A resistência Farrapa – Parte 1

Quando me foi proposto o desafio de representar o Farroupilha neste espaço, muitas ideias sobre o que eu deveria abordar no primeiro texto vieram à mente. Também contei com alguma sugestões: retrospectiva de 2012, expectativas para 2013, como me tornei torcedor, etc…

Eu tenho uma forma bem definida de torcer. Procuro sempre analisar os fatos pelo lado racional e com cautela (Celso Roth feelings). Não consigo ser um torcedor do tipo “Rumo a Tóquio” a cada vitória e  que acha que até os azulejos do estádio são ruins quando o time perde. E os fatos ocorridos nos últimos anos no Nicolau Fico ajudaram a sedimentar essa racionalidade.

Pois foi daí que surgiu veio a inspiração: preciso contar a “história recente” do Grêmio Atlético Farroupilha, glorioso campeão “por 100 anos” de 1935. Esses acontecimentos, além de explicarem a situação atual onde o clube se encontra, moldaram a minha mentalidade como torcedor – que pode parecer pessimista demais aos olhos dos desavisados…

Como o monstro cresceu demais, foi decidido de comum acordo que seria postado em três partes. Então, lá vai…

Dos anos 90 até 2002

Comecei a acompanhar o Grêmio Atlético Farroupilha, indo no estádio, em meados dos 90 já na Segunda Divisão Estadual. Minhas lembranças são um tanto vagas devido à pouca idade. Lembro de ver um ataque sensacional com Manga e Lima, num time que não subiu por detalhe. O folclore diz que o primeiro chegou a ser cogitado como reforço do Cruzeiro de Minas, mas acabou sucumbindo a uma lesão e virou mais um andarilho do interior gaúcho. Não tenho certeza do ano, talvez 1999, o Tricolor DO Fragata fez uma campanha ridícula, com 0% de aproveitamento (isso mesmo, só derrotas) na primeira fase e caiu pra terceira.

A volta veio em 2001, com um vice-campeonato em uma decisão contra o Cachoeira. Ironicamente, a terceirona foi extinguida dois anos depois. A partir daqui começa o que eu considero a “história recente” do Campeão de 35!

2003 e o maior assalto da história

O ano de 2003 foi marcante na história tricolor. Na segunda temporada depois da volta para divisão intermediária, a fórmula de disputa previa 3 grupos na primeira fase, com 5 ou 6 times, divididos por regiões, classificando-se doze para os dois exagonais da Semifinal. O Farrapo formou um time com uma maioria de jogadores com pessagem pela dupla Bra-Pel (o famoso “refugo”) que deu uma certa “liga” e era muito aguerrido (lembro de uma briga em um Bra-Far no Nicolau Fico que valeu mais o ingresso do que o jogo).

O primeiro sinal de que as arbitragens daquele ano não estavam dispostos a colaborar com o tricolor foi justamente num clássico, conforme o próprio Diário Popular testemunha: “Apesar da superioridade rubro-negra, o jogo foi bastante disputado e marcou por dois lances decisivos contrários ao Farroupilha […]”. A notícia ainda dá a entender que os erros não foram determinantes para o resultado. Os lances do jogo estão aí para que cada um tire sua conclusão:

Apesar dos pesares o Farroupilha foi, aos trancos e barrancos, avançando de fase. Ao chegar na última rodada da semifinal, bastava um empate contra o Lajeadense fora de casa para garantir a classificação para o octogonal decisivo. Lembro da expectativa na época, era surpreendente a equipe que há dois anos estava afundada na terceira divisão, chegar tão perto assim do acesso à elite! Porém, o que aconteceu foi inexplicável (talvez não tão inexplicável): simplesmente O MAIOR ROUBO que um time de futebol já sofreu na história… capaz de fazerem parecer totalmente idôneos e acima de suspeitas os títulos nacionais do Flamengo em 1982, com gol de mão em pleno Olímpico, e do Corinthians em 2005, com uma “mãozinha” de Márcio Rezende de Freitas, contra o Internacional, para choradeira geral dos coirmãos da capital.

Fabiano Gonçalves, Jorge Laureano e Juarez Mariano ANULARAM QUATRO (UM, DOIS, TRÊS, QUATRO!) GOLS LEGÍTIMOS do Grêmio Atlético Farroupilha! Os três primeiros foram marcados ainda na primeira etapa. No segundo gol anulado, nem mesmo a imprensa local foi capaz de identificar o motivo da impugnação de um gol oriundo de uma cobrança de falta(!). O time da casa pressionava pois precisava da vitória e marcou quando o jogo se encaminhava pro fim. Nos acréscimos o Farroupilha conseguiu o gol salvador… mas foi novamente tirado pelos árbitros!

Boatos que surgiram na época dão conta de que Fabiano Gonçalves – esse SEMPRE foi mal intencionado além de NUNCA ter tido uma única BOA arbitragem em toda sua carreira – era aluno da ULBRA e a equipe de futebol da instituição preferia pegar um adversário mais fraco (ou talvez que demandasse uma viagem mais curta) na fase derradeira da competição. Cabe ressalvar que NA ÉPOCA em que deram-se esses fatos o Lajeadense era mais fraco, não há paralelo com a fase atual e o Farroupilha vinha em uma ascenção que viria a ser confirmada no ano seguinte. Se há verdade nessas histórias ou não, não tenho como precisar. O fato é que o time de Canoas conseguiu o acesso como campeão e o do Vale do Taquari marcou apenas 11 pontos na fase final, ficando na vice lanterna.

Do Fabiano Gonçalves (que o Diabo lhe reserve as piores agruras e tormentos) nunca mais se ouviu falar, ainda bem.

2004: O incrível acesso

O novo ano começou com a velha sina. Para manter a tradição, mais um revés em uma partida recheada de lances polêmicos. Dessa vez foi armado o “Torneio da Paz”: um campeonato citadino com apenas 3 jogos classificatórios, todos disputados na sede do E.C. Pelotas, a Boca do Lobo. Os dois primeiros colocados disputariam uma decisão, no mesmo local. O torneio foi assim batizado para promover a paz nas torcidas, principalmente as do clássico do centro da cidade já que um ano antes um torcedor do Pelotas foi morto por um grupo de xavantes na saída de um Bra-Pel. A decisão acabou ficando marcada pela vitória do Brasil em cima dos aureos-celúreos com dois jogadores a menos em campo.

Mas o jogo com arbitragem conturbada, já citado, aconteceu no Bra-Far da primeira fase. O Farroupilha abre o placar com um gol de penalti logo aos 2 minutos do primeiro tempo.

Todavia, a velada “lei da compensação” dá as caras: é marcada uma falta dentro da área tricolor onde o próprio locutor da TV que gerou os lances da partida denuncia, sem querer: “Mão na bola”. Porém, até aí está tudo dentro do aceitável. O lance absurdo vem no apagar das luzes: é anulado um GOL CONTRA da defesa xavante no final da partida. Isso mesmo amigos: o quinto gol anulado do Tricolor do Fragata em 2 jogos seguidos! Um gol contra anulado!!  Lembro do atacante Leandro Guerreiro – que ficou marcado como perdedor de penaltis, com voz de choro, gritar no rádio: “Terminamos o ano sendo roubados e começanos o ano sendo roubados”.

Se no citadino, a juízada não deixou o Campeão Por 100 Anos ter sucesso, a glória viria na Divisão de Acesso. Com a equipe montada seguindo o mesmo parâmetro de aproveitar dispensados dos co-irmãos, o Farroupilha foi segundo colocado na primeira fase, em um grupo com 9 equipes. Já na segunda fase, terminou como líder com 20 pontos em 30 disputados, 3 a mais que o vice-líder, o rival Brasil. A campanha tricolor chamava atenção da imprensa fora de Pelotas: um jornal da capital chegou a classificar o time como a “sensação” do campeonato.

O regulamento original da competição previa a fase semifinal com dois quadrangulares. Os campeões de cada grupo fariam a decisão e estariam automaticamente na série A de 2005. O sorteio dos grupos castigou o tricolor: teve que enfrentar São Luiz, Inter-SM e Brasil de Farroupilha, todos times muito fortes com passagem recente pela Primeira Divisão e com viagens mais longas que o rival. A prova disso é a diferença de pontos dos classificados de cada grupo. Farroupilha e Sapiranga conseguem o primeiro lugar em suas respectivas chaves, mas uma mudança nas regras já com o torneio em andamento (Alô, Estatuto do Torcedor!) cria um quadrangular final, beneficiando os dois “Brasis” (de Farroupilha e Pelotas), ambos segundos colocados.

Na fase derradeira, o Farrapo começa tomando um 3×0 no clássico do Bento Freitas, vence os dois primeiros jogos em casa e perde os outros dois fora. A tabela espelho previa na última rodada o Bra-Far no General Nicolau Fico, dia 15 de agosto. O Brasil já tinha garantido o acesso na partida anterior. Para o Farroupilha, empatado em pontos com o Sapiranga, ganhar pelo placar mínimo dava a classificação – já que tinha mais vitórias. Empate ou derrota significaria perder uma chance única, que talvez nunca se repetiria, de retornar ao Gauchão depois de 24 anos. Nos outros dois clássicos em casa no ano, dois empates sendo que um deles, o atacante Leandro Guerreiro perdeu um penalti, deixando escapar a vitória.

Estava escrito que a história seria diferente naquela tarde! Aos vinte minutos o goleiro xavante fura em bola e ela sobra limpa para Manga que abre o placar! Alegria misturada com incredulidade: “Será que vai dar?! Impossível!! Isso não tá acontecendo… Acaba logo, seu juiz!!”. No segundo tempo, o balde de água fria: empate do Brasil e o cavalo da Série A passando encilhado… Dois minutos depois, a explosão: confusão na área após cobrança de escanteio e a bola acaba entrando. FESTA! É SÉRIE A!!! PRIMEIRA DIVISÃO! Um dos dias mais felizes da história recente do Grêmio Atlético Farroupilha!!

Detalhe negativo: os xavantes, com seu costumeiro rei na barriga, não souberam assumir a derrota. Queriam fazer acreditar que tinham aliviado o jogo, como se uma coisa dessas fosse possível, no contexto do futebol profissional, SEM PAGAMENTO! Quem viu ao jogo sabe que isso é uma teoria da conspiração sem fundamento nenhum.  Que time que vai pra “aliviar”, já classificado, busca um empate no segundo tempo??? Outro fato: nas fases anteriores, o técnico do Brasil Rogério Zimmerman tinha o costume de escalar a equipe reserva na última rodada, em caso de já estar classificado mas nessa decisão, “coincidentemente”, optou pelos titulares. Além disso, depois de tomar o segundo gol, os xavantes ainda tentaram o empate (não precisavam, já estavam com a vaga) perdendo dois gols feitos!

Como se precisássemos provar que éramos capazes de vencer Bra-Far, no dia 19 de setembro veio mais uma vitória por 2×1, dessa vez pela Copa FGF. Porém, essa mesma copa do segundo semestre trouxe o alerta para a responsabilidade que o tricolor teria no ano seguinte: eliminação após um vexatório 6×0 para o Esportivo em casa!

Continua…

Direto do Fragata,
Marcos Ceron

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5 Respostas a A resistência Farrapa – Parte 1

  1. Sapão diz:

    Morei em Pelotas na década de 90 (e no Fragata nos primeiros anos) e sempre tive admiração pelo Farrapo do Coronel Poeta e do pessoal do 9º.
    Ilustrativo o relato, apesar de não raros os erros. Parabéns. Senti falta de um pouco de história, fotos do Nicolau Fico atualmente, informações sobre o atual plantel e dirigentes.
    Abraço.

  2. Sapão diz:

    PS: como faço para adquirir um exemplar do glorioso manto do Farrapo? Lembro de ter assistido, no Olímpico, quando piá, um Grêmio X Farroupilha. Acho que perdemos, mas a camisa sampaiocorreiensebolivianajamaicanagaudériafarrapa do time foi o que chamou minha atenção e iniciou minha admiração.

  3. Marcos Ceron diz:

    Sapão

    O texto ficou mais focado na história atual realmente, já que esse era o objetivo. Informações sobre o plantel para o Acesso 2013 virão nos próximos, já que até a data que eu escrevi só tinha sido contratado o técnico. Os primeiros nomes de atletas apareceram há poucos dias.

    A camisa de 2012 (linda por sinal) só tem uma loja na cidade que vende. É no centro, na rua Sete de Setembro entre Santa Tecla e Deodoro, chama-se Panthus Sport. Na internet tu podes encontrar os modelos anteriores em alguns sites de camisas de futebol (não recordo nomes) ou as mais antigas mesmo no Mercado Livre

  4. Baita texto.Que o Grêmio Atlético Farroupilha consiga ter a grandeza que merece…e que pare de ser assaltado nos jogos decisivos.

  5. Fernando diz:

    Comprei a camisa do Fantasma tem uns dois anos na Mega Sport (Borges quase esquina Andradas).

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