Sobre domingos de tempos estranhos

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Eram tempos estranhos aqueles, embora começássemos os domingos como todos os outros. A ressaca se manifestava através das dores de cabeça, reflexo do álcool ou de qualquer outra substância que pudéssemos ter consumido na noite anterior. Não raros eram os dias que iniciávamos tendo a garrafa de água como fiel companheira, já que a cerveja e todas as outras bebidas foram consumidas na véspera, enquanto se gastava um pouco de trova – e saliva, com todo direito ao duplo sentido – com aquela guria de Rosário (Ou seria Santa Cruz? Livramento, talvez?). Era normal também acordar e presenciar aquela movimentação típica dos dias em que pouco ou nada se faz a não ser reunir a família. Claro que essas reuniões sempre vinham acompanhadas de um bom churrasco, tão natural quanto a bola cruzada na grande área que espera pelo encontro com o centroavante.

A costela estalando no fogo com o cheiro típico invadindo a casa, ainda que acompanhado da fumaça; o chimarrão passando de mão em mão e a televisão ligada em qualquer jogo de futebol (quando isso não gerasse briga entre a parentada ávida pelo controle remoto) eram cenas corriqueiras. Assim se passavam os domingos: entre um mate e um pedaço de costela de ovelha; entre o gole de cerveja oferecido por um interlocutor desavisado e tão logo negado veementemente, ainda devido às reminiscências da memória ressaqueada da noite anterior; entre a avó que reclama das dores nas costas e aquela prima gostosa que chegava sempre atrasada, ora reclamando que terminara com o namorado, ora reclamando que para ele não deveria ter voltado. Entre um dia e outro, entre uma tarde de fim de um fim de semana qualquer e uma noite de quarta-feira, tudo era tão trivial quanto os dias – e os churrascos – de domingo.

E passavam-se assim os domingos. Domingos esses em que saíamos de casa, e que continuava para cada um que descia a Rua Sete em Santa Maria, e se dirigia para o Estádio dos Eucaliptos, procurando um lugar próximo ao pavilhão, para tentar não receber na cabeça o sol das três da tarde do domingo. Ou domingos que eram especiais para aqueles que rumavam ao Presidente Vargas e se acomodavam próximos ao banco de reservas dos visitantes, com o único intuito de desestabilizar o trabalho alheio. Domingos esses que eram de futebol, na sua essência, para Inter-SM e Riograndense. Domingos que eram tão diferentes. Domingos de tempos estranhos, convenhamos. Por que eram domingos em que nos permitiam o que hoje já não parece tão trivial: o direito de ver – e de ter – futebol. Vejam só, que tempos estranhos aqueles.

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Eram domingos de futebol, aqueles. E hoje não mais o são. Hoje, quem acordar de ressaca, tentando em vão lembrar da guria de – porra, de onde era mesmo? Enfim, quem for à mesa nesse domingo à tarde, saborear um pedaço de VAZIO aguardando pelo momento de rumar ao estádio da sua cidade, onde o time do Interior que sempre acompanhou, seja ele o que ostenta as cores branca e vermelha, ou aquele que leva em seu fardamento o verde ferroviário, não o poderá fazer. E experimentará o vazio amargo, indigesto – diferente daquele do almoço – de estarmos privados do futebol santa-mariense.

Como já havia escrito aqui em outra oportunidade, quando o Riograndense teve seu estádio FECHADO PARA A PRÁTICA DO FUTEBOL (porque nos é “vetado” o uso do termo INTERDIÇÃO, como se o eufemismo servisse para amenizar a gravidade do fato), dessa vez quem está privado de mandar suas partidas em casa é o Inter-SM. O jogo entre Inter-SM x Brasil de Farroupilha está suspenso, como foi suspenso na última semana a partida entre Riograndense x Brasil de Pelotas, que ocorreria nos Eucaliptos. Não há, como houve naqueles domingos, aqueles em que rememorávamos no início do texto, futebol em Santa Maria. Domingos de tempos estranhos esses.

A suspensão do jogo do Inter-SM, no entanto, se deu de maneira diferente da que impediu a realização do jogo do Riograndense na semana passada. Naquela oportunidade, a vistoria técnica dos Bombeiros encontrou na famigerada Resolução Técnica Número 17, tão incansavelmente debatida em Santa Maria nos últimos dias, uma série de irregularidades que impediram a realização do jogo entre Riograndense x Brasil de Pelotas. Desta vez, sequer houve a vistoria. O Corpo de Bombeiros não realizou no Estádio Presidente Vargas a conferência que seria necessária para liberar ou não o estádio. Portanto, sem vistoria, a diretoria colorada não encontrou outra solução senão adiar a partida do fim de semana.

O que está acontecendo em Santa Maria, nos estádios de Inter-SM e Riograndense, é uma espécie de paranóia fiscalizatória – e, ainda que a Baixada não tenha passado por fiscalização, a contradição é aplicável. Como que para compensar uma série de erros prévios, ou uma vã tentativa de mostrar à opinião pública o trabalho sendo feito, com rigor que em outra oportunidade não houve. O Corpo de Bombeiros e os órgãos responsáveis tentam encontrar uma maneira de demonstrar que agora preza incessantemente pela segurança. Tudo isso em função de outro domingo estranho e fora do normal em Santa Maria.

Mas aquele domingo não era apenas estranho. Era um domingo de irresponsabilidade, de insensatez, de negligência e de tudo que há de mais podre na conjuntura de fatos, envolvidos e responsáveis que levou ao trágico acontecimento. Naquele domingo e posteriormente, até agora, quando há pouco se divulgou o resultado final do inquérito referente ao incêndio da Boate Kiss, no dia 27 de janeiro, pôde se perceber toda a falta de preparo e de atenção por parte de órgãos públicos e dos responsáveis pela fiscalização. Alguns deles, como o bombeiro Vagner Guimarães Coelho, que esteve no Estádio dos Eucaliptos tão de perto cobrando com rigor e afinco as melhorias absurdas através da norma técnica, foram também indiciados no inquérito divulgado na última sexta-feira, dia 22.

Não houve vistoria no Estádio Presidente Vargas. Não sabemos quando vai haver. O Corpo de Bombeiros não se manifestou em relação a possíveis datas. Essa vistoria deveria ter acontecido até a última sexta-feira, para que se houvesse tempo hábil de realizar o jogo. Coincidentemente, data também da entrega do inquérito das investigações referentes ao incêndio na Boate Kiss. Com os indiciamentos, também foi anunciado o afastamento do comandante dos bombeiros da Região, o Tenente-Coronel Moisés da Silva Fuchs.

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Em função disso, há uma série de dúvidas que rondam os estádios santa-marienses. Quando o Estádio dos Eucaliptos será liberado? Quando a Baixada será vistoriada? E, quando for, teremos o mesmo rigor aplicado ao Riograndense através da Resolução Técnica 17? Ou já terá diminuído a vontade de se mostrar serviço através da fiscalização? E o estádio dos Eucaliptos será liberado quando a onda de fiscalização diminuir o seu ímpeto de exigências? Aliás, por que outros estádios do Estado não foram fiscalizados com o mesmo rigor? Seria porque, de fato, apenas a cidade tenta compensar com a fiscalização posterior aquelas fiscalizações não executadas anteriormente? Aguardemos. Por ora, Santa Maria segue sem futebol.

Mas o que deve haver, acima de tudo, é um pouco de bom senso e uma grande dose de responsabilidade. Responsabilidade para que não se repitam fatos como esse. Bom senso para que voltemos a ter futebol em Santa Maria. Mas acima de tudo, bom senso e responsabilidade para que possamos viver domingos melhores.

Nicholas Lyra

Publicado em Divisão de Acesso 2013, Inter SM, Riograndense-SM, Série A2 2013 com as tags , , , , , , , , , , , . ligação permanente.

5 Respostas a Sobre domingos de tempos estranhos

  1. Fred Salomão diz:

    BAITA TEXTO

  2. Transmitir indignação é fácil, basta deixar a raiva pulsar pelas palavras. Mas traduzir a inconformidade a partir dos sentimentos que se perdem, dos vácuos formados em nossa vida, é para poucos. Parabéns pela forma e sobretudo pelo conteúdo deste texto, Nicholas. Aliás, o Toda Cancha, além de última trincheira da paixão singela, será ainda o último território militar ocupado pela boa crônica esportiva. Anotem aí

  3. Difícil comentar qualquer coisa depois do que o Fabrício escreveu logo acima. Baita, Nicholas.

  4. Vinicius Azevedo diz:

    Esse é o meu guri. Baita texto, home véio. Os primeiros 241 vazios, pelo que parece, não foram suficientes para quem teve responsabilidade direta e indireta nos fatos do domingo mais estranho de todos. O resto do estado tem futebol porque não teve um domingo tão estranho quanto este, já que algumas praças esportivas do nosso tão prezado futebol do interior, são piores ou muito piores do que a Baixada Melancólica e o reformado Eucaliptos.

  5. Daroit diz:

    Perfeito. Tão querendo remediar – como se tivesse remédio aquilo – o descaso de antes com esse excesso absurdo de agora. E aquele panaca daquele Schirmer, que não se mexe pra nada, tá aonde que não intercede, NUNCA, em prol de seus clubes?

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