Uma madrugada que encolheu os domingos

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Jamais em toda minha existência, e olha que lá se vão quase quatro décadas, desembolsei um centavo sequer por uma camisa de futebol que não fosse do Brasil. Trata-se de um hábito de consumo arraigado, meio obsessivo, que em certa medida já preocupava minha mina, torcedora não praticante do Pelotas – ops!, perdão pelo pleonasmo. Já inclusive me questionei se gosto mesmo de futebol ou apenas do Xavante, dado o uso linear do cartão de crédito.

Bem, consolidei o rompimento desta fixação hoje, quando a Net Shoes (Néti Xus em gauchês) deixou um pacote lá em casa. Dentro, havia este resplandecente manto da Celeste que meu filho Inácio, expondo um sorriso com déficit dentário, enverga com orgulho na foto desta página. Encomendei a colocação do nome Milar e o número 7 para materializar um sentimento que existe em cada coração rubro-negro que pulsa por aí. Para nós, não existe uruguaio maior do que ele, que há exatos quatro anos partia, deixando menores os domingos de um xavante.

***

– Fabrício, o Milar morreu!

Fui despertado no dia 15 de janeiro de 2009 com esta frase. Esfreguei os olhos enquanto tentava, em vão, digerir aquela informação. Coube à colega Paola Loewe, repórter de mancheia radicada lá no Rio de Janeiro, transmitir-me a notícia que meu velho, neste esforço inútil que os pais sempre fazem para poupar os filhos de sofrimento, havia me sonegado – mesmo tendo passado a madrugada inteira insone, a par das notícias que vinham de um perau de Canguçu. Saí da cama cambaleante. Trôpego, dei uns seis passos até o sofá, onde sentei imerso num vazio. Como seriam meus domingos daqui para frente?

Nunca dividi sequer uma cuia de chimarrão com Milar, tampouco travei conversa naquele português arrastado que ele falava. Mas o atacante uruguaio que tombava morto numa curva de Canguçu, a mesma onde sucumbiram o zagueiro Régis e o preparador de goleiros Giovani Guimarães, era um sujeito muito relevante para mim. E também para todos os cúmplices desta paixão quase nunca correspondida pelo Brasil de Pelotas. Hoje, quatro anos depois desta dor sem precedentes como torcedor, com a respiração ainda falha pelas lembranças, sou obrigado a agradecer ao castelhano pela dedicação ao clube que amo desde que me tenho por gente. A camisa aí da foto foi uma tentativa de agradecê-lo, embora isto seja definitivamente impossível.

Vou desfilar com ela logo logo, peito estufado, lá na Avenida Paulista. Se um desavisado tiver a displicência de me perguntar quem foi Milar, direi, sem hesitação: foi um cara que, por acreditar no imponderável, personificou a alma xavante na relva da Baixada.

Sinto-me ainda emocionalmente machucado não somente pelas três jovens vidas que se perderam, o que já seria suficientemente doloroso, mas por um valor que também morreu naquele acidente. Tenho em mim que a obra é sempre mais importante que o autor. E a obra de Claudio Milar foi mostrar a possibilidade de amar e ser amado numa relação que, em última instância, era profissional.

Obrigado, Uruguay, por ter nos dado Milar.

Foi breve, mas o suficiente para ser eterno.

Fabrício Cardoso (@fabriciocardos0)

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20 Respostas a Uma madrugada que encolheu os domingos

  1. Pablo Costa diz:

    Muito emocionante essa linda dedicatória ao nosso ídolo e acima de tudo nosso herói xavante.

  2. Excelente texto! Alagoano, o meu primeiro estádio aqui no Rio Grande do Sul foi o Bento Freitas, levado por um amigo fanático xavante – o que também é um pleonasmo. A recepção da torcida é incrível e imagino o que pode ter sido o 15 de janeiro de 2009 ouvindo o que o meu amigo fala e após ler um livro sobre o assunto. Ano passado acabei escrevendo sobre o livro e não faltaram comentários apaixonados sobre o assunto (http://terrainteressados.blogspot.com.br/2012/01/15-de-janeiro-noite-que-nunca-acabou-e.html). Virei um admirador xavante mesmo para os dias que não estiver no RS.

  3. arbo diz:

    bela homenagem

  4. pedrohckruger diz:

    Muito bom, Fabrício.

    Já desfilei com a minha camisa Xavante e, assim como eu, vi vários outros pela rua.

    Abraço!

  5. Solismar Cardoso diz:

    Filho

    Sempre falas que tu herdou de mim esta paixão pelo xavante e eu penso também que sim, porém, acho que tu exagerou na dose. Este “exagero” só tem condições de explicar aquele que é torcedor do Brasil de Pelotas e já sentiu o que é estar no estádio, no meio daquela torcida. Estas lembranças, apesar de doídas, são boas para podermos reverenciar nosso ídolo Milar.
    Quanto a camisa, além de bonita, está sendo valorizada pelo rapaz que está vestindo e é muito bonito. Puxou ao avô paterno.
    Um forte abraço

  6. Aroldo Garcia diz:

    Quatro anos se passaram, e hoje leio e escrevo esta resposta exatamente no local que eu estava ao receber a notícia do acidente, na casa de minha família em Pelotas. Para um xavante de coração, é impossível não se emocionar a cada ano nesta data.

  7. Senhores, digo, emocionado, que o Solismar do comentário 5 é o meu pai.
    Consegui num só texto unir meu pai e meu filho, três gerações de xavantes, o que mostra que amores singelos como os nossos, nutridos aqui no Toda Cancha, estão longe de acabar.
    Abraço a todos e obrigado pela leitura
    Fabrício

  8. Fabrício,meus parabéns.Tu conseguistes mostrar o que foi a Madrugada que para muitos Xavantes não acabou,e ainda mostrou que Milar,realmente,virou uma Lenda.Assim como Getúlio Vargas,”Saiu da Vida para entrar na História”.Só que ao contrário deste,na história do Futebol Platino e do Brasil de Pelotas,personficando o sentimento e o Coração Rubro-Negro.

    Aliás,parabéns pelo Guri.Tens que me emprestar esse Manto Celeste um dia desses…

  9. Pablo Vieira Sant'Anna diz:

    Milar eterno!

    Lembro com tristeza desse fato. Sempre admirei o xavante desde pequeno, das travessuras que o rubro negro aprontava pra cima do tricolor de Porto Alegre e por ai vai. Craque pode aquele cara que decide, faz de tudo. E Milar pode ter sido isso pra torcida, mas com certeza não é fácil ser um grande jogador como ele fora, e dependendo dos corações xavantes, pra sempre será.

  10. Filipe Gonçalves diz:

    Parabéns, mais uma vez, pelo belo texto, Fabrício!

    A dor é grande, mesmo após 4 anos, mas isso há de nos tornar mais fortes!

  11. Eduardo Lorea diz:

    Fabricião, obrigado.

  12. Xavante diz:

    Excepcional texto.

  13. Adriano diz:

    Parece que foi ontem que conversava com o castelhano nas arquibancadas do BF nos dias de treino.

    Ferida que nunca vai cicatrizar.

    Obrigado por todas as alegrias, eternos guerreiros!

  14. Rapaziada da Página do Milar no Feicebúqui, muito obrigado pelo enlace.
    Vi o pessoal se emocionando e acho que dividir esta dor, de alguma forma, nos conforta.
    Abração a todos
    Fabrício

  15. Ricardo diz:

    Belíssimo texto. Enquanto o lia fiquei pensando em como o GEB precisa da sua torcida. O clube teve viradas para si as costas de muitos que lhe poderiam ter ajudado na hora que mais precisou e não o fizeram. Tanto melhor porque, assim, nada e a ninguém devemos e podemos continuar a nossa caminhada de cabeça erguida e conhecendo de véspera o nosso inconfundível oásis de seguro descanso: o coração do torcedor Xavante.

  16. Parece que foi ontem e ainda corre um arrepio na alma só de lembrar a maneira como Cláudio Milar, Régis e Geovani partiram. De alento, apenas a lembrança da garra e da dedicação acima da média com que estes guerreiros defenderam o G. E. Brasil até seus instantes derradeiros. Cada vez que lemos textos escritos sobre suas histórias temos mais consciência do quanto significaram para o Rubro Negro da Princesa do Sul. Isto tem um preço muito alto: saudade.

  17. fabricio,fiquei tão emocionada,como no dia do acidente,e percebi que a ferida continua aberta>MILAR foi e será sempre eterno,é como eu tivise perdido um irmão de sangue ou mais que isso, um grande amigo que sempre quando ganhava um presente (gol) fazia questão de dividir com os amigos(torcida xavante).

    Parabéns pelo lindo texto,Milar será lembrado pelo resto de nossas vidas ……………….abraços.

  18. Mirela Barboza Cardoso diz:

    Sabe do que realmente me lembro quando leio o Toda Cancha? Das tuas narrações da partida de futebol imaginária que travavas ferozmente entre os dedos indicador e médio das tuas duas mãos! Lembro que, quando éramos crianças, tu acalentavas esse sonho e esse espaço é um pouco a satisfação dos teus planos de guri. Não concordo com todas as tuas ideias (sobretudo a do “rolézinho” da xavantada no shopping Beira Rio!), mas creio ser inestimável tua contribuição para a valorização do futebol do interior!
    Dito isso, acerca do texto, penso que até em sua última morada Milar te prestou homenagens, pois veio a descansar nas curvas do velho Canguçú de nossos pais.
    Como sabes, não sou Xavante. Quis o destino que me achasse Colorada, dos “quatro costados”, mas me orgulho de pertencer a uma família com tantos e tão fiéis torcedores dessa potência da Princesa do Sul!
    Quanto a meu garboso e amado tio, com certeza a beleza e simpatia dos três é DNA puro, se bem que se trouxeres pra cá uma foto dele em seus tempos de garoto, estou certa de que muitos corações irão suspirar por ele!!
    Por fim, espero, assim como acredito todos os teus leitores, o teu livro de crônicas! Deleite garantido para aqueles que apreciam um bom texto e uma mente afiada e bem humorada como a tua, querido primo!
    Beijo rubro pra ti!

  19. Finalmente estamos de volta à Primeira Divisão. Desta vez, a grande companheira é a saudade e fazer uma boa campanha é o mínimo para homenagear aqueles que se foram. Quanto de promessas não cumpridas? Quanto de descaso das autoridades em acidentes como estes? Quanto de desvio em verbas que, se bem aplicadas, evitariam dezenas de novas tragédias? Cinco anos após, chegaram a alguma conclusão quanto aos responsáveis pela perda dessas vidas? E aqueles “adversários” que estupidamente, zombam de tamanha desgraça? Estas indagações reforçam nossa pequenez, mas nos põem em alerta. Quem será o próximo?

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