Réquiem para Olímpico

Nasci em Pelotas dois anos antes da migração dos meus pais, talvez para reforçar duas maldições vitalícias: a de ouvir piada sem graça de viado e a de ser xavante. Aliás, rendido por contingências cósmicas, me dedico com ardor a esta última. Só voltei para a terrinha depois de adulto, com 26 anos no lombo e um diploma de jornalista em punho. Lá, novamente aquerenciado, fisguei o coração da Nêga Véia e tive meu primeiro filho, este também condenado às maldições acima descritas. É que logo depois saí de novo em andanças. Em quase quatro décadas de vida, vivi em quatro cidades. Hoje vivo em São Paulo, onde junto estas palavras sob o miasma do Tietê.

Se até os xavantes jamais desgarrados conquistam lembranças pelos estádios afora, com a excursões que acarpetam de vermelho e preto a arquibancada dos outros, um tipo meio cigano, como eu, carrega mais ainda. Tanto que, embora seja um sacrilégio escalonar as emoções que este clube nos marca no espírito, vivi a maior delas longe do Bento Freitas. Mais precisamente no Olímpico, que este final de semana se despede do futebol. Este texto é uma forma de homenageá-lo, juro.

Apesar de ter perambulado 24 dos meus 39 anos sobre as ruas de Porto Alegre, não nutro sentimento algum por Grêmio e Inter, a não ser a indiferença. Muito cedo, frequentando Olímpico e Beira-Rio sem jogos do Brasil de Pelotas, percebi que não era da turma deles. Sou de alma singela demais para só enxergar sentido na grandeza. Porém, destes times gaúchos com aspirações continentais, o Grêmio é o que melhor encarna o jeito pampeano de jogar. Os caras lá da margem do Guaíba tiveram a audácia de ganhar um Mundial sem um gaúcho em campo, unzinho sequer. Digo isto como forma de advertência aos gremistas, para que não se ofendam. Este texto é uma homenagem sincera, sem intenção de deboche. Até porque o poste ainda não está em condição de mijar o cachorro.

***

Bueno, sobre o momento eterno testemunhado no Olímpico, reproduzo o parágrafo do texto no qual celebro o centenário do Brasil de Pelotas, publicado originalmente no Blog Xavante. Ei-lo:

“Habita minha lembrança um sábado de maio de 1998, quando o Cléber, ainda sem o Gaúcho no nome, e o Taílson fizeram o Grêmio tombar dentro do Olímpico. Enquanto o Lazaroni, o Guilherme e o Beto Cachaça eram demitidos, um exultante deslocamento humano rumava de volta a Pelotas. Era início de noite, tipo 20h. Dezenas de ônibus em comboio escoltavam a delegação rubro-negra. Ali naquele posto da Polícia Rodoviária da Vila Princesa, já havia xavantes à beira da BR-116, acenando, num prenúncio da madrugada eterna que viria pela frente.

Quando o ônibus xavante cruzava a Avenida Bento Gonçalves, ali perto do nosso salão de festas, a Boca do Lobo, um formigueiro em vermelho e preto saiu em procissão até a João Pessoa. Era lá, no nosso estádio, que estava reservada a maior surpresa da noite: uma Baixada mais cheia do que no Brapel do século, domingo passado.

Ao divisar as arquibancadas abarrotadas de gente que, a despeito da madrugada fria de outono, havia saído de casa para celebrar o triunfo na capital, nosso então diretor de futebol, Cláudio Montanelli, indagou, com os olhos úmidos:

– O que esperam de nós, estas pessoas?

Montanelli é versado como poucos nesta arte de ser xavante. Fez a pergunta por pura retórica, no auge de uma emoção profunda.
Todo rubro-negro sabe que este amor não precisa ser explicado.”

Basta ser sentido.

***

Obrigado, Olímpico, por ter deflagrado uma alegria tão profunda e duradoura.

Oxalá o Xavante volte logo, para que a gente possa tomar um pedacinho da Arena para nós.

Só advirto que vamos ficar de pé nas cadeiras, porque este negócio de ver jogo sentado não é para os xavantes.

Numa contribuição pra lá de especial do xavante Fabrício Barcelos Cardoso, hoje perdido na Pauliceia desvairada, diretamente para este humilde bolicho, fica o adeus do Toda Cancha ao estádio que não mais receberá nossos clubes em busca de suas façanhas. 

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14 Respostas a Réquiem para Olímpico

  1. daroit diz:

    AH, EU TÔ DOPADO!

    PIRI PORÓ PIRI PORÓ PORÓ PEGAMOS O GRÊMIO E Ó Ó Ó

    maiores músicas da história do futebol.

    VEJAM ESSE VÍDEO, PELO AMOR DE DEUS.

  2. Fernando Campestrini diz:

    Outro dia quando falávamos sobre a final da Copa Hélio Dourado, me referi exatamente a este jogo!
    A única derrota do Grêmio que eu vi no Olimpico e que não saí triste do estádio, pelo contrario. O Xavante jogou uma baita bola, mereceu ganhar e fizeram uma baita festa. Acho que é a única torcida do interior do estado capaz de levar tanta gente fora de casa.
    Torço para que subam e possamos fazer um baita jogo na Arena!

  3. Sandro diz:

    ” Os caras lá da margem do Guaíba tiveram a audácia de ganhar um Mundial sem um gaúcho em campo, unzinho sequer.”

    Opinião qualquer um pode dar a sua, é do jogo. Mas informação, não, isso precisa ser correto. O autor poderia se informar antes de escrever. Um jogador que participou do gol, LUIZ ADRIANO, é 100% gaúcho, da Vila Bom Jesus aqui de POA, pobre e negro, mais gaúcho de verdade, impossível. Talvez para o autor, gaúcho seja só quem vai a CTG e nasça na fronteira, como muitos pensam.
    Além dele, havia Renan e Marcelo Boecke, também gaúchos de nascença. Somados a eles, o Pato criado no RS desde os 9 anos e o Índio, que embora paulista de nascimento, é totalmente identificado com o RS, um “gaúcho honorário”.

  4. Ricardo Pereira diz:

    Senhores, um jogo inesquecivel. Os ônibus da Xavantada iam chegando aos comboios na Azenha, os caras desciam pela Janela mesmo, e o foguetório com rojões preparados, dezenas de churrasqueiras nas calçadas. A cerveja vendida a os milhares de torcedores Xavantes, veio de Pelotas mesmo nos onibus de excursões. O mar vermelho e preto tomou conta da Azenha, tanto que a brigada teve que interditar 2 quadras para a festa da Xavantada. Quando a Garra Xavante chegou, com os negrinhos do Fatima ,Navegantes e porto e a sua bateria sensacional, e,começou o esquenta, a massa Xavante fez um carnaval, entoando sambas em milhares de vozes, naquele ritmo firme e cadenciado. Acho que nós sabiamos que iriamos derrubar o Grêmio, pois o seu treinador Lazaroni, tentou nos diminuir em Pelotas, dizendo que haviamos jogados dopados, e, o Montaneli falou para ele. Eu quero ver tu ganhar do Xavante lá no Olimpico. Foi uma aula de humildade e superação do time Xavante, eliminando o Grêmio de Lazaroni e Ronaldinho Gaucho, na raça, na bola e na força da Torcida, que deixou os Gremistas perplexos. Quem viveu viu, e quem viver vera, ainda muitas vezes. Abraço..

  5. Papo diz:

    Baita vitória do Xavante. Melhor ainda foi o que meu Juventude fez, logo em seguida, na semi-final, arrancando um 0x0 em Pelotas e vencendo os Xavantes em Caxias do Sul por 2×1, se credenciando à final que jamais esqueceremos. Sim, neste ano fomos CAMPEÕES GAÚCHOS!

  6. Ricardo Pereira diz:

    Isso mesmo papo, uma semi final inesquecível, em que fomos a Caxias em 126 ônibus. Tanto o Bento Freitas quanto o Jaconi lotaram nos dois jogos. Depois o Ju foi campeão gaúcho, com muitos méritos, derrubando o Inter com Beira Rio lotado. Naquele ano a final era pra ser Brasil e Ju, os dois melhores times daquele gaúchão de 1998, onde o Interior dominou.

  7. pedrohckruger diz:

    #5 e #6

    Fato. Se aquele gauchão tivesse terminado numa final Bra x Ju teria sido ainda mais bonito.

  8. pedrohckruger diz:

    # 3

    Cara, pelo que entendi ele se referiu ao mundial do Grêmio, que não tinha – eu acho – nenhum jogador gaúcho. Acredito que estejas falando da conquista do Inter em 2006, mas não é isso que ele quis dizer no texto.

    A critério de curiosidade, isso é puro achismo meu, visto que não tenho a mínima ideia do plantel que conquistou o mundo em 83. haha

    Abs.

  9. Régis diz:

    Mas o Gremio tinha o Renato!

    Logo, nenhum dos dois não tinha gaúchos no time.

  10. pedrohckruger diz:

    # 9

    Putz, bem lembrado, Regis.

  11. Leonardo diz:

    Cléber fazendo gol… figuraço, volante botinudo à moda campeira. Tive o prazer de o ver batendo, opa, digo, marcando Washington, então atacante e goleador do Brasileirão 2004, do Atlético-Pr (ele dava cabeçada no estômago dele, quando dividiam a bola), pelo Criciúma, bem como Robinho, Alex, Luis Fabiano entre outros bons jogadores. Ainda fui vizinho dele, meu pai brincava dizendo que ele pegava forte, ele rindo dizia que não… só marcava haha Ainda também tive o prazer de conversar com o imortal Paulo César Baier, que de vez em quando ia visitar o Cléber. Fronteira realmente é um loqueteio, que faz mesmo quem lá não viveu, só de vir ao mundo por aquelas bandas, fazer carregar os traços fronteiriços de loucura e campeirismo no lombo. Sou de Bagé, só quem conhece lá sabe…

  12. Fabrício Cardoso, o "autor" diz:

    Rapaziada, perdão pelo sumiço. Estive até agora às voltas com aquela cerimônia em que um homem é conduzido ao cadafalso, popularmente chamada de casamento. Sobrevivi.
    Bueno, minha provocação contestada diz respeito aos titulares do Inter de 2006, pois já seria demasiado imaginar uma delegação do Inter inteira rumar para o Japão sem um sujeito nascido abaixo do Mampituba. Mas tal observação nada tem a ver com xenofobia. Caso contrário, em vez de xavante, torceria para o Atlético de Bilbao. Somos mais livres sem limitações de procedência.
    Quis apenas dizer que, se tivesse de ser colonizado por um grande da capital, o Grêmio talvez, veja bem, talvez, fosse menos constrangedor e vergonhoso. Isto porque joga à gaúcho. O Inter já faz o tipo gaúcho que amarrada cavalo no Rio de Janeiro, já meio com frescura e tal.
    Só advirto que esta constatação é estritamente empírica, nada tem de passional, porque, como dito, não sinto nada por nenhum dos dois.
    Indiada, espero ter esclarecido.
    Muito obrigado a todos pela leitura e pela troca de reminiscências.
    Abraço
    Fabrício

  13. Rudimar Schreiber Jr. diz:

    No Olímpico, ainda tivemos a semi final do Brasileiro de 1985, na qual o Xavante perdeu a vaga a finalíssima contra o Bangu. Teve ainda 3 jogos do meu JUVENTUDE na fase semi final de 1997 (como mandante em jogos contra Vasco, Flamengo e Portuguesa). E para não ser injusto, ainda me lembro de uma semi final da Copa do Brasil em 2004 (se não me engano) do adormecido 15 de Campo Bom contra o Santo André. Sim, nobres desavisados, este futebol interiorano, em outras décadas, marcava presença vez por outra em jogos importantes de competições nacionais.

  14. Ricardo Pereira diz:

    Nessa semi final histórioca do Brasileirão de 1985, entre Brasil x Bangu, tivemos um público de 37.000 espectadores, numa quarta feira a noite, sendo que se deslocaram de Pelotas + de 15.000 torcedores Xavantes, em 160 ônibus e alguns milhares de veiculos. Foi a maior excursão da torcida Xavante até hoje. O Olimpico ficou cercado pelos onibus que chegavam de Pelotas, e, se fosse num domingo, viria muito mais gente. Note-se o apoio que a torcida da Dupla Grenal deu ao Xavante pelo publico presente nessa partida, em que o Olimpico esteve praticamente lotado. Fato esse que deixou marcado em Porto Alegre, por tamanha mobilização, até hoje comentada por gremistas e colorados que acompanharam essa epopeia Xavante, considerada a maior invasão de uma torcida de outro time a Porto Alegre,em todos os tempos, o que mostra a força da Torcida Xavante.

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