De pequeno se aprende

Frederico Sehn

Todo mundo sabe, em qualquer mesa de bar que se preste, o que um clube de futebol deve fazer: contratar jogadores minimamente bons, mas primordialmente determinados, aguerridos e com espírito de grupo, e investir na base – e dar espaço à ela, principalmente em clubes pequenos que precisam vender a alma por alguns trocados pra garantir sua sobrevivência. Mesmo assim, continua-se a jogar dinheiro fora com peladeiros inúteis sem noção alguma de realidade unicamente por seus nomes, currículos ou, sei lá, CORTES DE CABELO. O Lajeadense, em 2013, resolveu fugir dessa barca e seguir a sabedoria popular. E, embora muita gente suba no pedestal de sua posição pra tentar conter a corrente, O POVO MANJA.

Não se faz a melhor campanha de um campeonato por acaso. Até pode-se dar uma enganada por uns jogos, a la São José, mas no fim das rodadas a diferença aparece. O Lajeadense 2013, ainda que com uma ou outra peça meio sem sentido, é um time montado pra honrar as próprias cuecas. Diferentemente dos últimos anos, desta vez a ojeriza a BoLEiRoHHs JuvENaaH JoGa10++ finalmente saiu apenas do discurso e foi posta em prática, fazendo a limpa na série de infelizes com nomes no diminutivo que destruíram o clube dentro e fora de campo nos campeonatos anteriores.

Para os seus lugares, o Alviazul apostou em jogadores que tivessem, antes de tudo, CARÁTER. Garantiu a permanência de ícones no assunto como Micael e Rudiero, adicionou outros como Eduardo Martini e, mesmo com a média de idade beirando os SEISCENTOS anos, foi à briga. Ainda sobrou gente que se achava FILHO DO MESSI por ter jogado no Grêmio, Inter, Flamengo ou qualquer outra EMPRESA do tipo, mas não deixou que se criassem. Ainda antes do fim do ano, já cortou a palhaçada no primeiro deslize grave, dispensando o único lateral reserva que havia no elenco e correndo o risco inerente a essa decisão.

Frederico SehnLucas Pinna, João Felipe, alguém que nunca vi na vida, Laércio, Reinaldo Leles, Daniel, Romário, Fernando, Moisés. Ainda estão no elenco os jovens goleiros Matheus e Fabão, meia Ricardo Maria e atacante Leandro.

Além disso, em vez de rechear o banco com pragas que ganham mais do que devem, o Lajeadense decidiu dar vez a garotos oriundos da parceria do clube com a cidade mineira de Pedro Leopoldo, que chutou bundas na Taça BH de 2011 e no Mineiro de Juniores de 2012. Deu adeus ao salário de R$ 5 mil a presepeiros de topete com gel cuja única função era tumultuar o grupo e privilegiou a base, que ganhando R$ 800 por mês dá uma resposta muito melhor tanto dentro quanto fora de campo, e ainda permite sonhar com alguns parcos tostões em uma possível venda futura.

No domingo, contra o Santa Cruz, o cenário ficou ainda mais claro. Entre suspensos e pendurados, o Alviazul teve de ir a campo sem seus dois zagueiros titulares, Micael e Gabriel, destaques – jogando MUITA bola – desde 2011, seu principal volante, Rudiero, O MESSI DE RONDINHA, e sem Rennan Oliveira, seu único meia capaz de efetivamente mudar uma partida com sua técnica e seus BALAÇOS de fora da área, além do volante Ramon Monteiro. Nas vagas, entraram o zagueiro Mineiro e os meias Léo Franco e Maico Gaúcho, que poucas chances haviam tido até então, e, principalmente, os garotos Laércio, zagueiro de 19 anos, de Marau, descoberto pelo clube em uma peneira e que desde então passou pelo Helsingborgs da Suécia e pelo Guarany de Camaquã, e Moisés, volante de 18 anos natural da cidade vizinha de Santa Clara do Sul, que esteve emprestado por mais de um ano ao Fluminense. No banco, ainda estavam Fernando Urnau, de 18 anos, meia convertido a lateral que já andou aproveitando as brechas dadas pelo titular Márcio Gabriel, o zagueiro Romário, de 18 anos, que também andou pelo Fluminense, o atacante Leandro, mineiro de 20 anos, que esteve emprestado ao Flamengo, e Ricardo Maria, meia lajeadense que foi destaque da base do Grêmio há poucos anos e tenta recomeçar a sua carreira no clube.

Já o Galo das Cucas se mandou pra Lajeado com as calças na mão após a goleada sofrida contra o Grêmio, necessitando de pontos para novamente fugir da degola. Em meio ao caos que é o seu elenco, o Santa Cruz ainda trouxe o DIABO LOIRO Maurinho, que em meados dos anos 2000 INCENSAVA o Florestal a cada rodada, sendo o único LAMPEJO de ídolo presente em quase 10 anos de Lajeadense. Maurinho que, somado aos garotos do Alviazul, transformou o CLÁSSICO DOS VALES (?) provavelmente na partida de futebol profissional com o maior número de pessoas oriundas de Santa Clara do Sul na HISTÓRIA.

Élton de AndradeVAI, LAÉRCIO

O Maior dos Vales

Juntando a falta de titulares do Lajeadense com a falta de qualidade do Santa Cruz, o confronto em campo foi o que se esperava: nada. Pelo menos no primeiro tempo, em que a troca de bolas sem sentido foi constante e o principal destaque ficou por conta do centroavante Brasão e sua bunda do tamanho de um TREM, que sucumbiu às vaias da torcida, se engraçou pra cima dos moleques e foi chamado À BRIGA por Martini. Ainda que um gol claramente legal de EL NEGRO JANDSON tenha sido anulado logo no início da peleja, o 0x0 foi perfeito pra demonstrar o que foi a partida até o intervalo.

No segundo tempo, o quadro não parecia mudar muito. O Lajeadense se sustentava nos pés do garoto Moisés, grande destaque da partida, e do zagueiro Mineiro, de grande atuação, enquanto o Santa Cruz especulava a partir do lateral-esquerdo Wellington Baroni, de volta a Lajeado, e nos chutes a la loca e sem força de Élton. Somados, os dois times tiveram um total de ZERO chances claras de gol. Até que, aos 35 do segundo tempo, quando o empate já era comemorado pelas duas torcidas CAGADAS pelo medo de perder o jogo após tanta FEIURA, Laércio surgiu do nada em um escanteio para mandar a pelota pro fundo do PARQUE DA OKTOBERFEST.

No lance seguinte, enquanto todos ainda comemoravam meio abobados o gol inesperado, João Neto entrou na área FRUKEÑA a passos largos, driblando meia dúzia aos trancos e barrancos e não empatou a partida por MILÍMETROS. Foi a última investida do Galo na partida. Depois, o Lajeadense patrolou. Em jogada de Ricardo Maria, Leandro entrou livre na área, driblou Vizotto e, mesmo de um péssimo ângulo, mandou a gorducha pras redes. Dois minutos depois, em um contra-ataque, Maria, de costas, mandou pra Léo Franco, que, livre, cruzou pra Leandro, novamente cara a cara com Vizotto, fuzilar e marcar o seu segundo gol como jogador profissional de futebol. Em 10 minutos, o Lajeadense depenou de vez o Galo após 80 minutos de um COZIMENTO modorrento e CRUEL.

O lado bizarro da partida foi o realocamento de última hora dos torcedores lajeadenses que se instalavam na arquibancada oposta ao pavilhão social, setor com ingressos mais baratos, para dar lugar à torcida visitante. Não sei se é pior pensar na versão possível de que o Lajeadense acreditou que nenhuma viv’alma viria da quase vizinha Santa Cruz e se pegou com as calças na mão, ou pensar no erro que é não colocar uma maldita de uma GRADE no setor, criando dois espaços para serem ocupados um por cada torcida, como acontece em TODOS os estádios do MUNDO. Sem contar a parte da Brigada Militar nessa história, que cansada de ameaçar todo mundo que comete o CRIME de se escorar na grade na social, resolveu brincar de WAR mexendo a galera de um lado pro outro em vez de, olha só, garantir a segurança de todos onde os mesmos deveriam ficar. Algum dia a gente cresce.

E agora?

Após a partida, que reacendeu o alerta do rebaixamento no Santa Cruz, Tonho Gil jogou a merda no ventilador e afirmou que jogadores serão demitidos e outros contratados, para acabar com a tranquilidade do elenco que aparentemente não se tocou que a água bate em sua bunda. Além disso, o aprendiz de dirigente Caíco pulou da barca após o grande trabalho (ns) realizado. A sorte do Galo é que, mesmo com toda a ruindade, seu time não é top-3 do ranking do inferno, tendo mais chances de salvação do que Novo Hamburgo, Canoas e Veranópolis, que se esforçam mais a cada rodada pelo direito de jogar o ACESSO 2014. Nada, porém, GARANTE a vida do Galo por mais um ano no Gauchão sem que se MEXAM minimamente.

Ao Lajeadense, segue vivo o sonho de CHUTAR BUNDAS COM FORÇA, avançando até as fases fatais da taça Piratini. Além disso, já não há mais risco algum de rebaixamento em um ano em que temos apenas 7 jogos em casa, e a vaga na Série D (que, se vai ser aproveitada, já é outra história) dista, neste momento, apenas vitórias em casa e alguma estripolia fora de nossos domínios. Até porque o desempenho do primeiro turno não deverá se repetir, já que na taça Farroupilha enfrentamos Grêmio, Caxias e Pelotas, três dos rivais mais complicados, fora de casa. Para quem joga pela sobrevivência, porém, nossa taça particular já foi conquistada.

O próximo rival do Lajeadense é o Esportivo, única vitória celeste fora de Lajeado até aqui, em um horário a ser determinado pela sempre correta Federação Gaúcha de Futebol. Quem passar terá o privilégio de arregaçar um dos bonitinhos de Porto Alegre em rede estadual nas semis.

As fotos são de Frederico Sehn e Élton de Andrade, creditadas ao posicionar o cursor em cima das mesmas.

LAJEADENSE (3) Eduardo Martini; Márcio Gabriel, Laércio, Mineiro e Márcio Goiano; Reinaldo Silva, Moisés, Léo Franco (Daniel) e Maico Gaúcho (Leandro); Jandson e Rafael Aidar (Ricardo Maria). Técnico: Flávio Campos

SANTA CRUZ (0) Fernando Vizzotto; Teda, Marcelinho e Marx Ferraz; Maurinho (Igor), Diego Teles, Elton, Cleiton e Wellington Baroni; William Saldanha (João Neto)e Brasão. Técnico: Tonho Gil

Gritando “VOLTA, MAURINHO” enquanto sonho acordado,
Guilherme Daroit

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Um comentário em De pequeno se aprende

  1. Sagu diz:

    e dale DENSE!

    e uma salva de palmas à brigada militar, que disponibiliza mais homens pra atrapalhar a torcida local e o clube do que para proteger o encontro das duas torcidas… = P

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