Vão ter que me desculpar

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Por força do embate entre São Luiz e Caxias, numa das semifinais do primeiro turno do Costelão 2013, Maurício Brum enviou a um periódico local suas desculpas pela DEMÊNCIA do momento vivido pelo quadro de Ijuí e seus torcedores. O time do Noroeste Colonial alcançou a final e reverberamos aqui as desculpas de quem não quer apenas existir contra as indignidades maiores, antes, quer fincar pé na história e amanhã correrá para isso.

Vão ter que me desculpar. Eu sei que um homem deve se comportar segundo certas normas e adequar seu modo de ser a determinados conceitos. Se você quer ser coerente, deve medir sua conduta e a dos demais com os mesmos pesos e medidas. Não se pode reprovar rivais e perdoar amigos apenas por serem uma coisa ou outra. Ninguém é ingênuo de supor que as paixões podem ser subtraídas, ou os sentimentos sacrificados pela imparcialidade – devemos, porém, tentar não sair do rumo. Mas vão ter que me desculpar. Certas situações não podem ser medidas como as outras. Por mais que se repita que não há exceções. Peço perdão, e o perdão requerido é maior, porque as situações e sujeitos de que falo não são benfeitores da humanidade, santos ou heróis que engrandecem a pátria. São sujeitos e situações ligados a algo bem menos importante, muito mais profano. São esportistas. É o futebol. Alguém poderá dizer que isso torna a atitude mais reprovável. Talvez tenha razão. Talvez por isso o texto comece pedindo desculpas. Porque são pessoas cheias de defeitos, situações vulgares e, ainda assim, o frio julgamento desaparece. Amanhã, o dia começará como todos. A hora do almoço será como sempre. E a tarde vai começar, aparentemente, como tantas outras. Uma bola e vinte e dois tipos. E outros milhares roendo as unhas e acompanhando. Mas não se engane: essa tarde é diferente. Não é só um jogo. Há algo mais. Há um tanto de raiva e frustração, e também de esperança acumulada nessa gente que vai ao estádio, escuta o rádio ou assiste à tevê. São emoções de quem vive apartado e começa os anos com a simples aspiração de se provar merecedor do que outros julgam seu direito adquirido. De quem está isolado no mapa e é acossado não só pela falta de dinheiro, mas pelo desprezo da metrópole, pela visão turva dos que nos creem tão distantes que o melhor seria sumirmos de vez e parar de causar transtornos. Assim, senhores, vão ter que me desculpar, mas o São Luiz de 2013 não pode ser avaliado em termos racionais. Este jogo de amanhã é mais que um jogo. É uma chance rara, talvez única na vida inteira, um momento histórico para este ponto do mapa. Nós temos o dever da memória. Para contar isso depois, para lutar pelo sonho prolongado um pouco mais – e, quem sabe, para tornar a façanha ainda maior, para que já ninguém duvide do que somos capazes e não apenas nós recordemos o feito para sempre.

(Fortemente inspirado no conto “Me van a tener que disculpar” de Eduardo Sacheri)

Abrazos!

Maurício Brum

(A imagem é do sítio do São Luiz de Ijuí)

Publicado em Gauchão 2013, São Luiz com as tags , , , , , , , . ligação permanente.

2 Respostas a Vão ter que me desculpar

  1. Vini Araujo diz:

    Bravo! Amanhã, de alguma forma, seremos todos São Luiz!

  2. Pingback: O ápice da vida na mais comum das tardes | impedimento.org

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