Façam o que quiserem

8399706734_61d7d962b4_b

E neste último final de semana começou o COSTELÃO 2013, com a presença do campeão da série A2 de 2012, o Clube Esportivo Bento Gonçalves. Como já é de costume, campeão e vice da divisão de acesso começam o campeonato jogando contra a dupla grenal, e ficou a cargo do Esportivo estrear em casa contra o Grêmio, que veio com seu time sub-12 para Bento Gonçalves. Como já era previsto pelos corneteiros das cadeiras sociais, os alviazuis conseguiram se borrar ante a um bando de guris que mal saíram das fraldas, mas ao redor disso tinha muita história acontecendo.

O meu maior objetivo da semana anterior ao jogo era levar o máximo possível de pessoas conhecidas ao estádio. Consegui levar um amigo, uma prima e o marido dela. Praticamente todas as negativas vinham acompanhadas de um mesmo discurso: “nem o time reserva do Grêmio é”. Com isso já dá pra contextualizar todo o negócio. A cidade não vive o Esportivo, isso já ficou bem explícito nas recepções CALOROSAS à dupla grenal quando os clubes da capital fazem pré-temporada na cidade.

Indo pro jogo eu descubro que o marido da minha prima simplesmente fundou uma lendária torcida organizada do Esportivo, a CAMORRA, da década de 90, que durou três jogos por não ter apoio da diretoria. A camisa dele, com o nome da organizada e milhares de escudos do Tivo espalhados pelo manto, chamou a atenção de diversos integrantes da atual única organizada do alviazul, a Fúria, que vieram bater um papo. A Fúria Alviazul foi fundada em 2004, junto ao título da Copa RS pelo Esportivo e a inauguração do Montanha dos Vinhedos. Hoje são uns 20 barulhentos torcedores que só conseguem sobreviver graças a integrantes vinculados à administração do clube.

Pouco antes do jogo começar minha atenção se voltou para o público. Como já esperava pelas desculpas de meus amigos, via pouco mais de duas mil pessoas no lado alviazul. Os espaços vazios na “arquibancada social” do Montanha dos Vinhedos saltavam aos olhos de quem estava no estádio, tínhamos a impressão de que a torcida do Grêmio era “maior” que a do Esportivo, mesmo não sendo em número.

Olhando para o campo estava lá a base do que fora o time campeão da série A2 do ano passado: Ediglê, Dirley e Rafael Bittencourt, esperanças para a torcida alviazul. Do lado gremista havia o titular Werley e o décimo-segundo jogador Leo Gago, que não puderam ir ao Equador e vieram enfrentar o Esportivo com o time C do Grêmio. Além dos dois medalhões, só piazada.

8398683171_0d5628b89d_b

O jogo começou morno, com os dois times nervosos pela estreia. Winck dispôs o Tivo em um 3-5-2 enquanto atacava e um 4-4-2 enquanto se defendia, Mabília foi de 4-2-3-1. Filipe Athirson, meio ala meio meia alviazul, vinha sendo o melhor em campo, fazendo as melhores jogadas de ataque do time da casa, até que aos 19 minutos teve a bola roubada de seus pés por Tinga, lateral direito dos porto-alegrenses, que a tocou para Lucas Coelho chutar para um belo pulo do arqueiro Fabiano, salvando, por hora, o pessoal da casa.

A segunda metade do primeiro tempo foi o melhor momento do jogo. O Esportivo estava muito bem do meio para a frente, aproveitando a total falta de entrosamento da defesa porto-alegrense, e os jovens gremistas perceberam a INEXISTÊNCIA do volanteado esportivense. A frente da zaga do time de Bento deixava tudo passar. Em um cruzamento sapeca do imparável Gillian, o zagueirão Dirley tocou de cabeça para as mãos do goleiro Busatto, quase abrindo o placar para o time da casa. O Grêmio chutava muito de fora da área, mas a precisão da gurizada não estava em seus melhores dias. Destaque para Leo Gago que conseguiu fazer a bola cair na LINHA ZEMITH. O primeiro tempo acabou bem movimentado, deixando os torcedores ansiosos para a segunda metade do jogo.

O som agudo ressoou das proximidades do árbitro novamente e os homens voltaram a pontapear a bola. A volta dos volantes do Esportivo, agora acordados, e a saída do zagueiro Werley, um estrangeiro ante o time sub-12 do Grêmio, tornaram o jogo tão morno, mas tão morno, que beirava o insuportável. Os times se neutralizaram, a ponto dos primeiro vinte minutos do segundo tempo se tornarem um verdadeiro remédio para a insônia de qualquer torcedor.

A única coisa que me impediu de pegar no sono foi a primeira substituição de Winck: o treinador alviazul tirou o já vermelho de cansaço Léo e colocou o VOLANTE Paulo Josué. 3-6-1, Winck encarnou o Roth. Nem preciso dizer que até o técnico por o atacante Diego Campos e recompor o antigo esquema o Tivo nem viu a cor da bola. Foram cinco minutos de puro CAOS tático e total domínio gremista. Foi só Campos entrar que o time já melhorou, com o próprio atacante levando perigo ao gol gremista. Mas depois disso os times se neutralizaram de novo e o marasmo voltou, até que o pior aconteceu.

Quando todos já estavam contentes com o zero a zero, em um lance aleatório, aos 36 minutos do segundo tempo, Leo Gago tocou a bola para Lucas Coelho, que deu um come em Ediglê e chutou a bola pra dentro das redes de Fabiano. Os visitantes abriam o placar O time do Tivo se perdeu totalmente com o primeiro gol e já não conseguia jogar, mal passando do meio de campo. Em uma cobrança de lateral na ponta direita de ataque do Grêmio, Lucas Coelho escorou de cabeça, a bola bateu no poste e voltou para os pés de Paulinho empurrá-la para as redes. A partir daí não existiu mais futebol.

8398897781_bcb887a260_b

Pouco antes do fim do jogo o locutor do estádio: anunciou: “Brigada Militar informa: a primeira torcida a sair será a torcida do Grêmio, após 15 minutos sairá a torcida do Esportivo”. Aquilo não fazia o mínimo sentido. A torcida perdedora e dona da casa teria que esperar a vencedora e visitante sair para enfim poder ir para casa. Tentamos sair antes do fim do jogo, mas os portões já estavam fechados. DOIS torcedores do Esportivo pressionaram a BM, enquanto uma multidão olhava. Tive que ouvir um “Não adianta reclamar”. Só nos restou esperar para sair do estádio.

Bento Gonçalves é uma cidade majoritariamente gremista, também é uma cidade onde mais de 50% da população se considera “classe-média”. Ir a um jogo do Esportivo só é justificável para a população como obrigação da elite para com seus companheiros de elite, dirigentes do clube, ou quando algum clube “maior” joga contra o Esportivo. A impressão que tínhamos quando o jogo terminou era de que estava tudo bem. O Esportivo perdeu, tudo bem. O clube não tem força nem para impor uma medida óbvia ante a BM, tudo bem. Tudo isso torna o Esportivo uma só coisa: FILIAL. Só faltou uma faixa na frente do Montanha dos Vinhedos com os seguintes dizeres: seja bem-vindo Grêmio, faça o que quiser.

Ficha técnica:

Esportivo: Fabiano; Erick, Ediglê, Dirley e Mateus Santana; Anderson Feijão (Diego Campos), Fábio Oliveira, , Rafael Bittencourt e Filipe Athirson; Léo (Paulo Josué) e Gilian (Jaílton). Técnico: Luis Carlos Winck.

Grêmio: Busatto; Tinga, Gerson, Werley e Carlos Alexandre; Léo Gago, Ramiro, Calyson (Misael), Rondinelly (Jean Deretti) e Gustavo Xuxa (Paulinho); Lucas Coelho. Técnico: Marcelo Mabília.

Gols: Lucas Coelho e Paulinho.

Arbitragem: Leandro Vuaden, Julio Cesar Rodrigues dos Santos e Alexandre Kleiniche.

Um abraço do que ainda tenta ficar calmo,

Leonardo Baldessarelli

(Fotos por Lucas Uebel, do site do Grêmio)

Publicado em Esportivo, Gauchão 2013 com as tags , , , , , , , , . ligação permanente.

3 Respostas a Façam o que quiserem

  1. Leo, vivi por três anos em Bento (embora trabahando perto de 4 anos), entre 2007 e 2011.

    Infelizmente, o último parágrafo de teu texto retrata fielmente a realidade da cidade em relação ao futebol. Isso sem falar nas constrangedoras recepções à dupla em pré-temporada, também citadas por ti.

    Isso é reflexo direto da espanholização que houve aqui, num espaço maior de tempo, com o crescimento absurdo da dupla, adubada por poder econômico e mídia. Mas como o mundo dá voltas, em breve esses dois também padecerão com essa espanholização, agora em nível nacional.

    Corinthians (já é) e Flamengo,com o novo acordo financeiro da tv com esses dois que está por acontecer, dispararão ainda mais em termos de poder econômico (mídia eles sempre tiveram maior que os demais). Assim, em breve veremos Grêmio e Inter se rasgando pra conseguir “vagas”, sem poder pra ganhar nada melhor do que o Gauchão (campeonato tão desprezado por eles hoje, mas do qual não abrem mão de disputar – afinal, é a única taça ganhável do ano…).

    “Quem com ferro fere, com ferro será ferido”. É questão de tempo. E vou rir muito à medida que isso acontecer.

  2. Zilli diz:

    To com o Franco nessa. Alias, cada dia simpatizo mais com o Corinthians, por essas e outras. O mimimi dos torcedores bancados pelo “banco de todos os gaúchos” quando a Caixa jogou dinheiro no Corinthians foi lindo. Tipo “eu posso, os outros não”. E é bem isso mesmo.

  3. Daroit diz:

    Porra, que triste :/

    LAMENTABILÍSSIMO isso da torcida de bento sair DEPOIS, isso não faz sentido ALGUM. Tem que pegar a Brigada, a direção do clube e a CIDADE INTEIRA e colocar numa FOGUEIRA.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *