ENTRINCHEIRADOS

kaiser

– AQUI NÃO, FAIXA AQUI NÃO!! – bradava a senhora, para lá dos 50 anos, com radinho em punho.

Ao seu lado, um homem, na mesma faixa de idade, também radinho em punho, lança um olhar de desprezo e ameaça levantar.

– SENTA AÍ, SENTA AÍ! – prontamente responde o brigadiano, apenas alguns degraus acima, sendo devidamente atendido.

Um senhor mais sensato, em tom conciliador, decide intervir.

– É melhor vocês não ficarem por aqui. Falem com o policiamento e peçam para serem deslocados para o outro lado.

Nas arquibancadas do Nicolau Fico, embretados entre uns 700 torcedores do Farroupilha e nada além do que muros e cercas, nenhuma rota de fuga disponível, os três torcedores do Ypiranga ainda tinham 80 minutos de futebol pela frente.

Estávamos tomados pelo receio. Pela inevitabilidade FÍSICA: toda ação desperta uma reação. Cientes de que qualquer movimento brusco poderia provocar um movimento, não podíamos imaginar qual, em sentido contrário. Afinal, invadíamos, tomávamos de assalto o espaço alheio. Aliás, fomos além, tivemos a ousadia de amarrar nossos cavalos no obelisco. Marcamos território. Estava formada a contenda. Arregamos, então, e fomos atendidos pelo COMANDANTE do policiamento. Não seríamos deslocados para um espaço pra chamar de nosso. Mas uma linha de meia dúzia de brigadianos formou-se para nos separar do resto. É nesse ponto que qualquer receio se esvaiu e, tomados pela confiança, demos lugar a imaginação e ao alento.

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Mas essa história inicia ainda antes de colocarmos nossos olhos em frente aos acontecimentos daquela tarde, naquele estádio, no bairro Fragata. Tudo começa por um título monárquico soberano: Kaiser é sua significação alemã, oriunda do latim Caesar. O ônibus em que eu havia embarcado em Porto Alegre, mais de três longas horas antes, ainda estacionava na rodoviária de Pelotas, quando o alemão, por alguma ordem cósmica superior chamado KAISER, cerca de 1,90 de altura, zagueiro por pura obviedade física, mas deslocado para a lateral pelo treinador Leocir Dall´Astra, soltou o petardo que o tornará uma lenda pelas bandas do sul do Estado.

Quando da nossa chegada ao campo, afora os constantes e incompreensíveis xingamentos durante o deslocamento até canto mais excluído do cimento de satolep, para onde nos deslocávamos movidos pela sensatez e por puro instinto de sobrevivência, trajando verde e amarelo, ouvimos também os primeiros relatos do chute protagonizado pelo jogador do Ypiranga. Dizem, alguns – e esses alguns, observem, próprios torcedores do farrapo – daqueles que nunca mais se acerta na vida. A bola teria partido do pé de KAISER na intermediária, um pouco a frente da linha de meio campo, feito uma curva surreal, da direita para a esquerda, e morrido nas redes do goleiro do Farroupilha.

Nós, ypiranguistas, os únicos interessados por esse momento, não o vimos. Mas não tentemos aqui reconstruí-lo. Isso não cabe a nós. Optamos, na contramão dos fatos, por não o ver jamais. Fugiremos das reprises de TV, das fotos, da possível e sorrateira filmagem postada na internet. Deixaremos que a lenda se construa. No relato. No boca a boca. Os próprios jogadores, em conversa após a partida, nos perguntaram, visivelmente surpresos com a nossa presença, o que tínhamos achado de tamanha façanha. Não vimos. Em troca, recebemos risadas incrédulas. Do tipo: esses três doentes saíram de Erechim, vieram até Pelotas para ver um jogo da SEGUNDONA e perderam o maior gol de todos. Não nos interessa. Preferimos agarrar o mito. Ficaremos presos a nossa imaginação. Essa é a graça.

Poderemos, portanto, falar o que quisermos sobre o gol que deu a vitória ao canarinho sobre o fantasma, pela quinta rodada daquele que se mostra o mais GOSTOSO dos campeonatos de futebol desse Estado. Por outro lado: vimos, presenciamos, comemoramos, gritamos, saudamos, reverenciamos, outro momento épico nessa partida. Coisa demais para um jogo só. Três torcedores apenas. Tal qual um GORDON BANKS do Alto Uruguay, Roger buscou uma bola IMPOSSÍVEL, das que quicam no chão e, com força, matam o goleiro. Vimos, diante dos nossos olhos, o Ypiranga entregando mais um jogo em que aparentemente era superior ao adversário. Já era. Gol. Feito. Que testada. Barulho dos 800 farrapos comemorando. Jogadores em êxtase. Mais um empate. Que merda! Mas não! A defesa de Roger fez como que, depois de tudo isso passar por nossas mentes, rebobinássemos o tempo, editássemos o vídeo, e assistíssemos a mais bela defesa que o Nicolau Fico já viu. De camarote. Protegidos por uma dúzia de brigadianos, comemoramos. Aliviados.

Um jogo de dois momentos, apenas. Dois momentos épicos. Falem o que quiserem. Essa será a nossa versão. Essa será a nossa história. Aguante!

Luiz Eduardo Kochhann

A primeira foto é do Roberto Dias, do jornal Diário Popular.

Na segunda, eu e Álisson Giaretta, parceiro nessa saga e também cancheiro desse blog. A foto é do Juliano Fagundes, bravo bageense que nos acompanhou.

Publicado em Divisão de Acesso 2013, Farroupilha, Sem categoria, Série A2 2013, Ypiranga com as tags , , , , , , . ligação permanente.

15 Respostas a ENTRINCHEIRADOS

  1. “Nós, ypiranguistas, os únicos interessados por esse momento, não o vimos. Mas não tentemos aqui reconstruí-lo. Isso não cabe a nós. Optamos, na contramão dos fatos, por não o ver jamais. Fugiremos das reprises de TV, das fotos, da possível e sorrateira filmagem postada na internet. Deixaremos que a lenda se construa. No relato. No boca a boca. Os próprios jogadores, em conversa após a partida, nos perguntaram, visivelmente surpresos com a nossa presença, o que tínhamos achado de tamanha façanha. Não vimos. Em troca, recebemos risadas incrédulas. Do tipo: esses três doentes saíram de Erechim, vieram até Pelotas para ver um jogo da SEGUNDONA e perderam o maior gol de todos. Não nos interessa. Preferimos agarrar o mito. Ficaremos presos a nossa imaginação. Essa é a graça.”

    Que parágrafo, que texto!

    Sei que muitos estão desgostosos com o futebol, mas é esse tipo de relato que me faz ainda amar e muito este esporte.

  2. Bassa diz:

    Ótimo texto. Coisa linda ver gente no interior que se nega a pagar pau para a duplinha de “portalegre”.

  3. Felipe diz:

    Eu como pelotense (e Xavante) de nascimento, parabenizo aos Ypiranguistas. Contagiem sua cidade para seguir o exemplo de Pelotas que, mantém 3 clubes, isso mesmo… 3 clubes com torcidas apaixonadas de dar inveja em muito clube filho único por aí. Convido, caso passarem para o mata-mata, a virem na Baixada (Estádio Bento Freitas), conhecer de perto a maior e mais fiel torcida do interior do RS. Abraço e saudações Xavantes.

  4. Gustavo Werner diz:

    Muito massa gurizada, show de bola o texto e grande vitória do Ypiranga. Abraço e quem sabe não nos encontramos em mais uma final entre AVENIDA x YPIRANGA! #VAMONIDAA!

  5. Rafael Cruz diz:

    Em? A mais fiel do interior? Conta outra xavante! Dito pelo próprio diretor do Brasil, não tinha mais de 4 mil pessoas na baixada no jogo mais importante do ano, contra o Atlético-PR pela Copa do Brasil. Ano passado o presidente xavante mandou apagar do estádio a frase que dizia “maior e mais fiel” e disse à imprensa: “já não somos mais”.

    Enquanto isso na Boca do Lobo há uma banda que toca 120 minutos por jogo (e não é paga pra isso como a garra xavante), acompanhada por uma torcida que já ganhou o título de “a que nunca para de cantar”. A maior média de público no interior é do Pelotas pelo quinto ano consecutivo (em qualquer divisão). 10 mil pessoas no estádio para assistir Pelotas x Passo Fundo no último domingo.

    Desculpe xavante, mas vocês vivem de passado. Nós vivemos de presente. Já foram os maiores, não são mais. Já foram fiéis, não são mais. AGORA É O LOBO!

  6. Bassa diz:

    Esse ano a média do Pelotas tá a mais alta do interior, ano passado foi a do caxias, 2011 a do Juventude. Tudo muito parecido. Vocês de pelotas adoram falar “maior, mais fiel” e etc, mas os números mostram realidades parecidas.

  7. Rafael Cruz diz:

    Fidelidade é realmente muito difícil de medir. Caímos em opiniões por observação. Os números oficiais não tem como medir qual a torcida mais empolgada, que apóia mais o seu time, que faz a maior festa, que leva mais gente em excursões a outros estádios. Mas mesmo assim, é muito evidente que os clubes de Caxias não chegam aos pés de Pelotas em termos de torcida. Quando classificam para os matas e têm recorrentes confrontos com a dupla Gre-Nal e maior número de jogos, pode até ser que se aproximem ou superem os números pelotenses. Mas por conta própria não chegam nem perto do público e menos ainda da vibração nos estádios.

  8. Bassa diz:

    Tu tens a tua opinião. Eu confio nos números.

  9. Bassa diz:

    Aliás, mesmo quando estava Brasil, Caixinhas e Juventude na série C do brasileiro a média do Xavante foi a menor das três.

  10. Fabrício diz:

    Contando comigo, estávamos em quatro torcedores do Ypiranga! Sou de Bento Gonçalves e torço pelo canarinho. Meu irmão era um dos bandeirinhas da partida. Eu vi o gol – perfeito. Assisti ao jogo em diferentes pontos do Estádio. Também estive em São Leopoldo e aguardo a equipe em Farroupilha.
    Tirei fotos da partida e postei em meu facebook.
    http://www.facebook.com/media/set/?set=a.356825344436352.1073741831.100003266677374&type=1#!/media/set/?set=a.356825344436352.1073741831.100003266677374&type=1

  11. Giaretta diz:

    Fabrício, comentei com os guris que tinha visto alguma manifestação tua na internet dizendo que iria ao estádio, poderias ter te juntado a nós!

  12. A xavantada poderia perder a arrogância, desaconselhada pelos números. Excitação e a paixão alheia não se medem pela matemática, não são ciência exata. Por isto me pego emocionado com a saga vivida pelo meu talentoso editor, o Giaretta, tanto quanto fosse uma epopeia xavante.
    Saboreiam esta tarde eterna, que a maioria já não sabe reconhecer.

  13. O mesmo vale para o amigo Lobo, que peca pela arrogância. Busquemos outras influências que não no Prata para extravassar a alegria, rapazes. O resto é sucursal da Arena.

  14. Daroit diz:

    Que lindos os últimos comentários.

    Com todo o respeito aos anteriores, mas quem se importa quem é maior ou canta mais ou sei lá o quê? Que coisa mais egocêntrica e sem sentido. Todo e qualquer time que vem com esses papos de megalomania já ganha minha antipatia logo de cara. Mostram que querem ser como os “grandes”, esse câncer do futebol, e só não o são por falta de capacidade.

    Li esses dias sobre um jogo em que a torcida do Liverpool, que é chegada nessas babaquices, começou a “provocar” a torcida do Fulham gritando alguma coisa pelo fato de eles não cantarem, ao que receberam um canto de “We don’t sing, we don’t sing”. Genial.

  15. Luiz Eduardo Kochhann diz:

    Fabrício, como assim? De Bento e torce para o Ypiranga? Poderia ter te junto a nós!
    Teu irmão bandeira é canarinho também? haha

    Daroit, perfeito. Li isso também, era uma Esquina, na Piauí. Não percam tempo discutindo quem é maior/melhor. Coisa sem sentido, sem fim. Não tentem grenalizar a rivalidade pelotense. Respeitamos os dois: Lobo e Xavante.

    Gustavo, será um prazer ir até Santa Cruz, caso aconteça. Assim como será um prazer voltar a Pelotas, jogar na Baixada, Felipe.

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