Noia comemora 102 anos aliviado, envolto de incertezas e buscando uma luz no fim do túnel

Giovani e Juan Sosa comemora aliviados: Noia permanece entre os grandes. (Foto: Elenise Martins/ECNH)

Giovani e Juan Sosa comemora aliviados: Noia permanece entre os grandes. (Foto: Elenise Martins/ECNH)

No feriado do Dia do Trabalhador, o clube anilado fundado pelos trabalhadores da Fábrica Adams comemora mais um aniversário na elite do futebol gaúcho, o que era incerto há menos de um mês. E se há o alívio por escapar do rebaixamento, por outro lado o Novo Hamburgo prepara uma grande reforma interna para quitar os débitos gerados pelo primeiro semestre sofrível e sofrido, mesmo que isso vá contra seus próprios ideais.

Depois da vitória parida a FÓRCEPS contra o Caxias no domingo de Páscoa, na prova maior do milagre da ressurreição promovido por Itamar Schulle, o Anilado teve dois outros difíceis confrontos para permanecer na 1ª Divisão. Em Lajeado o Noia enfrentou o melhor time do interior e sofreu com o trauma do ‘ex’ já no início, com Jandson anotando o tento para o alvi-azul do Taquari. Mas a equipe do Cristo Careca deixou o espírito de vira-lata no passado e empatou a partida no segundo final da partida, graças ao gol tardio de Leonardo Cipriano, para cardíaco nenhum botar defeito – como provou o torcedor anilado atendido pela ambulância após o jogo.

Itamar Schulle pregando no deserto. (Foto: ECNH)

Itamar Schulle pregando no deserto. (Foto: ECNH)

No fim-de-semana seguinte, segurou o Grêmio no Estádio do Vale, num domingo de tensão aos anilados até o apito final. Os resultados paralelos todos conspiravam contra o Noia e um mísero gol do Tricolor rebaixaria a equipe do Vale dos Sinos. Numa partida de suor frio e respiração presa, o Anilado manteve o placar em branco e segurou na elite, somando 17 pontos e a 12ª posição na classificação geral, um ponto e dois lugares acima do primeiro rebaixado. Um milagre para quem tinha somente 5 pontos a 6 partidas para o final da competição.

A boa campanha na Taça Farroupilha ainda presentou o Noia com um vaga nas quartas-de-final do 2º turno, diante do Juventude no Alfredo Jaconi. E o Papo fez valer seu melhor time vencendo por 3×2 com alguma folga, apenas os gols de Paulinho Macaíba dando dignidade à eliminação anilada.

O sentimento anilado ao final da competição foi de alívio e dever cumprido. Muito aquém, porém, para um clube da grandeza do Novo Hamburgo e, mais uma vez, contrariando os discursos da direção no início do ano. O Noia passou longe do Título do Interior e da vaga á Série D, tendo que brigar contra um rebaixamento dado – por mim, sobretudo – como certo. O que nos garante que daqui pra frente será diferente?

A Copa RS como Copa do Mundo

Se houve uma coisa boa nesse sofrimento todo no Gauchão foi o retorno de Everton Cury ao vestiário anilado. Responsável pelo futebol em 2003 e 2004, quando o Noia retornou à elite do futebol gaúcho e não mais saiu, o dirigente esteve afastado do clube até o ano passado. Assumiu, em Novembro, a presidência do Conselho Deliberativo e, em Fevereiro, o comando do futebol, trazendo culhões e seu bigode METAFÍSICO ao bando de maltrapilhos que envergonhava o Estádio do Vale.

Promoveu uma revolução no Noia, expurgou à Sibéria do futebol uma dezena de jogadores e o ex-diretor de futebol Eliseu Erhart, trouxe um time novo, blindou Itamar Schulle, promoveu a volta do ex-presidente Juarez Radaelli ao clube, deu voz e vez aos jogadores e mobilizou a torcida do Novo Hamburgo.

Cury já disse que montará uma equipe para vencer a Copa FGF e conquistar a vaga à Série D. Para isso precisará mobilizar investidores externos, visto que a folha salarial cairá pelametade (cerca de R$ 100 mil), e contar com o olho clínico de Itamar Schulle. Ambos querem que o Noia monte sua espinha-dorsal para o Gauchão já na Copa FGF (como foi feito entre 2009 e 2011).

Everton Cury, um homem com culhões - espécie em extinção. (Foto: ECNH)

Everton Cury, um homem com culhões – espécie em extinção. (Foto: ECNH)

O discurso é completamente diferente do realizado ano passado, quando o Noia montou um time fraco ambicionando promover um vestibular para o Gauchão e integrar as categorias de base com o profissional. O resultado foi um fiasco retumbante. Agora o desejo é o título, que sempre deve ser o objetivo do Novo Hamburgo. Com Everton Cury e Itamar Schulle é mais fácil de vislumbrar um pôr-do-sol num ceu anil após as tempestades do primeiro semestre.

A base paga a conta

Menina dos olhos do presidente Carlos Duarte, reativada por sua gestão em 2011, a base do Noia fechará as portas no segundo semestre desse ano para conter os gastos excessivos gerados para o clube fugir do rebaixamento, com dispensas, rescisões de contrato, troca de treinadores e dirigentes.

Embora tenha participado de todas competições estaduais promovidas, a categoria junior do Novo Hamburgo ficou longe de atingir suas ambições. No Gauchão Sub-20 o Noia chegou às quartas-de-final em 2011 e morreu na 2ª fase em 2012; em 2013, foi eliminado invicto nas quartas-de-final do 1º turno. Na Copa FGF Sub-19 o clube chegou mais longe, mas morreu nas semi-finais em 2011 e 2012 para Dupla Gre-Nal.

O que mais impressionou, contudo, foi a constante troca de treinadores dos juniores. Desde 2011 já passaram pela casamata Lúvio Trevisan, Dias, Mabília, Da Silva, Douglas Rodrigues, Júlio César Scheiber, Ricardo Rambo e Leandro Machado. E muitas das trocas foram, no mínimo, polêmicas: Mabília deixou o Noia em meio a disputa do Gauchão e assumiu o Grêmio, vice-campeão ano da mesma competição; Douglas Rodrigues recem havia sido promovido e foi demitido em meio a Copa FGF Sub-19; Júlio César foi dispensado no início desse ano, em meio a pré-temporada; e Rambo, vindo de Hong Kong, foi demitido invicto do presente Gauchão Sub-20.

Ricardo Rambo, mais uma vítima do moedor de carne da base anilada. (Foto: ECNH)

Ricardo Rambo, mais uma vítima do moedor de carne da base anilada. (Foto: ECNH)

Na categoria juvenil os resultados foram levemente melhores e mais regulares, contudo também não levantou taças e sequer chegou às finais das competições. Promoveu a imagem do clube ao disputar o Brasileirão Sub-17, transmitido pela Sportv, ainda que tenha deixado a competição sem vitórias.

E se a gestão Carlos Duarte tem se pautado pela incoerência no discurso – ambição nas palavras e frustração nos resultados -, o encerramento, ainda que temporário, das categorias de base não deixa de ser sintomático. Os atletas juniores e juvenis com contratos vigentes formação uma Legião Estrangeira que servirá a Itamar Schulle na esperança de que surja algum craque como Clayton, o único grande fruto da base do Noia na Era Duarte.

Clayton, a única joia revelada pelo Noia na gestão Duarte. (Foto: ECNH)

Clayton, a única joia revelada pelo Noia na gestão Duarte. (Foto: ECNH)

O perigo de ser sustentado por um mecenas e o conflito de intéresses

Quem lê meus textos nesse humilde espaço sabe o quanto eu sou crítico do presidente Carlos Duarte e da forma como ele gerencia o futebol anilado, embora reconheça e aprecie os investimentos na infra-estrutura do clube. No entanto há algo que me preocupa: a bela estrutura que o Noia proporciona atualmente se sustentaria com a saída de Duarte?

O clube tem falado sobre atingir sua autosustenbilidade, equalizando receitas e despesas sem a necessidade de adiantamento das cotas de televisão ou negociando jogadores. Porém, cerca de 40% das receitas do Noia provem de ‘abnegados’, torcedores, empresários e investidores que doam dinheiro ao clube. E dessa fatia cerca de 99% é promovida pelo presidente Carlos Duarte. O quão saudável é um clube cuja quase metade de sua receita saem do bolso de seu mandatário maior? O exemplo do Caxias deixa os anilados de cabelos em pé.

Para diminuir essa dependência o Noia tem procurado ampliar seu cartel de patrocinadores. Na camisa anilada durante o Gauchão a Konrad Caminhões e a Construtora Tenda estamparam suas marcas, além das tradicionais Doctor Clin (nas mangas) e Transduarte (a empresa do presidente) e o patrocínio master promovido pela Telmex (com o logo da Claro), já mostrando o resultado do trabalho de Luis Fernando Martins no marketing.

Outra característica da gestão Carlos Duarte tem sido colocar diretores do Instituto Carlos Duarte (ligado à transportadora) na diretoria do Novo Hamburgo. Madalena Carvalho, Julio Prusch e Fábio Gomes já passaram ou ainda militam no Estádio do Vale, provenientes da empresa do presidente. Não faço juízo aqui quanto à competência ou benevolência desses profissionais, mas o quão ético é aparelhar o clube com pessoas do quadro funcional de sua empresa?

Se o prefeito de Novo Hamburgo coloca em seu secretariado pessoas provenientes de sua empresa ou sindicato ele é acusado de aparelhar a máquina pública. Valerá para o privado o mesmo que vale para o público?

Pode parecer um texto um tanto quanto duro para o aniversário anilado, mas se faz necessário para que o trabalho permaneça sério no Estádio do Vale e a torcida saiba de quem cobrar quando os resultados não aparecem – ou ficarem ao relento das ilusões.

Calçando sapatados hamburguenses,
Zezinho

Publicado em Novo Hamburgo com as tags , , , , , , , . ligação permanente.

4 Respostas a Noia comemora 102 anos aliviado, envolto de incertezas e buscando uma luz no fim do túnel

  1. Denis diz:

    Sábias palavras, Zezinho…Essa data de aniversário do Nóia serve para refletirmos sobre a atual situação.. É louvável o trabalho que vem sendo feito para trazer um maior número de patrocinadores e apoiadores para o clube, mas para os objetivos que a esquadra anilada busca ainda não é o suficiente. Apesar da dependência que o clube tem do seu presidente, muito pior seria sem…
    Mas a maior preocupação olhando para o médio prazo é o fim das categorias de base.. uma característica entre os clubes de elite do futebol nacional é justamente a aposta e manutenção dessas categorias. Espero que seja uma situação pontual deste segundo semestre.
    Parabéns para o Nóia, para seus apoiadores, para mim e pra ti, anilados acima de tudo.

  2. Weber diz:

    Parabéns Noia.
    Estou otimista para o segundo semestre, já que o vice de Futebol é Everton Cury.
    DÁ-LHE NOIA!

  3. Alex diz:

    Uma pergunta, qual a função do Mauricio no clube?…alguém saberia me dizer?

  4. Léo/NH diz:

    Bom texto Zezinho, como sempre!! tudo aprovado, somente um detalhe no meio do ano passado o ECNH ja conseguia se autosustentar, livre de dividas!! Palavras vindas da diretoria anilada. Não acho que o Sr Duarte (ja colocou) continua dando dinheiro dele ao clube, ainda mais com o fechamento da base (não pode ter o retorno com venda ou contratos de jovens jogadores). Esperamos ansiosos pelo segundo semestre.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *