambrado e se botou 25.000 pessoas amontoadas no Bento Freitas, e eles com uns 500 torcedores apavorados num cantinho da arquibancada, viram que o Grêmio que de todos havia ganhado, não ganhou do Xavante e da sua imensa torcida. Depois aquele time da decada de 80, do Felipão, os 4×0 no grêmio em 83, no time que seria Campeão do Mundo dias depois, Em 85 foi demais, estava lá contra o Flamengo na grande vitória, Vi o Olimpico ser invadido por 15.000 Xavantes, num dia de semana, naquela imensa excursão. Depois , em 96, invasao ao Beira Rio, botamos mais torcida que o Inter num jogo em POA, e assim por diante. Sou Xavante pela alegria de ver o Rubro jogar, pela parceria dos amigos, pela emoção que esses momentos únicos me proporcionam. É um orgulho muito grande bater no peito e dizer, eu sou Xavante, como diz o meu pai, como diz a minha filha graças a Deus. Um abraço.

  2. Fernanda diz:

    lindo esse texto :)

    sou colorada, mas em março de 2005 estive visitando Pelotas pela primeira vez. um casal de amigos nos levou até a porta do Bento Freitas só para ver a inscrição dos nomes deles na “calçada da fama”. logo alguém ouviu um cusco latindo lá dentro do estádio, fomos fazer festinha nele pela fresta do portão, e um dos funcionários veio ver o q estava acontecendo. “são nossos amigos de POA, trouxemos eles aqui para verem a porta do estádio”. “e vocês não querem entrar?”. e foi assim, sem planejamento nenhum, graças somente à simpatia do funcionário, que entramos para conhecer o Bento Freitas. fomos à sala de troféus, passeamos pelas arquibancadas, e até entramos no campo. só não pudemos entrar nos vestiários porque eles estavam sendo limpados naquele dia. já estive em alguns estádios famosos do nosso continente, mas nunca me esqueci daquela tarde, nem do Bento Freitas, nem dos funcionários, nem do cheiro do gramado.

    resultado: a simpatia com que fomos acolhidos pelo Brasil fez com que a colorada aqui tenha se tornado meio xavante também. torço de longe, como quem pensa naquele namorado das férias de alguns anos atrás com quem tu às vezes imagina como tua vida poderia ter sido se o destino tivesse sido outro. e se comigo, uma adulta, foi assim, imagino como deve ser com todos os xavantes que se criaram desde piás torcendo pelo time.

    belo texto, Pedro Henrique. e linda a torcida de vocês, que sabe mesmo amar um time como poucas que eu conheço :)

  3. Só consegui ler teu texto agora, Pedro. Baita artigo, baita iniciativa do clube e BAITA exemplo a todas as comunidades. É cada vez mais difícil conseguir torcedores que deixam de lado essa questão playstationística do futebol (títulos, marketing, mídia), mas certamente cada torcedor assim formado vale muito mais do que qualquer milhar de simpatizantes.
    Parabéns de quem tá do outro lado dessa disputa de final de ano,velho.

  4. Murilo diz:

    Nunca vou me esquecer do meu pai me levando ao Beira Rio e o Inter, com o Gamarra destruindo, vencendo o Xavante de goleada. Eu, olhando o final da partida e no final…. todos aplaudindo. Demorei a entender. Quando entendi, me tornei xavante.

    Muito antes do “alentar sempre” tinha uma torcida que apoiava assim, transformava os estádios dos outros em um caldeirão, com a festa prosseguindo mesmo quando perdia.

  5. pedrohckruger diz:

    Pô, pessoal, os relatos de vocês foram melhores do que o próprio texto. Obrigado pelo feedback. Mesmo.

    #1

    Ricardo, belo relato. Meu pai também foi a esses jogos e sei bem o que é ouvir um torcedor falar dessas partidas. Realmente ficaram marcados na memória de quem as viu.

    # 2

    Obrigado, Fernanda. Que bom que reservastes um espaço no peito para o Xavante. Tenho certeza que o coração se tornará toltamente rubro-negro com mais uma ou duas visitas! haha

    # 3

    Valeu, Franco! Concordo contigo. Prefiro o torcedor formado no “varejo”, não no “atacado”.
    Abraço e que vença o melhor nessa HD.

    #4

    Bah, Murilo. Sensacional. Meu pai estava nesse jogo fazendo aquela festa no final. Graças a Deus há imagens que registraram aquele momento. Realmente foi marcante. Abraço!

  6. Islairo Machado Jr diz:

    Parabens Pedro pelo grande texto, conseguisse, assim como muitos outros Xavantes que escrevem tao bem, colocar em palavras um pouco aquilo do que sentimos todos os dias, um pouco daquele amor que nos aquece o peito. Ser Xavente, é bem mais do que torcer para um clube de futebol simplismente, é como entrar num relacionamento vitalicio, sem pedir nada em troca. Afinal, nao estamos nessa por ganhar titulos, ter um grande elenco ou qualquer coisa parecida, ver o estadio cheio, festejando, com um time guerreiro em campo, já nos satisfaz…

    Saudaçoes rubro-negras de um grande amigo…
    _X_ Abraço!!

  7. Filipe Dutra diz:

    Parabéns pelo texto, ele expressa um pouco do que cada um de nós Xavantes sentimos, procuro passar isso pro meu filho fazendo com que ele não se renda somente aos times que ganham títulos mas sim a um clube que possui uma torcida que é o seu maior patrimônio.
    Abraços e saudações Xavantes!!!

  8. Thiago Miranda diz:

    Não consigo acabar de ler o texto sem chorar, isso é a mais pura essencia de como começa a história de cada uma das pessoas que começam a ir ao BF. Experiencia única , que hoje tento de todas as formas passar para o meu filho Otávio que tem 3 anos e meio. Nesta final em caxias , levei ele junto comigo com 5 horas de viagem ate Caxias para quem sabe ver o nosso clube ser campeão pela primeira vez para ele. Cada vez que o Brasil entra em campo, pode ser no jogo mais esperado do ano, ou aquele que vale muito pouco e sem público algum, sinto como se fosse o primeiro jogo . Já entrei em campo quando era pequeno, e hoje sempre que posso levo ele para entrar. Domingo certamente estaremos todos lá, na vitória e na derrota apoiando como sempre.
    saudações xavantes e rumo a vitória .

  9. Sérgio Stifelmann diz:

    Grande relato. De arrepiar mesmo. Moro em Porto Alegre faz muito tempo. Acompanho o Xavante sempre que posso e até mesmo quando não posso. Excursões, viagens de última hora, amizades formadas na nossa grande Onda Xavante, reduto dos rubro-negros de Porto Alegre e região. Enfim, um sem número de momentos e sentimentos vividos graças à minha paixão pelo Grêmio Esportivo Brasil. Nem vou falar de todos os momentos bons e nem tão bons que o Xavante me deu, todos eles vividos com muita intensidade e emoção. Não falar de minhas conversas (pena que foram poucas) com o Milar em Espanhol. Quero falar sim da maior emoção que tive como pai e torcedor. Dia dos pais, 2008, colégio da minha filha em Porto Alegre. Ela nascida na “Capital”, junto com seus colegas iriam fazer uma surpresa aos pais na sala de aula. Ela e os outros entram em fila, todos com camisas de futebol. Como seria óbvio…dupla grenal, seleção brasileira, acho que tinha um com a camiseta do Corinthians…e lá no meio..Carol, minha filha com a gloriosa camiseta do Xavante. Nem preciso falar o que senti naquele momento…alguns nem sabiam que time era..os mais ligados em futebol ou m ais antigos vieram falar comigo…
    Quando terminou foi aquilo…corri prá ela, beijei e abracei muito..mas o mais importante de tudo foi quando ele me disse: pai…eu pedi prá mãe queria ir com a camiseta do Brasil.
    No colégio quando perguntam prá ela time ela torce? Brasil, sou Xavante como meu pai e a minha mãe. …

  10. Junior II diz:

    É isto aí Pedro, sou Pelotas, fanático, mesmo morando à 20 anos fora da cidade. Mais vale torcer para um clube do qual nos sentimos parte integrante do que um que vemos pela televisão, até porque se for para ver na TV é melhor escolher o Manchester United, o Barcelona, do que a dupla de POA !
    Mas como Áureo Cerúleo que sou tenho que “cornetear” um pouco, seus ídolos, Cássio, Badico, Dido e Milar, os quatro, jogaram no Pelotas também, você percebeu isto ?

  11. pedrohckruger diz:

    # 10

    hahaha! Junior sempre corneteando, mas acho legal isso :)

    É vdd. Meus ídolos jogaram no ECP também. No início foi estranho ver o Cassio assinar com o Pelotas, mas depois finalmente aceitei e não vejo muitos problemas. Só fico chateado por ele porque no Pelotas ele perdeu Bra-Pel. hahaha

    Abraço.

  12. Junior II diz:

    Pois é Pedro, parece que o clássico não era o forte dele, pelo xavante ele jogou o de 1997, 4×0 para o Pelotas em pleno Bento Freitas !

  13. Pingback: Samuel, bom de chute | Toda Cancha

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *