Das injustiças do futebol

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E, três milhões de semanas depois, finalmente ressurgiu o COSTELÃO, esse campeonato lindo que os coxinhas desprezam e nós, amantes do futebol de verdade, damos um DEDO para que nunca acabe. Não bastasse meu time estrear fora de casa, a FGF ainda deu uma grande mãozinha marcando a partida para as 21h de sábado, aquele belo horário em que todos já estão a um passo da EBRIEDADE e sumariamente cagando para qualquer lugar em que dê para se enxergar dois passos à frente. Menos nós (ainda que a iluminação do Jaconi não seja muito melhor que as de casas noturnas).

Tudo tinha clima de EPOPÉIA. Recém chegado de Porto Alegre a Lajeado, mal tive tempo de almoçar e já fui obrigado a me mandar pra Caxias no ônibus de linha das 14h15, quase SETE HORAS antes de rolar o porongo. E, pior de tudo, sem a menor idéia de como voltar, já que o próximo ônibus de volta só saíria as SEIS DA MANHÃ e, apesar da falta da tradicional NEBLINA, minha ALMA já congelava. As rodoviárias não nos entendem. Depois de quinze dias dentro de um Planalto que teimava parar em TODAS as cidades até a CAPITAL DO CHOQUE ELÉTRICO,  cheguei quatro horas antes da partida ao Jaconi, junto com meia dúzia de funcionários.

Ainda borrado pelo frio, pela possível pernoite na rodoviária e pela ausência de Fruki batizada em um raio de 1km, me ESCALEI na portaria pra evitar qualquer problema com a bateria da Mancha Verde que fazia meus tímpanos pedirem arrego. Boa escolha. É nos portões de um estádio fechado que se conhece o mundo, trocando informações sobre vícios ilegais de treinadores, antipatias por zagueiros e falta de qualidade de atacantes. Não bastasse o Jaconi ser um dos últimos bastiões dos estádios de FUTEBOL lindos, sonho de consumo pra todo mundo que prefere ver sua camisa em campo do que em desfiles de moda ou enchendo o bolso de megaempreiteiros, é inegável que tem, também, os melhores funcionários. Grandes pessoas.

Finalmente abertos os portões, e após ser ESTUPRADO em 30 pilas para adentrar o recinto, começa a bater a real: não há ninguém no estádio. Com o tempo, foram chegando alguns alviverdes, a diretoria dos dois clubes, umas pessoas perdidas. Até o prefeito de Lajeado, Luis Fernando Schmidt, lá estava, mostrando mais VONTADE em 20 dias de governo do que a sua antecessora em 8 anos, que não se prestou a ir nem na INAUGURAÇÃO DO NOVO ESTÁDIO. A bandeira amarrada ao alambrado, as cornetas tocando músicas sem nenhum sentido, o frio congelante da neblina do Jaconi (que embora não estivesse presente, estava presente), e eu ali, rezando para JORJÃO para, pelo menos, não sermos trucidados.

No fim, chegaram os demais lajeadenses – os mesmos de sempre, o que é muito bom, elevando nossa torcida a SEIS pessoas (chupa, Eduarda Streb, solitária é tu), o suficiente para passar a acreditar em um MILAGRE. Entregue a placa do centenário do Juventude a Flávio Campos, rolava a bola. E nada podia dar mais errado.

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O primeiro tempo foi um show de horrores alviazul. Enquanto Rudiero e Micael eram as únicas pessoas minimamente SENSATAS em campo, carregando o time nas costas, Eduardo Martini dava um jeito de salvar a esquadra teutônica de formas cada vez mais milagrosas. Enquanto isso, os comandados de Lisca pareciam ressurgidos do PÓ, armando triangulações, infiltrações e cruzamentos cada vez mais perigosos. A cada toque na bola de Maurício e Rogerinho, minhas últimas veias congeladas se fechavam. Metade dos atletas lajeadenses não foi vista em campo, e os que eram notados, como o lateral-direito Márcio Gabriel, o eram apenas para INSTAURAR O PÂNICO com seus botes errados, suas corridas perdidas e sua marcação estupidamente falha, sem contar o seu ataque inexistente. Um terror. Mas, mesmo com uma posse de bola de cerca de 540% a 0, o jogo inexplicavelmente ia pro intervalo com o placar zerado.

No segundo tempo, para bater e cuspir em nossas caras, Flávio Campos ainda substitui Rudiero, O MESSI DE RONDINHA, justificando a ATROCIDADE com o cartão amarelo levado pelo volante na primeira etapa. Na tática do MORDE-E-ASSOPRA, porém, também ingressou EL DIABLO MAYCON, no lugar de um machucado Rafael Aidar, não deixando que nossas esperanças virassem ESTALACTITES.

E, surpreendentemente, o jogo ficou menos BOLADO. Pelo resultado em campo, rezo todo dia em agradecimento por não ter visto Flávio Campos no vestiário do Lajeadense no intervalo da partida. Após o esporro, o alviazul já conseguia segurar a bola por mais de SEIS SEGUNDOS e os jogadores pareciam ter finalmente acordado de um PORRE HOMÉRICO DE VINHO. No ataque, o endiabrado Maycon, de volta ao Lajeadense após trocentas lesões e viagens pelas Arábias, já conseguia causar um mínimo de PERIGO a meta defendida por Fernando Miguel, nosso eterno amigo. Tudo continuava ruim, mas já estava melhor. Menos Márcio Gabriel, claro, que continuava a afundar a barca.

Enquanto isso, os esmeraldinos seguiam MARTELANDO, principalmente por parte do lateral-direito Murilo, de grande atuação, empilhando uma finalização atrás da outra e um pedido de pênalti atrás do outro, destroçando nossos corações a cada grito de “UHH!”. Até gol aconteceu, de Gilmar, anulado a tempo de salvar nossas vidas. O clima, claramente, era aquele de que, fizesse um, o Juventude empilharia uns QUINZE na meta lajeadense. E com razão. Só em escanteios, foram DEZOITO contra UM. Um massacre.

Mas, ainda bem, é futebol. Como disse Rodrigo Sivinski, um dos lajeadenses presentes, a graça do futebol é que eu posso montar um time merda e jogar contra um time bom, correndo o risco de ainda vencer. Num contra-ataque puxado sabe-se de onde, Jandson disputou a pelota no ar, Maycon mandou a bomba e, após a tradicional espalmada de Fernando (te conhecemos), Rennan Oliveira, que recém havia entrado e já melhorava e muito o sistema de criação FLOPISTA, tocou a bola pra dentro. Nenhum sentido. Em um jogo que deveríamos estar perdendo por uns SEIS A ZERO, saíamos na frente faltando apenas dez minutos pro fim.

juventudexlajeadense3Rogerinho em dia de ZULU

Óbvio, porém, que não nascemos para nos dar bem. A pressão esmeraldinha, que já era forte durante todo o jogo, chegou a níveis CATASTRÓFICOS. Em um dos três mil CORNERS seguidos, Gabriel tirou com a ponta do pé um chute de Alan, Martini fez milagre em um chute de REI ZULU e, após rebatida, Rogerinho mandou um FOGUETAÇO, um chute lindo indefensável que finalmente LA ROMPIÓ. Era o fim. Mas não o foi, pois as chances criadas pelo Juventude nos três minutos restantes foram todas desperdiçadas e, no fim, resistiu o empate. O resultado mais injusto da história do futebol gaúcho pelo que se viu em campo.

Em resumo, gastei metade do meu salário, fiquei até o início do jogo sem ter como voltar pra casa e congelei no frio serrano para ver meu time tomar um ARRODEÃO dos mais indignos. E, mesmo assim, ainda cheguei em casa VIVO (valeu, Sivinski!) – o que em certo ponto já não parecia uma opção – com um ponto inexplicável de lambuja que pode nos fazer toda a diferença lá por abril, e com a esperança de que em algum momento Rennan Oliveira e Maycon serão titulares e nos salvarão das trevas trazidas por Márcio Gabriel. Cheguei borrado e saí feliz. Que coisa linda é o futebol.

O Lajeadense agora tem dois jogos em casa para tirar a corda de nossas BOLAS, contra São Luiz e São José, enquanto o Juventude vai pegar a estrada rumo à Passo Fundo e Novo Hamburgo.

O vídeo da discórdia. Que tipo de gente fala “saltitou”, “animadão”?

Ficha técnica:

Juventude: Fernando; Murilo, Rafael Pereira, Diogo e Robinho (Alan); Fabrício, Jardel, Diogo Oliveira (Dedê) e Rogerinho; Maurício (Gilmar) e Zulu. Técnico: Lisca

Lajeadense: Eduardo Martini; Marcio Gabriel, Micael, Gabriel e Marcio Goiano; Rudiero (Reinaldo), Ramon Monteiro, Maico Gaúcho e Léo Franco (Rennan Oliveira); Rafael Aidar (Maycon) e Jandson. Técnico: Flávio Campos.

Gols: Rennan Oliveira (L), Rogerinho (J)

Arbitragem: Diego Almeida Real, José Eduardo Calza e Alduino Mocelin

As fotos são do valoroso Juan Barbosa.

Levando corneta até da RBS,
Guilherme Daroit

Publicado em Gauchão 2013, Juventude, Lajeadense com as tags , , , , , , , , , . ligação permanente.

16 Respostas a Das injustiças do futebol

  1. O Lajeadense devia ser proibido de fechar as portas novamente no segundo semestre. Se não pela bola, para não nos privar desse tipo de texto do Daroit :D

    Espetáculo, frukeño!

  2. Samuel diz:

    Belo texto. Só uma correção, o gol do Juventude anulado foi marcado pelo Gilmar, e não pelo Zulu.

  3. Daroit diz:

    Boa! BORRADO como estava, não vi nada, na real ghsdghsdghsd vou arrumar ali.

  4. Tenho minhas discordâncias políticas/sociais/mentais/morais com o Daroit, mas lendo um texto desse, só me resta um comentário a plenos pulmões:

    GÊNIO!

    #1

    Franco, concordo contigo. O time da cidade das pessoas DOLOSAS não deveria fechar as portas NUNCA. :D

  5. PapoJuve diz:

    BAITA TEXTO

  6. Mateus Frizzo diz:

    “(chupa, Eduarda Streb, solitária é tu)” e tantas outras pérolas. Grande texto.

  7. felipe diz:

    Excelente texto, se todas as pessoas comentassem assim, o que realmente aconteceu ao invés de puxar o tapete para o seu lado.
    gostei, virei fã seu agora

  8. Marcelo PAPO diz:

    Parabéns pelo texto! Muito bom mesmo.

  9. volmir fick diz:

    cara,tu é o cara,diga assim;”ESSE CARA SOU EU”…tivesse mais um q nem tu,meio caminho andado pra arrumar e empolgar esse torcedor tímido,sempre desconfiado…o Alvi Azul é bem maior q muita coisa aí…

  10. Zezinho diz:

    Com tanto elogio, o Daroit deixará de escrever no Toda Cancha porque virou querido e modinha

  11. Matheus Primieri diz:

    Baita texto, animado e saltitante cancheiro!

  12. Sancho diz:

    informações sobre vícios ilegais de treinadores… os comandados de Lisca pareciam ressurgidos do PÓ

    As duas frases têm uns três parágrafos de distância, mas impossível não fazer uma ligação. Eu, que sou ingênuo e tapado, sei de nada. Li demais?!

  13. Sancho diz:

    Quem foi o Camões que escreveu o texto do vídeo?! Pela mãe do guarda!

  14. Balejos diz:

    Esses dias um vivente tuitou que o problema de ler os artigos do Toda Cancha é acabar torcendo por todos os times. A isso acrescento: e acabar-se de tanto torcer.

    Baita texto, novamente.

  15. Rafael Medeiros diz:

    Tá lôco seu Daroit, muito bom mesmo. E pobre da Eduarda Streb, levou pau no twitter pelo Vargas e agora um esporro do Toda Cancha. Vai pedir pra sair :P

  16. Luiz Eduardo Kochhann diz:

    Texto animadão e saltitante, tal qual o amigo Daroit.

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