Clubes inativos – Guarany de Cruz Alta (2ª Fase: 1942-1974)

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Lino Ceretta faz uma pausa, respira, nos oferece algo para beber, que educadamente aceitamos. Após esse momento, Lino diz: “agora vem a parte que eu vivi e que para mim é uma das mais especiais da história do Guarany – a era em que eu fui jogador”. Também pudera, Lino é o mais destacado arqueiro da história índia, o segundo atleta que mais disputou partidas pelo clube.

Enquanto disputava partidas pelo clube da Taba índia, Lino estava no exército, em um tempo no qual ser jogador profissional full time era quase inconcebível. Aos 20 anos de idade Lino fez sua estreia no arco índio, e lá ficou por 12 anos. O grande talento foi reconhecido por outros clubes: “em 1955 recebi uma proposta para jogar no Renner, o grande clube gaúcho da época. Mas já estava estabelecido aqui em Cruz Alta, tinha o exército, era ídolo aqui, tinha namorada e tudo mais. Então fiquei aqui”. Bela escolha Lino, bela escolha.

Foi uma época de glórias para o Guarany. Pode-se dizer que houve inclusive certo domínio índio no interior do Estado. Tirando os poderosos e ricos clubes da capital (Inter, Grêmio e Renner), o Guarany tocava terror e sagrou-se entre as grandes potências do futebol gaudério. Lino foi protagonista naquela época, e suas memórias reconstroem e mantém vivo todo esse tempo de glórias.

A volta do Jequitibá da Serra

O ano de 1942 marcou a volta do glorioso Guarany. Muita coisa tinha mudado em Cruz Alta. Apesar de 13 anos escanteado, o clube índio não deixou de operar, ainda que na surdina. Nesse ano, mais precisamente no dia 23 de Agosto, a nova Taba Índia é inaugurada, com direito à benção do Sr. Presidente da República, Getúlio Vargas, que emitiu nota oficial parabenizando a diretoria. Êta pavilhão alviazul! A partida inaugural foi contra o Riograndense, e os ferrinhos mostraram que a inatividade enferrujou o Guarany: 2 a 1 para o clube dos ferroviários, nada que estragasse a festa.

Um mês depois, foi a hora do primeiro confronto do que seria uma das rivalidades mais xucras do futebol gaúcho – o Gua-Nal. Um espetáculo: o primeiro tempo foi de domínio índio em absoluto, 3 a 0. Porém, os amarelos avançaram na segunda etapa e empataram por 3 a 3. Sem pauleira como nos tempos de Arranca-Toco, porém não é possível dizer que foi um resultado amargo que perpetraria na richa entre ambos. O ano de 1942 também foi primeiro de competições oficiais em 13 anos. O Guarany venceu o Torneio Início, porém o citadino não foi tão feliz, culminando com uma derrota por 5 a 3 para o Riograndense.

A volta dos títulos e o início da rivalidade com o Nacional

Não havia dúvidas: o Guarany ainda não havia voltado com todo o gás que a torcida esperava. Riograndense e Nacional dominaram os certames, e o clube índio não conseguia alcançar as glórias de outrora. Em 1944 o Nacional sagrou-se Campeão da Serra, vencendo o 14 de Julho de Passo Fundo e indo disputar as finais do estadual amador em Porto Alegre. Em 45, o ferrinho foi mais longe: sagrou-se vice-campeão estadual. Porém, 1946 marcou a volta de um título de relevância para o Jequitibá da Serra: o citadino.

Reinserido nas campanhas vitoriosas, passa a florescer uma rinha história entre o Nacional e o Guarany. Em 1947 a relação entre as equipes andava estremecida. Até o próprio Érico Veríssimo foi a Cruz Alta, para plantar um Jequitibá na sede do clube índio e tentar intermediar as pazes entre as esquadras.  Muito bochincho, jogos disputados e peleias dentro de campo e dos pavilhões culminaram com o título citadino do Nacional, que emendou uma sequencia de quatro troféus conquistados em sequencia (47,48,49 e 50). Nos anos seguintes, os clubes revezariam os títulos citadinos, mas o grande momento do futebol cruzaltense ainda estava por vir.

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A era dos grandes títulos

O ano de 1954 foi muito especial para o Guarany. Foi nesse ano que lino estreou na equipe principal do clube índio. “Eu estava nervoso, fazia dois anos que o Nacional ganhava os citadinos e estava na hora de darmos o troco”. No dia 21 de março de 1954, Lino, ao lado de Alma e Capucho, mais à frente Jaime, Prinche e Russinho (esse mesmo!), fechando com a linha ofensiva de cinco composta por Bastos, Perereca, Tatu, Telmo e Eloy, levaram o Guarany à vitória por 5 a 2 sobre o Gepo em Tupã. Foi a estreia do jovem goleiro.

Em 1955, mas valendo para as competições de 1954, o Guarany sagra-se campeão da cidade e da região sobre seu maior rival, o Nacional, vencendo por 3 a 1 no Morro dos Ventos Uivantes e por 2 a 0 na Taba Índia, considerado por Lino como um dos maiores jogos de sua carreira. Porém, a maior emoção ainda estaria por vir. Após concentrar-se no Estádio dos Eucaliptos, reduto do Internacional de Porto Alegre, o Guarany irá disputar a segunda divisão de profissionais (uma observação: não havia, propriamente, uma primeira e uma segunda divisão como há hoje. O Gauchão da primeira divisão de profissionais era dividido por regiões, assim como o da segunda, mas não havia propriamente uma divisão de acesso como ocorre atualmente). Uma peleia braba: terá que enfrentar o Atlântico de Erexim, o Esportivo de Bento, o Flamengo de Alegrete e o Estrela. Após acabar a primeira fase com três vitórias e uma derrota (para o Esportivo), o Guarany disputa dois jogos finais com o Atlântico, empatando o primeiro jogo por 0 a 0 e vencendo o segundo por 1 a 0, gol de Tatu.

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O time que entrou para a história: Lino; Alma de Gato e Baratinha; Jaime, Capucho e Russinho; Tatu, Perereca, Chimbé, Telmo e Eloy, com participação de João do Prado, Ivo, Laury, Maneco, Perequeté e Prinche, treinados por Moacir Carvalho Silveira. Uma glória para todo o Alto Jacuí! Segundo Lino, “foi realmente um acontecimento que movimentou a cidade inteira. Só a morte seria capaz de tirar essa lembrança fantástica, dos jogos, esses 23 dias que estivemos em Porto Alegre. Desfilamos em carro aberto, pelas ruas principais, fomos recebidos com um coquetel, e bem na época do Carnaval. Foi uma alegria para a cidade toda!”.

Em 1955 o Guarany vence mais um citadino e mais um título da Serra. As finais do estadual foram em Lejeado contra o forte e tradicional Lajeadense. O primeiro jogo foi em Cruz Alta, uma vitória por 2 a 0, com o time índio desfraldado em amarelo (pasmem!), mas o do Missioneiro, dada a semelhança com as cores azul e branca do time do Vale. A volta foi na terra da Fruki, em uma das melhores partidas que Lino disse já ter disputado, o Jequitibá da Serra venceu o Alviazul por 4 a 3, sendo aplaudido no hotel inclusive pelos adversários lajeadenses, um dos maiores reconhecimentos pela bela partida do Guarany e um dos mais belos gestos que Lino afirma já ter visto no futebol. Mantendo o mesmo elenco da conquista anterior, o Guarany sagra-se bicampeão da 2ª divisão de profissionais.

O ano de 1956 trouxe mais um citadino e um vice-campeonato estadual ao Guarany, perdendo para o Glória de Carazinho na final. Foi a última vez nesta fase da história do time índio que o Guarany chegou à final do Estadual. O ano seguinte foi do Nacional: o Leão da Serra foi campeão citadino e da Segunda Divisão de Profissionais, vencendo o Lajeadense. Indubitavelmente, foi uma das maiores fases do futebol cruzaltense em geral.

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O revezamento no citadino e a despedida de Lino do futebol

Entre 1958 e 1971 houve um revezamento de títulos entre Guarany, Nacional e Riograndense. O clube índio foi campeão em 1958, 1963 e 1966, o Nacional em 59, 60 e 71, e o Riograndense em 64 e 65. Os títulos de 61 e 62 foram decididos apenas em 1963, com vitória do Nacional, sendo que, oficialmente, o Leão da Serra também é campeão de 61 e 62.

Em 1964, Lino foi jogar no Riograndense, já que o Guarany não disputou nada naquele ano. No clube ferrinho foi campeão citadino, sendo o primeiro após um jejum de 19 anos. Não durou muito tempo a passagem de Lino pelo Riograndense, já que no ano seguinte o Guarany retoma as atividades.

O citadino de 1966 marcou a despedida de Lino do futebol. Jogando pelo clube índio, ele conquistou o título e deixou o futebol, uma decisão tomada com muito pesar, mas com muita consciência, segundo Lino. “Assim, pude me dedicar muito mais a minha família e a meu trabalho. Porém acho que nunca deixei de servir ao Guarany e ao futebol de Cruz Alta, basta ver os livros que fiz.” Serve até hoje Lino, sua obra fica para o futuro!

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O fim do citadino e a Acafol

Voltando ao futebol, o Guarany permaneceu com as portas fechadas em 1967, 1969 e 1970.  Aliás, em 70 não houve competição oficial em Cruz Alta, mostrando que os tempos de glória do futebol naquela cidade poderiam estar no final. O ano de 1971 marcou o último citadino da história, vencido pelo Nacional perante um clube índio esmorecido.

Porém, a situação para o Nacional não era fácil. Em 1972, os rivais históricos se fusionam para tentar sobreviver, formando assim a Acafol (Associação Cruz Alta de Futebol). A equipe disputou em 1972 e 73 a primeira divisão gaúcha. Contudo, a falta de estrutura acabou culminando com o fim da equipe após apenas três temporadas funcionando. Pior para o Guarany, já que o estádio utilizado pela Acafol foi o Morro dos Ventos Uivantes, ficando a Taba Índia abandonada.

Até o ano de 1985, o Guarany permaneceu quase que totalmente inativo. O esforço estava em tentar manter o patrimônio do clube intacto e buscar viabilizar uma nova era dentro do futebol. Porém, o que ocorre depois, é história para a última parte deste especial. Até breve!

Histórias do Lino

“Em 1942 o Brasil estava se preparando para ir à Guerra, e o Governo Federal lançou a famosa campanha do Ouro Para o Brasil. Assim, as pessoas que queriam colaborar doando jóias para o exército poderia fazê-lo. E o Guarany não ficou de fora: doou todos os seus troféus para ajudar a campanha armamentista. Lá se foram para a fornalha toda uma história gloriosa de 16 anos de muita peleia e dedicação de grandes atletas. Talvez na época fosse a escolha certa, mas hoje todo esse acervo faz muita falta. Também foi para o beleléu quase todos os troféus depois que a Taba Índia foi abandonada com o surgimento da Acafol. Só sobraram os troféus de 54, 55 e o citadino de 63. Lamentável.”

“O Guarany empatou como Gepo, de Tupanciretã, em 1 a 1. Mas o que as pessoas mais lembram é da peleia que deu no fim da partida. Foi uma luta campal muito triste. Facas, cadeiras, sarrafos, ripas, paus, pedras, qualquer coisa que pudesse machucar. Dona Isabel Vaz, esposa do Epaminondas Vaz, um dos homens mais importantes na história do futebol cruzaltense, foi atingida no rosto por um golpe de espada, e o próprio Epaminondas não foi morto com um facãozaço nas costas porque o Diabinho, Sargento Luiz Carlos Vidal, o salvou. O jornal Diário Serrano até comparou o jogo com a Guerra da Coreia. Um exagero, mas mostra como a peleia deve ter sido feia.”

“Em 1956, pelo citadino, eu era goleiro titular do Guarany em uma partida contra o Nacional e, aos 32 do segundo tempo, fui violentamente atingido no rosto por Advasson, atacante adversário. Até acho que foi sem querer, mas deu um estrago feio. Quebrei o nariz, perdi parte da cartilagem, bem como o maxilar superior. O Advasson quase foi linchado pela torcida do Guarany, queriam o coro dele. Só pode sair do estádio escoltado pela polícia. Mesmo assim, ganhamos por 2 a 1. O Perereca entrou no gol no meu lugar, já que não havia substituição. Fiquei dois meses parado. No final da recuperação, resolvi dar uma fugidinha das recomendações médicas e da mãe e fui jogar o citadino. Ainda bem que joguei em bom nível, vencemos o citadino e creio que foi uma das melhores partidas da minha vida. Saí ovacionado de campo. Foi muito emocionante.” 

“No Estadual de 1958 foi cometida uma grande injustiça conosco. O Guarany empatou com o Elite de Santo Ângelo por 2 a 2 e, posteriormente, venceu por 2 a 0. nós estaríamos indo adiante no Estadual. Mas a Federação deu um canetaço, já que o árbitro oficial não estava presente. Porém, quem apitou aquele jogo foi um cara de Santo Ângelo mesmo, e nem assim eles ganharam. Aí o que aconteceu: tivemos que jogar de novo lá em Santo Ângelo, irritados pela viagem, pela decisão da Federação, chegamos no laço e perdemos por 5 a 1. Um dos momentos mais desagradáveis da minha carreira.” 

Um registro próprio!

Encontrei seis registros de partidas entre o extinto Piratini, de Panambi, contra o Guarany nesta segunda fase do clube índio. Eis os resultados:

18-05-1969: Piratini 2 x 2 Guarany

17-04-1966: Piratini 2 x 1 Guarany

13-03-1966: Piratini 2 x 5 Guarany

07-03-1965: Piratini 2 x 3 Guarany

25-05-1963: Piratini 3 x 4 Guarany

13-08-1961: Piratini 1 x 5 Guarany

Um abraço,

Vinícius Fontana

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8 Respostas a Clubes inativos – Guarany de Cruz Alta (2ª Fase: 1942-1974)

  1. Régis diz:

    Sempre fico feliz em ler algo do Guarany, baita texto!

  2. Bassa diz:

    Coisa linda. Me entristece os clubes morrendo e os otários do interior dando seu dinheiro para os times da capital.

  3. Balejos diz:

    Fontana, acabei de ler um dos MELHORES artigos que este espaço já abrigou. Trabalhos como o feito por ti justificam a existência do TC. Abraço!

  4. José Bitencourt diz:

    Fiquei emocionado com a leitura do texto. Sou torcedor do Guarany, tive dois tios meus que jogaram no Guarany. Guardo com grande orgulho duas camisetas do Guarany e tive a oportunidade de conviver com o grande Lino Ceretta no exército e como vizinho, eu morei na Vila Rocha, posso dizer que é uma das pessoas mais sensacionais que conheço, ser humano de qualidades superiores. Parabéns pelo texto e um grande abraço ao Lino Ceretta, quando eu for a Cruz Alta irei fazer uma vizita a ele.

  5. Vejam que coisa sensacional o estilo do uniforme do Guarany na última foto, num desenho que acho que a Kanxa veio a fazer coisa parecida, mas só nos anos 90. No mais, cara, esse tipo de texto histórico é sempre do caralho.

  6. Vinícius Fontana diz:

    Gracias BAGUALADA! Em breve o derradeiro texto que encerra a série

  7. Carlos Eduardo Illa font Barbosa diz:

    Boa noite, parabéns pelo site,pelas historias deste que foi um dos maiores clubes do nosso interior,meu pai foi jogador do Guarany,e vendo estas fotos e historias me emociono.Parabéns e abraços.

  8. Telmo Fortes diz:

    Moro em Florianópolis, mas nasci e me criei em Santo Ângelo, onde sempre torci pelo Gremio Sportivo Santoangelense. Tenho 61 anos, o que significa que me dei por gente nos últimos anos do futebol do interior do RGS. Recordo que tinha medo dos times de Cruz Alta, talvez porque a cidade fosse maior do que Santo Ângelo.
    Mas os jogos eram sensacionais. Nada foi e nada será melhor do que aquilo que vivenciamos. A sua matéria me tocou a ponto de me cortar o coração e me judiar a alma. Vi por ela que o drama cruzaltense foi o mesmo que sofremos na Capital das Missões, do Grêmio. do Elite e do Tamoio.
    Um grande abraço e respeitosas saudações.

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