2012: o ano do renascimento

Lembro-me como se fosse hoje o fatídico 5 de agosto desse ano, dia em que o meu clube, o Sport Club Gaúcho, iria estrear no brilhante Campeonato Gaúcho da Terceira Divisão (mais uma obra da Federação para enfraquecer o já combalido futebol do interior) contra o Nova Prata. Já sabendo das limitações técnicas do time, da falta de um técnico e da total falta de uma estrutura do clube, estava ciente de que o Gaúcho estava presente na competição somente para marcar presença, como diria Gilmar Rosso repetidas vezes como se fosse um mantra, “colocar a camisa em campo para o Gaúcho não morrer”. Realmente, todos sabiam que o time não iria longe, a desconfiança era total, e se justificava a cada partida. Neste primeiro jogo contra o Nova Prata o Gaúcho foi derrotado pelo placar de 2 x 0, mas todos sabiam que o Esmeraldino não estava no campeonato pra competir, estava lá pelo direito de existir.

Na segunda partida, agora em Passo Fundo, um clássico regional: Gaúcho x Atlético de Carazinho. Estava com esperanças numa vitória e num público razoável no estádio, depois de um ano e meio sem atividades, mas a realidade era dura e cruel. Um empate em 1×1, na estreia do técnico Celso Freitas e um público pífio de no máximo umas 100 pessoas me trariam de volta para a realidade cruel do Gaúcho.

O próximo compromisso do Alviverde era contra o Aimoré, já na terceira rodada, um candidato a bicho papão do campeonato (o que iria se concretizar no restante dele) em Passo Fundo. Mais uma vez o estádio vazio e mais uma derrota para a coleção. Gaúcho 0 x 2 Aimoré.

Na quarta rodada o Gaúcho encararia o Igrejinha no Estádio Carlos Schwingel. Num jogo em que o Gaúcho poderia ter saído vitorioso, perdeu um pênalti, tomou um gol e teve forças pra empatar no último minuto. Igrejinha 1 x 1 Gaúcho.

Passado 4 rodadas do campeonato, estava mais do que claro para os poucos torcedores que prestigiavam os jogos, que o Gaúcho iria disputar um campeonato aparte com o Atlético de Carazinho para saber quem seria o lanterna da chave.

Partindo agora para dois embates seguidos contra o Garibaldi, o primeiro em Passo Fundo, o presidente Gilmar Rosso convocou a torcida para apoiar a equipe no jogo em que era essencial vencer para continuar aspirando alguma coisa no decorrer do campeonato. A torcida periquita mais uma vez deixou o Gaúcho na mão e a equipe amargou mais uma derrota por 2 x 0.

O Periquito do Boqueirão fecharia o primeiro turno do campeonato com apenas dois pontos, em último lugar no grupo, sem vencer uma partida sequer. Mas isso já era uma tragédia anunciada…

O início do segundo turno foi do mesmo jeito que encerrou o primeiro, literalmente: derrota para o Garibaldi por 2 a 0 no Alcides Santa Rosa.

Enfim a sétima rodada: às 18 horas e cinco minutos do dia 14 de setembro do ano da graça, uma sexta feira, para o deleite de um público de aproximadamente 25 pessoas, enfim, o Gaúcho conquista a sua primeira vitória na competição, um 2 x 1 sofrido, batalhado, que a arbitragem só sacramentou depois de 6 minutos além do tempo regulamentar. Como já dizia o ditado popular: antes tarde do que mais tarde…

O próximo jogo era novamente contra o Aimoré, no Monumental do Cristo Rei, em São Leopoldo. O pensamento inicial era de que o Gaúcho sairia do do Vale dos Sinos goleado e humilhado, mas o que se viu foi um time forte que jogou de igual pra igual e, por que não, superior em alguns momentos. Ao final da partida, um empate em 1 x 1 e um Gaúcho com uma nova postura dentro de campo. Pensei comigo: Yes, we can!

A penúltima rodada seria disputada em Carazinho, mas o pensamento também estaria em secar o igrejinha para que tivéssemos ainda uma chance de classificação, outrora apenas um sonho. O Gaúcho se portou bem e venceu o Atlético com naturalidade, por 2 x 0. A minha única preocupação naquele jogo era a de ser tão bem recepcionado pela torcida do Atlético quanto o Marcelo Pitol foi…

A última rodada prometia ser emocionante: de um lado o Gaúcho encarava o Nova Prata. Do outro, o Igrejinha visitava o Aimoré. Gaúcho e Igrejinha disputariam a última vaga com dois adversários já classificados. Tanto o Gaúcho quanto o Igrejinha poderiam ficar com a vaga, pois estavam empatados, cada um com 9 pontos, com vantagem para o Igrejinha no saldo de gols. Então só restaria torcer por uma vitória do Aimoré e com um simples empate estaríamos classificados. E foi justamente o que aconteceu: O Gaúcho segurou um empate em 0 x 0 com o Nova Prata e, por sua vez, o Igrejinha foi derrotado por 2 x 0 pelo Aimoré.

O impensável agora se tornava realidade. O Gaúcho estava classificado para as quartas de finais do Gauchão 2012. Mas o destino cruel voltou a assombrar o esmeraldino do Planalto Médio. Após a partida contra o Nova Prata, Celso Freitas, o treinador da equipe, abandona o barco e acerta com o Garibaldi. Um verdadeiro exemplo de “profissionalismo”…

Mas o preparador físico Marco Aurélio junto com o preparador de goleiros Roberto Chiaparini e com a ajuda mais do que especial do ex-zagueiro da equipe, Serjão, assumem a bronca e preparam a equipe para o embate com o até então único invicto da competição: o temível Três Passos.

O primeiro jogo é em Passo Fundo e, pela primeira vez desde sei lá quanto tempo, eu vejo muitas pessoas no estádio, coisa rara até aquele momento… Com o jogo parelho sem nenhuma chance de gol pra nenhum dos times, só poderia sair gol de bola parada mesmo, e foi o que aconteceu. Aos 48 minutos do segundo tempo, o goleiro Souza derruba o atacante adversário na área: pênalti para o Três Passos convertido por Diego Saraçol, para delírio do goleiro do Três Passos Luli que no final do primeiro tempo mostrara a genitália para a torcida alviverde expressando toda a sua refinada educação.

No jogo da volta, em Três Passos, o que já estava ruim conseguiu piorar ainda mais. Julinho faz 1 x 0 para o TAC e a desclassificação parece iminente. Mas num lampejo de loucura, o atacante do alviverde Léo marcou duas vezes, calando a Arena Luiz de Medeiros no noroeste gaudério. O Gaúcho conquistou sua classificação no critério do gol qualificado, marca de um time que jogou no limite das suas forças.  E desta vez, o goleiro Luli não festejou e deixou as vergonhas dentro do calção.

O futebol é encantador por essas coisas, veja só: o clube que fora abandonado pelo seu treinador teria a oportunidade de fazer justiça com as próprias mãos contra seu desertor. E quem fez a alegria do torcedor alviverde foi o atacante Da Silva ao anotar o gol da vitória alviverde. No final da partida as duas comissões técnicas quase saíram no braço. Um verdadeiro show a parte.

Mas em terras hostis, a vida do Gaúcho foi dura. Logo aos 5 minutos do primeiro tempo o Gaúcho já perdia por 1 x 0. Mas algo de melhor estava guardado e no segundo tempo Willian Castagnete empatou para o alviverde, mas como a vida do Gaúcho é sofrida por natureza, Wilian, desta vez do Garibaldi, aos 17 minutos da etapa final retomou o resultado para os da terra da champanha. O quadro do Planalto, como um empregado preguiçoso de uma firma qualquer, matou tempo até o apito final do juiz. Fim de papo e o que parecia um devaneio da cabeça de qualquer torcedor se torna realidade num piscar de olhos: o Gaúcho conseguiu o acesso!

Ao retornar a Passo Fundo, às 10 horas da noite, a delegação foi recebida com festa por torcedores do clube em frente ao estádio de seu tradicional rival e seguiu em carreata em carro aberto pelas ruas da cidade. E era carro aberto pra ninguém colocar defeito, uma saveiro e uma camionete pertencentes a torcedores substituíram com eficiência o caminhão de bombeiros. Desfilando pelas ruas da cidade com muito orgulho, muita festa, muita alegria e muita buzina, é claro. Mas o ponto alto do comboio foi quando passamos numa boate chamada “Mulheres de Areia Night Club” e fomos agraciados com uma tentativa de strip tease por parte das funcionárias do estabelecimento. Tem coisas que somente o futebol nos proporciona mesmo…

O final dessa epopeia todo mundo já sabe: Aimoré Campeão e o Sport Club Gaúcho ficando com o Vice. Mas contrariando aqueles que dizem que o segundo colocado é o primeiro perdedor, para o Gaúcho, o término de cada jogo, independente do resultado, era um campeonato ganho. Valeu SC Gaúcho!

Da Capital Nacional da Literatura,

Douglas Kaminski

(A foto é do futebolgaucho.com)

Publicado em Divisão de Acesso 2013, Gaúcho de Passo Fundo, Segunda Divisão 2012, Terceirona com as tags , , , , , , , , , , . ligação permanente.

2 Respostas a 2012: o ano do renascimento

  1. Bruno diz:

    Só o futebol, só o futebol. Belo relato que me deixa muito alegre. Sou fan de time alvi-verde, mas no meu caso o de Caxias do Sul. Certa feita namorei uma menina que era neta (ou sobrinha? faz muito tempo…) do presidente do Gaúcho à época e desde então não consegui mais me desligar. Acaba que, sempre que me deparo com uma matéria sobre o club, leio e me lembro dela.

  2. Sempre que leio algum texto sobre o Gaúcho, vejo no horizonte duas figuras: uma tétrica, me fazendo ver a que ponto um clube pode chegar (pleos diversos motivos que levam um clube a chegar num estágio tão combalido), mas também de como uma camisa pode ter forçar para seguir vivo, lutando contra tudo e contra todos (e muito ali se deve ao seu atual presidente – que por mim estaria comandando a FGF…).

    A campanha dese ano foi sensacional, unindo façanha e dedicação extrema a compreensão do formulismo, algo que só o Libermorro conseguiu aperfeiçoar na VII ImpedCopa do sábado passado, chegando ao título.

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