O futebol gaúcho ao avesso

eucaliptos

“Há 130 anos, depois de visitar o país das maravilhas, Alice entrou num espelho para descobrir o mundo ao avesso. Se Alice renascesse em nossos dias, não precisaria atravessar nenhum espelho: bastaria que chegasse à janela.”

(Eduardo Galeano – De pernas pro ar)

A frase acima está no início de uma das obras do escritor uruguaio Eduardo Galeano, intitulada De Pernas pro ar. Essa obra tem um subtítulo interessante, que reflete a conjuntura mundial tão habilmente explorada nos textos do autor. Esse subtítulo chama-se A Escola do Mundo ao avesso. Tanto título quanto subtítulo, caso não visassem retratar outros aspectos, seriam retratos perfeitos da situação atual do futebol gaúcho. Vale ressaltar que Galeano é um apaixonado por futebol – como cento e um por cento da população uruguaia.

Galeano é autor de um dos mais apaixonantes livros sobre essa paixão que tanto arrebata, chamado Futebol ao sol e à sombra. Desde a terra vermelha do JUVENTUS DE SANTA ROSA até as bandas do sul do estado, berço do ALDO DAPUZZO e das nada agradáveis noites de chuva e vento, todos já ouviram e/ou leram Futebol ao sol e à sombra. Mas o que diria Galeano ao deparar-se com a realidade do futebol gaúcho no Interior? Estaria ele, DE FACTUM, De pernas pro ar, ao avesso, como a escola do mundo que o autor da BANDA ORIENTAL retratou? Ou descansaria em águas tranqüilas, ao sol e à sombra de algum lugar qualquer?  

A verdade é que no Rio Grande do Sul, o futebol não está ao sol, muito menos à sombra de lugar nenhum, como insistem em afirmar – ou tentar iludir – os cronistas da grande mídia, que se aproveitam dos espaços que têm (embora sequer devessem passar perto de tê-los) para desfilar toda sua ignorância sobre o verdadeiro interior do futebol gaúcho. Ou, pior ainda, tentam vender a ideia de uma Federação próspera, endinheirada, que arrecada montantes absurdos de PILAS e REGOJIZAM-SE numa opulência que sequer se compararia a outros centros.

Mas a verdade mesmo, verdade essa que não aparece no frio dos cálculos nem no FRIGIR DOS OVOS das contas que aparentam estar mais azuis que o uniforme do GLÓRIA DE VACARIA, é a agonia constante que clubes do interior, esquecidos por essa mesma Federação, enfrentam a cada temporada, ainda que alguns teimem ardorosamente em sobreviver, contrariando a lógica, a métrica, a retórica e o balanço financeiro negativo dos caixas já ESCASSOS a cada semestre que se apresenta.

Um dos reflexos disso apresenta-se em Santa Maria, de onde escrevo essas linhas e de onde aguardo um jogo que não mais acontecerá. Pelo menos, não nesse fim de semana. O Riograndense, que entraria em campo na primeira rodada, contra o Brasil de Pelotas, não mais o fará neste domingo. O Estádio dos Eucaliptos não passou pela vistoria técnica do Corpo de Bombeiros, realizada na manhã da última sexta-feira, dia 15. E aqui talvez o leitor mais desatento já esteja desferindo contra seu computador onde lê esse texto toda série de IMPROPÉRIOS conhecidas em direção a este que vos fala. Longe de querer contestar as medidas de segurança exigidas pelas autoridades. Muito pelo contrário, ainda mais em função dos acontecimentos recentes na cidade.

A questão crucial que envolve essa série de fatos é tão clara quanto à decisão do Corpo de Bombeiros. O Riograndense não tem condições financeiras de fazer as adequações exigidas a curto prazo, como já declararam os envolvidos com o clube. E nessa hora, ficam ainda mais evidentes as negligências de uma federação que pouco se preocupa com suas equipes que não movimentam seus caixas e, consequentemente, não recebem nenhum tipo de retorno. E esses caixas, que de acordo com as análises, estão cada vez mais recheados, em nenhum momento voltam-se para o Interior. Os subsídios dos clubes ficam por conta de patrocínios IRRISÓRIOS, e o reflexo está em todo lugar: nos elencos, nos estádios e nos resultados.

Enquanto muitos estádios do interior podem rumar para o mesmo caminho dos Eucaliptos, por agonizarem lentamente sem o socorro necessário – como seus próprios clubes – ARENAS multimilionárias e de parceiros igualmente BEM APOSSADOS se REFESTELAM mesmo à revelia de alvarás preteridos em nome de um ESPETÁCULO QUASE TEATRAL, e com risco talvez até maior dos irmãos menos ABASTADOS. Dinheiro, “segurança” e muito mais do que conseguimos visualizar constroem essa dicotomia cada vez mais ABISMAL do eixo capital/interior do nosso futebol.

E o rival do PERIQUITO, o Inter-SM, também está longe de viver uma situação confortável financeiramente. O clube, que no ano passado teve dificuldades para montar o elenco e acabou em último na Copa FGF/Hélio Dourado, enfrentou problemas semelhantes esse ano. A folha salarial é baixa e a parceria com o Grupo MR passou por vários entraves e problemas extra-campo. A situação não é exclusividade de Santa Maria. Ao redor do estado, de Santo Ângelo a Pelotas, de São Borja a Santa Cruz, a unanimidade é de que não há facilidades em fazer futebol no interior. Quem o faz, o faz por pura teimosia.

Não basta apenas que o São Luiz faça uma final de turno, como isso fosse motivo suficiente para a capital exaltar o quão bem está o futebol do interior. Não basta que o São Luiz seja coadjuvante dentro de seus embarrados domínios. Não basta que o São Luiz não consiga fazer frente ao rival endinheirado da capital, ainda que saia OVACIONADO por sua torcida apenas por ousar a tentativa. Não basta que nos contentemos com títulos do interior e com o simples fato de permanecer na Primeira Divisão, ou, pior ainda, pelo simples fato de continuar existindo . O futebol do interior precisa de mais.

E o mapa do Gauchão traduz isso perfeitamente, melhor que qualquer palavra a ser escrita aqui ou em outro lugar: há, cada vez mais, uma concentração dos clubes na região metropolitana. O que não é algo a ser condenado completamente, porque ali também há clubes que enfrentam essas mesmas dificuldades, sem encontrar espaço para fazer frente aos grandes da Capital. Mas há, sim, algo grave acontecendo no futebol do interior. E há quem feche os olhos para essa realidade. Ou talvez prefira fazer de conta que não vê, por medo de chegar à janela e descobrir o mundo ao avesso – o que não deixa de ser conveniente para quem assim o faz.

De Santa Maria, e esperando – talvez inutilmente – que o futebol gaúcho desvire do avesso,

Nicholas Lyra

(A foto é do futebolgaucho.com)

Publicado em Clubes Gaúchos, Divisão de Acesso 2013, FGF, Inter SM, Riograndense-SM, Série A2 2013 com as tags , , , , , , , , , , . ligação permanente.

6 Respostas a O futebol gaúcho ao avesso

  1. Gilberto Xavante diz:

    E ca estou eu… Morador de Porto Alegre e torcedor teimoso do interior, que junto com mais 20 torcedores Xavantes, já pagamos um Micro-onibus, para ir a Santa Maria amanha… Lendo a realidade do interior. O interior agoniza… e nossos dirigentes interioranos ainda nos fazem de palhaços… Será que somente na sexta feira descobriram que o estádio não seria liberado? De Porto Alegre iriamos em um MIcro e carros, alguns reagendaram compromissos outros trocaram plantões para acompanhar o Xavante !!
    Vamos adiar a estréia !! Domingo vamos ao Bento Freitas !!

  2. Ta de parabéns, Nicholas. Apenas mais um texto que procura GRITAR o obvio para um estado que tem olhos apenas para dois. E dois que não precisariam tantos olhos assim…

  3. Marcos Ceron diz:

    Ótimo texto!

    Com todo respeito à tragédia, o que aconteceu não volta mais. A vida deve seguir…

    Depois do acontecido, de que adianta esse exagero, essa paranoia fiscalizatória?!

    Se continuar assim, terão que interditar Santa Maria, o estado ou até o Brasil inteiro.

  4. Alexandre Maciel diz:

    Texto perfeito! Algo que está na cara, mas que muitos não querem ver, justamente porque começariam a aparecer outras e outras situações que exigiriam mudanças.
    Mas me prendo a algo que pouco está sendo explorado: como poderia o estádio ter condições de jogo até dezembro passado? Como outros espaços que estão sendo fechados tiveram tranquilo funcionamento até a véspera da tragédia?
    Pra ficar mais claro e direto: quando é que vão aparecer os podres da atuação do corpo de bombeiros e das vigilâncias, as influências e os motivos que levavam locais sem condições (como agora estão sendo declarados) a livremente funcionarem?
    Sigo batendo na tecla. Em Pelotas, há uns 5, 6 anos, ocorreu um período em que os três estádios estavam interditados em pleno início de temporada. Várias vistorias em cada local e, curiosamente, correções feitas, apareciam novas exigências. Até que um blogueiro denunciou: se contratassem a empresa de propriedade de um então membro da corporação, em pouquíssimo tempo haveria liberação. Uma emissora de TV local chegou a tocar no assunto e prometer uma matéria no dia seguinte. Porém, na edição posterior, não se tocou no assunto e a dita empresa apareceu, curiosamente, como patrocinadora do programa esportivo! Algumas semanas depois, com muita luta e muitas alterações, algumas absurdas, conseguiram liberar os estádios às vésperas das estreias.

  5. Se a dor não corrige as distorções, pelo menos propulsiona a poesia.
    Baita texto, tchê. Cumprimentos solidários.

  6. Fernando Prietto Pinto diz:

    Muito bom texto. Retrata bem a situação do futebol do interior gaúcho (não gaúcho) e o descaso da federação em relação ao clubes do interior. Outro exemplo são os MILHÕES de reais destinados a dupla de Poa por um banco estatal, diversos xavantes, torcedores do São Paulo, Rio Grande, Pelotas, etc, com conta neste banco, financiando-o através de seus impostos e o dinheiro só vai para os dois da capital como se todos os gaúchos torcessem exclusivamente para esses dois. A RBS é outra responsável por esta terrível situação do futebol do interior, afinal, quantas vezes um jogo de um time do interior foi transmitido sem ser contra Gremio ou Inter, como uma criança vai conhecer um time do interior, se nunca ouve falar??? A situação dos clubes do interior não é por causa de amadorismo dos dirigentes ou da população mas sim por estas razões.

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