Palavras de quem venceu: Humberto Flores

Apenas ele, Edson Kaspary (hoje prefeito recém eleito de Vale Real) e o eterno Laurinho Guerreiro estiveram nas três principais conquistas esmeraldinas. Simplicidade, carisma e caráter são apenas algumas das marcas do ex-goleiro e ex-preparador de goleiros do alviverde Humberto Flores. Ou simplesmente Humberto, que atualmente trabalha no Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense.

Com 37 anos, boa parte deles dedicada ao Esporte Clube Juventude, o gaúcho de Triunfo recebeu gentilmente o Toda Cancha e proporcionou um bate-papo pra lá de especial, relatando fatos que apenas quem convive ou conviveu dentro do vestiário poderia nos passar.

Toda Cancha: Sua saída do Juventude ocorreu logo após a eliminação do clube na Série D, o fatídico 3 x 0 do Cianorte, no Paraná. Para muitas pessoas que convivem diariamente no Jaconi, o motivo seria o mau relacionamento entre você e o então recém-chegado Lisca. O que você tem a dizer?

Humberto Flores: A minha saída teve vários aspectos. Alguns vieram me falar algumas coisas em relação a isso que tinham dito. Eu procuro encarar como consequência. Assim como eu cheguei ao Juventude, iria ter uma hora que viria minha saída. É claro, eu fico chateado pelo modo que as coisas aconteceram: a gente ter sido eliminado, o pessoal do clube me conhecer já há bastante tempo e algumas coisas que foram ditas por pessoas que chegaram há pouco tempo serem levadas em consideração. Mas nada que eu acho que valeria a pena ter levado a frente, até porque quando foi tomada a decisão não iria ter mais volta.

TC: Surgiram especulações de que um dos principais fatores que levaram à eliminação alviverde teria sido a maneira como o técnico Lisca conduziu a preleção da partida decisiva. Talvez de uma forma que tenha colocado uma forte pressão em cima do grupo, sendo a maioria jovem. Você, que esteve lá dentro do vestiário, acha que realmente ocorreu algo do tipo?

HF: Eu acho que foi uma série de fatores. Mas uma coisa muito marcante, que eu acredito que culminou com aquela derrota – até houve uma falha do goleiro (Follmann) no segundo gol – foi o que aconteceu uma semana antes, logo após a vitória por 3 x 1 no jogo de ida, em que houve uma discussão entre o treinador (Lisca) e o goleiro (Follmann) na saída do campo. Uma discussão muito forte e nada a ver com o jogo. Questões pessoais.  Então, isso aí eu acho que foi uma grande influência, porque queira ou não queira, o goleiro é jovem e, em minha opinião, esse fato não deveria ter acontecido, pois era um momento de decisão e ocasionou uma semana complicada para o goleiro trabalhar, certamente ele ficou com a cabeça perturbada.

TC: Então não foi sobre o jogo?

HF: Não foi sobre o jogo. Foram questões pessoais que o Lisca tem, até em relação a empresário e ao outro treinador (Carlos Moraes) que estava no Juventude e saiu. Isso aí acabou criando um clima ruim, uma semana um pouco conturbada.

TC: Na sua visão, qual o motivo deste longo período de dificuldades que vive o E.C. Juventude, que teve o ponto inicial ainda em 2007, no rebaixamento à Série B, e a partir dali o clube despencou no cenário nacional e hoje luta para voltar à uma divisão?

HF: Bom, eu posso falar mais como um espectador de fora, porque eu não estava no clube na época que aconteceram todas essas quedas, em 2007 eu estava no Caxias. Mas eu atribuo a uma série de fatores: má condução de trabalho, má administração, além dos jogadores que não conseguiram dar aquela chamada “liga”. E também aquela coisa de não saber vivenciar a série em que se está. Quando caiu da A para a B e daqui a pouco achou que logo em seguida iria subir, acreditando que ainda jogava Série A, mas as coisas não foram acontecendo.  Então, eu penso que a soma de todos essas questões é que determinou para o Juventude ter chegado onde chegou. Porém, é claro, o pessoal que está trabalhando lá dentro jamais gostaria de fazer algo para prejudicar o clube, mas o futebol é feito de diversos fatores e, infelizmente, nos últimos anos as coisas não estão acontecendo.

TC: A organização/planejamento, que são alguns dos fatores primordiais – senão o primordial – que justificam grande parte desses fracassos (este ano, apenas para simbolizar isso, quatro técnicos estiveram no Jaconi) contradizem o sucesso das categorias de base, haja vista os inúmeros atletas que vêm sendo revelados, demonstrando o ótimo trabalho exercido. Por que o que sobra na base falta no profissional?

HF: Eu cheguei em setembro de 2009 no Juventude e fiz parte dessa equipe vencedora da base. Em 2010, conseguimos fazer ótimas campanhas na Taça São Paulo, Copa BH e no título do Gauchão, tanto é que essa equipe vencedora são os jogadores que estão jogando hoje na equipe principal: Bressan, Fabrício, Alex (Telles), Ramiro, Follmann e Deoclécio.  O trabalho que era realizado era bem estruturado. A comissão técnica se fechava muito bem, liderada pelo treinador Carlos Moraes, que sabia aproveitar bem esses guris. Então, isso fortaleceu muito em termos de resultado e na chegada deles ao profissional. Claro, nós sabemos que não é a solução dizer que os jovens irão resolver os problemas. A ideal estrutura interna do vestiário, que estava sendo criada, seria para fortalecer bem esses jovens que estavam chegando. Eles iriam encontrar um grupo já fortalecido, onde iriam jogar ou ficar no banco de reservas e acabariam tendo um processo em que eles também conseguiriam ser titulares, porém não na necessidade e sim na condição deles.  Mas, na verdade, foram os guris que tiveram que dar conta do recado, sendo campeões da Copinha. Eles foram forjados vencendo, mais na necessidade do que nas consequências do trabalho. Entretanto, ainda assim eles conseguiram dar resultado. Isso mostra que o trabalho de formação, lá atrás, do modo como foi conduzido, as conquistas, fortaleceram eles para chegarem bem hoje.  Reitero: nessa situação, a subida ao grupo profissional não seria a ideal. Hoje eles não são valorizados, jogando o que estão jogando, pela condição do clube. Um exemplo é a venda do Alex Telles. Se ele está em um outro clube ou o Juventude está numa Série A ou B, a valorização dele seria, no mínimo, 5 ou 6 vezes maior. As pessoas de fora vêem a situação do clube hoje. Infelizmente, eles não irão analisar a estrutura, a qualidade dos jogadores. O jogador é bom? É bom. Mas está em que clube? Ah, está num clube que não encontra-se em divisão nenhuma…

TC: Em 2008, época que tu não se encontrava ainda no Juventude mas, talvez pelos bastidores do futebol, tu possa dizer algo sobre aquele vergonhoso 8 x 1 aplicado pelo Internacional, no Beira-Rio, na final do Gauchão de 2008. Mesmo o Internacional tendo mais time, aquela partida pareceu muito estranha desde seu começo, em que até atraso do Ju para entrar em campo teve.

HF: Isso é uma coisa que não pode acontecer. Eu vejo a história entre Juventude e Inter, pelas conquistas que nós tivemos (o Juventude) em um passado não tão distante, é um placar que não pode ser aceito, como o dos 7×0 desse ano. São duas goleadas que ficarão marcadas para sempre. Ainda mais pelo passado recente dessas duas equipes, em que o Juventude sempre fez frente ao Inter, conquistando título, fazendo grandes jogos em pleno Beira-Rio, como o da campanha na Copa do Brasil (de 1999). Esses fracassos não são resultantes de algo específico, e sim de uma série de fatores. Eu vejo, como ex-atleta, que muitas coisas passam por dentro do campo. Em ambas essas goleadas, faltou aquela coisa de dentro do campo, partir de lá dentro. Eu acredito que isso seja um dos aspectos que mais marcou, que foi até bastante comentado sobre essa falta de indignação, o que eu concordo. Não é querer dizer para virar o placar do jogo, mas não tomar uma goleada do modo como aconteceu, até por ter tomado poucos cartões, de não ter praticamente briga.

TC: Apesar da garotada, que vem subindo em grande número ao profissional, ter demonstrado personalidade ao conseguir segurar a pressão e conquistar uma suada Copa Hélio Dourado, você – que até pouco tempo convivia diariamente com grande parte desses atletas – acredita que eles estão prontos para suportar a pressão de um  ano do centenário para um clube que tem como obrigação o acesso à Série C?

HF: Hoje eles estão. Como eu havia falado antes, eles foram forjados, digamos assim, vencendo. Em 2010, o time júnior do Juventude ficou em primeiro no ranking brasileiro.  São jogadores que sempre foram profissionais. O perfil dessa geração é de profissionais há anos em termos de conduta, de preparação. É uma garotada inteligente, não são aqueles boleiros antigos. Acredito que esse seja o diferencial.  Essa gurizada joga há anos juntos, são amigos, possuem uma família estruturada, as quais estão sempre nos jogos. Se cuidam dentro e fora do clube, valorizando a sua imagem. Infelizmente, eles subiram em uma situação complicada do clube, onde o retorno não é tão grande.

TC: Muitos creditaram ao Lisca o título da Copa Hélio Dourado até por ter conseguido motivar o grupo a cada partida, mesmo sem verem a cor do dinheiro. Apesar do teu convívio ter parecido não ser muito harmonioso com o treinador, você acredita que o Juventude está em boas mãos para 2013?

HF: Sim, certamente. Apenas colocando que o meu convívio com o Lisca foi completamente tranquilo, não teve problema algum, foi normal como com os outros treinadores que passaram pelo Jaconi.  E voltando ao assunto principal, eu acredito que sim. O trabalho é bom, é um cara motivador, de campo. E também o perfil do grupo principal que é muito bom, além da gurizada que eu já citei. Jardel, Zulu, Rafael (Pereira), Nem, Fernando, Carlão, Follmann, além dos que vieram de São Paulo, são atletas extremamente profissionais, de grupo. Claro, houve a greve, mas é uma maneira de eles mostrarem indignação, pois não pode ficar três meses sem receber.

TC: Quais as maiores diferenças que você até pouco tempo encontrava no Jaconi, em relação ao período em que tu era atleta daquela vitoriosa década de 90?

HF: O que eu posso dizer, em termos de vestiário, é que existia uma convivência muito maior entre os atletas, tínhamos uma grande amizade. Tanto é que meus amigos, o Lauro, Piccoli, Fernando, essa turma toda, a gente não mantinha o convívio apenas no clube. Esse lado amigo dentro do vestiário era muito forte.  Além do modo como o Juventude era conduzido, sendo uma coisa bem próxima entre direção, jogadores…  Não que isso hoje seja diferente, mas digamos que é algo mais profissional, não uma coisa tão próxima. Naquela época, eu lembro que os dirigentes vinham lá, perguntavam como estava a família, batiam papo mesmo. Além da entrega que tinha dos jogadores. Dificilmente eram feitos contratos longos, e assim nós tínhamos que fazer de tudo para renovar. Eu vejo hoje uma inversão dos papéis que eram feitos antigamente. No passado, o jogador tinha que dar o resultado para depois ser valorizado e nos dias atuais existe muito o inverso.

TC: O Juventude atingiu este ano a marca de 35 jogos de invencibilidade no Alfredo Jaconi, o que não condiz muito com a atual situação do clube.  Mesmo atuando fora de casa, o campo muitas vezes é neutro nas Séries C e D do brasileiro.  Entretanto, o Juventude não conseguiu repetir nem de perto as atuações do Jaconi.  A que você credita esta mudança de comportamento tão grande?

HF: Eu vejo várias questões. O próprio campo, que tem um gramado muito bom, a torcida que ajuda muito. E até o já existente receio do adversário quando vai jogar no Jaconi. Quando joga aqui, é como, por exemplo, quando se vai jogar no Bento Freitas. Sabe que será sempre guerra, terá todo aquele tumulto que a torcida faz.

TC: O que você enxerga para o futuro do Juventude? Você acha importante esse processo de profissionalização que teve início esse ano?

HF: Sim, extremamente importante. Eu vejo isso como um passo para o Juventude ter a retomada. O clube está trazendo profissionais totalmente capacitados, os chamados homens do futebol, que talvez nesse passado recente não tenha tido. Acredito que algumas decisões equivocadas que eram tomadas não eram com a intenção de prejudicar o Juventude, mas por serem conduzidas por pessoas que estavam faz pouco tempo no meio do futebol.  Esse processo é longo, mas certamente trará resultados. Eu só espero que esse trabalho não seja interrompido.

(com fotos do site oficial do E.C. Juventude e arquivo pessoal do cancheiro)

Da antiga Pérola das Colônias para o Toda Cancha,

Pedro Torres

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7 Respostas a Palavras de quem venceu: Humberto Flores

  1. Bela entrevista e baita iniciativa tua de ir atrás dessa entrevista, Pedrinho!

  2. Pedro Torres diz:

    Valeu, Franco!
    Pessoas no futebol como o Humberto, são poucos.

  3. Zezinho diz:

    Grande Pedrinho!

    Humberto, salvo engano, está no meu álbum do Brasileirão de 1998. Muito boa e entrevista, tanto pelo entrevistador quanto pelo entrevistado

  4. Mateus Cesario Stefani diz:

    Caros amigos:
    Lembrando que o goleiro Humberto era o titular do Juventude na histórica conquista do Gauchão 1998, que quebrou uma hegemonia de 44 anos da dupla Gre-Nal.
    Na Copa do Brasil de 1999, o arqueiro titular era o ex-gremista Emerson, com Humberto sendo seu reserva.
    Parabéns a todos do Toda Cancha pelo excelente trabalho de valorização do futebol do nosso interior.
    Abraço a todos!

  5. baldasso diz:

    grande Humberto!

    muito boa a iniciativa. avante PAPO!

  6. Walter diz:

    Excelente entrevista! Muito boa iniciativa
    Parabéns!

    É realmente uma pena a que ponto chegou o Juventude, mas me pergunto se o fim da Parmalat ajudou nessa queda ou foi incompetência administrativa mesmo.

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