Medo e delírio em Novo Hamburgo

Hunter_S._Thompson,_1988_crop

Itamar Schulle quebra a cabeça para salvar o Noia do rebaixamento

Dono da pior campanha do TARSÃO 2013 e penúltimo colocado no Grupo 1 da Taça Piratini, o Novo Hamburgo se concentra mais em escapar do rebaixamento do que sonhar em chegar à Série D – seu discurso tão batido. No intervalo entre os dois turno, o presidente Carlos Duarte emulou Jânio Quadros e passou a VASSOURA no Estádio do Vale – embora não se noticie uma provável renúncia sua por forças ocultas.

 A péssima campanha do Noia custou a cabeça do técnico Gilmar Iser, já na segunda rodada, do vice-presidente de futebol, Raul Hartmann, e do diretor de futebol, Eliseu Erhart, responsável pela montagem do horroroso grupo que praticou um misto de esporte-bretão e PADEL na primeira parte do campeonato.

O comando do futebol passou a Everton Cury, responsável pela volta do Noia à elite em 2003, que trouxe de volta o técnico Itamar Schulle e o ex-presidente Juarez Radaelli para a direção de futebol. Durante a intertemporada causada pela bizarra parada de um mês entre os dois turnos, o Novo Hamburgo mandou PASTAR nada menos do que NOVE jogadores: os zagueiros Dimas, Léo Fortunatto, Baggio e Rodrigão, os laterais Vinícius e Carlos Eduardo e os meias Giuliano, Luís Carlos e Ângulo. Sobrou também para o preparador de goleiros Rafael Grillo.

Na coletiva após a vexatória derrota para o Santa Cruz, Everton Cury foi enfático: ‘o Novo Hamburgo voltou à Primeira Divisão pela minha mão. E não será essa mesma mão que carregará o caixão rumo ao rebaixamento’. E tratou de tocar fogo no galinheiro contratando uma BACIADA de atletas dos mais diversos cantos do Brasil: o goleiro Max, os laterais Andrezinho, Zeca e João Paulo, os zagueiros Juan Sosa, Sousa e Zé Carlos, os volantes Rafael Ceará, Éder Silva, Mateus e Felipe Hereda, os meias Giovani, WISMAN e Fernando e os atacantes Thiago Furlan e Leonardo Cipriano.

Para ajustar a nova equipe, o Anilado realizou três amistosos entre INTERIM. Foi a Vacaria e venceu o Glória por 4×2, após terminar o primeiro tempo levando 2×0. Em casa empatou em 3×3 com o time sub-23 do Internacional. E no RETIRO ESPIRITUAL de uma semana realizado em Santa Catarina, bateu o Figueirense por 1×0. O setorista do Noia na Rádio ABC 900 AM, Wesley Wierganowiez, garante que o clima do elenco é outro, bem melhor do que o encontrado no início do ano.

Hunther Thompson e Dr. Gonzo embarcam em uma viagem lisérgica pelos becos da Santo Afonso

Hunther Thompson e Dr. Gonzo embarcam em uma viagem lisérgica pelos becos da Santo Afonso

Se é senso comum uma equipe discursar antes do turno vindouro que ‘agora é um novo campeonato’, de direção renovada e plantel totalmente reformulado o Novo Hamburgo pode provar isso na prática. Mas precisa ficar atento ao déficit de pontos da herança maldita do 1º turno e que pode lhe mandar ao buraco.

Santa incoerência, Batman!

A gestão Duarte tem proferido a palavra ‘planejamento’ a exaustão como lema do seu mandato, só que na prática isso não ocorre integralmente. Nas três temporadas sob a égide do CAMINHONEIRO, o clube tem tido uma média de três treinadores por ano, ou um a cada quatro meses.

Essa sanha demissionária também ocorre nas categorias de base, sobretudo nos juniores. Reativado em 2011, o elenco sub-20 do Noia, na gestão Duarte, teve SETE treinadores: Lúvio Trevisan, Dias, Mabília, Da Silva, Douglas Rodrigues, Júlio César Scheiber e Ricardo Rambo. Até o avaliador Ronaldo Becker acabou dispensado. Fica brabo revelar jogadores e levantar canecos com tamanha instabilidade no cargo.

Outro pecado que o Noia tem cometido é a troca sucessiva do comando do futebol nos últimos 12 meses e a consequente reformulação de elenco. Segundo o livro ‘Soccernomics’, a troca de manager costuma fazer com que o clube gaste mais do que o usual em contratações, pois o profissional quer deixar sua marca. Ainda que um clube bem menor que os considerados no livro, com enfoque na Liga Inglesa, os erros do Anilado tem sido iguais.

Cena recorrente no último mês: Everto Cury apresentando uma baciada de reforços

Cena recorrente no último mês: Everto Cury apresentando uma baciada de reforços

Depois das saídas de Luizinho Valentim e Sandro Blum ao final do Gauchão de 2012, o futebol ficou acéfalo e nas mãos de Lisca, que atolou o elenco de bruxinhos. Do grupo que disputara a contenda principal, apenas Zaquel, Márcio Hahn e Juninho permaneceram para a Copa RS. Assim que Eliseu Erhart foi contratado e Raul Hartmann assumiu a vice-presidência de futebol vaga por MEIO ANO, menos da metade do time-base da Copinha ficou, com nova reformulação. E com a saída de ambos e o ingresso de Cury e Radaelli, mais outra REVOLUÇÃO é realizada no plantel anilado. Daí não há como querer Série D e se surpreender com o rebaixamento.

As outras quedas

É inerente a muitos dos clubes que descem de divisão a existência de poucos investimentos, atrasos salariais e instabilidade no comando técnico. Um pouco de tudo isso já fez o Novo Hamburgo ser rebaixado em ocasiões passadas.

Em 1987, o clube apostou na base campeã gaúcha de junior do ano anterior e trouxe poucos reforços. A inexperiência pagou o preço e o Noia, que fora 4º colocado em 1986, amargou seu primeiro rebaixamento desde o fim da regionalização do Gauchão, em 1961. A volta foi rápida, com o vice-campeonato da Segundona no ano seguinte.

O Anilado permaneceu na elite até 1993. A cidade já sentia os efeitos mais agudos da crise do setor coureiro-calçadista e o clube, que era financiado pelos barões do calçado e bicheiros, foi pro buraco junto. Com um time péssimo, o Noia terminou em 20º entre os 22 times que disputaram a fase inicial – a Dupla Gre-Nal entrou depois –, após derrotas emblemáticas para o Dínamo, em Cruz Alta, e o Ypiranga, em Erechim.

Iniciava-se, assim, o período mais negro da história do clube. Em estado de insolvência, o Noia chegou a disputar o equivalente à 3ª Divisão gaúcha, da qual foi campeã em 1996 mesmo com SEIS MESES de salários atrasados. Pouca coisa mudou e até fins de 1999 o clube ameaçou várias vezes fechar as portas graças aos cofres raspados.

Caio Junior e Paulo César Magalhães: campeões da Terceirona Gaúcha de 1996

Caio Junior e Paulo César Magalhães: campeões da Terceirona Gaúcha de 1996

Em 2000, contudo, uma ampla reformulação comandada por Rosalvo Johann permitiu ao Novo Hamburgo a montagem de um grupo coeso e forte, capaz de voltar à elite e dar sobrevida ao clube. Com Donizetti no gol, Aládio na zaga, Joel Marcos na cabeça-de-área, Sérgio Winck na armação e Pachequinho no ataque – o time que me fez torcedor –, o Noia patrolou tudo e todos e levou o título do Acesso.

A euforia, entretanto, foi passageira. O Gauchão de 2001 previa uma fase inicial em turno único entre os 13 times do Interior. Sem dinheiro, reforços significativos e com jogadores do time campeão de 2000 em péssima fase, como o goleiro Donizetti, o Anilado, após um campeonato horroroso e recheado de placares elásticos – derrota em casa por 6×1 para o São José e 4×2 para o Pelotas, empate em 4×4 com o São Luiz e vitória por 4×3 diante do Santo Ângelo –, venceu o Avenida por 6×1 na última rodada, mas foi rebaixado graças a um gol tardio do Santo Ângelo sobre o Guarani de Venâncio Aires.

Após nova crise que o levou a vender seu histórico estádio Santa Rosa, o Novo Hamburgo militou duas temporadas seguidas na Segundona e de lá saiu e 2003. Mas dez anos depois pode para lá voltar. Com dinheiro, com estádio, com estrutura, com a cidade novamente endinheirada. Mas com uma incompetência e incoerência no futebol poucas vezes vista.

Rezando pela salvação,
Zezinho

Publicado em Gauchão 2013, Novo Hamburgo com as tags , , , , , , , , . ligação permanente.

Um comentário em Medo e delírio em Novo Hamburgo

  1. Denis diz:

    Zezinho, muito boa essa análise, dando um panorama histórico dos últimos 25 anos do Nóia, ressaltando as mudanças ocorridas principalmente no últimos dois anos.
    Olhando pra escalação do Nóia da última partida do primeiro turno com a escalação do último amistoso contra o Figueira, somente os volantes Fabio Gomes e Roberto Lopes permaneceram na equipe titular. Domingo estarei no Estádio do Vale ansioso por uma nova postura em campo, que traga a esperança de uma fuga do rebaixamento e, quem sabe, chegar ao mata-mata.
    Aproveito para informar que mais dois jogadores foram incorporados hoje na BACIA ANILADA: o volante Mateus e o zagueiro Peixoto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *