Para não perder a honra de ser medíocre

aIMG_0514Há um vício de linguagem que, além de irritante, catapulta os falantes a um patamar de eficiência incompatível com usuários de vícios de linguagem. Falo da tentativa de ofender alguém com o adjetivo medíocre. Ora, como o radical da palavra já deixa supor, medíocre é quem está na média, sem fazer nada que o distinga do grosso da massa, nem para o mal, tampouco para o bem. Seríamos um país muito melhor, quase a Suécia, se todos xingados de medíocre não estivessem distinguidos justamente para baixo, num limbo entre a preguiça e a incompetência.

Bem, quero dizer que os medíocres, dentre os quais me incluo, cumprem um papel social fundamental. Se o universo de medíocres carentes de autoconhecimento almejasse o poder, viveríamos o caos selvagem de Hobbes, aquele filósofo diz que somos os lobos de nós mesmos. O medíocre, quando ciente das suas limitações, dá equilíbrio à sociedade. Não seria exagero dizer que são eles, os medíocres, os fiadores da paz.

Feito o preâmbulo elogioso à minha classe, vamos a umas metaforazinhas de futebol. Como jornalista, nunca trabalhei em nenhum dos três maiores jornais do país. Salvo nos tempos de estagiário, também jamais dei expediente em redações abaixo da 30ª posição desta lista, que toma como base a circulação diária. Se eu fosse um jogador espanhol, por exemplo, seria titular do Getafe ou banco no Sevilla, a caminho do Rayo Vallecano. Uma carreira medíocre e, por isto mesmo, justa.

Sinto-me lúcido por saber que as pessoas se posicionam no mercado, inclusive o da bola, segundo um coquetel de habilidades e relacionamentos. Porque um inepto, por mais que tenha amigos, nunca vai enganar para sempre. Uma hora será chamado de medíocre não por merecimento, mas por vício de linguagem. Graças a tal compreensão, sei que nenhum moleque que sonha em ser jogador de futebol imagina o futuro no Brasil de Pelotas. Até os meninos xavantes têm autoestima suficiente para não desejar tamanho infortúnio para si mesmos.

Amo aquele clube, preciso dizer. Dos acontecimentos ocorridos sobre a grama em todas as galáxias, os protagonizados pelo Xavante são os mais importantes para mim. Mas não posso exigir o mesmo de quem trabalha lá. Tenho total consciência de quem é funcionário do Xavante foi conduzido até lá por algo definido em língua portuguesa por, olha que coincidência, mediocridade.

Talvez pela clarividência de reconhecer a própria envergadura, compreensão comungada não só pelos xavantes, mas imagino pelos demais leitores deste espaço, não trato o futebol como extensão da firma, onde o resultado é o mais relevante de tudo. Sinto um prazer enorme simplesmente por meu clube existir.

No dia da estreia na Copa do Brasil contra o Atlético-PR, a quarta-feira ganhou outro contorno. Passei a jornada imerso numa ansiedade sem fim. Como ser xavante não é tarefa para fracos, o jogo foi marcado para as 19h30, justo no dia em que, graças ao rodízio em São Paulo, não posso usar meu carro à tardinha. Tive de fazer um chinelinho para o chefe, sair do trabalho uma hora antes, cheirar sovacos num busão lotado para, depois de uma hora e meia, enfim ver o Xavante em campo na Fox Sports. Dois outros parceiros xavantes aqui de Sampa já estavam lá em casa, me esperando. Por sorte e senso de preservação do patrimônio, escondi as coisas de valor antes…

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Bem, desta experiência, emergi com duas convicções: 1) quem vê o Xavante em HD, e continua xavante, merece PhD em teimosia e 2) não sei mais que esporte o Brasil de Pelotas disputa. Há umas boas cinco temporadas, mesmo com hiato teológico-pagão entre Athos e Marcos Paraná, o Xavante aboliu o meio-campo. Todas as bolas chegam à área pelo alto, errantes como um míssil nuclear da Coreia do Norte. O que já é algo surpreendentemente alvissareiro, visto que partiram das chuteiras de um zagueiro apavorado. Dos dois últimos jogos que vi inteirinhos, contabilizei um chute a gol. Média de um arremate a cada 180 minutos. No rúgbi, que se joga com as mãos, rola muito mais chute preciso.

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Sei que a turma vai me chamar de corneteiro, de mau xavante e o escambau. Muita gente acha que ser torcedor é lamber as botas do clube em público e sofrer em silêncio, sozinho, sendo desonesto consigo. Mas há algo de muito estranho quando o cara, em vez de rolar a bola carinhosamente até o companheiro que está dois metros ao lado, prefere rifá-la e dar o contra-ataque ao adversário. O que fazem estes caras a semana inteira, quando, volta e meia, como um adolescente apaixonado, me pego matutando como estão as coisas no Bento Freitas?

Sei lá, vejo aí um sinal que o Xavante, aos poucos, está deixando de ser um digno lugar para os verdadeiros medíocres. Estamos nos tornando um clube para os medíocres aqueles, do vício de linguagem.

Não me preocupo com resultados, nunca me preocuparei.

Mas morro de medo que deixemos de existir.

Fabrício Barcelos Cardoso

A primeira e a terceira fotos são do site oficial do Grêmio Esportivo Brasil, enquanto a segunda foto é do arquivo pessoal do escritor. 

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16 Respostas a Para não perder a honra de ser medíocre

  1. pedrohckruger diz:

    Seu medíocre! haha

    Baita texto, Fabrício. Valeu! :)

  2. Giaretta diz:

    Eu diria até que torcer para um time pequeno é um passo a mais na escala evolutiva, é aceitar o papel medíocre do ser perante a vida e conseguir conviver bem com isso.

  3. Daroit diz:

    Que texto lindo, cara. Somos todos felizes com nossa mediocridade.

  4. Franco Garibaldi diz:

    Pior que tem muito disso de torcer pra um clube ‘grande’ como forma de emular um sucesso que o sujeito nunca terá em vida, Sharlei. Mas comento isso aqui apenas. Se faço esse tipo de comentário em outro lugar, é capaz dos “medíocres (aí sim, no vício de linguagem) raivosos” irem atrás da minha folha corrida pra me destratar, como já ocorrido com o Darroá.

    Baita texto, Fabrício! Eu fui um que fui nos rascunhos olhar antes da publicação :D

  5. Luiz Eduardo Kochhann diz:

    É daqueles textos que, depois daquela típica leitura desatenta, você vai até a cozinha completar a xícara com café para, de fato, voltar e aproveitar cada linha. E ainda fica com a cabeça girando, querendo estar num bar discutindo essa porra toda. Maldita vida. .

  6. Matheus Almeida diz:

    “Mas morro de medo que deixemos de existir.”

    Essa frase resume o sentimento de qualquer torcedor de clubes do interior.

    Belo texto!

  7. Mariana diz:

    ótimo texto. de fato, deixar de existir é a questão para nós, os pequenos. E que praticamos outro esporte eu desconfio faz tempo.

  8. Juliano diz:

    Como é bom ler algo bem escrito. Idéias coordenadas, com nexo… Parabéns!

    Me deixe defender a mediocridade (a da figura de linguagem) do nosso meio-campo!?
    Ja melhorou muito! O jogo de ontem era exceção, devido à diferença técnica. Entre os “medíocres” (reais), entre os nossos “pares”, estamos, na medida do possível, bem. ;)

    Parte que mais me identifiquei: “No dia da estreia na Copa do Brasil contra o Atlético-PR, a quarta-feira ganhou outro contorno. Passei a jornada imerso numa ansiedade sem fim.”

  9. leonardo diz:

    Posso te dizer que somos muito felizes com a nossa mediocridade hehehe!

  10. Natan Dalprá Rodrigues diz:

    Que texto meu amigo!

    Somos todos muito medíocres mesmo e não pretendemos mudar, felizmente.

    E esse medo que te assola paira em nossas cabeças durante cada jogo. Mas a fé em nossa causa é maior do que qualquer temor.

    Avante!

  11. Renan Cacioli diz:

    Confesso que, após acordar com uma ressaca futebolística daquelas, invejo os medíocres puros de alma. Devem ser mais felizes e unidos. Belo texto, meu caro.

  12. Ismael Lavallos diz:

    Como é bom ler algo bem escrito. Idéias coordenadas, com nexo… Parabéns!

    Faço meus os elogios, ótimo texto! E sempre vou saudar um texto bem escrito, nesses tempos em que o português se torna cada vez mais informal e… MEDÍOCRE!

    Falando nisso, a colocação sobre mediocridade está perfeita, enxergo da mesma forma há muito tempo.

  13. Aroldo Garcia diz:

    Arrancou-me buenas, mas nostálgicas risadas o “hiato teológico-pagão entre Athos e Marcos Paraná”.

    Partilho de tua ansiedade – tanto a relativa à nossa existência quanto a que nos perturbou numa quarta-feira de labuta em SP. Cheguei até mesmo a me perguntar no dia, em um pico de euforia: e se o Xavante jogasse sempre jogos deste nível, o que seria feito de mim? Mas acabei por me reservar à minha mediocridade e evitei respostas.

    Ainda que não acreditasse na possibilidade de uma vitória, passei o dia com aquela incômoda certeza (admito preferir que não a tivesse) de que, em última instância, os homens em campo não seriam mais do que meros homens em campo. O que, em miúdos, se diz: são onze contra onze a disputar uma peronha.

    Essa incômoda certeza – derivada da esperança – continuará, para prejuízo de nossos nervos, a se manifestar em doses homeopáticas num crescendo até que o dia 17 chegue nos trazendo algum alívio.

    Baita texto!

    Abração!

  14. marcelo flores diz:

    po cara que saudade e tu sabes eu conheço esta tua alma chavante des de guri e uma satisfação ver que o amigo fes muitas trocas na vida mas sempre fiel a teu brasil e quanto ao texto não vou elogiar para mim que me criei comtigo não e novidade saberes espressares nas palavras tão bem pois este e o teu grande talento não trabalhastes em grandes jornais e ai quantos mediocres trabalhão para mim tu ainda es o dido luisinho osvaldo bira jr brasilia mila um grande idololo afinal um abr marcelo e familia

  15. Grande Marcelo Machado Flores, vulgo Ortiz Ortega, o maior centroavente que o Sete já viu desfilar, meu amigo de infâncias, das tardes jogando botão. Tchê, maravilhoso poder te reencontrar por aqui, depois de tantos anos. Por favor, cara, me dá teu e-mail. Quero muito manter contato contigo e, quem sabe, marcar uma revanche de botão quando for ao Portinho. Saudade da nossa infância no inolvidável Sebá, ZN, Porto Alegre!

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