O maior dia de nossas vidas

maior_DSCF6418Foram anos morrendo na praia, das mais diversas e dolorosas formas. Um dia isso haveria de acabar. No domingo, o pequeno Clube Esportivo Lajeadense da nossa infância, das nossas idas ao Florestal em segundas à noite de derrotas e xingamentos, vingou o seu passado e mudou o seu futuro. Com um gol no último lance, em que a bola mal cruzou a linha, em um rebote desviado de um pênalti perdido. Se eu contar, ninguém vai acreditar.

Certa vez, brincamos nas arquibancadas do agora-que-temos-arquibancadas-pra-nós querido Estádio Alviazul que a MENARCA do Lajeadense, quando ocorresse, haveria de ser fora de casa, em sinal de justiça divina contra a grande parte da torcida que vai aos jogos em Lajeado única e exclusivamente para desprezar o seu próprio clube local. Já cansei de, derrota após derrota, ouvir coisas do tipo “Ah, quem se importa, o que interessa mesmo é o Inter/Grêmio” em pleno estádio. Bom, eu me importo.

É evidente, porém, que isso jamais foi um desejo verdadeiro. Trocaríamos CORRENDO essa arrogância babaca pelo direito de voltar atrás nas chances que tivemos de crescer. Pela chance de não levar 3×0 em casa do Cruzeiro na final da Segundona de 2010, ou de não perder de 2×1 em casa pro Juventude na final da Copa Laci Ughini de 2011, ou de não morrer abraçados com o Ypiranga em casa após um 1×1 fraquíssimo no Gauchão de 2012, ou, ainda, de não vacilarmos nos pênaltis em casa contra o Esportivo na Taça Piratini de 2013, após emplacar a melhor campanha do campeonato.

Pior ainda, deixaríamos qualquer resquício de orgulho pra trás pelo simples direito de voltar UMA SEMANA no tempo e jogar, novamente, o minuto final da partida contra o Novo Hamburgo. Romperíamos os portões e entraríamos às dúzias na área, formaríamos um paredão humano que conteria até a RESPIRAÇÃO de Leonardo Cipriano e, de lambuja, ainda daríamos uns TE LIGA, MAGRÃO no árbitro Márcio Coruja só por pirraça. Infelizmente, a vida não é assim, e, pelo contrário, tivemos de aguentar a seco mais uma entregada histórica, em casa, com o estádio lotado, esse tipo de coisa que sempre nos acontece.

Uma semana digerindo mais uma chance escapada, dessa vez de uma forma ainda mais cruel, no último lance, quando a torcida já comemorava aos gritos de “É, campeão” puxados pelo pavilhão social que nunca se deu ao mínimo trabalho de, sei lá, não querer matar todo mundo em campo. Mas, como eu já havia dito aqui, alguma coisa havia mudado após aquela fatídica partida. Ainda não havíamos criado BARBA, mas pelo menos deixamos de ser os maiores bunda-moles da face da Terra e mostramos, pela primeira vez, que tínhamos aprendido a honrar nossos culhões.

Confiando um pouco nisso – embora a certeza de que mais uma chance seria perdida fosse muito maior – trocamos a festa já armada naquela noite de sábado e um fim de semana seguinte de pura leveza pela função de ir até Passo Fundo. Tive de deixar Porto Alegre às 8 da manhã de um domingo frio após um sábado inteiro de campeonato de futsal (ou seja, DORES EXTREMAS NO CORPO) e de festa de aniversário até a madrugada, para encontrar outro lajeadense de todos os jogos Rodrigo Sivinski, que teve de largar toda a programação de seu clube amador em Cruzeiro de Sul na esperança de que alguém a tocasse. Sim, fomos ingênuos o suficiente para marcar várias coisas para o último fim de semana de Gauchão, achando que tudo já estaria resolvido.

Meio sem dormir e sem conseguir caminhar, ainda fomos traídos novamente pelo destino, que não quis que o ônibus que sairia de Lajeado rumo ao Vermelhão da Serra realmente existisse, já que o número mínimo de 40 pessoas não foi atingido. Pelo jeito, ninguém acreditava que ainda tínhamos chances. Pegamos um carro e nos mandamos, então, com a tarefa meio absurda de fazer 200km em mais ou menos duas horas. E conseguimos chegar enquanto os times ainda aqueciam. E estacionamos o veículo dentro da casa do Passo Fundo, graças a CONTATOS (valeu, Batata!), o que resultou em entrarmos de graça na partida que poderia ser a mais importante dos 102 anos de Lajeadense. E, agora, eu não tenho nenhum pedaço de ingresso pra mostrar aos meus filhos quando contar essa história.

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Curiosamente, estávamos lá, nós e mais outros 15 ou 20 torcedores que, como profetizávamos em forma de brincadeira, seriam os “de sempre”, que estariam presentes no dia em que nos tornaríamos adultos. E eram. Tudo se desenhava para um desfecho épico, o que nós, obviamente, não acreditávamos, e já estávamos satisfeitos única e exclusivamente em secar o São Luiz contra um Canoas falido, sem jogadores e com um mínimo apoio de uma MALA BRANCA. Não deu certo.

A cada minuto que passava, nosso coração diminuía. Resistimos a um primeiro tempo inteiro, que durou cerca de TRÊS DIAS com direito a cera e atrasos intermináveis que só um clube maduro – o que nunca antes fomos – consegue fazer. Tudo posto abaixo logo no início do segundo tempo, com um gol do OCTAGENÁRIO Chiquinho após falha da nossa infalível defesa. Bom, já era, mais uma vez chegamos perto e paramos por aí. Mais uns 40 minutos de pressão tricolor e inoperância celeste, e reclamávamos da sorte de nunca conseguir sufocar o adversário quando precisávamos, diferentemente do que acontece quando estamos do outro lado da situação.

Aí, tudo mudou. Em mais um lance de perigo nenhum à meta defendida por TEIXERINHA, Rafael Aidar, o atacante menos atacante da história e alvo corriqueiro das vaias da torcida durante o certame, surge correndo do nada rumo à glória. No meio do caminho, que certamente não daria em nada, algum defensor com severas limitações emocionais ARRANCA O SEU RIM por meio de um chute em seu pé, em um daqueles lances que merece, no mínimo, uma demissão por justa causa. Pênalti pro Lajeadense, o primeiro em uns CINCO anos (é sério).

Este é o momento em que qualquer torcedor do mundo começaria a comemorar a sua sorte. Eu, pelo contrário, comecei a chorar ensandecidamente, e não era de alegria. Suportar a perda de um título com uma derrota já esperada seria duro, mas nada além do normal. Ter que aturar mais um fracasso no último minuto, porém, de uma forma ainda mais ridícula, seria o fim. E eu tinha certeza de que isso aconteceria. Quem reproduz aquele chavão que diz que “tem coisas que só acontecem com o Botafogo” certamente não conhece o Lajeadense. Já mandada a racionalidade às favas, acho que eu teria sido capaz de voltar no tempo e fazer com que aquele pênalti nunca acontecesse e a partida terminasse naquele 1×0 mesmo. Felizmente, a vida não é assim.


VAI, JANDSON

Não enxergávamos muita coisa. Com os olhos marejados e semi-abertos, ainda havia as malditas placas de publicidade que tapavam o terço baixo da goleira que nos separava da vida. O suficiente, porém, para ver que o escolhido para a cobrança era Jandson, o lesionado Jandson, que até o sábado ainda não se sabia se entraria em campo, e que só o conseguiu graças à excelência do fisioterapeuta gente boa Douglas Tedesco. A certeza do erro dava lugar, então, ao medo de que, de uma forma ainda mais ridícula, perderíamos com um jogador se lesionando ao tentar cobrar a penalidade. Sou um pessimista nato.

Jandson, então, começou a correr lentamente, aos pulinhos, da forma que só os sem coração conseguem fazer. Os três segundos mais demorados da história do futebol em que já havia tido tempo de imaginar tudo o que aconteceria em caso de erro, em caso de acerto, em caso de invasões alienígenas, em caso de mau súbito coletivo, retomado toda a minha infância, projetado meu futuro, elaborado teorias sobre a vida e tudo o mais que pode passar pela mente humana. E ainda estava lá Jandson, o homem que poderia nos salvar, correndo friamente em direção à bola como se nada estivesse acontecendo.

Não vimos o que aconteceu depois. A bola saiu dos pés de Jandson da pior forma possível, fraca, no meio do gol e rasteira, exatamente na parte da goleira em que nosso campo de visão não alcançava. Só vimos que ela não entrou, e, como esperado, desabamos. Jandson, porém, incorporou Jorjão, o último profeta, que em 1998 entrou em campo lesionado e marcou os dois gols da virada que nos deu nosso último título. Correu atrás da bola pererecante e desafiou novamente a sua sorte, chutando de esquerda de uma forma ainda mais temerária. Novamente não vimos, graças ao capitalismo esportivo e suas placas malditas. Quando já atirávamos em nossas próprias cabeças, surge a bola, rumando em direção ao travessão e atingindo-o. O fracasso tomava contornos cada vez mais trágicos. Ainda havia uma chance, porém, mas a pelota encontrou o chão unicamente para ser tirada por um zagueiro sem consideração.

E, aí, o mundo parou. Todo o Alto Taquari virou seu olhar para a esquerda, para o assistente que corre ao lado do pavilhão, no último suspiro de esperança que pode carregar uma pessoa. E ele balançou a bandeira, e correu para o meio-de-campo. E nos abraçamos, e choramos, e tiramos com o olho todas as bolas que insistiam em ir para a nossa área nos dois minutos que ainda restavam. As coisas, como disse, haviam mudado.

892953_639156029433154_2125509605_oAlgum registro temos

Quando trilou o apito final, já não éramos mais nós mesmos. Éramos Heinecks, Giovanellas, Gélsons, Renatos, Itamares, Ênios, Chavecos, Jorjões, Vandecos, éramos Lajeado, Estrela, Arroio do Meio, Cruzeiro do Sul, Santa Clara, Forquetinha, Marques de Souza, Teutônia, Bom Retiro, todos abraçados, com uma grade maldita no meio, aos novos bastiões desse clube.

A muralha careca Eduardo Martini, que nos salvou de formas ainda não conhecidas de uma dezena de gols durante o campeonato. O lateral Márcio Goiano, que de desacreditado e desconhecido se transformou no grande escape que nunca tivemos em nossas alas. O atacante Jandson, sempre criticado pela sua falta de gols no passado que personificou a nossa ascensão aos céus, entre tantos outros.

E, principalmente, Rudiero, o MESSI DE RONDINHA, o volante gentleman que não bate por achar uma falta de educação, e Micael e Gabriel, o ferrolho germânico, todos com seus olhos imersos em sangue por encontrões durante a partida, que após vários anos deixarão o Lajeadense muito maior do que quando o encontraram, com seus nomes marcados na história ao lado – ou acima? – dos grandes.

É a merecida coroação do trabalho realizado nos último anos dentro de campo por Mário Dutra, Éverton Giovanella, Gustavo Menezes de Leão, Ricardo Mello, Marquinhos Follmer, Luís Fernando Hannecker – o homem que levaremos uns três anos pra substituir quando sair – e todos os outros que apostaram na montagem de um elenco mesclando previdenciários com estudantes do Ensino Fundamental que, tenho o maior orgulho de estar errado, deu mais do que certo.

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Muitos sem alma dirão agora: “Sério? Tudo isso pra um título que nem de simbólico passa? Que droga é essa de título do interior?”, como o conglomerado de mídia que compra o campeonato e não dá nem lauda contando essa história, enfocando a conquista de uma vaga para os mata-mata que, a bem da verdade, ninguém está nem aí de ter conquistado.

Algum dia entenderão que a felicidade verdadeira não vem da megalomania.

Chegará o dia em que o interior se rebelará e perceberá  que o futebol não é feito de dinheiro, viagens de avião, arenas gigantescas e transmissão internacional via satélite.

O futebol, embora não acreditem, ainda existe nos pequenos rincões desse mundo, formado por clubes em que você mata o trabalho para se fazer presente em partidas fora-de-casa e volta de carona com o vice-presidente e maior jogador da história, em que você dá carona para o seu principal jogador até o hospital para fazer pontos após a maior conquista de sua história, em que você janta com toda a sua delegação em um restaurante de beira de estrada, em que você entra no vestiário após os jogos para trocar uma idéia com o seu jogador preferido, em que você sobe em um caminhão de bombeiros às 2 da manhã para desfilar ao lado de campeões sabendo que você também faz parte, de verdade, daquela conquista.

media_lajeadenseARRIBA LOS QUE LUCHÁN

O futebol ainda existe enquanto símbolo de uma comunidade, enquanto representação de um povo que se preocupa em fazer as coisas de forma correta, enquanto ícone de pessoas irmanadas por algum aspecto de sua vida que não tem nada a ver com o capital financeiro.

O futebol ainda existe na simples emoção de ver, em uma madrugada fria, seus colegas de infância, seus vizinhos, seus parentes, as pessoas que compartilham verdadeiramente de sua vida, ao seu lado, renegando as suas obrigações proletárias para homenagear o clube que leva o nome delas gravado em seu escudo. Em ver, uma a uma, todas as pessoas com as quais você discutia sobre os grandes clubes mandando tudo aquilo pro espaço e vestindo, com um orgulho nunca antes visto, o azul celeste de sua região, como um dia você também já o fez.

Muita gente acha que alegria no futebol é só ganhar Libertadores, Mundial de Clubes, assinar com multinacionais da confecção ou empreiteiros pilantras, ser transmitido para outros países ou estar em videogames, e que todo é resto é “cafezinho” ou sei lá o quê. O que também é legítimo, claro. Eu, inconscientemente, com o tempo optei pelo simples fato de ser representado e de não perder, nunca, minhas raízes, independentemente de onde a vida vai me levar. Acho que minhas alegrias são mais genuínas.

914078_640985492583541_1050570224_oMaior homenagem :~~

Depois de tanto tempo sonhada, a nossa maturação finalmente chegou. Deixamos, em Passo Fundo, de ser o Lajeadense da várzea, da adolescência psicológica, que era derrotado em casa das formas mais estapafúrdias, para nos tornarmos um clube que vence no último segundo, que disputará campeonato brasileiro (caso não dê zebra na Taça Farroupilha) e Copa do Brasil, que pode olhar para a sua história de 102 anos de brio e resistência e encarar a todos olho no olho.

E, melhor de tudo, com a certeza de que não perderemos, nunca, a nossa essência. Até porque, ao primeiro que se engraçar, nosso exército de resistência fica maior a cada dia que passa.

(As duas primeiras fotos são de Kleiton Vasconcellos. A do caminhão de bombeiros é de Mariela Portz Dorneles)

Ainda sem acreditar muito,
Guilherme Daroit

Publicado em Gauchão 2013, Lajeadense, Passo Fundo com as tags , , , , , , . ligação permanente.

10 Respostas a O maior dia de nossas vidas

  1. Fred Salomão diz:

    E, agora, eu não tenho nenhum pedaço de ingresso pra mostrar aos meus filhos quando contar essa história.

    Tonto, eu tava com o pedaço do ingresso até quarta feira, se tivesse pedido eu te mandava

  2. Morone diz:

    Baita texto, Daroit. Sempre bom ver coisa tua por aqui! Força Lajeadense! Abraço procê.

  3. “o que resultou em entrarmos de graça na partida que poderia ser a mais importante dos 102 anos de Lajeadense. E, agora, eu não tenho nenhum pedaço de ingresso pra mostrar aos meus filhos quando contar essa história.”

    Bonito, hein? O dr. Luiz Fernando Costa, aqui do meu depto. jurídico, entrará em contato com o blog para cobrar o percentual desses dois ingressos mocozeados (tinha mais gente no carro?). Se o PF não se importa ser aliviado, nós da federação gaúcha exigimos nossa fatia do ingresso. Ou nunca terminaremos nossa nova sede, que é o futuro de nosso futebol!

  4. Bruno Mattos diz:

    Parabéns, Daroit. Obrigado, Daroit.

  5. Marcelise diz:

    parabéns meu querido amigo , e posso dizer com muito orgulho estámos lá sofrendo mas voltamos radiantes de felicidades com essa maravilhosa conquista e domingo vamos
    estar lá

  6. Primieri diz:

    “Algum dia entenderão que a felicidade verdadeira não vem da megalomania.”

    Maior verdade. Comemorei como nunca antes o título do interior do Veranópolis no ano passado, menos sofrido~, mas tão celebrado quanto. Dá-lhe Lajeadense!

  7. Sivinski diz:

    Parabéns Daroit, e tenho esperança no nosso clube pq tem muita gente boa nele e tu é uma delas. Abraço mermão. É campeão!

  8. Bavaresco diz:

    Sensacional o texto. Meus parabéns.

    Várias frases espetaculares, mas essa aqui foi demais : “E, principalmente, Rudiero, o MESSI DE RONDINHA, o volante gentleman que não bate por achar uma falta de educação” ….haha

  9. Matheus Almeida diz:

    Sensacional! Parabéns!

    “Ainda havia uma chance, porém, mas a pelota encontrou o chão unicamente para ser tirada por um zagueiro sem consideração.” HAHAHAHAHAHA

  10. Lucas B diz:

    Baita texto! É uma pena que nem todos enxerguem o futebol com esses olhos…
    Grande abraço

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