2012, o ano do quase apocalipse canário – Parte 1

Quinta-Feira à tarde, preparava-me para ir para casa como em um dia como qualquer outro, quando veio a convocação:

– Eles querem falar contigo – disse um dos cancheiros, que se apressava para entrar na sala onde minha presença havia sido solicitada.

Clamei por mais informações, mas seu silêncio me deu um frio na espinha. ‘Só pode ser isso!’

Cheguei à sala e estavam todos reunidos. O tradicional chimarrão não estava na roda, o que ajudou a aumentar o meu temor. O silêncio foi mantido por alguns instantes, até ser rompido pela sentença:

– Precisamos da tua retrospectiva do Ypiranga!

Não orgulhoso confesso que chorei, invoquei meus medos para dizer que não poderia, não estava preparado, que estragaria meu Natal.

– Só o Ypiranga que vai ficar sem retrospectiva – retrucou alguém cuja identidade não consigo lembrar tamanha a comoção do momento.

– Nenhum ypiranguista quer relembrar 2012, deixem-nos viver em paz! – argumentei.

Os segundos se arrastavam e cada vez mais eu percebia que não poderia fugir desta ingrata responsabilidade. As profecias maias eram minha última esperança, como elas não se concretizaram, seguem a primeira parte das lamúrias que somente um canário obrigado seria capaz de fazer.

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Pode parecer ilógico, eu sei, mas estás em um blog onde a demência é incentivada, portanto, até que não se prove o contrário, 2012 no Colosso da Lagoa começou bem antes, findado o Gauchão de 2011.

Neste certame os canários tiveram um rendimento bom, contudo longe de algo a se encher os olhos como em 2009, quando a taça do Interior parou na Avenida 7 de Setembro, mas mais longe ainda de qualquer possibilidade de rebaixamento. Um digníssimo 5º lugar geral, sendo a eliminação nas quartas-de-final do segundo turno nos pênaltis contra o Grêmio.

Havia a expectativa de um seguimento no trabalho, com uma participação na Copa Laci Ughini (sim, a mesma que hoje se chama Hélio Dourado e deve, um dia, se chamar Copa Valério Schillo!) e a decisão de não participação revoltou parte da torcida. As informações davam conta que o canário se preparava para uma mudança.

Já se passavam vários anos do início da parceria com o Instituto Barão do Rio Branco, capitaneado por Valério Schillo, falecido em 2008, que tirou o Ypiranga de dívidas que ameaçavam o maior templo do futebol construído no interior do estado, e o levou para a maior divisão regional. O desgaste era grande por ações, na maioria das vezes extra-campo, pouco respeitosas com a história verde-amarela. A parceria acabou e a direção do clube começaria a comandar o futebol profissional em 2012.

As promessas falavam sobre profissionalização na gestão e quem ouvisse chegava a acreditar que dentro de dez anos não seriam só Grêmio e Inter os campeões mundiais abaixo do Rio Uruguai. No futebol, seguiu-se a risca uma música que eu confesso não me lembrar de quem é que diz: ‘se for pra tudo dar errado, quero que seja com você’, todas as fichas foram postas num messias, Karmino Colombini, ou Carmino Kolombini (pesquisar no Google como se escreve o nome deste cara é demais para mim), algo assim.

Só três dos contratados já tinham portado o símbolo canário no peito, os sempre dignos Thomaz e Pansera, além do intragável Precheski. As apostas passavam por Lucas Silva, Tiago Duarte, Fernando Vizzotto, e até um Rodrigo Jesus. Muitos bruxos do treinador também desembarcaram na rodoviária, sendo que a maioria deles teria dificuldades para integrar o sempre competitivo grupo do multicampeão citadino N-Santin.

Os primeiros testes da equipe não fizeram nenhum torcedor fanático se atirar na insuficiente barragem da Corsan buscando o suicídio, não ainda. Derrota por 4×1 contra o São Luiz seguida de uma vitória por 3 x 2, em Ijuí e Erechim, respectivamente. Uma vitória por 5×1 contra um combinado de jogadores amadores locais e a esperança de um não-fiasco, pelo menos.

Então veio o Gauchão, mas ele não veio acompanhado de gols e nem vitórias. Na primeira partida em Caxias do Sul, contra a Sociedade Esportiva e Recreativa que leva o nome da cidade, uma derrota convicta, 2 x 0 justo como um sorriso para o Papai Noel. Depois, um 0x0 contra o Novo Hamburgo com a colaboração do juiz que não marcou um pênalti claríssimo em cima do anilado Claiton nos últimos minutos e também no Colosso, outra derrota para o Cruzeiro, 0x1.

3 partidas e 1 ponto conquistado depois, o messias que agora já parecia agente de apocalipse KC ou CK, foi pra rua. O preparador físico também. O planejamento parecia estar dando certo. Para a casamata, foi efetivado o auxiliar Joel Costa. Incapaz de mudar o panorama, no primeiro jogo ao seu comando, derrota por 1 x 0 em Pelotas. Em Santa Cruz do Sul, os primeiros gols, ambos do lateral-esquerdo Cleber Luiz, de pênalti e de falta, mas o periquito empatou e a primeira vitória ficou para a segunda visita à Capital Nacional do Fumo.

Contra o Grêmio, no Colosso, o time se comportou bem, abriu o placar, mas tomou a virada no último lance. Até a sorte estava contra os canários. No Vieirão, um empate em 1 x 1 com um gol de Bérgson, a aposta que vinha da capital para tirar o time do atoleiro. A quase-empolgação pelos 2 empates fora e pelo bom jogo contra o Grêmio se esvaiu completamente quando, em Erechim, o time perdeu para o VEC por 3 x 2 e junto com ela foi o emprego do treinador Joel Costa.

Agora começa uma parte boa da novela, aquela na qual os mocinhos vivem felizes por um tempo, até chegar a vilã e estragar tudo recomeçando o ciclo que só termina numa Sexta-Feira que o Globo Repórter começa bem mais tarde para desespero de quem quer ver o programa do Jô. No meio de tanta CAGADA, um acerto: Leocir Dallastra.

O treinador teve tempo para trabalhar a equipe, enquanto no RS se decidia quem levaria a taça Farroupilha e a vaga na final, estreando no coliseu, digo, no Beira-Rio. Mais uma vez o time se portou bem mas desta vez foi prejudicado pela sempre imparcial arbitragem e o ponto contra um grande da capital não veio: 2 x 1.

No Colosso, a derrota para o São José por 2 x 0 já fazia familiares de torcedores agradecerem pelo baixo nível da barragem da Corsan. A série B era certa como a morte. Mas a esperança, aquela maldita, insistia em mostrar por entre os lábios seus belos dentes para o torcedor canarinho. A vitória, por 2 x 1, em Santa Cruz do Sul, contra o galo, deu ao Ypiranga a taça de campeão citadino de lá e fez com que eu tirasse da mochila a calculadora novamente.

Um empate contra um Juventude em ruínas, em Caxias, não era o ideal, mas ainda dava um pouco de eletricidade aos aparelhos. Nas últimas 3 partidas 7 pontos bastariam para concretizar o milagre. Próximo encontro? No Colosso da Lagoa, contra o único time mais desesperado que o Ypiranga, o Canoas. O 0 x 0 praticamente fechava o caixão de todo mundo. No final do jogo, protestos contra a direção e xingamentos vindo do capitão da equipe à torcida dão a tônica do clima de velório em Erechim.

A matemática ainda permitia a reação mas como acreditar em um time que sequer havia vencido uma partida em Erechim? Como uma prostituta cara para um mendigo, a esperança de novo sorriu. Edinho fez 1 x 0, o Ypiranga venceu a primeira partida em casa no Gauchão e resultados paralelos davam chances concretas de escapar do rebaixamento na última rodada, em Lajeado.

Consigo sentir na garganta a emoção que senti naquela semana. Não foi fácil viver. Para a páscoa, o dia da ressurreição, que o jogo foi marcado. NÃO PODERIA SER COINCIDÊNCIA! Tiago Duarte, a esperança do início do ano que ainda não tinha estreado em Erechim, marcou aos 17′ do primeiro tempo. O VEC ganhava em Santa Cruz do Sul, periquito e Canoas que iriam para o calvário. ERA PERFEITO!

Mas, numa daquelas coisas que a vida é feita, Micael, aos 32′ do Segundo Tempo, empatou para o Lajeadense e deixou claro para os esperançosos do Alto Uruguai que a vida não é escrita por João Emanuel Carneiro.

A classificação para a segunda fase da Taça Piratini pode ser dita como resquício de vida por alguns já que o título desta faria o time escapar do rebaixamento mas, para mim, se tratava apenas de compromissos fúnebres. Os 3 tentos marcados pelo Grêmio, no Olímpico, foram as pazadas de terra do enterro.

A segunda parte do semestre fica para uma segunda parte do relato deste ano.

Do Alto Uruguai,

Álisson Giaretta

(Com fotos do Jornal Correio do Povo, Portal GAZ e Nabor Goulart/Agência Freelancer)

Publicado em Divisão de Acesso 2013, Gauchão 2012, Ypiranga com as tags , , , , , , . ligação permanente.

2 Respostas a 2012, o ano do quase apocalipse canário – Parte 1

  1. Dino Sta Isabel FC diz:

    ” BELÍSSIMO TEXTO. E TAMBÉM, UM TREMENDO e ESTUPENDO RELATO DO TRÁGICO REBAIXAMENTO, DO NOSSO CANARINHO. ”

    ” 2012. O ANO PARA O TORCEDOR do YPIRANGA FC de ERECHIM ESQUECER. ”

    #VAMOVAMOYPIRANGAAA #IREMOSVOLTARÁPRIMEIRADIVISÃOJÁEM2013

  2. Leonardo Mroginski diz:

    Texto espetacular…relatou como o torcedor Ypiranguista viu o ano de 2012. Abraços, @cornetaypiranga

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