Pedras e Perdas

sampa x arbitragem

Empolgação. Êxtase. Ansiedade. Palavras que ilustram a condição de qualquer torcedor na véspera do jogo do seu time. Passa o dia pensando em como será o GOLO aos 48’ do segundo tempo, no pênalti que o goleiro defenderá com os GARRÕES, naquela entrada TRIUNFAL dos jogadores com muito papel picado, bobina, fumaça e gritos incentivo. Passa o dia organizando a excursão, recolhendo o dinheiro, comprando a COSTELA pro churrasco e a CEVA para molhar a garganta. Acorda na madrugada, pega o BUSÃO e ruma na esperança de ver acontecer aquilo que sonhou na noite anterior. Duas horas, três horas, quatro horas, DEZ horas na companhia da XIRUZADA. Na tua direita está o PALHAÇÃO, aquele que só vai pra fazer todo mundo rir e não importa o resultado. Na esquerda: o ENTRÃO, aquele que chega antes de todo mundo, não tem dinheiro pra viajar e nem reservou o lugar, mas sempre tem uma vaguinha para ele. Na tua frente: o SAUDOSISTA, aquele que passa a viagem inteira contando as histórias da antiga. Atrás… bom, atrás é melhor que não tenha ninguém, puro sentimento de preservação da dignidade.

Pronto, chegamos. Estádio do rival vazio, cidade vazia. Hora de armar o acampamento: churrasqueira de latão, CHURIPÃO e – quando o churras for dos bons – uma COSTELA ou um GALETO especial. Os adversários chegam, olham atravessado. Ficam pensando “veio bastante gente, eles tem torcida”. Uma hora para começar o jogo, chega o time adversário e desce do ônibus na frente do CHURRAS. Sem nenhuma segurança dos PLAYMOBILS.  Sim, playmobil! “Playmobil é uma linha de pequenos bonecos com partes móveis e uma série de objetos, veículos, animais e outros elementos com os quais irão se integrar compondo uma série de cenários, sempre dentro de uma temática específica”. É a melhor definição para a Brigada Militar de alguns lugares do estado. Acho que esperavam uma recepção com flores, abraços, incentivos e um chá com bolachinha de água e sal.

No mais, BORA pro jogo. Estádio acanhado. Alambrado enferrujado, arquibancada cheia de pedras e pedaços de concreto. Espaço do visitante logo ao lado da torcida adversária sem o mínimo de isolamento, que, convenhamos, é uma atitude sensata e preventiva que qualquer corporação de BMs saberia fazer. Porém, ELES não sabem: os PLAYMOBILS!

Apita o juiz (?), começa a peleia. Primeira dividida, bate-boca e cartão amarelo para o atleta que cometeu a infração. OPA, espera! O bandeira quer dar uma opinião. Parece ter surtido efeito, menos um em campo para o time visitante. O jogador não fez nada, mas quem sabe foi uma retaliação pro cara da arquibancada que cuspiu no calçãozinho do bandeira. Aliás, CAGAR NO CALÇÃO, foi o que mais fez o referido “assistente”.

26556_zoom

Segue o baile e com um guerreiro a menos… GOL!! Ainda não tinha sido AQUELE gol dos 48’ do segundo tempo, mas já valia a comemoração junto ao artilheiro AYLON com aquele clássico pulo no alambrado. Pensando bem, melhor não, a antitetânica pode estar vencida. Mesmo com um a menos, o jogo é todo rubro-verde. ALÊ, só na experiência, prendia a bola e distribuía o jogo. Carlos Alberto no bom passe, a defesa segura, o meio campo dando opção e aparecendo pro jogo. Roteiro estava escrito: vitória clássica, com um jogador a menos, faremos um DVD, é a BATALHA DE RIO PARDO! Só não contavam com o CONTRA REGRA dizer que não. Contra regra é uma boa definição para os homens de preto. Tão literal que seja a ser mais irônica ainda.

Voadora pra cá, chute sem bola pra lá.

O que restava era tentar jogar bola, já que o critério havia ido pro espaço. Critério deixado de lado, também, na vistoria dos estádios pelo Rio Grande. O Amaro Cassep JAMAIS seria liberado para jogos profissionais se fosse situado em qualquer outra cidade do estado.

PAUSA para fotos. Book feito pelo contra regra DURANTE o jogo em seu smartphone. Os modelos eram os pedaços de concreto colocados para dentro do campo A PEDIDO da brigada militar. Sabe-se lá a intenção do contra regra, mas já podemos supor, não?

Intervalo, ambas torcidas – que passaram o primeiro tempo se prometendo – usufruem da MESMA copa sem nenhuma vigilância dos playmobils.

Recomeça o SARANDEIO, e, já de cara, 1×1. PUTS!! Um a menos e empate, o jogo mudou. Lá pelas tantas, lançamento de AYLON para finalização precisa do INCANSÁVEL ALÊ MENEZES: 2×1. A certeza do DVD estava cada vez mais próxima.

Falta na entrada da área. O cidadão ajeitou a bola com carinho, veio para soltar uma SAPATADA e… chute fraco, rasteiro, barreira pulou e não deu pro Luciano. Tudo igual novamente, com direito a provocação dos jogadores e água na arquibancada. Ainda estava bom, tínhamos que segurar. Bola na área, bico pra lá, bico pra cá. PENALTI. Não para o juiz, mas o contra regra disse que foi e, como todo bom PAU MANDADO, o homem do apito assinalou uns 30 segundos depois. Confusão, torcida enfurecida, jogadores cobrando explicações e os poucos PLAYMOBILS estavam engajados nessa “árdua” função de proteger os homens de preto. Menos um deles, que resolveu pegar um spray de pimenta e brincar na direção dos torcedores, crianças, mulheres e idosos que estavam do outro lado da grade sem ter como agredir a ele ou a qualquer um que estivesse dentro das quatro linhas. Atitude COVARDE de um IRRESPONSÁVEL que não dignifica a farda que veste.

40 minutos depois, a maior das BUNDAMOLICES já vista no interior. O CONTRA REGRA pediu para mudar de lado com o assistente número 2 porque estava com medo da torcida rubro-verde. Até ele já havia percebido a inoperância dos PLAYMOBILS.

26555_zoom

Penalti cobrado, LUCIANO (o melhor goleiro anão do mundo), defendeu com os GARRÕES, perfeito, o sonho ressurgiu como um dejavú. Só que ninguém contava com a bola voltar no peito do cobrador adversário. 3×2 e foi pro saco. Aquele sonho da noite anterior virou pesadelo, o gol dos 48’ não foi nosso. Fim de papo, o quarteto sai correndo para os vestiários numa singela demonstração de culpa.

Enfurecidos, torcedores sacodem o alambrado. A torcida adversária provoca e lança uma pedra. ESTOPIM! No meio do fogo cruzado, mulheres e crianças amedrontadas se escondiam. UM POLICIAL pedia calma enquanto que os PLAYMOBILS estavam fazendo qualquer coisa, menos as suas funções. Fim do tumulto, os donos da casa saem ilesos, protegidos e liberados. Os visitantes são escolhidos a dedo para formarem o rebanho dos bodes expiatórios, raça preferida para o abate. Aquele processo clássico de “lavar as mãos”, trazido por Pilatos.

Boletim de ocorrência, exame de corpo delito. Fim de noite inesperado para quem viajou na esperança do gol aos 48 minutos. O que restou, foram as galinhas do churrasco que ainda estavam quentinhas dentro do, SEMPRE PRESENTE, isopor. Da próxima vez, sonhemos com coxas e SOBRECOXAS a frente da delegacia.

Ficha técnica:

Riopardense (3) – Vandré, Douglas, Bolacha, Vinicios e Nenesto (Marquinhos), Rafael ( Alan), Guto (Mauricio), Kassio Pasulo Henrique, Tiago Mattos e Wallace. Técnico: Sergio Perini

São Paulo (2) – Luciano, Teko, Carlão Farias, Wagner e Locatelli, Carlos Alberto, Fabiano Diniz (Diego Borges), Emerson Dantas e Saraiva (Ramos), Aylon (Michel) e Alê Menezes. Técnico: Rudi Machado

Arbitragem – Marcelo Pereira, auxiliado por Antonio Cesar Padilha (o CONTRA REGRA) e Tiago Diel

As fotos são de Leandro Carvalho/Jornal Agora.

“Leão do Parque, glória e paixão, reina São Paulo no meu coração”

Matheus Almeida

Publicado em Divisão de Acesso 2013, Riopardense, São Paulo-RG com as tags , , , , , . ligação permanente.

2 Respostas a Pedras e Perdas

  1. Lucas B diz:

    Belo relato!
    Realmente não é só em Santa Cruz que os policiais são uns despreparados, parece já ter virado realidade nas canchas do estado… Triste, perdem os torcedores e, consequentemente, o futebol.

  2. Matheus Almeida diz:

    É verdade, Lucas.

    Mas o que mais impressiona é o fato de ser muito simples dar segurança aos torcedores no interior. Em Rio Pardo, por exemplo, eram 100 torcedores do São Paulo e uns 400 do Riopardense, um mero cordão de isolamento ou uma presença da policia num maior contingente já sanaria qualquer confusão.

    Que siga la pelota!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *