A resistência Farrapa – Parte 2

Continuando a série de textos que corresponde à minha apresentação como representante do Farroupilha no Toda Cancha. O primeiro narrou os fatos relevantes do clube acontecidos no período entre anos 90 até o vice-campeonato da Divisão de Acesso de 2004. A seguir, apresento as nossas andanças pelo Gauchão série A que foram, infelizmente, breves…

2005 e 2006: Passeio Pela Elite

A diretoria fez um milagre e conseguiu montar, sabe-se lá como, um grupo aceitável para o padrão do Campeonato Gaúcho tendo como destaque o matador Vanderlei, artilheiro do Acesso no ano anterior pelo Inter-SM que depois do Farrapo acabou indo parar no Atlético mineiro. O técnico sim, foi uma aposta: Luiz Eduardo, ex-zagueiro do Grêmio. O primeiro desafio era conseguir ganhar ao menos uma partida visto que a corneta foi grande em cima do E.C. Pelotas no ano anterior, devido ao rebaixamento com o recorde de zero vitórias!

A estreia foi no dia 30 de janeiro contra o Internacional, no Nicolau Fico em um dia histórico para torcida tricolor. Muita expectativa, estádio extrapolando a capacidade e um adversário cuja a base que se apresentou aquele dia viria a ser campeã do mundo no ano seguinte. Driblando o favoritismo rival, Vanderlei é o primeiro a balançar as redes do Nicolau na série A. Explosão na arquibancada!! Era inacreditável o que se via naquela tarde no Fragata! No segundo tempo, Vanderlei amplia o placar, mas o gol é anulado por impedimento duvidoso marcado pelo auxiliar. O time ainda resiste à pressão colorada boa parte do jogo mas, infelizmente, acaba cedendo o empate aos 36 minutos da etapa final: gol do fraco lateral Galego, mais um que não se firmou na capital e vive pulando de galho em galho pelos times do interior. Em todos os casos, foi uma estreia acima das expectativas.

Dando a entender que a empolgação do primeiro jogo prejudicou, a sonhada primeira vitória veio só lá na quinta rodada, após a inevitável troca de técnico. Fora de casa contra o Novo Hamburgo e jogando com dois a menos: nada melhor que uma dose de heroísmo no triunfo que nos livrou da corneta sofrida pelos áureo-cerúleos! Depois disso, o time dá uma embalada e fica a um ponto da classificação para os quadrangulares, tendo desperdiçado uma vitória em casa contra o Santa Cruz onde, mais uma vez, Leandro Guerreiro perde um pênalti!

O rebaixamento era decidido em uma esdrúxula copa criada pela FGF – a Emídio Perondi, onde participariam apenas os não classificados para as fases finais. Para esta competição, uma contratação bombástica: o veterano Palhinha, campeão do mundo pelo São Paulo e da Libertadores pelo Cruzeiro. Nosso tricolor faz uma campanha regular e fica em quarto, o suficiente para evitar o descenso.

Uma “ISL” no Fragata

Mas foi na virada de semestre de 2005 que ocorreu o fato motivador da guinada na trajetória do Farroupilha. Foi anunciada uma parceria com uma instituição financeira para investimento em contratações. Uma experiência que vários clubes grandes do país já passaram e em todos, sem exceção, a coisa não deu certo e o clube ficou abalado. Impossível não lembrar da ISL que afundou o Grêmio de Porto Alegre deixando sequelas até pouco tempo atrás.

Como é de se esperar nesse tipo de parceria, no inicio, tudo são flores. Uma espécie de seleção do interior é apresentada no Nicolau Fico para a disputa da Copa FGF a começar pelo técnico Bagé, conhecido por proezas como vencer o Inter no Beira-rio no comando do Glória de Vacaria. Nomes de destaque: Adir goleiro do Cianorte-PR com passagem pela Europa e conhecido nacionalmente por uma Copa do Brasil contra o Corinthians; Diógenes, um camisa 10 de ótimo futebol vindo do São José de Cachoeira; Rodrigo Gasolina e Pansera, ex-jogadores de base do Grêmio que atuaram em vários times do interior; Marcelo Muller, este particularmente o melhor jogador que eu vi atuar com a camisa do Farroupilha, estava na campanha surpreendente do 15 de Novembro pela Copa do Brasil de 2004; Éder Lázari, “craque” do Caxias que reforçou mais o Departamento Médico.

Os resultados na Copa FGF foram muito bons com direito a vitórias contra os dois rivais da cidade. O Grêmio Atlético Farroupilha era o melhor time da zona sul naquele momento. Injustamente, acaba sendo eliminado pela regra do gol qualificado após dois empates contra a Ulbra na semifinal do torneio – 2×2 em casa e 1×1 em Canoas. A questão do final de ano era se aquela “seleção” iria se manter para 2006, visto que o assédio dos clubes endinheirados seria bem maior para o Gauchão. Mas surpreendentemente, é mantido 90% do grupo e reforços são adquiridos.

Despedida do Olímpico

O Gauchão 2006 começa complicado com uma campanha irregular sem vitórias nos jogos de ida da primeira fase. A tabela “espelho” previa duas batalhas contra o Grêmio, que até então tinha 100% de aproveitamento, na virada de turno. A primeira no Nicolau Fico foi de domínio total do Farrapo com direito a bola na trave mas ficou no 0x0. A volta no Olímpico três dias depois foi o momento de maior glória da história recente do nosso tricolor. Após um início horroroso e cheio de falhas com o Grêmio errando muitos gols e fazendo apenas um, Rodrigo Gasolina busca o empate no final do primeiro tempo. No segundo tempo morno, aos 45 minutos numa bola cruzada, Luis André cabeceia fraco e o então inexperiente Marcelo Grohe aceita. Primeira vitória no campeonato. Histórico! O tricolor da capital honra a freguesia adquirida desde 1935!

Esta imagem no Facebook dos torcedores do Pelotas esse ano, comparando as despedidas do Olímpico da dupla Bra-Pel onde o lobo venceu e o Brasil foi goleado. Esqueceram de mencionar que o Fantasma do Fragata deixou sua marca, assombrando os porto-alegrenses na sua última e histórica partida no estádio da Azenha.

A queda

A classificação para as fases finais do Gauchão, que consequentemente livrava o time de forma precoce da disputa da copa do rebaixamento, novamente ficou por um triz: perdida apenas por ter uma vitória a menos que o Veranópolis, que avançou com o mesmo número de pontos. Pois foi na disputa da infame Emídio Perondi que a parceria financeira começou a ruir, num BAQUE que se reflete até hoje nos cofres do clube. A campanha foi irregular até a última rodada contra o Esportivo, onde um empate garantiria o Farroupilha na elite rio-grandense de 2007. De forma irresponsável e antiprofissional, o técnico Bagé acerta com o Pelotas dois dias antes (!) da decisão e é substituído por Géverton Duarte que comandou a campanha razoável do Gauchão anterior.

O jogo foi muito tenso, sem grandes chances no primeiro tempo. Aos oito minutos do segundo, pênalti pro Esportivo convertido por Fabrício. O gol deixou apreensiva a torcida que aproveitou o preço promocional de ingressos para lotar o estádio a fim de ajudar o Farrapo a escapar da degola. Mas aos 38 minutos do segundo tempo o árbitro aponta falta dentro da área do Esportivo. Pênalti! Eu me recuso a assistir a cobrança: entro para parte interna das arquibancadas do Nicolau Fico e fico esperando o sinal. Silêncio absoluto! Era tanto nervosismo que sentia-se no ar! Apito do juiz! Gritaria! Festa! Gol! Manga marca o gol da tranquilidade. 5 minutos nos separavam do Gauchão 2007…. incrivelmente o pior aconteceu: aos 45 minutos, a zaga bobeia e o Esportivo chega ao gol. Inacreditável! A torcida que festejava na hora, silenciou em um instante: “OOOOOH”! Não conheço toda a história mas não é arriscado dizer que foi o jogo mais triste de todos os tempos do General Nicolau Fico.

Nem preciso comentar que a “parceria” foi desfeita e ficaram os contratos assinados, no nome do clube, com salários fora da realidade financeira de qualquer agremiação da Segundona Gaúcha. Intermináveis processos por dívidas trabalhistas correm até hoje, 2012, onerando o clube e fazendo com que o mesmo tenha que arcar com uma folha de pagamento extra a cada mês. Uma situação quase insustentável. Surpreende o clube ainda não ter fechado e este é o motivo da admiração que eu tenho pelo presidente Ewaldo Poeta, ao contrário de muitos que o criticam sem ter ideia da situação que o clube atravessa (eu também não faço ideia do que ocorre de fato lá dentro. Apenas sei desse abalo nas finanças, coisa que qualquer um que lembre da época deveria deduzir).

2007 a 2010

Os anos seguintes podem se considerar completamente perdidos. A participação na Divisão de Acesso acontece meramente para evitar algum tipo de punição por parte da Federação – se não me engano, o clube que desiste é proibido de participar das próximas duas temporadas. Copa de segundo semestre? Nem pensar! E eu sou obrigado a concordar com essa política, devido às circunstâncias. 2007 para mim foi o pior time que já vi vestir a camisa tricolor. Que ironia: um ano depois de vencer o Grêmio no Olímpico, ficamos de lanterna na Segundona! Em uma conversa no Nicolau Fico um torcedor falou uma frase que ficou marcada para mim: “Crescemos tão rápido que acabamos explodindo”. Em 2008 o técnico Alberi Rodrigues consegue um bom trabalho na base da motivação, com direito a uma batalha em Santa Cruz contra o Avenida, e o time chega com chance de classificação ao octogonal final até a última rodada mas acaba não avançando. A se destacar ainda o ano de 2010 no qual ocorreu uma vitória com várias reviravoltas no placar frente o Brasil, no clássico. Nessa temporada os dois times de Pelotas conseguiram a proeza de serem os únicos eliminados na primeira fase em um grupo onde de 8 equipes, classificavam-se 6.

Aí a FGF resolveu voltar com a Terceira Divisão e a coisa ficou séria…

Direto da Princesa do Sul,

Marcos Ceron

Publicado em Farroupilha com as tags , , , , , , , , . ligação permanente.

Um comentário em A resistência Farrapa – Parte 2

  1. Tirando a parte da nossa suposta Freguesia,a Parte 2 correspondeu minhas exectativas:Muito boa.Volta pra Elite,Fantasma!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *