A resistência Farrapa – Parte 3

Último texto da minha série de apresentação como cancheiro do Tricolor do Fragata. Após a queda e o abalo insustentável nas finanças com o fim da parceira, a Divisão de Acesso era disputada apenas para evitar a punição da FGF. Até que os abnegados dirigentes desta honrada instituição decretaram a volta da terceira divisão e preteou o olho da gateada…

2011

Há várias especulações nada confirmadas sobre os motivos da volta da terceirona. Uma delas, da qual não duvido, diz que como é proibido times de segunda divisão estadual disputarem campeonatos nacionais e o Brasil estando na série C do Campeonato Brasileiro, decidiram “maquiar” nossa Divisão de Acesso chamando-a de “Série A2” e criar uma nova divisão para ser, em teoria, a Série B. Tanto que ela é chamada de “Segundona Gaúcha” mesmo sendo a terceira divisão de fato (!?). Uma confusão! Mas que encontra precedentes no estado de São Paulo.

Para um clube que nas últimas 4 edições do campeonato ficou na lanterna da primeira fase em 3, a possibilidade de rebaixamento apavorava! Mais uma vez a direção superou as dificuldades – e eram muitas, visto que o rombo de 2006 ainda estava bem vivo – e conseguiu montar um time decente. Para técnico a primeira tentativa foi Bebeto Rosa, o mesmo do acesso em 2004. Bebeto logo foi demitido após alguns insucessos e foi a vez de apostar: o ex jogador e ídolo xavante Luizinho Vieira foi contratado como treinador do Farrapo.

O regulamento previa: 7 times no grupo, 4 classificados e 2 rebaixados. Como já citado, o histórico recente motivava preocupação com o pior. Sem medo de ser alarmante demais, não sei se o clube sobreviveria a uma nova queda para terceira divisão. E o primeiro sinal de que a pegada não era fácil pro Farroupilha vem logo na estreia: o time é goleado por 6×0 pelo São Paulo em Rio Grande. A troca de técnico na virada do turno e o surgimento de uma promessa de craque, o Juninho, dão um ânimo para equipe que nas duas últimas rodadas arrasa o Rio Grande em casa e consegue uma excelente vitória sobre o 14 de Julho de virada em Livramento. Com um número ímpar de times formando o grupo, o azar de ser o que folgava na última rodada coube ao Tricolor do Fragata. Mas o alívio veio ainda na penúltima rodada, um dia depois da sensacional vitória na fronteira. No clássico Ba-Gua, o Bagé já rebaixado e sem nenhuma vitória até então no campeonato, vence de forma heroica seu rival e o leva junto para a terceira divisão! Dever cumprido! Do Acesso pelo menos a gente não sai! Ficando em quarto, o tricolor entra na segunda fase, onde termina como lanterna em um quadrangular e dá adeus ao torneio. Mas a sensação que ficou foi a de objetivo alcançado.

2012: Traído pelo fogo “amigo”

O bom trabalho de Luizinho e Juninho chamaram atenção da diretoria do Brasil, que os levaram para o Bento Freitas ainda no segundo semestre de 2011. Para o Farroupilha, no ano seguinte, uma nova aposta para casamata: Badico, o Romário dos pampas. Um destaque da temporada para mim foi o excelente uniforme feito pela Panthus Sport que, depois de anos de mesmice, conseguiu aliar modernidade com o tradicional “layout” tricolor.

A fórmula da Divisão de Acesso: dois grupos de 10 classificando-se os 6 melhores para formarem, após um sorteio, os grupos da semifinal. A partir daí, avançariam os dois melhores de cada chave para o quadrangular final. Os 3 últimos colocados de cada grupo na primeira fase caíam para a série C. O time formado é muito raçudo e joga um futebol bem razoável. Arrisco dizer que é o melhor time desde a época da série A. Apesar disso, na primeira fase, praticamente repete-se a história de 2011: um começo irregular e a equipe engrenando do meio pro final. A vitória que garante o alívio da permanência no Acesso vem em casa, contra o Rio Grande, na penúltima rodada. Na última rodada, já classificado pelos resultados paralelos, o time toma 3×0 do Brasil no Bento Freitas mesmo defendendo dois pênaltis – um deles pego no último minuto pelo zagueiro Heberson após uma lambança na área que gerou a justa expulsão do goleiro Fernando.

É na segunda fase que acontecem fatos lamentáveis. Não bastasse os problemas financeiros proporcionados por uma “parceria” só das horas boas, o Farroupilha ainda tem que lidar com TRAIÇÃO de pessoas pertencentes aos quadros internos do clube. O azar para o tricolor começa no sorteio: entra no grupo do Esportivo que foi arrasador durante todo o Campeonato vindo a ter a liderança em todos os grupos que participou. Na prática, existia apenas uma vaga para ser disputada com as outras 4 equipes: Guarany-CA, Glória, Santo Ângelo e Inter-SM. O desempenho do time é muito satisfatório: vence o Glória na estreia, sofre uma derrota previsível para o Esportivo na serra e ganha de Santo Ângelo e Inter-SM em casa na sequencia.

O dois jogos do meio da tabela espelho foram contra o ex amador Guarany de Camaquã que é um caso a ser estudado: em todas as partidas no seu estádio Coronel Silvio Luiz é marcado, NO MÍNIMO, um pênalti para o bugre local. A empolgação tricolor era tamanha, naquele momento, que são disponibilizados dois ônibus para torcedores acompanharem o jogo no peculiar horário das 11h da manhã na metrópole camaquense. Excursões desse tipo não aconteciam – posso estar enganado (!) – desde 2006. O árbitro Francisco Silva Neto não só mantém como extrapola a tradição e marca logo dois pênaltis para o Guarany. O Farroupilha tenta reagir mas acaba sofrendo a derrota. Uma semana depois, em casa, o tricolor não consegue dar o troco e fica no 0x0.

Uma verdadeira batalha é vencida heroicamente em Santo Ângelo com todos os elementos clássicos de uma Segundona Gaúcha: chuva, barro, expulsões e milagres do goleiro Fernando. Esse jogo deu a quase certeza de classificação que deveria ser confirmada com 3 pontos nos próximos 6 disputados nas duas últimas rodadas: Esportivo em Pelotas e Glória fora. Um público surpreendente no Nicolau Fico para uma quarta-feira à tarde vê o Farrapo ser goleado pelo Esportivo, algo que não deve ser lamentado. A decisão ficou para a última partida em Vacaria, contra um adversário já sem nada a fazer na competição.

Os fatos estranhos da decisão começam já na viagem: o atleta Evandro Rodrigues simplesmente não aparece na hora marcada para saída sem dar maiores satisfações. Um acontecimento que deixa o técnico Badico enfurecido. No jogo, o ex ídolo xavante e político frustrado nas horas vagas Alex Martins é expulso de forma inexplicável aos 15 minutos do PRIMEIRO tempo (!). O Farroupilha com um a menos vê o Glória, do decadente técnico Bagé, turbinado pela mala branca jogar sozinho: 5×0.

Mala branca, o pagamento para vencer, não me incomoda. A indignação vem pelo fato de pessoas de dentro do clube, que se propagandeiam como a “alternativa” ao marasmo administrativo bancarem a classificação de um adversário. Se fizeram por dinheiro, é isso que será nosso futuro? Se fizeram por “picuinha”, para ferrar com o outro lado político do clube, como confiar em uma administração capaz desse tipo de coisa? E os jogadores? Será que todos se venderam?? Apenas dúvidas que teimam em martelar… Parafraseando Jânio Quadros, “forças terríveis” nos tiraram do quadrangular decisivo.

Como dizem os ditados, “aqui se faz, aqui se paga” e “a vingança é um prato que se come frio”… O Guarany de Camaquã avança sem merecer e dá trabalho no quadrangular final. Porém o Esportivo, campeão por antecipação, perde a última rodada para o Passo Fundo em seus domínios e torna inútil a vitória bugre contra o União em Frederico Westphalen, frustrando as pretensões camaquenses. E o que acontece? O pessoal de Camaquã se mostra indignadíssimo com a presença de fatores externos determinando resultados no futebol: “A conseqüência de ter vencido o jogo e não ter conquistado a vaga para a primeira divisão, não merece nem ser comentada aqui, pois todos que acompanharam os jogos deste domingo puderam tirar suas próprias conclusões.” Palavras do site oficial do clube, na resenha da última rodada. HAHAHAHAHAHAHAHA! Música para meus ouvidos (olhos)! Como foi bom ver isso acontecer! Se o Guarany quer seu lugar na elite, que trabalhe e faça por merecer, coisa que não aconteceu em 2012…

Conclusões

Toda essa história acabou por me deixar com pensamentos contrários à maioria da torcida passional que só quer vitória a todo custo. Segue um resumo do que eu penso sobre as pretensões tricolores no futuro próximo:

– Mantendo na série B tá ótimo: só comecei a cogitar a volta ao Gauchão em 2012, com a boa campanha, mas não me iludo. O Farroupilha permanecendo no Acesso até a completa reestruturação financeira está de bom tamanho.

– Copa FGF ou entra para ser campeão ou nem joga. Concordo com a política da diretoria: jogar a copa do segundo semestre só para onerar o clube e criar a falsa ilusão de “calendário completo” é desnecessário. Que o tricolor se inscreva na copinha quando tiver condições de lutar pelo título ou, pelo menos, avaliar que a participação possa render lucros.

– Apoio total ao presidente Ewaldo Poeta: para mim é o cara responsável pelo nosso clube ainda estar vivo, apesar dos MUITOS pesares.

Expectativas para 2013

Já temos novidade para o ano que vem no comando técnico: a volta do Luizinho Vieira. Aprovo a contratação. Apesar de sair queimado do Bento Freitas, a exemplo dos ídolos colorados incinerados no vestiário do Beira-rio, já deu mostras em 2011 que é capaz de atingir os objetivos traçados no Nicolau Fico. A preocupação vem pelo fato de que naquele ano o time só começou a melhorar depois do surgimento do Juninho mas como ainda não foi contratado nenhum jogador, só nos resta esperar.

Não tinha adversário melhor para iniciar a campanha de 2013! Apesar de ser um torcedor bem humilde, espero uma sonora goleada na estreia para mandar o Guarany para o seu lugar e lavar a alma das injustiças sofridas esse ano.

Se em 2004 o acesso à série A veio depois de uma eliminação precoce por fatores externos um ano antes, quem sabe a história não se repete em 2013… Por que não!?

Do cancheiro Farrapo,
Marcos Ceron

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2 Respostas a A resistência Farrapa – Parte 3

  1. Acabou uma ótima Série de Textos.Volta,Farroupilha!

  2. Sancho diz:

    Sou do tempo que havia a Divisão Especial, a Divisão de Acesso e a PRIMEIRA DIVISÃO (que todo mundo chamava de Segundona, mas era a Terceira).

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