Clubes inativos – Guarany de Cruz Alta (1ª Fase: 1913-1930)

Guarany de Cruz Alta-RS (BRA)

Sempre há quem diga que se uma determinada coisa está na historia – bah, mas esse teu time é time de museu! – não está mais presente nos dias de hoje. Eu, ao contrário, acho que a historia é não apenas passado, como também uma força viva no presente, que se alimenta incessantemente do que aconteceu em outros tempos – sirvam nossas façanhas de modelo a toda Terra!

Lino Ceretta, militar aposentado, foi goleiro do Guarany de Cruz Alta e torcedor do time por toda sua vida. Nem mesmo com o recesso atual do clube esse forofo apaixonado deixa de nutrir seu amor pelo Jequitibá da Serra. Nas paredes de seu escritório, parece que o coração azul e branco ainda palpita através das fotografias, troféus, livros, relíquias, e outros artefatos que dão a certeza que o Guarany está vivo enquanto alguém dele valorizar a história.

Conversei com o Lino em sua casa na cidade de Cruz Alta, quase ao lado do estádio Taba Índia, sede do Guarany. De pronto associei sua figura com a de Aírton Pavilhão, que viveu na frente do Estádio Olímpico até o fim de seus dias (daquele e deste). Tanto que ele me disse: “essa história toda não é sobre mim, é sobre o Guarany!”. Para mim, a história de ambos é a mesma.

Lino produziu uma obra extensa não só sobre o Guarany, como também eternizou o futebol de Cruz Alta em três livros – um sobre o clube índio, outro sobre o Nacional e um terceiro que fala do Rio-Grandense. Nunca havia visto um trabalho tão especial como o feito por este senhor de 78 anos. Ele contou entusiasmado como conseguira os primeiros registros do Guarany – um acervo maravilhoso de jornais da época, que estavam no museu da escola Santíssima Trindade, esquecidos pelo mundo, mas por ele resgatados e revalorizados.
Decidi, portanto, perante o magnífico trabalho de Lino Ceretta, dividir a matéria em três partes, seguindo o parâmetro que o próprio Lino usou para dividir a história do Guarany: 1ª fase (de 1913-1930), 2ª fase (1942-1966) e 3ª fase (1985-2001).

A fundação do Guarany e o início de uma grande rivalidade

O Sport Club Guarany nasceu, por assim dizer, já cancheiro, no aniversário farroupilha, 20 de dezembro de 1913. O Jequitibá da Serra, como é também conhecido, surge do ímpeto de um grupo de cruzaltenses decididos a formar uma equipe de futebol, tendo como presidente Epaminondas Vaz, sediado no campo aberto da firma Furian & Cia, atual Vila Brenner. O primeiro jogo índio registrado oficialmente foi Guarany 2 X 2 Cruzaltense. Dois anos depois, após uma vergonhosa derrota por 8 a 0 em Júlio de Castilhos, o Cruzaltense agregou-se ao Guarany.
Como todo grande clube, é necessário um grande adversário para enaltecer ambas equipes. Foi assim que em 1914 nasceu o Arranca Futebol Clube, alcunhado de arranca-toco que, segundo Lino Ceretta, é o verdadeiro rival histórico do Jequitibá da Serra. A princípio, a convivência entre os dois foi tranquila, porém em 1916 o Arranca humilha o Guarany com um imponente 7 a 0, culminando com uma baderna na cidade e com o primeiro arranca-rabo do futebol gaudério de que eu tenho notícia. A vergonha do clube índio foi tão grande que em assembleia decidiu-se não jogar mais contra o arranca-toco, acabando com o citadino cruzaltense.
No ano de 1921, a Federação Riograndense de Desporto (atual FGF) desceu de bota, bombacha e trabuco em Cruz Alta e obrigou as equipes a degladiarem, sob pena de serem expulsos da federação. Assim, restabeleceu-se o citadino na marra. O primeiro jogo, ocorrido em 18 de setembro de 1921, teve a vitória do Guarany por 2 a 0 em casa e, sete dias depois, os índios sagram-se campeões após um valoroso empate por 2 a 2.

Guarany década de 1920 24

Time Índio nos anos 20

Jogando cancha pelo Rio Grande afora

Em 1922 o Guarany vai a Porto Alegre, leva uma cossa do Grêmio (5 a 0), mas sai elogiado pelo jornal Correio do Povo, sendo que arqueiro Dornelles é garboado por ter evitado um desastre ainda maior, Breno Ribeiro vai muito bem de half, o foward Cascudo é considerado um grande shootador e o Back-esquerdo Romagna já sai convocado para o scratch gaúcho! De quebra, o Guarany sagra-se bicampeão citadino no novíssimo estádio do Arranca, inaugurado apenas dois meses antes.
No mesmo ano, o Guarany disputa as finais do estadual, com um dos melhores times de sua história. Em Porto Alegre, pela semifinal, ocorre um dos mais polêmicos jogos da história do futebol gaúcho. O Grêmio saiu ganhando do clube cruzaltense, que jogava com desenvoltura, chegando ao gol de empate. Porém, o árbitro anulou o gol, deixando os atletas índios fulos. Posteriormente, em uma bola que seria tiro de meta o juiz sinaliza escanteio, que resulta no segundo gol gremista: 2 a 0. Aí fechou o sururu: inconformados, os jogadores do Guarany abandonam o campo, em uma roubalheira considerada pelo presidente do clube como “extraordinária, velada, acintosa, nojenta”. Após a partida, o time se exonera da Federação Rio-Grandense de Futebol. O Guarany encerra a campanha como o 3º melhor time do RS.
No ano de 1923, em que não houve futebol no RS, devido à Revolução Federalista, o Guarany não disputou nenhuma competição. Em 1924, o Guarany sagra-se campeão citadino por W.O, visto que o Arranca decide não disputar a decisão por estar desfalcado de cinco atletas. Em 1925 o futebol estadual volta a ganhar contornos mais definidos, sendo que era divido regionalmente. Já alcunhado de Jequitibá da Serra, o Guarany vence o citadino, em duas partidas peleadas contra o Arranca (2×1 e 1×1) e disputa o Campeonato da 5ª Região, ganhando do 14 de Julho de Passo Fundo. Com isso, ganha o direito de jogar contra o Bataclan de Santa Maria para sagrar-se Campeão da Serra e ir disputar as finais em Porto Alegre. A peleia foi braba – o zagueiro Ico levou uma pelotada na cara e teve que jogar a partida machucado – mas o Jequitibá da Serra venceu por 4 a 3 e disputou o estadual. O Guarany perdeu para o Grêmio com um gol de Luiz Carvalho e ficou novamente na 3ª posição, porém o Correio do Povo considerou o Guarany como o melhor time do torneio.
Os anos de 1926 e 1927 trouxeram outros dois citadinos ao Guarany. Em 27, o estádio do Arranca, à beira da ferrovia, pega fogo, queimando toda a documentação e os troféus conquistados pelo clube. Nesse ano, o Guarany sagra-se Hexacampeão citadino, uma grande façanha, disputando novamente o regional, pelo 4º ano seguido. No mesmo ano, Érico Veríssimo, torcedor índio, torna-se secretário, redigindo as atas de reunião.

Anos de declínio

O ano de 1928 começou com dois desalentos para a torcida índia: a morte do ex-presidente do clube José Laydner e a saída do craque Risadinha. Os amistosos locais logo mostraram que o Arranca estava na frente do Guarany, com duas vitórias (3×1 e 3×0), sendo que o último jogo foi relatado pelo repórter do Jornal do Comércio como sendo “de muita violência, invasão de campo pelas torcidas, houve pontapés, socos, tapas e até bengaladas, uma arma poderosa na briga”. A final do citadino, um 4 a 1 cheio de brigas, selou a quebra da hegemonia do Guarany e o título do Arranca-toco. Nesse ano, no dia 16 de novembro, Guarany e Arranca tiveram sua última peleia: foi pela Taça Royal Card, sendo que o jogo terminou empatado em 1 a 1, sagrando o Arranca como campeão por ter um escanteio a mais.

Em 1929 o Guarany inaugura seu novo estádio que, segundo Lino, não possui registro preciso de onde estaria localizado. Possivelmente estaria no terreno da atual Taba Índia, contudo o Jequitibá da Serra também jogava em dois outros locais. Devido a crise no futebol do Arranca, que tendia mais para o lado social que esportivo, não houve citadino, e no dia 08 de setembro o clube fecha as portas, ficando apenas com sua sede social, atualmente uma das maiores do RS.

Sem o rival de peso, apenas adversários mais jovens como o Rio-Grandense e o Clube Internacional Recreativo, o Guarany fecha suas portas em 1930, para um longo recesso de 12 anos. A volta seria marcada pelo novíssimo Taba Índia e por anos de destaque da equipe no cenário gaúcho, mas isso é história para a próxima matéria: 2ª fase do Guarany (1942-1966).

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Histórias do Lino:

“O Guarany tinha um jogador de nome Guilherme Schroeder, famoso por ser um grande jogador, aquele que era o que hoje equivale ao volante, o back-half, mas também por ser um jogador que estava sempre rindo em campo. Aí, o pessoal passou a chamar ele de Risadinha, e na concentração, quando ele estava mais sério, ele era o Risada, que é o apelido que eu uso. Ele até foi chamado de Nenê, o que era uma confusão, parecia que o jogador não tinha nome. Ele foi para a seleção gaúcha, era destaque do time, e depois para o Internacional, em 1928, e lá foi titular por muitos anos, com um nome só: Risada.”

“Uma curiosidade: em 1919, sem citadino, o Guarany foi canchear na vizinha Ijuí contra o clube da cidade, o Riograndense. O resultado: 21 a 0, a maior sova de gols já aplicada pelo time índio, decretando o fim da equipe ijuiense – que ficou muito envergonhada pelo massacre, que mais tarde deu origem ao 19 de Outubro, braço do atual São Luiz.”

fotos: Memorial do Esporte de Cruz Alta

A história continua nos próximos dias…

Vinicius Fontana

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19 Respostas a Clubes inativos – Guarany de Cruz Alta (1ª Fase: 1913-1930)

  1. João de Deus diz:

    Parabéns Vinicius, um excelente texto sobre a historia inicial de um time que levo o nome de Cruz Alta para os campos de futebol da província inteira.
    Esperamos pela próxima parte…

  2. PEDRO diz:

    Essas riquezas históricas não podem se apagar jamais!!!!!!

  3. Vinícius Fontana diz:

    Grato a todos os cancheiros que prestigiam nosso trabalho! Em uma semana posto a segunda parte!

  4. Régis diz:

    Chê, meu pai ficaria muito feliz de ler esse texto e de saber que alguém se importa com o Guarany.

    Que um dia o futebol cruzaltense volte com força, ainda mais com essa campanha surreal dos rivais de Ijuí!

    Baita texto.

  5. Zezinho diz:

    Baita texto, Fontana!

    Riquíssimos detalhes, baita pesquisa. Tá de parabéns

  6. Sensacional o relato, Fontana! Só consegui lê-lo agora.

    Apesar de rival, uma LÁSTIMA o Arranca ter fechado as portas. Fica a impressão que os melhores nomes de clubes se perdem na história. Arranca, ainda mais vindo de ARRANCA-TOCO, seria dos nomes mais clássicos de times do interior, ao lado daquele nome que perdeu pro Guarani de Venâncio (me aviva a memória aí, Nazzi!).

  7. Zezinho diz:

    CHORA NA ESQUINA, Franco. Maior nome

  8. Claudio Teixeira diz:

    Fui e sou torcedor do Guarani. Sou fã do Lino,desde criança e me recordo de sua lesão no nariz se nao me engano num GUA-NAL,entrada dura do jogador Maleita,que o deixou
    afastado por uns tempos. Estava eu la, pequenininho!,,Nao estando mais em minha terra Natal,estes fatos trazem uma recordação de minha infância num tempo que nao volta jamais. Mas que e bom recordar,e mesmo. Parabéns pela matéria .

  9. Rafael diz:

    Tem que alguém criar coragem e colocar imagens e fotos de todos esses anos de Guarany

  10. Régis diz:

    #9

    Tem o memorial do esporte de Cruz Alta.

    http://memorialdoesporte.blogspot.com.br/

  11. antonio s. silva diz:

    Eu convivi o o GUARANY, nos anos de 1985 a até 2000, ia em todos os jogos em casa e fora. Acompanhei o, tenho todos os jogos registrados nesse periodo, os goleadores e os encontrosentre o Nacional e riograndense, sinto faklta nos domingos ir a velha taba Índia ver os jogos que disputavam ali. E hoje na vesperas dos 100 anos do nosso Sport Club GUARANY, não temos futebol proficional aqui. Mas deixo a todos os torcedores do GUARANY, um abraço e quem sabe num futuro possa o GUARANY, voltar as atividades futebolisticas.

  12. edmar de souza teixeira diz:

    sou gaucho, e moro a 35 anos em curitiba pr, sempre fui torcedor ferrenho do meu guarani, acho que ainda tenho o sangue alvi azul no meu sangue, embora, meu querido guarani nao
    nos de mais aquelas alegrias de domingo. fui por 03 anos jogador do juveni, no tempo do inesquecivel joao domingos arruda e epaminondas vaz etc, na equipe jogavam o jorge e pedro westhpalen, o falecido orlandino lazari e muito outros, meus Deus que saudades
    um abraço ou um quebra costela.

  13. ALBERTO REINALDO REPPOLD diz:

    BELA REPORTAGEM SOBRE O FUTEBOL DE CRAZ ALTA PARABENS.
    FUI ATLETA DO RIOGRANDENSE E DO NACIONAL ANOS 50.
    SERIA POSSIVEL CONSEGUIR EMAIL DO LINO FAMOS COLEGA NO 17 RI.
    TINHA COMO APELIDO DE BORBOLHAS CRIADO PELO BERI PEDROSA. ABRAÇOS.

  14. a diz:

    PREZADO HISTORIADOR SERIA POSSIVEL CONSEGUIR EMAIL OU FONE DO
    MARZINHO VULGO TUPI DO RIO GRANDENSE, OBRIGADO

  15. Marlon Krüger Compassi diz:

    Srs.:

    Para quem ler de Cruz Alta ou qualquer outra cidade (em especial: Rio Grande, Pelotas, Livramento, Quaraí, Alegrete, Dom Pedrito, Lajeado, Bagé):
    Sou pesquisador do futebol gaúcho, tenho 59 anos e sou Químico, Consultor, Perito e Auditor Ambiental. Moro em Panambi. Meu nome é Marlon Krüger Compassi.
    Gostaria de saber onde posso adquirir os tres livros do Sr Lino Ceretta sobre os clubes de Cruz Alta que são citados pelo mesmo nesta reportagem.
    Também gostaria de que pessoas que pesquisam e tem dados para trocar (tenho vastíssimo acervo sobre o Estadual Zonal (1919-1960) e o Citadino de Porto Alegre (1910-1972).
    Meu e-mail é : marloncompassi@gmail.com e meu telefone é (55) 9116-1622.

    Muito Obrigado a todos.

    (autorizo a publicação de meu nome, e-mail e telefone)

  16. Marlon Krüger Compassi diz:

    Srs.
    Alguém pode me informar como adquirir os livros do Sr. Lino Ceretta? Grato (favor me avisar pelo e-mail: marloncompassi@gmail.com)

  17. chichano goncalvez diz:

    gostaria de saber algo sobre o sport club colombo de porto alegre rs , muito obrigado.

  18. José Roberto de Melo diz:

    Sou cruzaltense, sai desta linda cidade em fins de 1968 exatamente dia 23/12/68 aos 13 anos de idade. Mas jamais esqueço de quando guri, ia assistir os jogos do Guarany, do Nacional e do Rio Grandense.
    Tardes memoráveis de alegria de ver aquele futebol tão romântico, pena que estes clubes fecharam as portas.
    Hoje aos 60 anos fico com minhas lembranças daquelas tardes inesquecíveis, morando aqui na capital dos gaúchos.

  19. Srs.:

    Os outros livros já consegui, mas se alguém puder me enviar e, se for preciso, pago as cópias e o envio, preciso do livro do Rio Grandense. Respostas para: marloncompassi@gmail.com. Grato

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