A ferida ainda está exposta

Estarão Sempre Aqui!

15 de janeiro de 2009. Num barranco o ônibus vermelho tombou. Dentro dele havia jogadores de um clube de futebol que adotou o vermelho como cor; vermelho que, como diz no próprio hino, é o sangue de quem veste a camisa do time. Naquela madrugada, o Brasil de Pelotas perdeu três de seus combatentes, sendo um deles o índio maior da tribo dos Xavantes.

Não acreditei ao ligar a televisão e ver em todos os canais a imagem das rodas do ônibus para cima enquanto a repórter dizia que o acidente envolveu o meu clube do coração. Pior ainda foi ouvir que havia mortos e muitos outros com ferimentos graves. Saber da morte do castelhano Claudio Milar foi, quem sabe, uma das informações mais inaceitáveis que já ouvi. Ainda não é possível acreditar naquilo tudo.

A história todos sabem: o Xavante voltava de um amistoso preparatório para o Gauchão daquele ano. Havia enfrentado horas mais cedo o Santa Cruz, no Vale do Sol. O time de Pelotas vencera aquele confronto pelo placar de 2 a 1. Claudio Milar, nesse jogo, marcou o seu 111º gol com a camisa rubro-negra. Ninguém cogitava a ideia de que seria o último.

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Imagem de Claudio Milar ao lado da padroeira, no estádio Bento Freitas.

Ao invés de falar do acidente, prefiro falar do nosso ídolo Milar.

Ele não se tornou ídolo por morrer num acidente. Esse uruguaio, natural de Chuí, havia marcado muitos gols, muito mais do que estávamos acostumados a ver, nos deu vitórias incríveis e dribles ao lado da grande área, além de gols olímpicos. Claudio Milar era a representação maior do índio Xavante. Era um de nós dentro do gramado. A cada gol marcado, o uruguaio vibrava e fazia a tradicional flechada enquanto milhares nas arquibancadas podiam soltar aquele grito de desabafo, de alegria. Milar proporcionou por 111 vezes ao seu torcedor a possibilidade de vibrar e comemorar como nunca, apesar de quaisquer problemas que existissem em casa, no trabalho ou na faculdade.

Milar, Milar, Milar!

Após a partida em que marcou o seu 100º gol com a camisa Xavante, contra o São José-POA, em 2008, Claudio Milar foi Claudio Milar (veja o vídeo abaixo): pulou a tela e foi à torcida, literalmente. Lá na arquibancada foi carregado por centenas de torcedores que gritavam o seu nome, o pediam na seleção uruguaia e que cantavam com orgulho “o Milar é o nosso rei”. Foi uma das cenas mais bonitas e espontâneas que já vi na Baixada. Digo espontânea porque o que mais vemos por aí são cenas teatrais, apenas armação. Diferente do uruguaio.

Após a comemoração junto ao seu torcedor, Milar subiu novamente à tela – já sem as famosas chuteiras; mas antes de ir saudou outra vez os índios que deliravam em meio a tambores, fanatismo e canções advindas dos sentimentos mais nobres e sinceros que o ser humano pode carregar. Imagem que arrepia.

Naquele acidente também perdemos o zagueiro Régis, pelotense, que tão boa dupla formou com o zagueiro Alex Martins. Ambos amigos, praticamente irmãos, e identificados com o clube da Baixada. A terceira e última vítima fatal foi Giovani Guimarães, também natural de Pelotas, que desempenhava a função de treinador de goleiros.

Após o acidente, o Brasil precisou seguir em frente. Disputou o campeonato gaúcho e inevitavelmente foi rebaixado. O time pelotense contou com muitos jogadores emprestados; a cada novo jogo uma nova formação. Não havia preparação física, tática e emocional. Para piorar, o time disputou muitas partidas num intervalo de tempo incrivelmente desleal. Salvo o engano, era uma partida a cada dois dias na primeira fase da competição.

A única vitória naquele campeonato veio no último jogo. Foi na Baixada, contra o Novo Hamburgo, e eu estava lá. Aquela placar magro de 1 a 0 não mudou absolutamente nada para a competição, mas para nós, Xavantes, aquele triunfo foi uma forma de nos despedirmos com honra. E regressaremos neste ano!

O dia 15 de janeiro de 2009 ainda é uma ferida exposta. Apesar disso, a torcida resolveu adotar a data para representar o orgulho Xavante. Nas ruas da cidade, e em qualquer lugar do planeta, haverá alguém vestindo a camisa rubro-negra. É a forma que a Xavantada encontrou para homenagear os seus guerreiros mortos em batalha.

OQUEDIAQUESUPERAMOS

Estarão sempre aqui, assim como a saudade.

“Milar! Milar! Milar!
Régis! Régis! Régis!
Giovani! Giovani! Giovani!”,

Pedro Henrique Costa Krüger | @pedrohckruger

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4 Respostas a A ferida ainda está exposta

  1. Pedrão, este ano subiremos e mais um pouco desta chaga vai se fechar, ainda que o vácuo deixado por eles jamais voltará a ser ocupado. Abração

  2. Alcemir diz:

    O Milar também jogou aqui em Santos pela Portuguesa Santista e também ficou na nossa memória!Parabéns pelo texto!
    Avante Xavante!!!

  3. Lendo este texto não pude deixar de lembrar de um momento marcante para nós, meu irmão. Éramos pequenos ainda, eu devia ter nove ou dez anos no máximo, quando, na baixada, avistamos o Milar assistindo ao jogo. Fizemos de tudo para ele nos ver, e ele viu. Segurando a cuia e a garrafa térmica com o chimarrão, ele nos cumprimentou de longe sorrindo. É uma das melhores memórias que tenho do castelhano.

  4. Mais um Grande Texto! Milar(principalmente),Régis e Giovani:Eternos…

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